Decorreu com «raro brilho» na Sala dos Capelos, na tarde de 12 de maio de 1938, a homenagem que «a Espanha intelectual» veio a Coimbra prestar ao poeta Eugénio de Castro, nome que a literatura nacional perpetuaria como introdutor e principal cultor do Simbolismo em Portugal.
O Diário de Coimbra deu o devido destaque à iniciativa que trouxe a esta cidade uma representação do Instituto de Espanha, organismo que congrega as reais academias das artes e ciências do país vizinho, onde Eugénio de Castro era, na primeira metade do século XX, um dos poetas portugueses mais lidos, traduzidos e comentados.
Nascido a 4 de março de 1869 em Coimbra (e aqui viria a falecer a 17 de agosto de 1944, aos 75 anos), Eugénio de Castro é apontado, juntamente com o também conimbricense Camilo Pessanha, como um dos principais representantes do Simbolismo em Portugal, sendo “Oaristos”, a coletânea poética que publicou em 1890, considerado «o marco inicial» da presença deste movimento literário e artístico no país. Professor catedrático da Universidade de Coimbra, onde dirigiu a Faculdade de Letras na década de 30, Eugénio de Castro e Almeida foi sócio nomeadamente da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Espanha, e doutor “honoris causa” por várias universidades estrangeiras, tendo-lhe, como este jornal recordou, a Universidade de Salamanca prestado «uma grande e significativa homenagem» em 1934, aquando do jubileu do escritor e filósofo Miguel de Unamuno.
O poeta Eugénio de Castro foi professor da Universidade de Coimbra e diretor da Faculdade de Letras
A admiração da intelectualidade espanhola pelo poeta voltaria a expressar-se em 1938, agora em Coimbra. Do país vizinho, atormentado por uma mortífera guerra civil que se arrastava desde 1936 (e só terminaria em 1939), chegou no comboio rápido da tarde, em 11 de maio, uma delegação chefiada por Eugénio d'Ors, diretor geral das Belas Artes e secretário do Instituto de Espanha, recebida na Estação Nova pelo reitor da Universidade e outros representantes da comunidade universitária.
No dia seguinte, a Sala dos Grandes Actos, repleta de académicos e muitos convidados, acolheu a sessão solene, presidida pelo reitor João Duarte de Oliveira, em que o Instituto de Espanha coroou o «príncipe dos poetas latinos», entregando-lhe «uma palma simbólica de loureiro».
«Eugénio de Castro é o poeta da inteligência; a sua poesia é a poesia da inteligência, não é uma poesia de correntes, de figuras, é uma poesia de ritmo rigoroso, uma poesia de escultor. Por isso lhe vêm prestar homenagem», anotou o repórter do Diário de Coimbra sobre o discurso do espanhol Eugénio d'Ors, que foi fortemente aplaudido após depor «nas mãos do poeta máximo lusíada, que tão nobremente hoje representa o espírito da latinidade», o simbólico ramo de loureiro «colhido pela mão de um soldado nas margens do Mediterrâneo».
O homenageado agradeceu e «terminou comovidamente com um “Arriba Espanha!” e um “Viva Portugal!”, calorosamente secundados por toda a assistência, que de pé coroou também o insigne poeta Eugénio de Castro com os seus aplausos quentes e entusiásticos», relatou o jornal.
Matéria na íntegra: https://www.diariocoimbra.pt/2026/02/01/memorias-instituto-de-espanha-veio-a-uc-homenagear-poeta-eugenio-de-castro/
02/02/2026