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O parafuso assassino

 

Os entendidos garantem que o avião é o meio mais seguro de transporte. Mesmo assim, tenho medo maior dos aeroportos do que dos aviões. Alguns deles são imensos shoppings onde há aviões à espera dos fregueses, como os táxis. Que geralmente não são seguros. Sempre que posso, vejo um programa na tevê sobre desastres aéreos. A cada acidente, com ou sem mortos, leio tudo nos jornais e revistas, incluindo os telejornais.

O caso que mais me impressionou foi de um avião que teve problema com um dos reatores, o aparelho ficou no ar, mas sacudia demais e ameaçava pegar fogo. O piloto decidiu pousar no aeroporto mais próximo e que só era usado em casos de emergência.

Vistoriado pelos técnicos locais, descobriram que um dos reatores estava trepidante e tão quente que podia destruir não somente a asa que o sustentava, mas o avião inteiro. O defeito foi rapidamente localizado, um dos parafusos que prendia o reator estava quebrado e precisava ser substituído. Acontece que no aeroporto não havia o parafuso, que era de fábrica, zero quilômetro.

No depósito de peças não havia parafuso no mesmo tamanho e um dos técnicos foi encarregado de comprar igual no mercado, que era modestíssimo.

Voltou com um parafuso, que logo foi colocado. O aparelho decolou, o reator caiu justamente quando o avião precisava de sua força total. Resultado: 148 mortos.

A perícia examinou os destroços, nem foi preciso procurar a caixa preta. O reator estava preso à fuselagem com um parafuso do mesmo tamanho, mas que não era de fábrica, tinha uma rosca a menos na espiral que devia prender a peça ao aparelho.

Um erro bobo no mais seguro meio de transporte. Por essa e outras, quando estou dentro de um avião, na hora da decolagem, embora ateu convicto, não esqueço de invocar o milagroso Santo Antônio.

Folha de São Paulo (RJ), 03/11/2015