Alguns descontos até fazem sentido, por exemplo, R$ 5 bilhões por ano, R$ 30 bilhões no total, aprovados pelo Congresso para as Forças Armadas. Esse montante não estava na previsão do governo, que sequer concordava com esse acréscimo, mas o Congresso aprovou e mandou pagar. Em uma entrevista que me concedeu na GloboNews, perguntei ao ministro da Defesa, José Múcio, sobre qual seria o destino do dinheiro, e ele disse que não seria para custeio, mas para investimento, o que é uma boa notícia, pois de fato é preciso haver investimento nas Forças Armadas e na defesa.
O argumento do governo é que houve outros gastos inesperados. A tarifa de importação imposta pelo governo Donald Trump exigiu um esforço fiscal do governo para apoiar os setores mais atingidos. Mas sempre vai ter uma emergência, e a ideia de fazer um arcabouço e acrescentar exceções, descontos, é ruim. O fato é que um déficit de 0,48% do PIB é pequeno, menor do que o dos governos anteriores, como diz sempre o ministro Fernando Haddad.
A dívida pública é um problema que o país precisa enfrentar. Todos nós, brasileiros, somos credores. Por isso, é importante que ela seja sustentável. Esse é um ponto recorrentemente abordado pelos economistas. A dívida pública cresceu 18%, em termos nominais, em 2025, como divulgou o Tesouro Nacional. Mas, quando se faz comparações, como dizer que é o maior valor desde a pandemia, sem considerar o impacto dos juros, isso leva a uma análise equivocada.
Os juros estão em 15% ao ano, e isso aumenta, e muito, a dívida. O governo anterior começou com a Selic em 6,5%; o ciclo de queda dos juros foi iniciado no governo Michel Temer e, justamente devido à pandemia, a taxa caiu a 2%. A Selic a 2% correspondia a juros reais negativos. Por isso, comparar o aumento da dívida agora e afirmar que foi maior do que na pandemia distorce a realidade.
Obviamente, não se pode baixar os juros apenas para evitar o aumento da dívida. É preciso primeiro equilibrar as contas para derrubar a inflação e, então, reduzir a taxa de juros. Essa é a ordem dos eventos. E é isso que o Banco Central tem feito.
Essa equação fiscal do governo é complexa, tem que ser entendida nos detalhes e sem viés. Há um viés de achar que o governo de esquerda gasta demais, e o governo de direita não gasta. Não é verdade.
Todo mundo gasta muito no Brasil. A direita também nunca cumpriu o déficit, deixou crescer, aumentou o gasto em ano eleitoral. E isto foi feito tanto pela direita quanto pela extrema direita. Agora, de qualquer modo, não temos um problema porque, se você somar o déficit de 2024 e 2025 sem dedução, dá R$ 105 bilhões em dois anos. É um déficit expressivo e que vai direto para a dívida.