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Uma era Obama sem anticlímax

 

A nova Presidência americana ganha a sua credibilidade imediata, pela virada de página, de 76% da população no avanço da democracia pelo teste fundamental de respeito aos direitos humanos. O governo Bush levou a extremos o antagonismo entre segurança e fruição das liberdades impondo-se os receios e espantos da “civilização do medo”. E pode, no balanço quase patético de seu mandato, entender como o grande triunfo, o de não terem sido de novo os Estados Unidos expostos a um ataque terrorista, ou à derrubada de torres de Los Angeles ou Chicago. Sancionou também, como exigência desta preservação obsessiva, o direito à mentira internacional até a invasão do Iraque e a desestabilização política do Oriente Médio.


O novo secretário de Justiça de Obama, Holden, de logo proscreve a tortura como instrumento do Estado, das simulações de afogamento às exposições ao frio, e aos eletrochoques. E parte para a remoção de Guantánamo como marca deste opróbrio, de papel tão determinante no abate dos republicanos na última eleição. Vem de par com a proposta o se eliminar, de vez, a figura do “combatente inimigo”, pela qual os Estados Unidos descartaram as convenções básicas de Genebra, quanto à proteção dos prisioneiros; seu direito de comunicação e defesa. Levantaram-se os macabros pavilhões na península cubana, com seus 350 detidos até hoje sem saber de que os acusam, e mantidos em reclusão como se pestiferados à margem de toda vida de relação humana.


A abertura de Obama devolve o país à ordem pública internacional, tal como objeto das Declarações das Nações Unidas, desde 45. A sucessão dos governos republicanos acarretou o descarte do processo de crimes contra a humanidade e o enfraquecimento da Corte de Haia, desanimando a efetiva prevenção global do etnocídio ou do genocídio. E não é outra hoje a pressão, frente ao avanço desta consciência do nosso tempo, que poderá levar ao dossiê armênio ou à retomada das reivindicações curdas imprensadas nas fronteiras do Cáucaso, ao norte da Turquia.


Deparamos ao mesmo tempo, na Europa Ocidental, a manifestação de arrependimento do Ocidente ao tráfico de escravos, ao massacre de indígenas, justificadas durante séculos pelo álibi do progresso. No quadro das quedas do WTC explodiu, passado ao irracional, o terrorismo, a banir, de vez, a convivência na diferença. O símbolo de Obama freia, senão paralisa, essa escalada em que o fundamentalismo bushiano aceleraria um conflito, levado ao gládio entre a jihad e as cruzadas, saídas da Casa Branca, neste 20 de janeiro.


No atender à ânsia desta espera do novo, como mantê-la na sua pauta maior, frente às sobrecargas da crise econômico-financeira agravada? A liderança extraordinária de Obama não se pode ater só à força da verdade desta confissão. Emerge um anticlímax a reclamar símbolos peremptórios, mesmo não seja, como pedem as organizações de direitos humanos, a responsabilização de Bush pela Corte de Haia. A derrubada do muro ao longo do Rio Grande, entrando pelo Pacífico e barrando a imigração chicana, é já a marca irreversível de uma América saída da sua fortaleza, como a Europa das liberdades rompeu o Muro de Berlim.


Jornal do Brasil (RJ) 20/01/2009

Jornal do Brasil (RJ), 20/01/2009