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Na linha de Erasmo

 

Eram tempos de mudança, aqueles. Como os de agora, ou talvez mais. Num dos pedaços de terra mais baixos dos Países Baixos, Roterdam, nascia Erasmo. Ano, o de 1446, apenas seis, depois da morte do português Infante Dom Henrique. O período africano conseguido sob o impulso henriquino, havia chegado à Serra Leoa, de modo que, em 66, muita gente já percebia, em quase toda a Europa, que a época era de Descobertas.


Durante os 70 anos que duraria a vida de Erasmo, o aparecimento do Continente americano no horizonte e o estabelecimento de um ligação durável com o Oriente surgiam como aspectos decisivos de um mundo em expansão, assim como a possibidade real de viagens interplanetárias pode parecer, a muitos de nós, a marca do momento em que vivemos. Junto com o espírito de aventura de então, havia também o da revolta. E o da contra-reforma.


Chama Johannes Huizinga a atenção para o fato de que, no século XVI, em que decorreu parte da vida últil de Erasmo, poderia este parecer uma figura fraca, se comparada com as violências espirituais e físicas, de que eram capazes homens como Lutero, Calvino e Santo Inácio de Loyola. É que o plano de Erasmo de Roterdam tinha o tom da tolerância. Da benevolência. E do humanismo.


Eram tempos de mudança e, neles, o humanismo se firmava no mesmo ritmo em que se desfazia. A hora em que tudo parece mudar é também a hora do radicalismo, e é próprio do humanismo ser anti-radical. O humor e a ironia são parte do espírito humanista. E humor e ironia não são atitudes admitidas pelo radicalismo, seja o de Lutero, o de Loyola, o dos inquisidores, o de Saint-Just ou o de políticos de qualquer grupo extremista de hoje.


O fanático será sempre um sério. No momento em que risse, teria conquistado a tolerância. E pode estar nisto uma das explicações para o espírito até certo ponto pacífico do brasileiro, que, dotado de humorismo, chega com facilidade à posição da indulgência.


Numa vida que se estendeu de 1446 a 1536, houve uma novidade que influiu poderosamente em Erasmo: a prensa, a máquina de imprimir, a possibilidade real de se reproduzir mecanicamente a letra que era poema, dissertação, história, argumento, elogio.


Filho bastardo, com a escolha do nome Erasmo de Roterdam foi como se chegasse a um acordo consigo mesmo. Passou então a escrever para a imprensa, para seu trabalho ser logo transformado em livro. E o impressor e editor Juan Froben deixaria seu ligado o do autor. Sacerdote da Ordem de Santo Agostinho, foi Erasmo um dos primeiros profissionais da nova era.


O título de seu livro famoso - "Elogio da loucura", "Moriae encomium" ou "Stulticiae laus" - ocorreu a Erasmo em 1509, quando ele deixava a Itália e passava, a cavalo, pela Suíça, a caminho da Inglaterra, onde seu amigo Thomas Morus o esperava. No meio da viagem começou a imaginar o mundo como lugar de uma loucura universal, onde só a loucura mandava, só ela exibia importância.


E essa loucura - "stulticia" - revelava tanta consciência de sua força que fazia seu próprio elogio. "Sem mim", proclama a Loucura, "o mundo não pode existir um instante sequer, pois tudo o que está no mundo não é feito por loucos e para loucos?". A argumentação da Loucura é irônica, humorística, mas também séria, já que seu humor aumenta com a seriedade.


A conclusão de suas palavras é a de que nenhuma convivência, nenhuma sociedade, nada, enfim, pode ser agradável e duradouro sem loucura, que ninguém toleraria ninguém se não se untassem as coisas e os atos "com um pouco do mel da loucura".


O estilo de Erasmo? Realista. Como convinha a um homem sem grandes arroubos. Alistava-se na classe dos tolerantes e benevolentes, que vêem com um sorriso as "stulticia" do mundo. Afastava-se de tudo o que fosse violento. Não gostava dos coros da tragédia grega. Lamentos e demonstrações de paixão o molestavam.


E estas palavras suas não deixam de ser um manifesto literário capaz de servir a escritores de hoje, quando também o realismo da sobriedade (ou a sobriedade do realismo) parece a muitos o melhor caminho estético possível: "as vaidades exageradas talvez agradem a outros; para mim, a principal preocupação é que as palavras saiam dos acontecimentos mesmos, de modo que o escritor se aplique mais a apresentar o acontecimento do que a mostrar sua imaginação".


Erasmo leva o ridículo todos os poderosos de seu tempo: bispos, cardeais, papas, condes e duques, príncipes e monarcas, zomba de cada um e de todos, revela duvidar, e muito, dos chamados sábios, diz: "os sábios são em número tão escasso que nem vale a pena falar deles e eu desejaria saber mesmo se é possível descobrir algum. No curso de tantos séculos, a Grécia se vangloria de ter produzido apenas sete sábios. É na verdade maravilhoso! O gênero humano deve muito a essa felicidade da Grécia. Foram mesmo sete?".


Erasmo transforma a Loucura em deusa, que diz ser a única divindade a não exigir templos nem orações, acrescentando: "todos os mortais são estátuas a mim dirigidas, imagens vivas de minha pessoa, mesmo contra a própria vontade. Consinto, pois, de bom grado, que os outros deuses tenham templos".


É importante que se leia, de vez em quando, "O elogio da loucura". Nele, mais do que em qualquer outro escrito, Desidério Erasmo de Roterdam se revela um escritor moderno. Porque eterno.


No meio daquela Europa que reformava todas as suas estruturas, deixou Erasmo um documento que vai além da sátira e nega vassalagem aos muitos caminhos que o cercaram, em busca de adesões. A edição de "Elogio da loucura", da Ediouro, é tradução de Paulo M. Oliveira.


 


Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro) 02/11/2004

Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), 02/11/2004