Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > Maus tempos aqueles

Maus tempos aqueles

 

Hoje o país cheira mal, é verdade, mas porque as vísceras estão expostas e não encobertas pela censura do governo militar

Num momento difícil como este, há os que olham para trás com nostalgia e acham que até tempos sem democracia eram melhores. Não eram não, eram piores. Hoje o país cheira mal, é verdade, mas porque as vísceras estão expostas e não encobertas pela censura do governo militar. Durante o sufoco político dos anos 70, por exemplo, o Teatro Casa Grande sofreu ameaças por abrigar debates culturais promovidos por um grupo do qual faziam parte nomes respeitáveis como Antonio Callado, Antônio Houaiss, Paulo Pontes, Darwin Brandão, Teresa Aragão, Ana Lucia Novaes, para só citar os que não estão mais aqui. Esta semana, intelectuais, artistas e jornalistas que passaram por lá deram depoimentos sobre Max Haus, cujo nome batizará o foyer do teatro que ele fundou, com Moysés Ajhaenblat, há 49 anos. Foram lembrados o medo e as dificuldades que quase inviabilizavam os encontros reunindo toda semana cerca de dois mil jovens, sentados em cadeiras e no chão. De um lado os censores; de outro, os telefonemas avisando que havia bombas na plateia.

Desse chamado Grupo Casa Grande, Teresa era a mais realista. Se alguém dizia que um dia as coisas iam melhorar, ela rebatia rindo: “É, mas entrementes a vida da gente vai passando”. O dramaturgo Paulo Pontes, que morreu de câncer aos 36 anos, era a melhor cabeça política. Foi o pensador que com clareza entendeu a complexidade do momento que vivíamos. Quando nem se falava em distensão, ele já antecipava: “A abertura é inevitável. O capitalismo agora precisa de um Estado mais aberto”. Darwin Brandão, que teve a ideia dos debates, era quem mais articulava. Com contatos em embaixadas, conseguiu tirar do país vários perseguidos políticos. Estava sempre convocando: “Precisamos fazer alguma coisa” por fulano incomunicável, pelo sindicato, pela ABI, pelo filme tal interditado. A brincadeira era: “Darwin, precisamos fazer alguma coisa pela Elizabeth Taylor, que se separou”.

Foram ciclos memoráveis por revelar ao público carioca personagens como dois emergentes: um sociólogo chamado Fernando Henrique Cardoso, que fez sucesso com as meninas pelo que dizia, mas também pelo charme que exibia. E um líder operário do ABC paulista, um certo Lula, que atropelava a concordância, mas tinha uma visão original do país. Foi muito aplaudido, mesmo quando falava mal dos intelectuais. O professor cassado da USP e o torneiro mecânico expunham ideias tão parecidas sobre democracia que as pessoas suspiravam: “Ah, se um dia o país fosse entregue a esses dois!”. Era uma utopia, mas como a ditadura permitia muito pouco além de sonhar, sonhávamos.

Pensando bem, é provável mesmo que o país hoje fosse melhor se os dois tivessem se aliado entre si e não com quem se aliaram para governar.

 

O Globo, 08/08/2015