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Banksy, Bosch, travessias

 

Mal saía da Galeria da Academia de Veneza. As imagens de Bosch nas retinas doíam, me arranhavam os olhos. O peito rasgado. Ratos, morcegos, inferno, anjos com asas negras, noite pictórica fechada. Escuridão quase total na tela do artista, assustador, pura arte, beleza machucada. A tontura, o enjoo, a depressão, a angústia e a pergunta - vamos todos para o inferno? – foram interrompidas por um rosto maquiado. Um artista de rua imitava o personagem do filme Coringa, de Todd Phillips, premiado em 2019, ao lado de um grafite de Banksy na parede de uma grande mansão com varanda debruçada sobre o canal, perto da Universidade Ca’ Foscari. Meu fôlego suspenso.

O coringa dava beijos no rosto do menino migrante segurando o sinalizador marítimo. A chama iluminava a maquiagem do artista de rua, o pó-de-arroz e o batom exagerado realçavam a luz do rapazinho. Eu também precisava de luz. O gesto, as formas e o discurso me trouxeram alguma luminosidade. Quem era o menino imigrante?

O coringa tirou um pergaminho do bolso, desenrolou, leu em voz alta, algo conspurco.

- Uma maioria silenciosa aqui na Europa apoia clandestinamente a vinda de imigrantes. Homens e mulheres serão tratados como semi-escravizados nas casas, pequenos comércios e pequenas indústrias. Esse é o pacto diabólico. Os “passeurs “no território africano, nova máfia do tráfico humano, fazem a festa mancomunados com receptadores europeus de gente. Estabelece-se, assim, novo modelo de escravidão, que nem sempre dá certo. Claro, o recrutador enche o barco demais, a clandestinidade é às vezes desvelada, punida, o emprego prometido não funcionou e por aí vai.

Nessa hora senti o menino migrante me olhar, intenso. Tremi. Tudo aquilo era verdade ou foram as telas do Bosch a me enlouquecer pela beleza e pela amargura?

- A ajuda humanitária para a África, compradora de bons sentimentos nas almas europeias, vai acabando, continuou o coringa num italiano impecável. A farsa termina. Era tudo brincadeirinha, continuou.

-A luta pelo bem-estar da sociedade europeia passa por voltar a ter semi-escravos, é isso? Perguntou o menino da parede me encarando.

Estremeci. O que eu podia responder? Dor de cabeça lancinante turvou-me os olhos e o desenho do Banksy. O garoto me apontou o sinalizador, sorria ou chorava? Ele se mexeu no granito, o desenho se movia, nervoso, queria brincar? Correr? Comer? Se vestir? Pois não tinha chegado ao que lhe diziam ser o paraíso?

Não, querido, você é só um desenho, fica aí bonitinho, pensei em dizer.

Lembrei dos estudos sobre arte no Museu do Mar, no Rio. O artista Banksy provoca prazer no sofrimento, é a arte. Ao mesmo tempo faz desaparecer esse tormento. Irrompe assim o drama, irrompe assim a arte.

O rapazinho de rosto trigueiro acionou o mecanismo de análise da perversa geo-política mundial e Banksy e Bosch me devolveram a noção de arte.

O tiroteio na favela da Maré no Rio de Janeiro, o uber parado há duas horas, me permitiram relembrar, escrever e refletir. Notei que o motorista também estava com a maquiagem do coringa, o batom excessivo, o pó-de-arroz suado. Eu sonhava? Cheguei ao Campus do Fundão da UFRJ arremessado de um barco lotado perto da ilha de Lampedusa. Pensei ver o menino de Veneza atravessando a pista em frente ao Centro de Ciências da Saúde. Mas não, era um aluno do oitavo período que correu para me dar um abraço.

Facebook/ Redes Sociais, 26/11/2023