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O vermelho e o negro

 

Creio ter violentado uma das regras fundamentais do ofício que exerço por equívoco há mais de 60 anos. Equívoco meu e dos outros. Por vontade própria, jamais seria jornalista ou escritor. A soma de circunstâncias desfavoráveis é que me levou a ser o que sou.

Não se trata de uma desculpa, mas de um fato ou de fatos. Queria ser padre, não deu. Depois, qualquer coisa me serviria.

Só recusei mesmo foi uma oferta para ser bandeirinha de futebol. O resto seria lucro.

Esse introito é para pedir perdão ao leitor que reclamou do título que dei a uma crônica que, na semana retrasada, escrevi na página 2 da Folha. Mandou-me um e-mail e insistiu, dizendo que o título da mesma ("Ficha suja") nada tinha a ver com o texto.

Pequei porque fui na onda das tais fichas limpas, que supõem, por exclusão, a existência de fichas sujas.

Meu assunto era o Rio de Janeiro, muito louvado por suas belezas naturais, Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, Cidade Maravilhosa, mulheres também maravilhosas, jeito folgazão de seus habitantes, pedra que virou Pão de Açúcar -modéstia à parte, meus senhores, somos todos da Vila.

Essa seria a ficha limpíssima da cidade onde nasci, moro e tenho até o mausoléu da ABL para o caso de uma necessidade que sei  inevitável.

Essa seria a ficha limpa que me recusei a fazer por ociosa. Arrolei então o que seria uma ficha suja que contrastasse com os encantos mil do nosso hino oficial.

Falei da sujeira, da imundície que Luiz Edmundo, Aluísio Azevedo, Gastão Cruls e alguns viajantes estrangeiros aqui encontraram, sem falar no pessoal da corte de Dom João VI, que reclamava dos ratos e mosquitos que criavam epidemias, obrigando os navios que chegavam a quarentenas humilhantes.

Até um presidente da República morreu numa dessas pestes de que Osvaldo Cruz e Pereira Passos nos livraram.

Em termos de ficha suja, não haveria tribunal, Supremo ou não, que nos indicasse para qualquer função oficial ou política.

Confesso que, antes de dar o título àquela crônica, pensei em recorrer a Stendhal, apelando para o vermelho e negro ("Le Rouge et Le Noir") de um de seus romances, um dos maiores de todos os tempos.

Acontece que Stendhal lia todos os dias o Código Civil para melhorar o estilo e evitar redundâncias.

Se usasse o vermelho e o negro para acentuar as diferenças entre as fichas limpas e sujas, acredito que complicaria mais ainda o meu texto, pois, tal como no romance famoso, não há qualquer alusão ou metáfora sobre as cores rubro-negras que desgraçaram a vida de Julien Sorel.

De qualquer forma, admito ter cometido um erro condenado em todos os manuais de redação existentes no mundo. Quando se escreve para os jornais, a clareza vem acima de tudo. O pão é o pão, o queijo é o queijo. Se o leitor não entende um texto (ou um título), a culpa não é dele, é do autor.

Por isso mesmo, ao iniciar esta crônica, confessei que a minha escolha profissional foi um equívoco. No curso de humanidades que fiz no seminário, aprendi um lema que não deveria adotar no jornalismo. "Intelligentibus pauca": aos inteligentes, bastam poucas palavras.

O João Saldanha, que foi um excelente cronista, dizia que texto com mais de duas laudas era embromação, enchimento de linguiça.

Moisés deu-nos um decálogo de mandamentos. Mesmo assim, foi prolixo, proibindo o desejo pela mulher alheia em um mandamento (o nono) que é uma decorrência de outro (o sexto).

Entre Stendhal, João Saldanha e Moisés, fico mesmo com o leitor que não entendeu o meu texto. Lembro um aviso que havia nos bondes da Light and Power: "É proibido fumar nos três primeiros bancos".

Hoje é proibido fumar em qualquer tipo de banco. E, antes que algum leitor estranhe o "Light and Power", lembro que o carioca chamava a companhia dos bondes de "polvo canadense".

Eu pretendia escrever sobre a ficha do ministro Fernando Pimentel que está na berlinda.

Devemos respeitar sua vida pessoal. Se ele estuprasse freiras e degolasse criancinhas antes de ter cargo no governo, seria para dona Dilma portador de uma ficha limpa. Mais uma vez, temos o vermelho e o negro de Stendhal.

Folha de São Paulo, 30/12/2011