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Revista Brasileira nº.115 (2023. 176 pp.)

Essa publicação faz parte da coleção Revista Brasileira

Editorial

Rosiska Darcy de Oliveira

Alarme. Estaria a humanidade ameaçada de extinção, vítima de um monstro por ela mesma criado? Aprendiz de feiticeiro? Essas perguntas costumavam frequentar histórias em quadrinhos ou best-sellers de ficção cientifica.

A familiaridade com o fantasma do fim do mundo que paira sobre catástrofes climáticas e pandemias devastadoras explica talvez a facilidade com que o impensável se instalou no debate científico pelo viés de um tema invasivo: a Inteligência Artificial.

Afeitos a outro tipo de literatura, aqui estamos nós, a Revista Brasileira, respondendo ao alarme. Não se trata mais de ficção e sim de uma realidade atual, perturbadora, recebida em um primeiro momento como uma brincadeira inocente, um chat que respondia a qualquer pergunta salvo de onde viemos e para onde vamos. Dotado de memória prodigiosa, esse oráculo para trás, na feliz definição do cosmólogo Luiz Alberto Oliveira, é infalível sobre o passado, mas nada imaginativo sobre o futuro. Sabe tudo que alguém já soube um dia e que a Internet guarda em suas brumas, processa e informa com fenomenal rapidez, escreve textos coerentes e se inscreve assim na lógica competitiva de nosso tempo, levantando comparações e temores. Vai tomar nosso lugar, roubar empregos, nos escravizar?

Se a Inteligência Artificial pode ser concorrente, não poderia ser também colaboradora, dependendo de como e para que seja usada? Talvez não seja mais do que um momento na história humana da natureza. Ou uma aposta arriscada no disputado tabuleiro da ciência.

Quem responde a essas perguntas não é uma inteligência sem rosto, é um conjunto de cientistas cuja inteligência é feita também de percepções, sentimentos, memórias, dores, sonhos, que só um corpo conhece e ensina. Assim se escreve a história única e irrepetível de cada um. Uma inteligência sensível que é a seiva mesma da criação.

Os cientistas não falam com fantasmas, com medos obscuros, conhecem a matéria e tem nuances e diferenças em suas avaliações. Com a palavra quem já viu o monstro de perto.

Respondem também os poetas, com sua visão de mundo impregnada de desejo, os que se perguntam se esse mundo binário, que cabe nos algoritmos, não esmaga a exuberância da vida, suas veredas, a golpes de sim ou não, like ou dislike, impondo uma episteme redutiva. São os poetas que mantêm viva “a promessa de felicidade” em tempos violentos e injustos.

“Reexistem”, nas belas formulações de José Miguel Wisnik, o que é mais que resistir. Artistas de todas as artes e da arte de viver, nesse número representados pelos escritores e suas escritas, pela arquitetura, o grafismo, as artes plásticas, reexistem e levam adiante o “recado” dessa promessa ainda não realizada, atravessando o karma que o Brasil nos legou de violência e doçura.  

Ariano Suassuna, o romancista, o dramaturgo, o artista plástico, o imperador da Pedra do Reino, o menestrel Suassuna, também foi o Brasil que nos legou. Foram a terra e a cultura que criaram Suassuna assim como ele, em troca, criou a Compadecida, João Grilo e Chicó. E, no Movimento Armorial, sua arqueologia do Brasil profundo. Suassuna, o humorista, cujo nome um computador burríssimo transformou em Assassino e nunca foi perdoado por isso. A Revista Brasileira traça seu retrato e dele emerge muito do Brasil que essa revista, cujo nome é uma vocação, se esforça, cada vez mais, em entender e retratar em sua diversidade.

A essa diversidade a ABL abre suas portas e sobe o Morro do Livramento no Rio de Janeiro, onde a Feira Literária das Periferias, homenageando Machado de Assis, festeja seus onze anos em que tantos jovens escritores se revelaram. 

Assim é o Brasil como ele se conta aqui com as palavras, a arte, a ciência e o engenho dos brasileiros.

 

Ficha da Obra

Ano: 
2023
Páginas: 
176
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