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Falar não é fazer

 

Os diálogos publicados pelo portal Metrópoles não indicam crimes. Pode-se discordar do que eles pensam - acho um absurdo que empresários de tal porte tenham visão tão estreita do país e do mundo, não deem valor a direitos fundamentais como a liberdade, não entendam que uma ditadura não ajuda nunca os negócios. E, se a intenção deles é aproveitar-se de uma ditadura para dominar o mercado e fazer alguma ação difícil de fazer num ambiente democrático, é mais grave ainda.

Se têm uma visão tão estreita sobrea importância da democracia para proteger os cidadãos dos autoritários, do governante que acha que pode mandar em todo mundo e impede visões contrárias, mesmo minoritárias, de ser expostas, é lamentável, é criticável - mas não é crime. Nos diálogos não há nenhuma indicação de que estejam preparando um golpe, financiando um golpe, apoiando um golpe de maneira efetiva. Há apenas comentários de que preferem uma ditadura à volta de Lula. É um gosto discutível - não pelo Lula, mas pela ditadura -, mas eles têm direito de achar isso.

Existem pesquisas internacionais sobre o estado da democracia no mundo, e em vários países - inclusive no Brasil -muita gente diz que prefere a ditadura, que torna o país mais organizado, traz mais segurança. É um equívoco, uma visão deturpada do que seja o futuro de um país, mas não se pode prender todo mundo que deu essa resposta na pesquisa.

Aquela conversa de WhatsApp é como uma conversa de botequim. Você está numa mesa de bar com amigos, diz bobagem, às vezes por causa da bebida, e um sujeito ao lado ouve você dizer que é a favor da ditadura, ou contra o governo, o denuncia e você vai preso. Isso acontece na ditadura, quando você não pode expressar um pensamento, por mais desprezível que seja. Lembro-me de um artigo de um jornalista americano que dizia que, se pudesse, daria um soco no presidente Richard Nixon.

Querer fazer alguma coisa não é fazer. O escritor Ruy Castro sugeriu recentemente num artigo que Bolsonaro e Trump se suicidassem. Foi enquadrado na hoje extinta Lei de Segurança Nacional da ditadura militar. Uma ação ridícula do governo, que acabou inviabilizada pela reação da sociedade. Se você fala mal do ditador numa mesa de bar, vai preso.

Não cabe pedido de busca e apreensão porque a invasão de domicílios e escritórios em busca de provas só pode acontecer se a autoridade tiver, anteriormente, muitas informações e indícios de que estão realmente promovendo um golpe de Estado. Quando a Operação Lava-Jato estava em andamento, houve várias medidas de busca e apreensão, sempre baseadas em delações premiadas. Muitos ministros do Supremo consideraram ter havido abuso de poder em vários casos.

Como o inquérito é sigiloso, não podemos saber em que base a Polícia Federal pediu, e o ministro Alexandre de Moraes aceitou, a busca e apreensão. Espero que ele tenha feito isso diante de muitas evidências. Muitos desses empresários já eram investigados havia muito tempo nesse inquérito. Os nomes de Luciano Hang e de outros já tinham aparecido. Pode ser que estivessem sendo monitorados.

Cabe ao ministro Alexandre de Moraes mostraras provas e os indícios que o levaram a aceitar esse pedido. Acredito que os tenha; se não tiver, terá sido uma ação completamente irresponsável. Como já sabemos que muitos dos alvos estiveram envolvidos em financiamentos da rede de milícias digitais, é de imaginar que não foi só o diálogo no WhatsApp que justificou a busca e apreensão.

O ministro deveria ter identificado pelo menos algumas dessas razões para que a opinião pública tivesse certeza de que tudo está sendo feito de maneira legal. Não se pode esperar que, por ele ser ministro do Supremo, sendo uma pessoa séria, honesta, tenha feito a coisa certa. Numa democracia, não é assim que funciona. Ele tem poder para isso, mas tem de se explicar, dar transparência a seus atos.

Cabe a Moraes mostrar as provas e os indícios. Acredito que tenha; se não tiver, terá sido uma ação completamente irresponsável.

O Globo, 25/08/2022