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Mestre de todos nós

MESTRE DE TODOS NÓS

Sempre foi o mestre de todos nós. Ali estava ele sempre, em qualquer parte do Brasil, fecundando a nação com sua presença. Bastava estender-lhe a mão, dizer-lhe que o mundo era naturalmente complexo, de difícil tradução, requeria a palavra de um sábio para nos acercarmos dele, para que Houaiss sorrisse comprazido, como que em concordância com tais palavras.

A partir de então, ele dava início a seu modo peculiar de explicar aspectos vários da realidade. Não nos chegava exatamente soberbo, antes dava voltas, criava círculos, rodamoinhos, esferas, até chegar ao epicentro, onde se concentravam as fascinantes respostas. Afinal, havia tanto que dizer. De que outro modo ir ao miolo, à essência das coisas, senão contornando-as, abordando-as com cautela, precavido, preparando o anzol com o qual atrair o peixe vivo e prateado da resposta.

Só após esgotar tantos e outros recursos, Houaiss acrescentava que, se tempo houvera, muito mais teríamos a ouvir de seu saber. Como que ciente de que a realidade dos homens, tendo gosto em camuflar a enigmática verdade, tinha ele como persegui-la. Para tal tertúlia, quem sabe nos senta- ríamos no Bar Vilarino, perto da Academia, bem na esquina, onde conversaríamos longamente. Para ele havia que entremear as verdades tidas como celestiais com aquelas originárias de um cotidiano regulado pela repetição, mas cheio de encantos. Pois que Houaiss não temia ser simples e complexo ao mesmo tempo. Entendia os sistemas solar, matemático, verbal, assim como o dia-a-dia desgovernado, apaixonado, sem respostas opulentas.

Era essencialmente solidário com a vida. Queria-a esplêndida para todos. Uma generosidade refletida em seu olhar, quando nos fitava, registrada em suas atitudes pessoais, políticas, ao longo de sua esplêndida e coerente biografia. Quantas vezes me contemplou com um olhar benigno, compreensivo. Como se estivesse sendo, naquele instante, um dos meus espelhos. E eu lhe sorria, desfrutando do orgulho que ele me inspirava. Sentia-me maior do que sou, reconhecendo e aplaudindo sua grandeza. Ele, para mim, ajudava-me a sintetizar um Brasil que eu amava e queria à força preservar. Como se eu, com meu modesto dom de mortal, pudesse imortalizá-lo. Impedir que ele, já bem doente, se fosse, nos deixasse sozinhos nestas trevas brasileiras que parecem agora dificultar nossos passos.

Acaso convém mencionar sua sabedoria, seu enciclopédico saber, as obras que realizou, o seu legado? Mais bem prefiro recordá-lo ao falar-me, seguidas vezes, de sua mãe ou de Ruth, a quem tanto amava. Nascera com a vocação de amar as mulheres. Talvez as amasse com o olhar levantino e complacente, mas que importa? A verdade é que esse apreço pelo feminino, estendia-se à humanidade e ensinou-lhe a arte da galanteria, que tem dimensão moral. Daí agir com apurada elegância, acreditar profundamente na força da polidez, como forma de congregar os homens, de aparar as diferenças, de valorizar o uso da palavra. A palavra, que era seu território sagrado, podia golpear, mutilar, ferir, mas também expressava sentimentos, forjava universos, era imperativa legitimando a condição humana.

Falava-me da mãe com intensa doçura. Tinha a memória impregnada pelos seus feitos amorosos. De tanto amar o filho, essa árabe audaz, que veio ancorar no Brasil, pavimentou-lhe o futuro com afetos, prazeres, intensas fruições. Tudo, enfim, que a vida mais tarde consolidou. Foi essa mãe ainda, tão devotada, que o levava para a cozinha, não querendo de modo algum deixar o caçula na sala, imerso nas sombras da solidão. E porque ela atuou assim, desde muito cedo o menino Antônio pôde sentir os aromas que emanavam das panelas, ingressou nos mistérios das especiarias, nos detalhes que transformam um simples alimento em repasto nobre. E entendeu, para sempre, que o convívio fraterno iniciava-se em meio às chamas do fogão.

Custa-me agora crer que não o verei mais, quando regresse a esta Casa. A ninguém mais indagarei de Houaiss, como se encontra ele. Temos sofrido tantas perdas! A memória já nos ameaça com seu conteúdo abrasador. Domina-nos cada vez mais. Que saudades, Antônio Houaiss. Grande brasileiro, amigo, intelectual, ilustre membro da Academia Brasileira de Letras, de que foi Presidente, homem público, renascentista.

Um ser irrepreensivelmente civilizado. Descanse em paz.

Acadêmico relacionado : 
Nélida Piñon