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A loucura de cada um

 

O estado esquizofrênico, mais comum do que parece, mereceu de Elza Pádua um estudo que discute o problema da esquizofrenia social como diferente, ou não, da pessoal, tendo sido ela quem usou, pela primeira vez, em seu trabalho de doutorado, a expressão "esquizofrenia social". Talvez seu mestrado anterior em Comunicação Social haja influído em sua percepção de que, na família e na memória de um tempo, inclusive na memória de uma literatura milenar e na de uma escrita de grande influência mais recente, que foi resumida na palavra "mídia", o caso é normal.


Como exemplo do testemunho literário do mal, cita Elza Pádua a peça "O pato selvagem", de Henrik Ibsen (1828-1906), como texto que chega mais perto da realidade humana do que uma investigação psicológica normal. Em "O pato selvagem", nas palavras de Elza Pádua, Ibsen explora o mundo da família Ekdals, que levava uma existência pacífica e tranqüila até a chegada de um jovem, quando passa a se ver fragmentada e destruída em nome da verdade.


A intuição de alguns escritores, em análises que abrem caminhos, tem sido responsável por muitas pesquisas e estudos que levaram inovadores como Freud a mudar o que pensávamos sobre nós mesmos. Analisando a peça de Ibsen, diz Elza Pádua: "A verdade desempenha um papel devastador em `O pato selvagem'. Escrito no final do século XIX, mostra-nos claramente a dicotomia das falas no interior de uma família, na qual o que se fala, vê e ouve, não é correlato com a realidade".


A memória de uma família, a memória de uma infância, a memória histórica do país em que se vive, a memória mesma da história universal, tudo pode influir na formação de uma grande memória pessoal, possível causadora de uma esquizofrenia.


A presença da literatura na criação de uma idéia geral de que tudo é mágico (chamei há pouco, num artigo sobre Jorge Amado, que seu romance "O sumiço da santa" pode ser considerado uma "farsa mágica) ajuda a que se avalie um estado normal de esquizofrenia. E de que maneira se poderia classificar a obra de Franz Kafka (1883-1924) com o seu "O processo" e seu homem virando um inseto? Na linha de uma loucura que, ao contrário, tenha uma estranha lucidez?


A sabedoria de Elza Pádua, em "Esquizofrenia social", se revela de modo muito evidente na escolha de "O alienista", de Machado de Assis, para pontuar seu livro, usando em toda mudança de capítulo, um trecho machadiano que chama a atenção para o ritmo esquizofrênico-literário do estudo.


Começa com estas palavras de Machado: "Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele, em Itaguaí". Ou com esta frase do próprio alienista: "A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente". Ou esta confissão: "O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos loucos no mundo". E esta conclusão: "... se tanto homens em quem supomos juízos são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?"


Essas frases de Machado esvoaçando sobre o texto dão uma enorme força aos argumentos da analista, cuja frase final representa o livro: "Iniciei este trabalho acreditando que a esquizofrenia social...era uma patologia das sociedades... com causas e efeitos bem determinados. Termino convencida de que ela é a loucura da normalidade".


Tribuna da Imprensa (RJ) 20/3/2007