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Conversas vãs

 

– Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia.

– Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

– Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

– No Legislativo também?

– Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

– Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

– Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

– Não diretamente. Mas o Ministro que acabou com a Lava Jato abriu a porteira.

– No julgamento do Mensalão, o advogado que fora ministro do governo que estava sendo julgado queria levar o caso para a primeira instância. Agora, querem ficar na última.

– Como as coisas mudam, não é? Os ministros que acusavam o governo de ser uma cleptocracia são os mesmos que agora defendem um banqueiro acusado de corrupção?

– Alguns dos principais ainda estão lá. O ministro que dizia que a cleptocracia era o problema, depois acabou com a Lava-Jato? O que deu nele?

– Dizem que os procuradores começaram a procurar muito sobre a mulher dele. E a do outro ministro.

– Ex-mulher. Eles se separaram.

– O que houve?

– Medo da Lei Magnitsky.

– Alguém acreditou nessa separação?

– Quem vai desacreditar de um ministro tão sério?

– E o outro ministro?

– Foi nomeado pelo governo que montava a cleptocracia. E não se sentiu impedido de julgar os casos que envolviam o partido.

– Assim como não se sente impedido de ser o relator do processo contra aquele banco que estava envolvido com seus parentes.

– Só soube que fora sorteado relator quando desceu do jatinho.

– Que jatinho?

– Pois ele não viajou de jatinho de um empresário amigo para ver o jogo do Palmeiras na final da Libertadores? Ao lado de um advogado do tal banco liquidado.

– Mas ele garante que não sabia, e que só conversaram sobre futebol .

– Mas ele podia se considerar impedido, pela coincidência.

– Aí sim iam pensar que ele estava comprometido. Quem vai duvidar de um ministro?

– Mas não precisava chamar para si o controle do caso, pois nenhum dos envolvidos tinha instância privilegiada.

– Não tinha um deputado federal metido na história?

– Nada. O deputado estava metido em outro negócio com o dono do banco, mas não estava sendo investigado. Aliás, não está sendo investigado, não tem nada a ver com a quebra do banco.

– E por que o ministro decretou sigilo no mais alto grau?

– Deve ter sido um engano. Ele voltou atrás, e permitiu que a Polícia Federal investigasse o caso.

– Médio, né? Agora encurtou o prazo dos interrogatórios, aumentou o prazo da investigação, e escolheu os próprios peritos da Polícia Federal. Parece até que quer controlar a investigação.

– O outro ministro resolveu incluir no inquérito das fake News as notícias sobre o contrato de advocacia do banco com o escritório da sua mulher e a compra de um resort de parentes do outro ministro por um fundo ligado ao banco que está sendo investigado.

– Quer dizer que são mentirosas essas notícias?

– Não, o contrato da mulher do ministro já foi avalizado pelo procurador-mor, está tudo legal.

– Mas o pagamento de mais de cem milhões de reais não é muito exagerado?

– Tá tudo legal, a princípio, pois o plenário já decidiu que parentes podem advogar em causas que o Tribunal está julgando.

– E o resort. Era mentira?

– Não, mas eles desconfiam que gente das internas andou vazando as informações para a imprensa.

– Mas será que é verdade?

– Se não fosse, o mais fácil seria desmentir.

– Mas você acha que um Ministro tem que desmentir alguma coisa? Desconfiar de um ministro, era só o que faltava.

– Mas por que o ministro está tão interessado nesse banco?

O Globo, 18/01/2026