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Artigos

 
  • A mulher, a ciência e o coco

    Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

  • Tiro no pé

    O flagrante da mensagem do deputado petista Candido Vacarezza garantindo imunidade ao governador do Rio Sérgio Cabral é mais uma confirmação de que essa CPI do Cachoeira está se revelando o maior erro dos últimos tempos do grupo político que está no poder. Convocada estranhamente pela maioria governista, a CPI tinha objetivos definidos pelo ex-presidente Lula e o ex-ministro José Dirceu: apanhar a oposição com a boca na botija nas figuras do senador Demóstenes Torres e do governador de Goiás Marconi Perillo, e desestabilizar o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, responsável pela acusação dos mensaleiros no julgamento do Supremo Tribunal Federal. De passagem, queriam certos petistas criminalizar a revista Veja para criar um clima político que favorecesse a aprovação de uma legislação de controle da mídia, como vem tentando sem sucesso desde o início do governo Lula. Por enquanto está dando tudo errado. A tentativa de constranger os ministros do Supremo resultou numa reação do Judiciário, que se viu impelido a não deixar dúvidas sobre sua independência. A vontade de procrastinar o julgamento, quem sabe deixando-o para o próximo ano, quando dois novos ministros estarão no plenário para substituir Cezar Peluso e Ayres Britto, ficou tão explícita que o revisor do processo, o ministro Ricardo Lewandowski, viu-se na obrigação de anunciar que pretende apresentar seu voto ainda no primeiro semestre, permitindo que o julgamento comece logo em seguida.

  • O mundo futuro

    O empresário Roberto Teixeira da Costa escreveu para o próximo número da revista “Política Externa” um artigo em que relata recente debate ocorrido no Instituto Fernando Henrique Cardoso intitulado Global Trends 2030 (Tendências Globais 2030), liderado por representantes do Espas — European Strategic and Policy Analysis; da ISS — European Union Institute for Securities Studies; do The Office of the Director of National Intelligence dos Estados Unidos; e do Atlantic Council, com a participação da FGV do Rio de Janeiro, representada pelo economista Marcelo Neri.

  • Batismos de fogo

    No sábado da semana retrasada, no comecinho de uma bela tarde, estava eu sentado, em companhia de amigos, a uma mesa do renomado boteco Tio Sam, sito na celebrada Rua Dias Ferreira, aprazível bairro do Leblon, na formosa cidade do Rio de Janeiro. Como de hábito, em rodas de boteco que congregam representantes da pouco invejada terceira idade, o papo meandrava preguiçosamente, uns discutindo remédios para hipertensão, outros comentando as virtudes dos antioxidantes, outros descrevendo o mau comportamento de suas próstatas, outros mentindo sobre como nunca nem puseram os olhos num comprimido de Viagra, quanto mais tomar um, outros rememorando como era gostosa a Kim Novak, outros maldizendo verduras e demais comidas sadias, e assim por diante.

  • Que pena!

    Morava em Copacabana, todas as manhãs ia à praia, de chapéu e óculos escuros. Para cortar caminho, pegava a galeria Menescal -onde, numa loja de discos, um hi-fi, que estava na moda, tocava "Que pena", sucesso de Jorge Benjor, que ainda era Jorge Ben, um bom dueto com a voz quase juvenil da Gal Costa e contraponto perfeito de Caetano Veloso.

  • O Brasil e o mundo

    No recente debate promovido pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso sobre as tendências globais para 2030, ficou patente que o Brasil está bem posicionado para o futuro. O empresário Roberto Teixeira da Costa escreveu para o próximo numero da revista Política Externa um artigo onde relata os principais pontos do debate, do qual participaram representantes do ESPAS – European Strategic and Policy Analysis; da ISS – European Union Institute for Securities Studies; The Office of the Director of National Intelligence dos Estados Unidos; e do Atlantic Council.

  • Royalties para a educação

    O que se deve louvar, no veto da presidente Dilma Rousseff ao artigo 3º da Lei de Royalties, é a sua coerência democrática.  Respeitou direitos adquiridos em contratos anteriormente assinados.  Com isso, os poços do pré-sal já licitados, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e em São Paulo, os maiores produtores brasileiros, renderão para os seus municípios, sem quebra de continuidade.                                        Outra decisão relevante foi a de tornar exclusiva da  educação a renda futura dos poços a serem licitados.  Serão bilhões de reais de reforço ao caixa de municípios combalidos, sem condições de oferecer uma educação de qualidade.  Temos problemas de sobra no ensino público nacional, a merecer esse ponderável reforço.  A questão que se coloca, agora, é a da competência para investir (e não gastar) adequadamente.  Os recursos do óleo e do gás são finitos e se não aproveitarmos essa última oportunidade, francamente, estaremos trilhando o caminho errado quanto ao futuro.                                      O que se reivindica do setor é um revolucionário projeto de capacitação gerencial, cursos de alta gestão, a serem proporcionados por instituições universitárias reconhecidas.  Além de 100% dos royalties, 50% de todo o rendimento do fundo social a ser constituído irão para a educação, num aporte histórico.  Se não aproveitarmos essa oportunidade, seguramente, em nossa geração, não haverá outra.                                       Os recursos serão somados ao mínimo constitucional existente (18% do orçamento da União e 25% dos orçamentos de estados e de municípios), corrigindo uma distorção do esperado Plano Nacional de Educação, que não previu de onde sairiam os recursos para os seus inúmeros projetos de desenvolvimento.  Estamos falando da  partiha  de 400 bilhões de reais, o que não é pouco.                                      O governo precisa continuar a fazer a sua parte, nesse complicado panorama de competividade internacional.  Resolvida a questão dos recursos financeiros e partindo do pressuposto de que serão bem aplicados, voltam-se nossas atenções para a escorchante política de tributos.  Estamos na liderança mundial, com quase 40% de uma cobrança incompreensível.  Já não seria o  momento de diminuir progressivamente os tributos que oneram as folhas de salários?   Nossa economia pede uma injeção de ânimo no espírito dos empresários brasileiros, que devem investir mais e criar empregos palatáveis aos nossos jovens.  Para se  ter uma ideia clara da situação  encontrada, o Brasil é 43% mais caro do que os Estados Unidos, em relação a esses elementos de entropia sistêmica.  Não se pode, pois, estranhar que as taxas de investimentos estejam em queda e o país sofra com a perspectiva oficial de um “pibizinho”, o que é profundamente lamentável.  Retrocesso puro.                                  O pretexto de resolver de vez o gargalo financeiro da educação deve ser acompanhado de outras providências oficiais, para que possamos ter um  crescimento autossustentado.  Boa gestão não é isso?

  • A última palavra

    O que está em debate nas derradeiras reuniões do julgamento do mensalão não é a prevalência da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o Legislativo, mas se parlamentares condenados merecem ou não perder direitos políticos, além das penas já aplicadas. Não há como colocar em dúvida que a última palavra sobre questões constitucionais é do STF, até mesmo “o direito de errar por último”, como disse Rui Barbosa.

  • Só erros novos

    O novo partido que se está formando, sob a liderança da ex-senadora Marina Silva, com o nome de REDE, tem recebido críticas à direita e à esquerda, principalmente porque a fundadora simplificou sua definição doutrinária, aproximando a REDE do novo PSD do ex-prefeito paulista Gilberto Kassab: “Não será um partido nem de direita nem de esquerda, nem do governo nem de oposição”, disse Marina sobre a nova legenda que quer criar. A propósito, recebi do cientista político e antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública e ex-Secretário de Segurança do Rio, que está envolvido na criação do novo partido de Marina, uma série de comentários sobre os objetivos da nova legenda que, ele garante, nada tem a ver com “movimentos que pretendam mudar a política assumindo identidades e práticas antipolíticas”, que costumam perder-se em um “voluntarismo estéril”.

  • A última obra de Niemeyer

    Numa das idas a Brasília, o amigo Silvestre Gorgulho me convidou para conhecer de perto a Torre de TV Digital, por ele inspirada quando foi Secretário de Cultura da capital. É claro que o projeto só poderia ser de Oscar Niemeyer – e assim foi feito. O último trabalho do grande arquiteto tem a beleza característica das suas obras e, no caso, com os seus 688 degraus, alia modernidade e elegância, no ponto mais alto de Brasília. É uma torre-flor, como muito bem disse a filha de JK, Maria Estela Kubitschek Lopes. Flor do cerrado.                  Funcionando como atrativo turístico, tem também uma extraordinária serventia, pois lá se encontram todas as redes brasileiras de televisão, transmitindo os seus sinais para o mundo. Uma prova saudável de compartilhamento, que não se encontra em outras capitais do nosso país.              Complemento moderno da Torre de TV, criada nos primórdios de Brasília por Lúcio Costa, a Torre Digital (feita de concreto) foi elaborada com o cuidado de não desfigurar a condição de Patrimônio Cultural da Humanidade, título dado pela Unesco e de que Brasília muito se orgulha. Se cada televisão, ao atingir a fase digital, instalasse o seu “paliteiro”, como em tantos outros lugares, é certo que isso constituiria uma agressão à paisagem, daí a ideia da torre-monumento, logo acolhida por Niemeyer, aceitando os argumentos de Silvestre Gorgulho e de Toninho Drumond. Foi o marco do cinquentenário de Brasília.                 Curiosa a discussão em torno do nome. Gorgulho, quando viu os primeiros desenhos do arquiteto, disse que parecia uma flor do cerrado: açucena, ipê, pequi, canela-de-ema, flor para-tudo ou calliandra-do-cerrado. Oscar, muito feliz com o resultado do seu trabalho, gostou da associação feita por Gorgulho. E perguntou: “Por que não flor do cerrado? Sintetiza tudo.” A expressão foi aprovada com louvor. O cerrado ganhou uma nova flor.                Hoje em dia, o monumento, que tem uma bonita sala de exposições, é um dos mais visitados da Capital. Do seu mirante, se vê toda a cidade que revolucionou a arquitetura mundial. É uma visão de 360 graus. Um capítulo interessante dessa obra foi o tempo que durou para obter a licença do Ibama. Mais de um ano. O argumento é que ali era “rota de aves migratórias” e por isso poderia existir um indesculpável prejuízo ecológico. Depois se viu que isso não era exatamente o que ocorreria e a licença foi liberada. Respeitou-se, assim como o arquiteto francês Le Corbusier viu Brasília, no seu começo: “É uma mão aberta. A mão aberta estendida como um símbolo de reconciliação. Aberta para receber. Aberta para dar.”                         Esse novo cartão postal de Brasília, construído em Sobradinho, a 170 metros de altura, de onde se pode vislumbrar uma extraordinária vista, serve aos propósitos tecnológicos cada vez mais exigentes das emissoras de televisão, em sua fase digital. Hoje, há uma imensa população totalmente agradecida diante da beleza desse símbolo.

  • Exemplos

    “Eu acho que o Fernando Henrique Cardoso deveria, no mínimo, ficar quieto. O que ele deveria fazer é contribuir para a Dilma continuar a governar o Brasil bem, ou seja, deixar ela trabalhar.” Nessa curta frase do ex-presidente Lula está expressa sua ideia de democracia e, sobretudo, a visão que tem sobre o que é fazer oposição. Desde que Lula chegou à Presidência da República, criou-se um mito no Brasil: falar mal do ex-operário que chegou ao poder pelo voto é proibido, revela o preconceito social de quem o faz.

  • Limite de mandatos

    A crítica do presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa aos “políticos profissionais”, defendendo a limitação de mandatos parlamentares na mesma linha proposta pelo partido que a ex-senadora Marina Silva pretende organizar, provocou não apenas as especulações naturais de que estaria falando em causa própria, se apresentando como uma alternativa, como também comentários mais ácidos de políticos que, por enquanto preferem ficar no anonimato.

  • Rachel é o Brasil

    Rachel de Queiroz proclamava-se "uma velha senhora sionista". Tinha notórias simpatias pelo "Povo do Livro". Esteve em visita ao Estado de Israel, ocasião em que foi duplamente homenageada: com o plantio de uma árvore em seu nome e com a inauguração de uma bonita creche, na cidade de Telavive. Ela gostava de freqüentar festas judaicas e, gulosa, apesar dos problemas de saúde, fartava-se com os tradicionais guefilte-fish, patê de fígado e apfelstrudel. O seu interesse era tão grande que aprendeu alguns desses pratos com a amiga Paulina Dain Buchmann. Era capaz de ficar horas discutindo temperos. Gostava de cozinhar, embora alimentasse as nossas conversas, no apartamento do Leblon, com um delicioso e incomparável sorvete de manga. Foi assim que conheci o outro lado da grande figura literária brasileira.

  • Un pò de chiesa

    Alguns leitores reclamaram da crônica anterior ("Debate do segundo turno"), publicada na última quinta-feira. Uns não compreenderam, outros acharam falta de respeito para com os dois candidatos e para com Deus Todo-Poderoso. E todos a julgaram inoportuna.

  • Para onde vão os países bálticos?

    O mundo báltico foi o do advento temporão, na Europa, dos Estados nacionais, de depois da queda do Muro. Estônia, Lituânia ou Letônia marcam identidades distintas, via de regra simplificada pelo regionalismo territorial. A continuidade litorânea não impediu notória diferença entre os influxos culturais, as tradições históricas e as ambições de poder destes países, ciosos dos seus limites, das suas línguas e de suas culturas, muitas vezes descartadas por uma parentela geográfica. Riga foi a terceira cidade do czarismo, e estuário marítimo do império de Pedro, o Grande. A língua russa continua matricial hoje na Letônia, e a parentela arquitetônica da capital é a dos palácios de São Petersburgo, as avenidas imensas, e os seus palácios de verde e azul desbotado. Mas o fim do século XIX emprestou-lhes um matiz cultural único, de art nouveau na riqueza de cariátides e atlantes, que ornam as fachadas dos edifícios gigantescos do centro da cidade. Vem da matriz de um só artista, de Eisenstadt, a proliferar, subseqüentemente, na vivacidade dos boulevards e do jogo de vista únicos em que se entrelaçam os balcões da metrópole.