O chamado à guerra feito por Lula para a militância do PT no fim de semana reflete a redução do espaço político de sua candidatura, enquanto o candidato da direita, Flávio Bolsonaro, procura vender uma imagem de moderação que lhe amplie o eleitorado para além do radicalismo bolsonarista. Os dois sofrem alta rejeição justamente pelo receio de que representem o extremismo político que encarnam. O presidente Lula, ainda visto como comunista por boa parte do eleitorado oposicionista, e os Bolsonaro, que custarão a se livrar da pecha de golpista que levou o patriarca à cadeia.
Assim como Lula, ao lado da retórica raivosa, mantém negociações políticas com partidos do Centrão, também Flávio não se distancia dos radicais bolsonaristas. Se o candidato fosse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não precisaria vender a imagem de moderado, pois foi ela que o inviabilizou como opção da extrema direita bolsonarista, por não confiar em sua fidelidade. Por isso mesmo, a mudança de perfil de Flávio é mais difícil de colar no eleitor moderado de centro que a agressividade do petismo eleitoral de Lula.
A prática de governo lulista mostra há muito tempo que a tendência à esquerda de sua política externa não passa de efeito colateral da sua vivência com a esquerda internacional, sem significar que esteja empenhado em implantar um governo autoritário no país. Ao contrário de Bolsonaro, que já pôs em prática uma tentativa de golpe de Estado que levaria o país ao retrocesso de uma ditadura cívico-militar.
Lula tem o espírito de negociação do líder sindical e uma flexibilidade ideológica que lhe permite governar com ministros e um vice-presidente que não comungam com suas ideias esquerdistas, mesmo que, no caso de Alckmin, cantem juntos a Internacional Socialista. O critério de nomeação para o Supremo diz muito sobre a flexibilidade ideológica de Lula. Nomeou dois comunistas: Eros Grau e Flávio Dino. Mas indicou também um jurista católico de direita, Carlos Alberto Direito. Na fase atual, em que a confiança vale mais que os méritos jurídicos, escolheu seu advogado pessoal e tenta aprovar o advogado-geral da União, o evangélico Jorge Messias.
O que é um obstáculo sério para Lula, e não menor para Flávio, é a corrupção. O ambiente do país no momento é de indignação apartidária com a corrupção institucionalizada. Isso leva o governo incumbente de roldão nas suas negociações atípicas com o Congresso e com o Supremo Tribunal Federal (STF). Quando Lula diz, em seu discurso raivoso para o PT, que “a política apodreceu”, o tom não é de autocrítica, mas deveria ser.
Tirar a si próprio, e o PT, de crises de corrupção como mensalão e petrolão, e tentar se distanciar do escândalo do Master, quando ele próprio se deixou usar num esquema de conflito de interesses ao receber o presidente do banco, Daniel Vorcaro, levado pelo ex-ministro Guido Mantega, colocado no conselho do banco a seu pedido, não é plausível. Com o agravante de que Gabriel Galípolo, já indicado por Lula para presidir o BC, esteve presente à reunião sobre uma crise financeira com que teria de lidar.
Receber o banqueiro envolvido em denúncias, ao lado do futuro presidente do BC, é uma indicação de proteção presidencial que, se não foi concretizada, como alega Lula, não tem menor importância. O ambiente crítico neste momento não significa, porém, que o bolsonarismo possa tirar proveito completo para melhorar sua posição competitiva. A instabilidade que a família Bolsonaro trouxe ao país com a tentativa de golpe, a defesa posterior da taxação de Trump e o envolvimento de seus integrantes em acusações de corrupção moral e material, não os deixa livres de ataques nesse mesmo flanco.