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Jornalismo e literatura

 

Há mais de meio século escrevi uma série de artigos sobre um tema que me apaixonava: Jornalismo e Literatura. Trabalhava eu, naquele tempo, em jornal, onde cheguei a fazer de tudo: editorial, crítica literária, crítica de teatro e de cinema, crônica, reportagem, inquéritos, coluna social, cobertura de futebol (fiz artigos diários no decorrer da Copa de 50) e até um consultório sentimental.


Vários de meus colegas na época menosprezavam o jornalismo, desejosos que estavam de fazer exclusivamente literatura. Insisti com eles em que faziam, sim, literatura em jornal. Defini então jornalismo como sendo "literatura sob pressão". Pressão dupla, isto é, pressão do tempo e pressão do espaço.


O texto precisava ser feito obedecendo a tempo determinado: tinha de sair amanhã ou depois ou em data próxima. E era destinado também a um espaço limitado. A matéria, em duas ou três laudas, iria ocupar um espaço de tamanho em geral reduzido.


Publicados em livro no começo de 1955, os ensaios de "Jornalismo e literatura" foram adotados em cursos de jornalismo no Brasil e em Portugal. Em aulas e conferências que fiz depois na Universidade de Colúmbia em Nova York - e na de Essex, Inglaterra - voltei sempre ao assunto, mostrando exemplos no jornalismo desses países. Assim, destaquei o livro "Hiroshima", de John Hersey, "best-seller" de então, como exemplo maior da literatura americana feita em jornal.


É com alegria que vejo agora um livro brasileiro em que se juntam, adequadamente, as boas características desses dois setores da escrita geral de hoje. É "Tempo diferente", de Murilo Melo Filho. O livro relata, em estilo claro e direto, a história política brasileira do século XX, bem como também a história literária e a da atividade jornalística no País.


Para erguer esse painel lançou Murilo mão da análise de 20 figuras paradigmáticas de nossa vida como país para nos mostrar como somos e como poderemos vir a ser. Essas figuras são Assis Chateaubriand, Augusto Frederico Schmidt, Austregésilo de Athayde, Café Filho, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Lacerda, Carlos Castelo Branco, Celso Furtado, Evandro Lins e Silva, Getúlio Vargas, Guimarães Rosa, Jânio Quadros, Jorge Amado, José Lins do Rego, Juscelino Kubitschek, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, Raymundo Faoro e Roberto Marinho.


De cada uma dessas figuras ficará, daqui para a frente, um retrato de corpo inteiro, numa série de avaliações que passam a compor a história do Brasil mais recente, com os acontecimentos que todos vivemos agora mostrados nos seus verdadeiros contornos, esclarecendo detalhes, analisando brasileiros em várias ocasiões difíceis do país, com as decisões que tomaram e os resultados imediatos e longínquos de suas atitudes. Muitos dos capítulos do livro de Murilo Melo Filho têm a força de contos bem narrados, na junção adequada e íntima de trechos de nossa história transformados em literatura.


O capítulo dedicado a Getúlio Vargas, por exemplo, tendo sido o mais traumatizante de nossa história, aparece no livro, com o destino shakespeariano do personagem historiado a partir da guerra entre estudantes gaúchos e paulistas em Ouro Preto, quando foi morto o paulista Carlos Almeida Prado e Getúlio, então com 17 anos, portanto menor, assumiu a culpa do tiro que teria sido obra de seu irmão Protásio.


Desse início até a tragédia final do Catete, também shakespeariana, a descrição de Murilo Melo Filho é precisa, num exemplo de boa literatura narrativa. Já no seu capítulo dedicado a Jânio Quadros, o tom é tragicômico, num vai-e-vem natural ao estilo janista, que agia como um ator que não sabia o texto da peça e que acabou por abandoná-la no primeiro ato.


Dos capítulos essencialmente literários, destaca-se no livro de Murilo o que se refere a João Guimarães Rosa onde, sob o título de "Guimarães Rosa e o idioma inventado", apresenta um bom estudo sobre a revolução vocabular e estilística do criador de Riobaldo e Diadorim.


No capítulo em que fala de Carlos Drummond de Andrade, reproduz os aforismos do poeta só publicados postumamente em seu "O avesso das coisas", em que há frases assim: "Só os velhos entendem do amor, que não os entende" - "A poesia não é propriedade de ninguém, porque é de todos" - "Se o Inferno existe, este mundo deve ser o seu vestibular".


Todos os que conhecemos Carlos Lacerda, podemos reconhecê-lo nas páginas que Murilo Melo Filho a ele dedica em "Tempo diferente". Lá está o homem público de inesperadas reações, grande jornalista e escritor (deixou um ótimo livro de contos "Xanan"), político e administrador (foi o melhor dirigente que o Rio de Janeiro teve), orador como o Brasil teve poucos, que dominou a televisão brasileira então em seu início e que aparece, em "Tempo diferente", inclusive, na avaliação de dois momentos decisivos da época: o da briga Jânio-Lacerda no Palácio do Planalto e o da morte do major Vaz na Rua Toneleros, acontecimentos que aumentaram a confusão geral em que o País se achava.


"Tempo diferente" é livro de leitura obrigatória. Nele estão expostos incidentes dos últimos 75 anos de vida brasileira (a partir da Revolução de 1930), numa linguagem que é ao mesmo tempo a de um escritor e de um jornalista. Edição da Academia Brasileira de Letras e da Topbooks, "orelhas" de Arnaldo Niskier e Tarcísio Padilha, quarta de capa de Candido Mendes de Almeida, Prefácio de Villas-Bôas Corrêa, capa de Adriana Moreira.




Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro) 04/10/2005

Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), 04/10/2005