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O mais cruel dos meses?

 

"Abril é o mais cruel dos meses". Você conhece este verso. Mesmo quem nunca leu "The Waste Land", o longo poema de T.S. Eliot, de 1922, em que ele surge glorioso na primeira linha, já o terá escutado alguma vez. E, assim como nossos poetas nunca chegaram a um acordo sobre como traduzir o título —"A Terra Inútil", "A Terra Desolada", "A Terra Devastada", "A Terra Árida", "A Terra Morta"—, também é incerto o significado do verso. Uma das teses é a de que, por ser o primeiro mês da primavera europeia, abril é cruel com quem ainda traz dentro de si os maus fígados do inverno.

Mas, enfim, abril é um mês cruel ou não? Depende. O 1º de abril de 1964, que teve seu aniversário de 60 anos vigorosamente descomemorado há dias, foi crudelíssimo para o Brasil e durou 21 anos. Em compensação, Portugal está celebrando o seu 25 de abril, que, em 1974, libertou-o de uma ditadura de 48 anos.

Qual abril foi bom ou mau para um país? Só a História sabe. Em abril de 1831, d. Pedro 1º abdicou do trono brasileiro e o deixou para seu filho de seis anos. Em abril de 1945, 20 mil soldados alemães se renderam à FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália. No de 1960, Brasília foi inaugurada. No de 1981, houve a bomba no Riocentro, no Rio.

Em abril nasceram os poetas Augusto dos Anjos (1884), Manuel Bandeira (1886) e Jorge de Lima (1893). Nasceram também Monteiro Lobato (1882), Pixinguinha (1897), Moreira da Silva (1902), Cacilda Becker (1922) e Cazuza (1958). E, para o bem ou para o mal, Getulio Vargas (1882) e Carlos Lacerda (1914). Em compensação, em abril morreram Tiradentes (executado em 1792), José Bonifácio (1838), a feminista Nisia Floresta (1885), Assis Chateaubriand (1968), Clara Nunes (1983) e Tancredo Neves (1985). Entre outros.

E, para complicar ainda mais a pergunta sobre a crueldade ou não de abril, foi nele, em 1500, que descobriram o Brasil.

Folha de São Paulo, 03/04/2024