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Quem te viu, quem te vê

 

Shows, cineclube e um tremendo aumento de visitantes. É a ABL que se torna pop

Sofia Cerqueira

As imponentes portas do Petit Trianon, o palacete em estilo eclético que abriga a Academia Brasileira de Letras (ABL), nunca estiveram tão abertas para os mortais. Antes restrita aos literatos e afeita ao conservadorismo, a ABL agora se esforça para exibir um novo perfil. Na temporada em que comemora seus 110 anos, a Academia oferece uma intensa programação e é cada vez mais freqüentada pelos cariocas. Promove cursos e seminários; reformou seu site, que passou a transmitir os próprios eventos ao vivo pela internet; reinaugurou um teatro com 300 lugares e tem montado bibliotecas em favelas. Mais: no último Carnaval, cinco imortais desfilaram na Mangueira, que homenageou a língua portuguesa. "A imagem de velhinhos caquéticos tomando chá não corresponde à realidade", afirma o acadêmico Arnaldo Niskier. "A Academia se transformou num pólo cultural que extrapola a literatura", entusiasma-se Lêdo Ivo, outro imortal. Os números confirmam o vaivém na ABL, no Centro do Rio: de outubro de 2006 até este mês, 35.000 pessoas participaram de suas atividades. Há cinco anos, segundo a assessoria da casa, a média anual não passava de 5.000 visitantes. "A Academia não pode ser só caviar, elitizada e privativa dos afortunados, nem cair na vulgaridade", pondera o presidente, Marcos Vilaça. "Tem de defender a língua portuguesa e a cultura, mas não há como ignorar o cinema, o samba, o futebol..." Ele, aliás, está à frente de tudo isso, como se pode ver nas fotos ao lado.

Os sinais de mudança são evidentes. Há dois meses, o marco do início das celebrações do aniversário foi um show performático do cantor, músico e dançarino Antonio Nóbrega no Salão Azul. "Essa cena seria inconcebível há alguns anos", diz o acadêmico Murilo Melo Filho. No último dia 21, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, com um show de cinqüenta minutos – mais o habitual e entusiasmado bis de 25 minutos –, reinaugurou o teatro da ABL. Não faltaram imortais sacolejando ao som de Aquele Abraço. O Teatro R. Magalhães Jr. terá uma programação de peças, como Carlota Joaquina, que estréia com Marília Pêra em dezembro, eventos de música e um cineclube dirigido por Nelson Pereira dos Santos, primeiro cineasta a assumir uma das quarenta cadeiras, em 2006. "Essa eleição mostra que a Academia está aberta a outros expoentes", afirma o acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco. "Para se popularizar é preciso deixar de ser exclusivamente das letras, e isso vem acontecendo."

O site da Academia, que em março de 2006 teve só 33 acessos, registra agora 90.000 visitas por mês. Uma novidade é o ABL Responde, para tirar dúvidas de português. "A Academia está inserida no século XXI e acompanha os avanços tecnológicos", diz Niskier. Em outra frente, a instituição, que tem duas bibliotecas com 135.000 volumes e uma galeria de arte, tem promovido palestras não apenas de literatura, mas também sobre favela, moda, futebol e gastronomia. Claro que tantas e tão ousadas novidades são vistas com reservas por alguns imortais. "Ela tem de seguir a lição de Machado de Assis, ter tradição e ser uma torre de marfim para assuntos literários", prega Alberto Venancio Filho. Antes com poucos recursos financeiros, a ABL viu sua situação mudar em 1999, quando o prédio de 25 andares, anexo ao Petit Trianon, foi incorporado a seu patrimônio. Ali surgiu um novo fôlego. "Antigamente o chá das quintas-feiras era silencioso e privativo", observa o imortal Ivan Junqueira. Hoje recebe convidados como os atores Christiane Torloni e Victor Fasano, que estiveram lá na quinta, dia 4, para divulgar a causa ambiental. "A Academia nunca foi tão aberta", diz Cícero Sandroni, apontado como o favorito à presidência da ABL nas próximas eleições, em dezembro. "Não foi a instituição que mudou, foi o mundo. Ela apenas o reflete", entende seu colega Antonio Olinto. Melhor para a cidade.

Revista Veja Rio 13/10/2007

15/10/2007 - Atualizada em 14/10/2007