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Os primeiros e decisivos passos na caminhada profissional

 

Joana Martins

Doutor em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ex-secretário de estado de Educação e Cultura, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Arnaldo Niskier poderia muito bem apenas sentir-se confortável diante da trajetória já percorrida. Mesmo assim, não se cansa de buscar novos desafios profissionais. No próximo dia 27, o educador assumirá a presidência do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE).

Nesta entrevista ele fala sobre seus principais projetos e afirma que o convívio de mais de 20 anos com o CIEE de todo o país será importante para a sua gestão. "Graças à liderança que é exercida pelo professor Paulo Natanael Pereira de Souza, presidente do Conselho de Administração do CIEE Nacional, e pelo doutor Luiz Gonzaga Bertele, presidente executivo do CIEE, aprendi a respeitar o estágio como forma de complementação daquilo que é dado nas escolas", destacou, ressaltando ainda que durante os três anos de sua gestão pretende aumentar a capacidade do programa de estágio. "O crescimento do programa deste ano foi de 20%. Espero que no ano que vem este índice chegue aos 30%".

Niskier fez questão de salientar também a missão do CIEE para o próximo triênio. "A nossa missão será capacitar jovens e líderes com educação criativa e continuada, para que possam vencer os desafios da sociedade e do conhecimento", antecipou.

No próximo dia 27, o sr. inicia as atividades de presidente do Conselho de Administração do CIEE. Quais são seus projetos?

Arnaldo Niskier - Temos uma primeira meta, que é ampliar o número de estágios. Em segundo lugar, quero dar uma atenção especial ao primeiro emprego dos deficientes, porque as empresas têm, desde 1999, uma obrigação legal de contribuir para que eles também tenham uma atividade elaborativa. Acho que essa parte precisa de uma atenção legal e o CIEE tem condições de ativar isso num grau ainda maior do que tem sido feito na gestão do meu amigo Antenor Barros Leal, que deixa a função de presidente, mas continua no sistema, porque será meu vice-presidente. Logo, ele continuará com sua experiência, nos dando luzes para facilitar o nosso caminho. Há também outros dois aspectos que gostaria de enfatizar. Em primeiro lugar, a orientação vocacional para os filhos dos funcionários das grandes empresas, no nível do ensino médio. Há uma grande deficiência na identificação da vocação dos jovens e nós temos  condições científicas e tecnológicas para ajudar as grandes empresas a encontrarem as opções devidas para os filhos de seus funcionários. Essa  é uma responsabilidade social repartida pelo CIEE com as grandes empresas. A segunda vertente é aquela que se destina à modalidade da educação a distância. No Rio de Janeiro, temos 92 municípios e queremos estar presentes em todos eles, oferecendo a capacitação necessária para que o estado, que está tendo um crescimento econômico bastante visível, possa ter os recursos humanos adequados para suportar essa expansão. Isso acontece nas áreas de petróleo, siderurgia, construção civil, informática, enfim, setores que vão apresentar, ou já apresentam, grandes necessidades de recursos humanos. Temos que dar uma resposta a essa necessidade, pois esse é o papel do CIEE, que é uma organização civil, sem fins lucrativos.

Com sua larga experiência nas áreas de educação e cultura, o que o sr. destaca como necessário para melhorar a qualificação do jovem para o mercado de trabalho?

Ele precisa se interessar mais pelo que vai acontecer depois da faculdade. Um aluno que se forma, se não tiver uma orientação vocacional adequada, fica tonto, não sabe para onde se dirigir. Por isso, muitos jovens começam um curso de Medicina e terminam em Direito e vice-versa. Acho que o jovem, a partir da primeira série do ensino médio, deve ter uma orientação tal que possibilite uma aproximação com aquilo que pretende no mundo do trabalho. Educadores, professores e diretores devem facilitar essa missão, porque isso não se faz por geração espontânea, deve ser estimulado. Então, dessa associação de interesse do jovem e da obrigação de professores e especialistas, tenho a impressão de que vamos chegar a um resultado bastante apreciado no Rio de Janeiro.

Como vê a formação dos jovens que, muitas vezes, buscam no próprio estágio a superação das deficiências do ensino, já que muitas faculdades não possuem campos práticos para eles atuarem?

Infelizmente, penso nas bolsas-auxílio para o ensino superior, que nós damos para o ensino médio. Mas o problema é mais ou menos o mesmo, falei no ensino médio com a orientação vocacional e falo no ensino superior com a falta de prática. É uma deficiência muito grave, mas que precisa ser corrigida, quando um jovem se apresenta a uma empresa e ela pergunta imediatamente qual é a sua experiência e ele coloca nenhuma... Evidentemente, a chance de pegar esse emprego é mínima, é quase nula. Então, o esforço do CIEE é complementar, com a idéia do estágio, exatamente o que faltou na prática para os jovens que estão no ensino superior ou no ensino médio.

O ensino técnico e profissional, a exemplo do Cefet, é um caminho mais seguro para a inserção de jovens no mercado de trabalho?

Louve-se o Cefet. Ele realmente realiza, como instituição, um trabalho técnico de primeira ordem. Essa é uma das coisas do governo que devemos elogiar. Há uma grande dificuldade, em todos os estados, de fazer o jovem entender que há profissões de nível intermediário que possibilitam uma boa remuneração, uma vida digna. Nos países industrializados, como França, Alemanha e Estados Unidos – os quais conheço mais de perto - isso é uma realidade. Não é necessário que todos os jovens que se formam no ensino médio ascendam ao ensino superior, porque, ao terem oportunidade no nível intermediário, não precisam ser doutores e nem correr atrás do diploma. Já no Brasil, ocorre um bacharelismo puro, elevado a um grau extremo. Tenho a sensação de que o próprio desenvolvimento social e econômico do Rio de Janeiro vai mostrar uma série de profissões de nível intermediário que poderão garantir o primeiro emprego com grande proveito para os jovens. Esse ano, já concedemos 23 mil bolsas, em formação geral, para técnicos de administração, de informática e de elétro-eletrônica, todas para o ensino médio. Acho que essa relação tem que se ampliar à medida que estejamos caminhando para novas conquistas.

As poucas oportunidades de emprego e a falta de recursos para a maioria dos jovens empreendedores podem ocasionar falta de expectativas entre a juventude?

Não, ao contrário. Nós vamos ao encontro dessa expectativa, estimulando os jovens a procurarem o primeiro emprego, até que o próprio país tenha a sua política de pleno emprego bem-sucedida.

Como o sr. vê as políticas públicas do país para a inserção de jovens?

Sempre devemos exigir mais do governo. É para isso que existem a  democracia e as eleições. Quando se elege uma determinada equipe, é na esperança de que ela realize os sonhos do povo brasileiro. Precisamos de mais empregos, pois há cerca de 6 milhões de jovens, na faixa etária dos 16 aos 21 anos, fora do mercado de trabalho, sem oportunidades, sequer, de estágios. Esse número deve ser a preocupação de todos os brasileiros, mas principalmente do governo. Na França, onde o mandato de presidente é de sete anos, François Mitterrand teve dois mandatos, e pregava, o tempo todo, em seus discursos, a importância do pleno emprego. Ele achava que a sociedade francesa só cresceria se houvesse uma política de pleno emprego. O Brasil tem que caminhar para isso, porque medidas paliativas funcionam naquele determinado momento, mas não são duradouras. Temos que trabalhar mais e melhor pela educação e pela expansão de empregos e postos de trabalho.

A formação cultural deficiente entre os jovens pode ser um fator  que dificulta a colocação destes no mercado de trabalho, uma vez  que encontram mais dificuldades para adequar-se a um mercado em constante transformação?

A escola precisa ser mais criativa, oferecer novos currículos, acabar com a mesmice, com o ensino conservador, que é o mesmo há mais de 100 anos. Quando defendo na missão do CIEE uma educação criativa e competente, evidentemente, é uma resposta a sua pergunta. A educação tem que ser mais criativa, mais competente e mais identificada com os anseios dos jovens, para que eles não se sintam elementos estranhos, mas sim parte do processo.

O ensino a distância, como o Cederj, pode ser uma boa alternativa  para a atualização de estudantes e profissionais que hoje dispõem de pouco tempo para os estudos?

O Cederj é modelo nacional. Ouvi de autoridades do Ministério da Educação (MEC) que o melhor modelo de educação a distância do Brasil é aquele que se pratica no Rio de Janeiro, através do Cederj. Então, a modalidade da educação a distância, que é consagrada no mundo desenvolvido, pode ser muito séria, como deve ser, e, com isso, suprir  muitas das carências citadas anteriormente. Sou francamente partidário da educação a distância e tenho o orgulho de dizer que sou um dos pioneiros na defesa dessa modalidade.

Em termos de educação, o país apresenta níveis satisfatórios para  promover um avanço econômico e social que permita com o que o Brasil desponte entre os países em desenvolvimento?

Não. Os níveis de educação não são nem um pouco satisfatórios. O  programa Fantástico, exibido na TV Globo, divulgou recentemente uma pesquisa feita em todas as capitais brasileiras e o resultado em Língua Portuguesa e Matemática, sobretudo, foram catastróficos, todos abaixo da média, e uma média muito baixa. Essa é uma realidade, e as autoridades  que proclamam que os números da educação são favoráveis, devem se orientar também pelo aspecto da qualidade, para o que se torna indispensável formar mais e melhor os professores, pagar mais e melhor a estes profissionais. Essa deve ser a verdadeira prioridade da educação brasileira.

Na sua avaliação, qual é a principal deficiência da educação brasileira?

A educação brasileira é antiga, ainda não se modernizou. Aquela velha idéia do magister dixit (em latim, ‘o mestre disse’) continua em pleno vigor e tenho a impressão de que precisamos de uma educação mais moderna, que se antecipe ao desenvolvimento e colabore com ele, e não que vá a reboque desse desenvolvimento.

Folha Dirigida (RJ) 20/11/2007

22/11/2007 - Atualizada em 22/11/2007