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Aproximações perigosas

 

As investigações, não só as oficiais, mas as dos jornalistas também, mostram uma proximidade muito perigosa do entorno do presidente Lula com o banqueiro Daniel Vorcaro e o banco Master. A começar pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e pelo ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, que foram para o Master a pedido do governo. O líder do PT, senador Jaques Wagner, admitiu ter sido ele quem indicou os dois — porque Lula tinha um compromisso moral com Mantega depois de não ter conseguido colocá-lo na Vale. Acabou arranjando um lugar aparentemente muito bem remunerado no Master; dizem que ganhava cerca de R$ 1 milhão por mês.

Lewandowski, depois de nomeado ministro, deixou de herança para seu escritório, dirigido por um filho, o contrato de consultoria que lhe rendia R$ 250 mil por mês. A seu favor, não há nenhum indício até agora de que tenha usado o cargo para impedir qualquer investigação — e a Polícia Federal era subordinada a ele. Mas todas essas aproximações, com consequências ou não, são muito desgastantes, principalmente para Lula, que não deveria ter a tranquilidade de criticar os que defendem o Master, já que participou de conversas com Vorcaro no Palácio do Planalto, mesmo que ainda não houvesse nenhuma prova concreta de que ele cometera crimes.

A ministra Gleisi Hoffmann alega que não há nenhum problema em Lula conversar com banqueiros, algo que parece natural para um presidente da República. Mas, quando o banqueiro se mete em trapalhadas depois de ter atendido a pedidos desse mesmo presidente, ele fica em situação delicada. O caso é muito grande, alcança várias instituições, os três Poderes estão metidos de uma maneira ou de outra no networking que Vorcaro montou. É inevitável que isso repercuta e que a oposição, na reabertura do Legislativo, tente o impeachment de algum ministro. Não acontecerá neste ano, mas poderá complicar a campanha eleitoral, que agora ganha tônus novo com a trinca pessedista que o presidente do partido, Gilberto Kassab, montou para ampliar o alcance da centro-direita.

Sabe-se que o governador do Paraná, Ratinho Junior, é o candidato a presidente acertado com os demais governadores, com razoável capacidade de mobilização. O efeito pode ser acuar o senador Flávio Bolsonaro num nicho de extrema direita, abrindo caminho ao centro e bloqueando a tentativa de Lula de ganhar esses votos decisivos. Lula sempre ganhou as eleições contando com votos da centro-direita. Quando os candidatos tucanos foram o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou José Serra, ele ganhou com o apoio de 60% dos eleitores, agregando os votos de centro-direita.

A adesão desse eleitorado tucano ao bolsonarismo deu a Jair Bolsonaro força para vencer uma eleição presidencial e sair derrotado em outra, mas por pouco. O mineiro Aécio Neves perdeu para Dilma Rousseff em 2014 por pequena margem, já denotando que crescia o eleitorado anti-Lula. A ideia de que Vorcaro seja um outsider é equivocada. Ele é tão outsider quanto Bolsonaro era na política. São do baixo clero, trabalham nas bordas da lei. Foi apanhado porque se meteu em trapalhadas econômicas que o beneficiaram e a seus amigos, mas prejudicaram milhares de cidadãos.

O Master se revela grande demais para ter sido liquidado, se defende por meio das relações que Vorcaro teceu no mundo corporativo e institucional brasileiros e tenta se salvar. Nunca houve tentativa tão ampla, com participação de tanta gente influente, para salvar um banco. Isso mostra a grandiosidade do esquema, que se aproxima perigosamente do Palácio do Planalto no ano eleitoral. Por isso o governo tenta impedir que se faça uma CPI sobre o Master, que virará tema eleitoral, queiram ou não os governistas.

O Globo, 29/01/2026