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Chávez e o obsceno desejo de poder

 

A chegada de Lula a um patamar de 80% de popularidade, em meios do segundo governo, mostra as surpresas, ou as desleituras do avanço de um regime genuinamente democrático. Independente do PT, nas desgraças do mensalão, ou da emergência de um aparelho no situacionismo, o sucesso do Planalto aponta mais que a um momento, ou a uma lua-de-mel política, a uma convicção cívica e à consciência da nossa mudança.


O "povo de Lula" comanda esse procênio e, inclusive, teria aprovado um terceiro mandato, levantasse o presidente qualquer mínimo polegar de concordância. Optou por vincular a sua biografia, seus valores, ao trunfo único de uma maturidade institucional brasileira. Não concebe a proposta, nem mesmo a sua tentação no sulco novo das vigências democráticas em que marchamos no mundo pós-Obama a uma incontestável liderança internacional.


Nosso cenário, mais que o da América Latina, é o dos Brics, os novos colossos países continentais voltados para o seu mercado interno, empenhados no acesso social mais que na melhoria do salário, e ciosos de sua identidade. Formalmente democráticos entre os novos gigantes, só nós e a Índia. Mas a China pode ironizar o seu vizinho asiático salientando que um funcionamento do regime das liberdades não lhe permitiu terminar com os párias. O governo convive explicitamente com os excluídos, a conformar-se, até religiosamente, com esta fatalidade.


O destaque brasileiro mais avulta nessas bandas do mundo, diante do grotesco passado ao patético da obsessão de Chávez, de tornar-se um presidente eterno na Venezuela. Não lhe bastou a derrota do propósito em plebiscito há meses atrás, nem as eleições estaduais quando perdeu nos estados mais adiantados e no Distrito Federal, todos a eleger governadores da oposição.


Diante do obsceno desejo de poder, já desvirtua, sem cerimônia, o aparelho legal para permitir novo referendo, com que acordou, súcuba, a sua maioria no Congresso. Não lhe adiantará agora a trégua com Obama, para prosperar na intentona. Quer este resultado o quanto antes, mantendo o seu populismo com o aguilhão de engodos na praça, a desmoralizar de vez a viabilidade na América andina de um sonho de uma esquerda para a mudança. O requinte vem agora no fechamento de shoppings em Caracas, como o Bezerra de Ouro, que possa açular o desejo consumista do povo, que deve passar, de imediato, da pobreza radical à ascese socialista.


E só se extrema, na mirada das lideranças históricas, seu contraste com o Brasil do acesso social, do repúdio aos populismos obsoletos, a saber que o Lula lá de volta, não se eterniza para ser o Lula, sempre, do país da mudança.


Jornal do Brasil (RJ) 24/12/2008

Jornal do Brasil (RJ), 24/12/2008