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Vai de táxi ou de Uber?

 

Não estou entre os cinco cariocas que, segundo levantamento, se queixam diariamente à Secretaria de Transportes dos táxis da cidade, mesmo porque não utilizo o serviço todo dia. Se tivesse que reclamar, seria por algum gesto de descortesia ou antipatia, mas nenhuma falta grave. Até fiz amizade com alguns taxistas e fiquei sabendo que, em grande parte, são explorados, porque não são donos do seu carro — trabalham para uma cooperativa ou pagam aluguel ao proprietário de uma frota (segundo me contaram, há vários poderosos). É a eles que recorro para meus eventuais deslocamentos, ou, mais recentemente, também ao Easy Táxi. Por isso ou por sorte, o fato é que poderia me colocar ao lado deles nessa briga com o Uber. Porém, pelo que leio no noticiário e ouço de conhecidos, é provável que o meu exemplo seja exceção. Já em relação ao aplicativo, que usei apenas uma vez, como acompanhante, só tenho ouvido elogios à qualidade do atendimento. A alegação é que o chamado sistema de “carona paga” praticaria uma concorrência desleal por não se submeter às mesmas obrigações fiscais, ou seja, por não pagar os mesmos impostos, o que é discutível. Mas se é isso, por que não equipará-los em direitos e deveres?

Em termos de imagem, a dos táxis piorou depois da carreata de protesto. Enquanto a atitude deles prejudicava o trânsito e deixava na mão os seus passageiros, a dos concorrentes conquistava simpatia. Eles telefonavam aos clientes oferecendo corridas grátis. Injustificável foi o gesto de autoridades municipais engajando-se no movimento, como se estivessem em campanha eleitoral — como se estivessem? Sabe-se o quanto o apoio político da categoria é decisivo para candidatos a cargos eletivos. O secretário de Transportes chegou a discursar num carro de som como porta-voz dos manifestantes, vestindo a camisa de militante onde só faltou estar escrito “Eu sou taxista”. O Uber, no entanto, foi tratado como pirata, “um caso de polícia”, como ele disse, indispondo a população contra uma novidade tecnológica bem aceita e sem culpa formada. Ao contrário de cidades como Nova York, que antes de uma decisão, está avaliando os efeitos do aplicativo — se melhora ou não o trânsito, se é vantajoso para o usuário — o secretário Rafael Picciani partiu para o ataque e prometeu logo “repressão”, sem disfarçar ser parte interessada na questão.

Mais sensato foi o presidente do Conselho Estadual dos Taxistas, José Marcos Bezerra. Diante das críticas que recrudesceram após os protestos de sexta-feira passada, informou que os motoristas passarão por cursos de reciclagem a partir de dezembro. Ele quer que nas Olimpíadas de 2016 os 54 mil taxistas não façam feio. Tem que vencer assim, pela competição, não pela reserva de mercado.

O Globo, 29/07/2015