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Presente de grego

 

É animador que Levy, ao comentar redução da meta de superávit primário, sublinhe que precisamos adotar a transparência

Depois de um longo sítio a Troia e anos de guerra, parecia que os gregos estavam se retirando. Foram embora e deixaram um imenso cavalo de madeira diante das muralhas da cidade. Os troianos acharam que era um presente, um prêmio ou oferenda. Levaram-no para dentro da cidade e ficaram até tarde festejando a vitória. Depois que foram dormir, exaustos, saíram guerreiros armados de dentro do cavalo. Dominaram as sentinelas e abriram os portões para que o restante do exército entrasse. Foi o fim de Troia. É essa a origem da expressão “presente de grego”. Uma oferenda que se revela uma armadilha.

Impossível não lembrar do episódio recentemente, quando a Grécia se viu no olho do furacão da crise econômica e o presente dos gregos estava na mão de credores. A fazer exigências e impor condições para uma ajuda que, longe de ser um presente, acarretava uma sujeição de seu futuro e uma punição por erros de seu passado recente — incluindo isenção de impostos para armadores milionários e propriedades em ilhas, gastos enormes com funcionalismo público, aposentadorias prematuras acima da capacidade de custeio dos cofres públicos. No debate levantado, acentuou-se que a solidariedade deveria falar mais alto que os frios números. Lembrou-se que toda a civilização ocidental é devedora do pensamento grego. Que esculturas gregas enchem os museus internacionais e lhes dão lucros. E que a Alemanha, quem mais endurecia em sua negativa agora, era justamente a grande beneficiada por uma ajuda internacional a fundo perdido no pós-guerra, por meio do Plano Marshall. Por outro lado, portugueses, espanhóis e irlandeses, que nos último anos vêm se sacrificando para se ajustar às condições impostas pelo credores, e mal começam a sair da crise, se sentiram injustiçados diante dos dois pesos e duas medidas, na ideia de que agora teriam de contribuir para aliviar a Grécia quando ninguém contribuíra para aliviá-los ainda outro dia.

No meio de toda essa situação, uma exigência dos credores me chamou muito a atenção. Ainda mais porque encontrou imensa resistência dos gregos durante meses: para concordar com o resgate, entre outras reformas, a troika queria que a Grécia criasse uma agência de estatística confiável. Não é um espanto imaginar que a terra de Euclides e Pitágoras, o país que ajudou a criar a matemática, não tinha números confiáveis? Costumamos ver essa carência e distorção nos dados do kirchnerismo, que variam ao sabor dos objetivos da propaganda oficial. Mas podemos nos orgulhar da seriedade do IBGE, que está completando 80 anos.

No entanto, os projetos de educação financeira nas escolas estão sempre patinando, sem conseguir sair do lugar. Há poucos anos, uma escola particular carioca criou experimentalmente um programa de fundamentos de economia mas teve de suspendê-lo. É que alguns pais se queixaram de que seus filhos virariam neoliberais, porque voltaram para casa falando em responsabilidade fiscal ou dizendo que governo não gera riqueza e só tem três meios de encher seus cofres: mais impostos, empréstimos que aumentam a dívida ou inflação. E se não se consegue produzir mais, para aumentar a base de cálculo dos impostos, só restam os caminhos perversos. O episódio confirma: não respeitar a lógica dos números também é coisa nossa.

Por isso, o Congresso se sente à vontade para prejudicar o país ao querer se vingar. E aumentar despesas, com o fim do fator previdenciário, a indexação de pensões e aposentadorias pelo salário-mínimo, o aumento salarial do Judiciário. E a presidente não tem vergonha de atribuir à Lava-Jato 1% da queda no PIB, sem calcular com a mesma exatidão o prejuízo causado pela corrupção e pela má gestão, ou por segurar preços administrados com fins eleitoreiros e dar subsídios setoriais aleatórios.

Diante disso, é animador que o ministro Joaquim Levy, em recente entrevista, ao comentar a redução da meta de superavit primário, sublinhe que precisamos adotar a transparência, cortar na carne e deixar de lado os números imaginários.

Estamos no pais do “nunca antes na história”, docemente mantido na ignorância em 12 anos de oba-oba gabola, contabilidade criativa e pedaladas fiscais, engambelado com a miragem da nova matriz econômica e outros truques que construíram o Cavalo de Troia da eficiência gestora. Do ventre desse presente de grego, que acabou caindo sobre quem o fez, irrompe agora o desafio de consertar os erros do passado. E surge a constatação da mentira que mostrava uma economia vitoriosa, nas mãos de uma gerente eficiente que acusava qualquer fiapo matemático e racional de ser rudimentar ou neoliberal.

Essa atitude do ministro é uma mudança e tanto. Saudemos o realismo. Se realmente aprendermos a desconfiar de números imaginários e exigir transparências, não apenas a corrupção será forçada a encolher drasticamente. Mas poderemos encarar de frente os males que nos afligem e manter a esperança de que venham dias melhores.

O Globo, 08/08/2015