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Cartas a um jovem e sobrevivente poeta

 

Lêdo Ivo publica sua correspondência literária

Bolívar Torres

Quando, em 2006, o poeta Lêdo Ivo entregou ao Instituto Moreira Salles a guarda de seu vasto arquivo, tinha em mente transformar em livro sua correspondência com alguns dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século 20. O resultado é a publicação de E agora adeus, uma seleção dos milhares de cartas que Ivo colecionou ao longo da vida.

- Eu me considero o sobrevivente de uma geração. Quase todos os meus amigos e colegas estão mortos. Este livro é uma maneira de dizer adeus a todos e a mim mesmo - diz o escritor, de 83 anos.

Ivo estreou na literatura em 1944, com o livro de poesias As imaginações. O sucesso precoce e o elogio de críticos como Sérgio Buarque de Hollanda, Wilson Martins e Sérgio Milliet permitiram-lhe estreitar laços com escritores do calibre de Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes.

- Graças ao meu sucesso de estréia, tive a felicidade de conhecer desde cedo as pessoas interessantes da minha época e me corresponder com elas - diz. - Acredito que esta seleção de correspondências seja um documentário, não só da minha vida, mas também de toda uma geração literária. Revela uma época de efervescência, em que havia um compromisso de amor e fidelidade à literatura que não existe mais.

Ivo faz questão de lembrar que o volume não é um painel "completo". Como nunca se preocupou em guardar sua correspondência, diversos documentos acabaram perdidos. Outros foram voluntariamente destruídos. É o caso das cartas que trocou com o amigo João Cabral de Melo Neto, entre 1953 e 1954 - período em que o poeta pernambucano fora afastado do Itamaraty pelo governo Vargas, sob a acusação de ser comunista. Cabral confidenciava sua raiva nas cartas, queixando-se agressivamente de algumas personalidades marcantes da época.

- Não quis publicar essas cartas para resguardar a imagem de Cabral - explica Ivo. - Acusariam-me de causar escândalo. Não queria expor meu amigo a questões das quais não pode mais se defender.

O restante dos mais de 30 anos de correspondência com João Cabral, porém, cobre boa parte da publicação. De tão volumosa, ocupa uma seção à parte, quase "um livro dentro do livro". As cartas mostram a história de uma longa amizade, que começou ainda na adolescência, em Recife, e se prolongou a vida inteira. Inês Cabral, filha do poeta, chegou a afirmar que Ivo foi, junto com Lauro Escorel, o único amigo que João teve.

- O Cabral que conheci era muito diferente da imagem que a opinião pública faz dele. Os escritores costumam se esconder atrás de uma máscara e, com ele, não foi diferente. Mas era, de fato, uma pessoa angustiada e atormentada.

Entre as outras cartas selecionadas, destaque para uma resposta de Manuel Bandeira, de 1941, onde este último elogia as poesias do jovem Ivo, então com 16 anos. Bandeira vê "força de imaginação" nos versos do novato, mas critica seu francês ainda "erradinho". Mais tarde, Mário de Andrade também faria um elogio ambíguo ao poeta. Comentando o livro de estréia de Ivo, afirma que a obra poderia anunciar tanto um artista genial quanto um autor de segunda ordem.

Jornal do Brasil (RJ) 5/12/2007

05/12/2007 - Atualizada em 05/12/2007