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Vencendo a dislexia

 

Um dos episódios mais tocantes deste brilhante e discutido filme que é Tropa de Elite mostra o aspirante Matias diagnosticando o problema de um menino do morro que tem dificuldades de acompanhar as aulas: trata-se de miopia, e o garoto precisa de óculos para continuar freqüentando a escola. A tentativa de ajudá-lo acaba custando a vida do também aspirante Neto, morto por traficantes quando vai entregar os óculos à ONG que tenta fazer alguma coisa pelos moradores da favela. De qualquer modo, Matias, que também é de origem humilde, mostrou a sensibilidade e até a sabedoria que muitas vezes são necessárias para identificar uma situação que não raro funciona como estigma, como veredicto. O normal seria atribuir o problema escolar do garoto a algo como uma "condição inferior", o mesmo raciocínio feito pelo cientista James Watson quando, há poucas semanas, declarou que os negros são congenitamente menos inteligentes do que os brancos. Mas isso é uma coisa injusta - e burra. Nas últimas décadas, tem-se mostrado que o atraso escolar, muitas vezes, está ligado a problemas psicológicos e até orgânicos. Não por outra razão a Organização Mundial da Saúde incluiu, em 1992, na Classificação Internacional de Doenças, os transtornos de aprendizagem, que incluem problemas com a leitura, com o raciocínio matemático e com a expressão escrita. A causa desses transtornos ainda não foi completamente esclarecida. Provavelmente, vários fatores, biológicos, psicológicos e sociais estão presentes. Como exemplo de fatores biológicos temos o déficit de audição - muitas crianças não aprendem porque não ouvem bem - e de visão, como mostrou o filme.


Um dos transtornos de aprendizagem mais comuns é aquele que ocorre em relação à leitura e à escrita: a dislexia, palavra que vem do grego dis - difícil, dificultoso - e lexis - palavra. O termo não é novo. Foi introduzido em 1887 pelo médico alemão Rudolf Berlin ao descrever o caso de um menino que tinha severa dificuldade com a leitura. Ou seja: o problema é conhecido há muito tempo (e é muito freqüente: estima-se que 15% da população mundial seja disléxica), mas isso não poupa disléxicos do sofrimento e da humilhação, coisa que a gente constata quando se lê sobre pessoas famosas que tinham o problema. O grande físico Albert Einstein só pôde ser alfabetizado após os nove anos: os professores consideravam-no "retardado". O mesmo aconteceu com Thomas Edison, o inventor do fonógrafo e da lâmpada elétrica, uma das grandes figuras da moderna tecnologia: tanto os professores quanto o pai rotulavam-no como "estúpido". Agatha Christie, grande escritora, lembra que era considerada como uma garota "devagar": "Ler e soletrar eram tarefas terrivelmente difíceis para mim". O ator Tom Cruise (Missão Impossível) tem, ainda hoje, tal dificuldade com a leitura. Ele decora seus textos para o cinema com a ajuda de uma fita gravada por uma fonoaudióloga. A lista poderia incluir ainda o grande naturalista Charles Darwin, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, Napoleão Bonaparte, Van Gogh, Pablo Picasso. Gente que tinha um problema sério e que deu a volta por cima. O que pode servir de consolo, e de modelo, para muitos de nós.


Zero Hora (RS) 17/11/2007

Zero Hora (RS), 17/11/2007