A Rota Machado de Assis é um convite a caminhar por lugares que guardam as marcas da vida e da obra do maior nome da literatura brasileira.
Há características marcantes nos trabalhos desse romancista: o leitor é constantemente levado a refletir, a questionar e a enxergar o invisível.
Ou seja, o texto machadiano tem traços de profunda emoção e complexidade psicológica. Essa mesma relação entre reflexão e forma também pode ser percebida na arquitetura.
O passeio, iniciativa da Que Mais Tem Lá? e do Ouça a Cidade, instituições vencedoras do Desafio Rotas Literárias da Embratur Lab, propõe um olhar sensível sobre prédios e espaços que narram, tijolo a tijolo, as histórias de Machado e de seus personagens.
A seguir, saiba mais a respeito da Rota Machado de Assis!
O Bruxo do Cosme Velho: a vida e o legado de Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, filho do pintor de paredes Francisco José de Assis e da lavadeira Maria Leopoldina Machado de Assis. Órfão de mãe ainda criança, ele foi criado pela madrasta, que lhe transmitiu valores de disciplina e resiliência.
De origem humilde e sem acesso à educação formal, Machado foi autodidata — aprendeu lendo e convivendo com o universo das letras. Aos 14 anos, publicou o soneto À Ilma. Sra. D.P.J.A. no Periódico dos Pobres, e logo depois o poema Ela, na Marmota Fluminense.
O fascínio por livros e tipografias o levou, em 1856, a tornar-se aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional. Dois anos mais tarde, ele já atuava como revisor no Correio Mercantil, e em 1860 assumiu o cargo de redator do Diário do Rio de Janeiro, a convite de Quintino Bocaiuva.
Machado colaborou com publicações como O Espelho, Semana Ilustrada e Jornal das Famílias.
Escritor e imortal
Publicou o seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, em 1864, e em 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, companheira fundamental em sua vida e revisora de seus textos.
Nos anos seguintes, Machado se dedicou à escrita de romances e abriu caminho para uma sequência de clássicos, entre eles:
Ressurreição (1872);
A Mão e a Luva (1874);
Helena (1876);
Iaiá Garcia (1878);
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881);
Quincas Borba (1891);
Dom Casmurro (1899);
Esaú e Jacó (1904); e
Memorial de Aires (1908).
Fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado recebeu o apelido de Bruxo do Cosme Velho, em referência ao bairro em que morava.
Conta a lenda que o escritor queimava cartas em um caldeirão e observava o fogo em busca de inspiração para os seus textos. Esse hábito fez com que vizinhos acreditassem que ele praticava rituais de bruxaria em sua casa.
Machado de Assis faleceu em 29 de setembro de 1908, deixando um legado que continua a inspirar leitores, escritores e — agora — arquitetos que percorrem os locais da Rota Machado de Assis.
Rota Machado de Assis: um roteiro arquitetônico machadiano
A Rota Machado de Assis é uma imersão na vida e na obra de Machado de Assis. Trata-se de uma experiência inesquecível por diferentes pontos do Rio de Janeiro, mesclando história, literatura e arquitetura. Veja, a seguir, os locais que fazem parte do passeio, que contempla verdadeiras obras de arte.
Academia Brasileira de Letras: o ponto de partida simbólico
A Rota Machado de Assis começa pela Academia Brasileira de Letras (ABL). O palácio que abriga a instituição é uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, cedido pela França em 1923.
A fachada em estilo neoclássico ostenta colunas e frontão, enquanto nos salões internos ecoam memórias literárias: painéis decorativos, retratos e bustos.
Machado de Assis foi um dos fundadores da ABL e foi eleito o seu primeiro presidente, marcando a importância dessa Casa como guardiã da língua e da literatura brasileiras.
Ao entrar, imagine-o entre os sócios, discursando nas sessões solenes, vislumbrando o futuro da cultura nacional — ali começa uma narrativa arquitetônica e intelectual.
Praça Poeta Manuel Bandeira: breves filosofias urbanas
Da ABL, caminhe em direção à Praça Manuel Bandeira.
No roteiro, propõe-se ouvir “um par de botas surradas filosofar sobre esperança e valor” — metáfora que remete à poesia introspectiva tão cara a Machado.
A praça é discreta, mas o entorno urbano carrega histórias das transformações do Rio antigo.
Também se insere no roteiro a noção poética de “sumiço do mar” nessa parte da região central, um elemento simbólico que estimula reflexões sobre tempo, memória e paisagem.
Tribunal de Contas do Município: placas, arcadas e memórias
Caminhando adiante na Rota Machado de Assis, chega-se ao prédio do Tribunal de Contas do Município. Sobre as arcadas da fachada, há uma placa dourada que relembra passagens da vida de Machado e Carolina enquanto residentes da vizinhança.
O edifício possui estrutura clássica, com colunatas e linguagem institucional, própria de prédios públicos do século 19 e início do 20 A placa se integra discretamente à composição arquitetônica, como um “capítulo oculto” dentro do espaço urbano.
Rua Evaristo da Veiga / Avenida Rio Branco: o cenário de A Cartomante
Siga então para a Rua Evaristo da Veiga, chegando à Avenida Rio Branco e ao entorno da Cinelândia.
Na esquina próxima ao Theatro Municipal, local que era parte da antiga Rua dos Barbonos, desenrola-se o famoso conto A Cartomante. Sem dúvida, um dos pontos altos da Rota Machado de Assis.
O Theatro Municipal, com a sua riqueza ornamental, frontões, colunatas e interior ricamente decorado, remete à efervescência cultural do começo do século 20.
Ao caminhar por esse trecho, veja a justaposição entre o boulevard elegante da Avenida Rio Branco e as construções que remetem ao tempo de Machado — o lugar ganha densidade literária e urbana.
Teatro João Caetano / Praça Tiradentes: palco e panorama
Chegando ao Teatro João Caetano, defronte à Praça Tiradentes, mergulhe na confluência entre a vida pública e o universo literário.
Da calçada, a praça expande as suas camadas históricas, ladeada por edifícios que testemunharam as mudanças do centro do Rio.
O teatro, um dos primeiros de artes cênicas da cidade, lembra o papel de performances e espetáculos na vida cultural carioca. É um palco simbólico também na trajetória literária de Machado.
Real Gabinete Português de Leitura: templo lusófono e visões arquitetônicas
Bem próximo, o Real Gabinete Português de Leitura (RGPL) é um dos pontos mais impressionantes da Rota Machado de Assis.
Construído entre 1880 e 1887 no estilo neomanuelino, por Rafael da Silva e Castro, é o único exemplar desse estilo no Rio.
A fachada da edificação exibe esculturas, medalhões e detalhes que remetem ao período das navegações portuguesas.
No interior, um salão de leitura grandioso com estantes de madeira ornamentadas, colunas decorativas, cúpula envidraçada e lustre central formam um ambiente de imponência literária.
Ali realizaram-se as primeiras sessões solenes da ABL com Machado de Assis à frente; inclusive, há uma placa em homenagem ao autor dentro do edifício.
O acervo contém aproximadamente 350 mil volumes, incluindo obras raras de literatura portuguesa e documentos valiosos.
Ao contemplar o espaço, respire a grandiosidade de um símbolo da língua e do laço entre Brasil e Portugal.
Confeitaria Colombo: café literário e requinte histórico
Seguindo o roteiro, você chega à célebre Confeitaria Colombo, inaugurada em 1894.
O interior, reformado entre 1912 e 1918, exibe cristais, espelhos e mobiliário entalhado em jacarandá — uma atmosfera que evoca os salões literários do fim do século 19.
Tal espaço foi ponto de encontro de escritores, políticos e intelectuais da época, funcionando quase como uma “filial” da ABL em café.
Ao entrar, imagine Machado conversando ali com contemporâneos, trocando ideias em um cenário elegante e cosmopolita.
Rua do Ouvidor: calçada de personagens
Depois, siga pela Rua do Ouvidor — apelidada de “Paris carioca” no passado.
Essa via foi palco de cenas vivas nos romances machadianos, especialmente em Dom Casmurro, com Bentinho transitando por suas esquinas.
As calçadas estreitas, as fachadas alinhadas, os letreiros antigos e a proximidade dos edifícios evocam o Rio de então.
Ao caminhar ali, você percorre o mesmo espaço por onde passavam os personagens: litígio social e convivência urbana se misturam no tempo.
Capitu Bar: encerramento em clima literário
Por fim, encerre a jornada no Capitu Bar — ponto ideal para brindar ao legado de Machado.
O ambiente combina decoração íntima e referências literárias, um espaço em que a caminhada arquitetônica encontra o momento contemplativo.
Fechar o passeio ali é retornar da rua para o imaginário, beber poesia e recordar que prédios e ruas podem contar — se soubermos olhar — as histórias de Machado e de seus personagens.
Gostou de conhecer a Rota Machado de Assis? Vale a pena seguir o roteiro e fazer esse tour pelos locais que marcaram a trajetória do autor e seguem conquistando admiradores até os dias atuais.
Outro nome que marcou a paisagem carioca é o de Mestre Valentim.
Matéria na íntegra: https://blog.archtrends.com/rota-machado-de-assis/amp/
08/01/2026