Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > O cérebro é que decreta a morte

O cérebro é que decreta a morte

 

Um monte de jovens médicos e pesquisadores está chegando a uma conclusão que, se não vai alterar nem um pouco nossas vidas, vai mexer com o jeito com que saímos dela. Eles dizem que, em nosso corpo, é o cérebro que descobre e anuncia nossa morte. Com seu controle sobre tudo o que se passa em nosso organismo, o cérebro percebe que tal órgão de nosso corpo físico está mal, não está mais em condições de funcionar. O cérebro decreta então sua falência, não permite mais que uma gota de sangue inútil seja perdida ali. O órgão para de funcionar e com ele morre o resto do corpo.

Uma luz definitiva se acende na escuridão de nosso corpo, o ilumina e então partimos. Acabou-se. Não só gente, mas mundos acabam assim a todo instante. Mil anos atrás, inundações eram vistas como presságios apocalípticos. Hoje são apenas sinais da saúde do planeta, muito além de nosso poder de intervenção. Em uns 4 bilhões de anos a superfície da Terra deve derreter, o sol vai virar uma estrela vermelha e se expandirá até sugar tudo em volta, inclusive nosso planeta já todo machucado.

Segundo Octavia Butler, “a mudança é a única realidade inevitável do Universo, e o nosso destino será sempre o de tentar criar raízes entre as estrelas”. Seja em que circunstância for, o planeta vai portanto sempre sobreviver a nós.

Lendo o escritor John Green, entendi finalmente o sentido total do Antropoceno. O termo visa a designar a era geológica atual em que os seres humanos tentam, do jeito lá deles, remodelar o planeta e sua biodiversidade. Podemos um dia mudar tudo isso, quem sabe. Mas por enquanto é assim mesmo, não há nada a fazer.

Como todo mundo, choro pelas pessoas que morrem. Conforme envelheço, vou descobrindo que é por causa delas que sou apaixonado pelo mundo. Apaixonar-se pelo mundo é olhar para cima e sentir a mente flutuar diante da beleza das estrelas, decifrar seus segredos — como, por exemplo, a distância entre nós. Às vezes o peito dói e as lágrimas enchem meus olhos; preciso me afastar dos sentimentos, sabemos todos como o amor termina.

Sinto falta dos que podiam ter se manifestado antes de nós. Dos que viveram o Antropoceno desde o início, quando o Homo sapiens começou sua Revolução, a única que fez do mundo outra coisa. E ele podia ter sido mais outra coisa — naqueles séculos não havia tanta clareza entre o que éramos e o que queríamos ser.

Ficamos vidrados com o período Jurássico, que acabou há 145 milhões de anos. Mas ligados mesmo ficamos foi no Cretáceo, que acabou há 66 milhões de anos com a extinção em massa de 75% das espécies vegetais e animais, incluindo as espécies do que hoje chamamos, para facilitar o reconhecimento, de dinossauros. Agora a rapaziada diz que os dinossauros não eram assim tão grandes, que não passavam de “uns pássaros bem estranhos”.

Na China Antiga acreditava-se que os esqueletos de dinossauros encontrados, eram restos de dragões muito antigos, do tempo dos dragões. Em 1676 o osso de um deles foi tratado como parte dos restos de um personagem presente na Bíblia (e nomeado “Scrotum Humanum”, descrição aproximada do formato do pedaço de fêmur encontrado). A história é nova. A pré-história é mais nova ainda. E a paleontologia, então, nem se fala.

Segundo quem sabe, o peso de todos os seres humanos que estão por aí é de quase 400 milhões de toneladas. Essa é a biomassa da espécie. Já a biomassa das bactérias, com as quais lidamos diariamente, com ou sem consequências para nosso corpo, ela é 35 vezes maior que a soma de todos os animais existentes. Inclusive os seres humanos.

Para pôr em ordem todo esse pessoal, teríamos não só que ocupar o planeta como também pedir licença aos responsáveis pelo Universo para usar os cantos de onde vieram e por onde vivem. Ainda assim, a gentileza talvez não fosse suficiente.

O Globo, 01/10/2023