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O nosso Kafka

 

Tivemo-lo. E, como era de se esperar, em Minas Gerais. Inclusive, por ser eminentemente mineiro e de lá pouco ter saído. Foi Murilo Rubião (1916-1991), grande contista de nossa literatura, hoje não muito presente nas notícias literárias do País. Nascido em Carmo de Minas, viveu a maior parte de seu tempo em Belo Horizonte. Desde seus primeiros textos viu-se que ele ia além da realidade. Surrealista? Sim, mas só até certo ponto. Simbolista? Sim, no caso de ser identificado, em cada passo de sua narrativa, uma segunda linguagem, simbólica, imanente em seus enredos.


O melhor exemplo de seu estilo está em "Os dragões e outros contos", livro de 1965. Tivera grande sucesso no de 1947, "O ex-mágico". Já no primeiro parágrafo do primeiro conto, apresentando os dragões, mostra Murilo Rubião a estranheza de sua narrativa: "Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso de nossos costumes. Receberam ensinamentos precários e a sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida pelas impertinentes discussões surgidas com a presença deles entre nós."


O autor acrescenta que o vigário da cidade, convencido de que os dragões haviam sido enviados pelo Demônio, mandou encerrá-los numa casa velha. O povo se benzia e rezava. Somente os meninos brincavam furtivamente com os estranhos hóspedes e acreditavam que eles eram nada mais nada menos do que dragões.


Os outros contos seguem linhas diferentes, mas sempre ligadas a uma concepção trágica de acontecimentos que poderiam ser comuns e, contudo, saem do normal e mostram mulheres, homens e crianças vivendo situações inesperadas, sempre num ápice da possibilidade normal de aceitar uma posição de amor tranqüilo entre as pessoas.


O viés surrealista nunca foi muito comum no Brasil, exceto durante o tempo em que buscávamos apenas imitar o estrangeiro. Jorge de Lima foi dos poucos, em seu "O anjo", a atingir, no gênero, um nível de qualidade literária acima do comum. Também Lígia Fagundes Telles, chegou, em muitos de seus contos, a mostrar exatamente o que se pode fazer com o uso de palavras que superem o seu significado normal.


A posição de Murilo Rubião é digna de atenção porque nele o salto além da linguagem e da emoção nela contida é, não só voluntariamente procurado em tudo o que escreveu, mas também compreendido como único modo de fazer literatura. Se o ligo a Kafka, não quero dizer que se assemelhem em tudo, mas apenas que Murilo Rubião deseja explicar o que somos através de pesadelos, de afastamentos e de faltas de entendimento entre uma pessoa e outra, de tal modo que disto surja um novo entendimento e um modo pelo menos diferente de ver a realidade.


Mesmo no conto "A flor de vidro", que é um poema de amor, o simbolismo geral das palavras leva a um fim de separação, de impossibilidade real de haver um entendimento completo e perfeito entre dois seres humanos, o que dá a impressão de que o surrealismo não consegue apresentar um espaço largo e claro que mostre a permanência do homem na terra como inteiramente positiva.

Por outro lado, mesmo no caso de Kafka, o surrealismo pode realçar a nossa capacidade real de compreender a vida como sujeita a toda e qualquer falta de sentido que exista, mas que nunca descobrimos.


Para Murilo Rubião, a realidade seria um plano em que vale tudo e não só os dragões de seu conto, mas também um coelhinho cinzento, um pirotécnico chamado Jacarias, um homem que é enforcado mais de uma vez, uma cidade inteiramente despovoada, o edifício que leva mais de cem anos para ser construído e que teria número ilimitado de andares, o nome que identifica uma pessoa e que pode ser trocado por outros, sem aviso prévio, o homem que morreu e não foi enterrado, onde estará?


Estranho e fascinante é o mundo surrealista de Murilo Rubião, que usa, para mostrá-lo, uma linguagem de certo modo simples, capaz de penetrar na reentrância das palavras e dar uma torcida inesperada na linguagem narrativa da história.


Seu livro tem, antes de cada história, um trecho da Bíblia, como se todo um mistério antigo continuasse, inamovível, no mundo de agora, com os enigmas e a sabedoria de antigamente. "Os dragões e outros contos", de Murilo Rubião, merece nova edição, bem como seus outros livros. A mais antiga é a das edições Movimento-Perspectiva. Capa de Mário Silésio.


Tribuna da Imprensa (RJ) 7/8/2007