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Preciosas e sem sentido

 

O craque Mbappé disse que coleciona carros antigos. O engraçado é que ele não dirige. Pois tenho duas coisas em comum com Mbappé. Também não dirijo e também tenho em casa coisas meio sem sentido. Algumas:

A primeiríssima edição de um dos meus romances favoritos, "A Guerra das Salamandras", de 1936, do tcheco Karel Capek. O problema é que é em tcheco e só consigo identificar o nome de Capek na capa. Tenho também duas baquetas de bateria. Uma, do Milton Banana, inventor da batida da bossa nova na bateria. Outra, do Lionel Hampton, que recolhi da pista do Maksoud Plaza, quando Hampton a deixou cair num daqueles malabarismos de baterista americano —ela rolou para debaixo da minha mesa e escondi-a no paletó. Detalhe: não toco bateria. Também não toco maracas nem castanholas, embora tenha um par de cada, assim como um lindo e antigo cornet, típico dos jazzistas dos anos 1920 —não confundir com o trumpet, o trompete do Louis Armstrong.

Tenho também uma coleção de cinzeiros de lugares clássicos. Um deles, do Algonquin Hotel, de Nova York, um dos últimos que eles mantiveram nos quartos antes de proibir o fumo no hotel, nos anos 70. Mas há muito ele só serve para decorar, porque eu próprio parei de fumar há décadas.

Tenho um protetor de orelhas, comprado num terrível inverno em Budapeste e bobamente trazido para o Rio. Um mata-borrão marchetado com uma paisagem do Rio, embora desde criança não use caneta-tinteiro. Uma TV de tubo, não sei a marca —Invictus?—, que pega bem até hoje, desde que com um Bombril na antena. E alguns relógios de mesa —herança de família, presente de amigos, comprado em antiquário etc. Como são octogenários, cada qual tem sua ideia particular quanto a hora a marcar, um sempre adiantado ou atrasado em relação ao outro.

Por mim, tudo bem. Somo ou diminuo o que eles marcam, tiro a média e fico sabendo as horas.

 

Folha de São Paulo, 24/02/2024