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Conversas de ½ minuto (30) ‒ Pelejas

 

Mais conversas, hoje novamente só com cantadores, em livro que estou escrevendo (título da coluna). E já lembro que assim, como Pelejas, são conhecidos os grandes desafios entre cantadores famosos. Desde o século XIX, começando com os dois maiores daquela época, Romano Teixeira e o negro cativo (ele próprio assim se definia) Ignácio da Catingueira. Só para lembrar, cantadores cantam sempre acompanhados com suas violas. Menos o dito Ignácio da Catingueira e Fabião das Queimadas, que usavam pandeiros. E o Cego Aderaldo, já no século XX, com sua rabeca. Vamos às mais célebres, dessas Pelejas.

PELEJA de MANOEL RIACHÃO (de Araruna, Paraíba) com NÊGO (O Diabo, origem desconhecida). Nas primeiras cantorias, ainda nos tempos da escravidão, começaram a se ver negros cantando. Como um, conhecido como Diabo. Em peleja com Manoel Riachão, tema recorrente era a cor da pele. Seguem alguns versos, como prova.

R (Riachão) – Riachão disse eu não canto

Com negro desconhecido

Porque pode ser escravo

E andar aqui fugido

Isso é dar cauda a lambú

E entrada a negro enxerido

 

N (Negro) – Eu sou livre como vento

E minha linhagem é nobre

Sou um dos mais ilustrados

Que o sol nesse mundo cobre

Nasci dentro da grandeza

Não sai de raça pobre.

 

R – Não tenho superior

Sou filho da liberdade

E não conto a minha vida

Pois não há necessidade

Porque não sou foragido

Nem você autoridade.

 

N – Riachão amas a Deus

Sendo mal recompensado

Deus fez de Paulo um monarca

De Pedro simples soldado

Fez um com tanta saúde

 

PINTO DO MONTEIRO (de Monteiro, Paraíba) e LOURIVAL BATISTA (Louro do Pajeú, de São José do Egito, Pernambuco), dois gênios. Em mais uma peleja, Pinto preparou armadilha para Louro

‒ Eu saí de Caicó

E fui bater em Tabira

De Tabira prá Penedo

De Penedo a Guarabira

Chegando lá eu comi

O mocotó de traíra.

 

Como traíra é peixe, Pinto jamais poderia ter comido seu mocotó. Então, certo de ter ganho a peleja, Louro respondeu

‒ Eu já vi muita mentira

De Adão até Aló De Aló até Isac

De Isac até Jacó Mas nunca houve quem visse

Traíra com mocotó.

 

Só para ver, desolado, Pinto cantar

 

‒ Pois eu vim de Caicó

E fui até Guarabira

Lá vi uma vaca velha

A quem chamavam Traíra

E agora você me diga

Se é verdade ou se é mentira.

PELEJA DO CEGO ADERALDO (de Crato, Ceará) com ZÉ PRETINHO (de Tucum, Paraná). Mais famosa dessas Pelejas é a do referido Cego Aderaldo contra Zé Pretinho. Com o desafio já ganho, e para encerrar com brilho, o Cego tripudiou

Cego – Amigo José Pretinho

Eu não sei o que será

De você no fim da luta

Porque vencido já está

Quem a paca cara compra

Paca cara pagará

 

E o outro ficou sem entender esse trava-língua, piorando sua desgraça

 

Zé Pretinho – Cego, estou apertado

Que só um pinto no ovo

Estás cantando aprumado

E satisfazendo ao povo

Este seu lema de paca

Por favor cante de novo

Zé P. – Cego, teu peito é de aço Foi bom ferreiro que fez Pensei que o cego não tinha No verso tal rapidez Cego, se não for massada Repita a paca outra vez

A partir daí, foi um desassossego

 

Digo uma e digo dez

No cantar não tenho pompa

Presentemente não acho

Quem esse meu mapa rompa

Paca cara pagará

Quem a paca cara compra

 

Zé P. – Cego, teu peito é de aço

Foi bom ferreiro que fez

Pensei que o cego não tinha

No verso tal rapidez

Cego, se não for massada

Repita a paca outra vez

 

Cego – Arre com tanta pergunta

Deste negro capivara

Não há quem cuspa pra cima

Que não lhe caia na cara

– quem a paca cara compra

Pagará a paca cara

 

Zé P. – Agora cego me ouça

Cantarei a paca já

Tema assim é um borrego

No bico de um carcará

Quem a cara cara compra

Caca caca Cacará

 

Após o que Zé Pretinho colocou sua viola na bandeja (com o dinheiro dos ouvintes, um prêmio pra o vencedor), sinal de que reconheceu a derrota.

 

PATATIVA DO ASSARÉ, cantador e cordelista (de Assaré, Ceará). Para encerrar, esse causo. A casa de Patativa ficava a 18 quilômetros da cidade de Assaré e ele precisava falar com o prefeito. Só que foi várias vezes à Prefeitura e o homem nunca estava. Por isso deixou, na sua mesa, esse recado

‒ Ainda que alguém me diga

Que viu o mudo falando

Um elefante dançando

No lombo de uma formiga.

Não me causará intriga

Escutarei com respeito

Não mentiu esse sujeito

Muito mais barbaridade

É haver numa cidade

Prefeitura sem prefeito.

 

Resultado, acabou preso. Na cela, encontrou gaiola com uma patativa – que é ave de belo canto. Então escreveu esses versos que ganharam o mundo

‒ Linda vizinha pequena

Temos o mesmo desgosto

Sofremos da mesma pena

Embora em sentido oposto

 

Meu sofrer e teu penar

Clamam a divina lei

Tu presa para cantar

E eu preso porque cantei.

Jornal do Commercio de Pernambuco, 14/07/2023