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Vamos comemorar!

 

Não é para ficar reclamando outra vez, não, mas a verdade é que, de modo geral, não tenho sentido em torno uma grande disposição para comemorações. Há a notável e exuberante exceção do presidente, que quase sempre se mostra risonho, bem-disposto, com ar festeiro, de bem com o mundo e confiante no futuro. Razões pessoais bem sabemos que ele tem para isso, já que agiríamos do mesmo jeito, se estivéssemos todos com a vida tão garantidinha quanto a dele, além disso ornada por vantagens legal e naturalmente decorrentes da posição a que galgou, sem que sobejos méritos lhe possam ser negados. E tem razões de ordem cívica também porque, embora eu raramente saia, não me inclua no fechado time dos “bem-informados” e seja visto com paciente condescendência por meus colegas que sabem das coisas, já me garantiram que, na sua (dele) opinião, ele está fazendo um excelente governo, tão excelente que há pouco o levou, num justo arroubo de entusiasmo, a proclamar algo que não escutávamos desde os bons tempos: “Ninguém segura este país!” Carecem de fundamento, contudo, os rumores de que o “Ame-o ou deixe-o” vai voltar - até porque dizem que quem pôde já deixou.


Se é o Homem quem pensa assim, não serei eu quem vai desmenti-lo. Mesmo porque não posso, pois me acometem crises angustiantes, sem saber direito o que está acontecendo ou em que acreditar. Expostos ao que sai nos jornais, aos noticiários e comentários da televisão, ao que se vê na rua e se ouve em conversas, acredito que pelo menos alguns compatriotas também partilhem dessa confusão. O spread das commodities do superávit secundário excede a projeção dos hedge funds atrelados às emissões corporativas asiáticas, combinadas com a performance errática da Nasdaq e duas observações feitas por Allan Greenspan da reunião anual do poderosíssimo Conselho Federativo dos Sete Grandes e Dezoito Médios, que faz com que a geada nas plantações de quivi da Nova Zelândia altere profundamente a pauta das negociações com a Comunidade Européia, com a conseqüência de que o mercado reagiu nervosamente e o preço da gasolina vai subir na bomba. Desculpem, comecei a escrever e quase não consegui que os dedos parassem de batucar besteiras em economês desconexo, esse negócio pega, é perigoso mexer com ele.


O fato é que o presidente parece felicíssimo e, se não entendemos o que nos é exaustivamente explicado, a culpa é de nossa burrice. E de uma lógica que nos deve ter sido mal ensinada na escola ou em casa. Ouvimos, por exemplo, que subiram gás, gasolina, álcool, telefone e energia elétrica. Em seguida, nos asseguram que não há inflação. Assistimos a arrastões em praias e calçadões do Rio de Janeiro e depois nos contam que não houve nada daquilo e que as estatísticas do crime estão melhorando bastante. Enfim, a realidade, que nunca foi assim tão de confiança quanto muitos sempre quiseram e continuam a querer, se torna cada vez mais esquiva. Pode haver até quem alegue - e a posição é teoricamente explorável em vários campos - que ela é uma questão de escolha. Não sou filósofo e não me aventuro por essas altas questões, mas estou disposto a aceitar a maneira de pensar mais conveniente para o país, ou seja, o governo, pois os dois cada dia se tornam mais a mesma coisa e discordar do governo, no ver de certos ocupantes seus, equivale mais ou menos a trair a pátria - outra bela característica do passado que pode ser trazida também de volta.


Os pilares do bem-estar do povo estão, por conseguinte, bem atendidos, o resto é com certeza catastrofismo. O amigo ou a amiga precisa de uma consulta médica, remédios e exames? Procure o posto de saúde ou hospital público mais próximo. Vá e leve a lei, como aconselham os programas de TV. Chegando lá, se não quiserem atender, mostre a lei, que eles metem logo o rabo entre as pernas e dão atendimento superior na hora. Educação? É só matricular os meninos na escola pública do bairro e ir dormir descansado. E, visitando, por exemplo, o Fundão, vocês poderão ser levados a crer que estão no Buraco Negro de Calcutá, mas não é, não. É uma das maiores universidades federais do Brasil e aquela aparência de cloaca é só para não ostentar riqueza diante dos favelados próximos. Por trás, está tudo estalando de novo e tanto estudantes quanto professores andam contentíssimos. Volta e meia tem até um assaltozinho, um estuprozinho ou uma desovazinha de cadáver, que é só para os estudantes não ficarem alienados demais e acharem que esta vida é apenas o mar de rosas em que exulta a maioria.


Preocupa-se o gentil leitor ou a formosa leitora com o desemprego, seu ou de algum familiar ou amigo? Má vontade outra vez. Procure o Disque-Emprego, pois deve haver um, e peça um dos dez milhões (não eram dez milhões?) criados logo no primeiro ano de governo. Disque, escolha e assuma, com essa preguiça é que não se chega a nada. Por acaso o aflige a fome? Pense primeiro em como nossos pais nos acostumaram mal com esse negócio de comer três vezes ao dia. E depois, antes de embeber esta página de jornal em café ralo e ingeri-la, faça melhor: vá àquela cidade nordestina a que o presidente compareceu logo depois da posse, para dizer que ninguém lá ia mais passar fome. Pois é, ninguém lá está mais passando fome, é só chegar, bater na porta de qualquer casa e filar a bóia, o nordestino é muito hospitaleiro, ainda mais naquela fartura toda.


Enfim, vamos deixar de lamúrias e comemorar. Botem seus coletes à prova de balas, enfiem seu capacetes de aço, entrem nos seus blindados e vão às ruas festejar! Para que é que vocês acham que proclamaram a República? Para emendar este domingo com um feriado, claro - é mole ou querem mais?


 


O Globo (Rio de Janeiro) 14/11/2004

O Globo (Rio de Janeiro), 14/11/2004