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Sobre corrupção

Como disse Lord Acton, historiador britânico do século XIX, conhecido como “o magistrado da História”, “o poder tende a corromper, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Seguimos assistindo na história brasileira a comprovação dessa constatação, mas nunca antes vira-se a corrupção atingir tão diretamente duas instituições republicanas tão fundamentais quanto o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Central. O poder destruidor do dinheiro misturou-se a outro fenômeno conhecido historicamente chamado “hubris”, a arrogância que toma posse dos que se consideram muito poderosos, e os faz perder o autocontrole por se considerarem acima dos demais mortais.

Os ministros do Supremo Dias Toffoli e Alexandre de Moraes foram vítimas desse estado de espírito que os transformou, especialmente o segundo, de herói a vilão por sua própria vontade. Nenhuma pessoa em juízo perfeito aceitaria que sua mulher tivesse um contrato de R$ 129 milhões com um banqueiro que está enrolado pela Justiça e claramente acabará sendo julgado pelo mais alto tribunal do país, do qual faz parte. Moraes garantiu ser mentira que parentes de ministros do Supremo atuem em casos que estejam sendo julgados por eles, mas é a própria contradição ao que afirma. O contrato pode ser legal, mas é imoral diante de qualquer parâmetro do mercado advocatício.

Usar mensagens que se autodestroem no aplicativo significa, segundo o próprio ministro Alexandre de Moraes, uma tentativa de obstruir a Justiça, um indicativo de culpa de quem tentou impedir que suas mensagens fossem lidas, segundo afirmou em algumas de suas decisões. Mas ele mesmo usou esse artifício em diálogos suspeitos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, no dia de sua primeira prisão. Quem fez maior dano ao país, à sociedade brasileira, o ladrão que corrompeu as autoridades para fazer seus negócios, ou aquele que se deixou corromper?

Moraes e seus colegas do STF alegam sistematicamente que salvaram a democracia brasileira, e por isso devem ser admirados e respeitados pelos cidadãos. Não fizeram mais do que suas obrigações, como ministros da mais alta Corte do país, assim como os militares que não aderiram ao golpe tentado por Bolsonaro. Mas submeteram-se à inconsistência da jurisprudência, que muda de acordo com as conveniências pessoais dos ministros monocráticos. Anular uma decisão da CPI de quebrar o sigilo bancário do filho do presidente sob a alegação de que foi aprovado em bloco, como fez o ministro Flávio Dino, anula também as decisões tomadas em bloco pelo ministro Alexandre de Moraes no julgamento do 8 de janeiro?

Reviver uma decisão que já estava arquivada, como fez o ministro Gilmar Mendes, para burlar o juiz natural e poder relatar uma ação para proteger outro companheiro, o ministro Dias Toffoli, faz bem à saúde democrática do Supremo? O ex-banqueiro Vorcaro, em seus diálogos com a namorada, revela a sua própria “hubris” ao se deleitar com o fato de ter falado em um seminário que ele mesmo financiou para uma plateia lotada de ministros do Supremo e do STJ: “Eu sou mesmo doido”.

Ter no bolso diretores e dirigentes do Banco Central, ser recebido pelo presidente da República várias vezes a pedido de seu consultor Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula, que ganhava 1 milhão de reais por mês dele, ter acesso ao celular do mais poderoso ministro do STF a qualquer hora, poder perguntar a ele se conseguiu bloquear alguma iniciativa ( provavelmente sua prisão, que aconteceu logo depois) é prova de que estava mesmo no controle da situação, jamais seria pego. Com uma coisa Vorcaro pode se contentar: aconteça o que acontecer, ele desmontou um sistema de conluios e corrupção que dominava o centro do poder. Que será totalmente desvelado se (quando) fizer sua delação premiada.

O Globo, 08/03/2026