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Nazismo na América: Duas visões

 

Sob o título acima, a Academia Brasileira de Letras e a Editora Record promoveram um debate público no Teatro R. Magalhães Jr., na ABL, entre mim, na condição de autor de Crônica de uma guerra secreta - Nazismo na América: a conexão Argentina, e o pesquisador argentino Uki Goñi, autor de A verdadeira Odessa.


O livro de Uki Goñi incide mais diretamente no que chamei de ''conexão argentina'' enquanto minha Crônica - além de abarcar o mesmo tema geral - tem como pontos cardeais algo muito específico. Refiro-me a duas tentativas argentinas de desmembramento do Brasil, até hoje desconhecidas do nosso público.


A primeira, em 1828, durante a guerra pela posse da Província Cisplatina, que se transformou no atual Uruguai. Batalhões de mercenários alemães a serviço do Império foram subornados pelo governo argentino e, durante três a quatro dias, dominaram o Rio de Janeiro. Fazia parte do plano o seqüestro de D. Pedro I, a ser levado prisioneiro até Buenos Aires. Tive a fortuna de coligir ampla documentação sobre essa trama quando ainda nos meus 20 anos. Nem antes nem depois, surgiu uma só palavra sobre o assunto nos nossos textos de história.


A segunda tentativa ocorreu no curso da Segunda Guerra Mundial, fruto de uma espécie de parceria entre autoridades argentinas e o governo nazista. Chamei meu livro de Crônica por ser um texto intencionalmente descontraído, por vezes até coloquial. O intuito era alcançar a mocidade estudiosa do Brasil, para que conheça os riscos que rondaram o nosso país na década de 1940, com a derrapagem do Estado Novo e o flerte perigoso do presidente Vargas com o nazismo.


O que me atraiu de modo especial na obra de Uki Goñi foi a sua determinação de quebrar um tabu. O tabu que procurei explorar num subcapítulo de meu livro, que denominei O sol e a peneira. Digo que os argentinos dão a impressão de ter sido vítimas de um processo coletivo de amnésia em face de determinados fatos e episódios de sua história contemporânea. Independentemente das inclinações pessoais ou afinidades políticas, parecem todos participar de um entendimento tácito no sentido de voltar a página, de eliminar vestígios ou, até, lembranças desses mesmos fatos e episódios. Como se uma linha divisória tivesse sido traçada, verdadeira cortina de silêncio. Como seria fácil de prever, a cortina não poderia durar. Cedo ou tarde, a claridade, a transparência se imporiam. É o que acredito tenha acontecido no país vizinho. Embora tardia, uma primeira iniciativa oficial foi tomada em 1997, com a criação da Ceana, Comisión de Esclarecimiento de Actividades Nazis en la Argentina, destinada a investigar a extensão e profundidade dos vínculos nazistas do país durante e após a Segunda Guerra Mundial.


Começo por citar o exemplo do próprio Uki Goñi, nascido em 1953. Filho de diplomata, educado no exterior, não subscreveu esse pacto de silêncio. Curioso, inquisitivo e persistente, não se conformou com o hiato histórico, com a visível depuração de arquivos e a eliminação de pistas, como se não fosse sempre preferível uma catarse nacional, ainda que dura.


Declaro, por isso, em meu livro que a colaboração de Perón com os nazistas constitui fato histórico, não um estigma que cumpre apagar ou do qual devam envergonhar-se os argentinos. Pior, certamente, é o esforço de remover vestígios para ocultar a verdade. Se, por exemplo, é penoso para os cristãos constatar a participação do Vaticano na evasão de criminosos de guerra alemães e croatas, e no seu encaminhamento e refúgio na Argentina, a revelação é contudo incontestável e deve ser encarada de frente.


A pesquisa de Uki Goñi, rigorosamente documentada, jamais poderá ser julgada obra de um irresponsável em busca de sensacionalismo. A relação dos que com ele colaboraram impressiona pela qualidade profissional e acadêmica, nela figurando, além de pesquisadores de alto nível, seu próprio pai, o embaixador Santos Goñi, que se ocupou da tradução de documentos em alemão.


Depois de ter vivido na Argentina os últimos anos da guerra e os primeiros do peronismo, procurei sempre conversar com meus colegas argentinos nos postos seguintes, como segundo secretário, cônsul, depois embaixador. Mas bastava puxar o tema política interna para que todos, embora das mais variadas inclinações, desconversassem.


Acompanhei de perto o que se passava no país, não perdi um só comício da campanha presidencial - ''Braden ou Perón'' -, indignei-me com a ingerência sem precedentes do embaixador americano a ponto de dizer a amigos que se eu fosse argentino e anti-peronista, votaria em Perón como simples ato de repulsa à intervenção estrangeira.


Hitler não inventou o expansionismo alemão, assim como Perón não está na origem do expansionismo argentino, que remonta aos primeiros anos de vida independente. Enquanto Perón procurava tranqüilizar delegações de estudantes brasileiros que o visitavam, assegurando-lhes que a Argentina não precisava de terras, a verdade aflorava nua e crua no segundo escalão do governo. Lucio M. Moreno Quintana, subsecretário de Relações Exteriores no governo Perón, proclamou em livro escrito em 1946 bem como em conferência no Colégio Nacional de Buenos Aires, no ano seguinte, que a República Argentina deve ser integrada não apenas pelo seu território, mas com o das repúblicas do Uruguai, Paraguai e Bolívia, bem como a parte sul do Brasil. Não se trata de fabricação minha, porém de fonte escrita e impressa. A conferência do subsecretário foi publicada no boletim oficial da Universidade de Buenos Aires, então ativa base peronista.


 


Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 19/01/2005

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), 18/01/2005