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Discurso de posse

Muitas vezes confessei que sou brasileira recente. Minha família, no Brasil, é mais jovem que as palmeiras imperiais do Jardim Botânico. Carrego comigo a sensação de haver, eu mesma, desembarcado na Praça Mauá, no início do século, no lugar dos meus avós, em busca da aventura brasileira, a única saga que ainda hoje estremece meu coração.

Temo, muitas vezes, haver chegado ao Brasil com irreparável atraso, não podendo, por isso, contar com uma memória familiar que me permita ir, com a frequência desejada, ao nódulo da nossa História e conhecer seus recônditos segredos, bater à porta do nosso advento e recolher os fios de ouro da narrativa brasileira, ali embaralhados para sempre.
 
Ninguém do meu sangue me legou a certeza de haver abalado os fundamentos constitutivos da formação do Brasil. Ou me cobrou, por meio dessa referida memória, o irrenunciável dever de traçar o País para que seu passado não se esvaísse em vão. Ou me imprimiu a marca da legitimidade, de modo que meus sonhos fossem hoje o eco dos devaneios de outros brasileiros vencidos pela desilusão.
 
Trago, pois, na imaginação, vestígios de uma viagem que não fiz – com meu corpo – e o gosto do sal inerente à travessia atlântica. Trago, sim, comigo, junto à atração pelo novo, as hesitações típicas de quem penetra um país pela primeira vez e desconhece os costumes locais implantados há mais de quatrocentos anos.

Graças, no entanto, a essa inexperiência e à curiosidade sempre incensada por um país que olho com paixão, que a vida não arrefece e os dias renovam na pira do cotidiano, respondo por encargos e sortilégios provenientes, muitos deles, dos sentimentos que habitaram meus avós, Amada e Daniel, e meu pai, Lino. Todos eles originários de uma Galícia povoada de lendas e de seres ansiosos por partir para longe e marcados, ao mesmo tempo, pelo instinto da volta à terra, por cujas montanhas circulavam os fantasmas dos celtas, esses indomáveis desbravadores do imaginário.
 
Não sei a que intriga e ardil do destino meus familiares obedeceram quando apontaram no mapa de suas aldeias o desenho febril e exaltado do Brasil.
 
Afinal, cada homem viaja em busca de uma estrela que recebe o nome caro aos seus sentimentos. E traz às costas a sacola da ilusão e da intranquilidade. Escassos pertences que aquecem a vida e norteiam os rumos. E habilitam-nos ainda a dar o passo inicial nesta interminável errância pela terra. Para que, assim, sem reservas e temores, abandonemos os recursos que a própria vida se encarrega de substituir. E não é ela, esta carne inquieta, este coração de corça e touro que nos compra o amor, o instinto, a coragem, a traição? E irriga ainda nossas veias com o sangue da aventura?

Foram, pois, esses seres galegos, amorosamente acomodados à realidade brasileira, que me ofertaram um país de presente. Concederam-me os sentimentos iniciais de Pátria – esse conjunto de aspirações, de amargas e de frustradas coincidências. Esse território dos suspiros travados, de um Finisterra além do qual existem o abismo e o degredo. Sobretudo, entregaram-me eles a majestade de uma língua que inaugurou a minha humanidade.
 
Não sei que mestre, que mágico, que mãe misericordiosa, que amor desfeito na aluvião das montanhas me transmitiram a caprichosa convicção de que a palavra, espúria e nômade, tinha o dom de costurar todos os sentimentos. E que a palavra ainda, associada à história secreta das nações e ao enredo indevassável do destino humano, se tornava a única chave com que forçar a porta do mundo, lacrada com cera e enigmas.
 
Arrasto comigo seres arcaicos e memórias coercivas. A caravela que navega no meu imaginário, como herança, insiste em que levantemos as velas. O vento que assopra conduz-nos pelas grotas de geografia indômita, vistoria palavras e sentimentos cravados no peito alheio. Espinhos de uma roseira que pende sob o fardo de juras e queixumes solitários. O Brasil, saído dessa fornalha, alimenta a fome verbal de seus filhos.

Desde a infância, o mundo pareceu-me encantatório e perturbador. De início, colhi-o no regaço da casa e da própria fantasia. Depois, a realidade me veio por meio dos escritores e ainda de ilustres anônimos, todos criaturas de despudorado alento, que me fizeram crer nos mais intrincados enredos. E que, por falarem, uns e outros, a língua dos homens, haviam presenciado a vida passar. Tanto os escritores quanto esses rapsodos tinham a vantagem de se esfumar, tão cedo se lhes esgotava o ciclo narrativo. Logo, em seus lugares, vinham outros, com igual mérito para escrever e contar. De forma que essas histórias, oriundas de bocas famintas e maliciosas, pudessem reproduzir-se sem interrupções.

Aprendi, então, que, para tal registro não se perder nas noites clandestinas, devíamos – tripulantes desta caravela – exceder-nos no próprio ofício de narrar. Sem reclamar, contudo, verdades ou certezas, uma vez que as palavras procediam comumente do forno da mentira. E mister fazia-se roubar nacos da existência vizinha, de pecado mais fornido que o nosso.

Não, a realidade não era o que eu via ou o que se deixava tocar. Seu arcabouço, muito além do previsto, tinha como substância a nossa história conjugada a outras tantas histórias produzidas ao mesmo tempo por todos os vizinhos do mundo.

Mas foi na Língua Portuguesa que encontrei pouso e graça. Sobre ela debruçada cada manhã, ungida pelo seu exigente desafio, professei-lhe sempre intransigente amor. No livro A Força do Destino, de 1978, ao invectivar Leonora e Álvaro, personagens recalcitrantes, a acatarem o modelo narrativo que lhes propunha, assim lhes falei sobre esta Língua:
   
Unicamente por minhas mãos ingressariam ambos na Língua Portuguesa, que é – como expliquei a Álvaro – um feudo forte e lírico ao mesmo tempo. Um barco que até hoje singra generoso o Atlântico, ora consolando Portugal, ora perturbando o Brasil. E porque esta Língua tem vocação marítima, entende bem os impropérios do vento, mais que qualquer outra se deixa levar pelos sentimentos. Os ais e os prantos a seduzem tanto, que esta Língua busca as estradas de ferro para medir de perto a intensidade das mágoas que só ganharão corpo e expressão através de seus recursos. E porque ela se orgulha do que é humano, esta Língua Portuguesa, de rosto e sexo ardentes, é capaz de saber, apenas pelo apito do trem, se quarta-feira é dia de usarem-na os amantes quando se querem perder para sempre. E, como está em todas as partes, é privilégio seu provar a saliva de qualquer beijo, sentir-lhe a densidade do sal. Pois quanto mais salgado o beijo, mais as desesperadas palavras do seu patrimônio ganharão saída pelos poros,  os olhos arregalados.

Nestas horas, como de propósito, a Língua estimula os lamentos africanos, que lhe foram incorporados nos últimos quinhentos anos brasileiros. Com eles, ela ganhou força e ardência. Ficou uma língua morena. Talvez por isso se comova com tanta facilidade e se solidarize muito mais com um corpo em frangalhos do que com quem sai altivo do embate amoroso. Tornou-se a Língua Portuguesa plangente, de índole excessiva, e deseja que usem vinte de seus vocábulos, quando apenas três talvez expressem parte dos seus sentimentos.
 
Daí esta Língua precisar de que seus amantes se excedam, imaginem o coração incapaz de novo afeto. É nestas horas que a Língua, sob tão grave ameaça, ganha dimensões impensadas. Usa da pena de Camões, Cecília, Machado, Clarice, só para não perecer. Ela quer ser usada até mesmo pelos sentimentos menos nobres. Não lhe falem jamais de poupança, nem pensem conferir-lhe a sobriedade que não seria outra coisa que prendê-la com cordas às camas secas de um quarto de hotel com luz néon, para que não lhe escutem os lamentos.
 
   
Cabe-me, aqui, evocar a figura de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a quem sucedo nesta Cadeira 30. Faço-o com o temor de falhar ao reconstituir uma matéria feita de carne, cerrada em delicado casulo, aquecida, a cada dia, enquanto viveu, pelo sagrado fogo da paixão humana, do desatino do sonho, da realidade polifacetada. Assim, pois, como definir a casa interior de um homem de semelhante magnitude, fotografar-lhe a alma, este labirinto sem paredes, rabisco nervoso esboçado no vazio?
 
Unicamente Aurélio poderia, estando presente, desatar o nó do seu universo. Ajudar-nos a submergir em seu oleoso mistério. Falar-nos, ele, de sua iniciação nesta Língua Portuguesa. Dizer-nos em que instante compreendeu, sob a custódia das próprias emoções, que o homem não passava de uma espécie condenada a pensar por força de cada palavra pronunciada.

Esses sentimentos, porém, de que a Língua deu início ao homem hão de lhe ter vindo sem pressa, lá na sua longínqua Alagoas, uma franja de terra vencida pelo mar e rios sempre em permanente busca do Atlântico. Entre o calor da comida caseira e do afeto familiar.

Ali, em Porto de Pedras, onde viviam, as palavras grassavam generosas e daninhas. Desde cedo descobriria que essas palavras, contraditórias entre si, quando postas juntas, constituíam um enigma de ordem poética contra o qual esbarrava como cego. Havia que descerrar o véu dessas criaturas verbais.
 
Em casa, a mãe, D. Maria, olhava o marido com zelo, quando este se desmedia em cumprimentos pela vizinhança. Seu instinto de ordem advertia o filho que cuidasse da roupa, da casa. O leite talhara justo naquela manhã. Resignada, a falta de moedas no lar não lhe impugnava a paz familiar. Talvez endereçasse a este filho expressões que lhe sobraram das leituras feitas em voz alta pelo então noivo, seu Manuel, um homem todo pachola. Expressões que, como se haveres fossem, conservava dentro da gaveta, junto às galas típicas dos domingos festivos.

Louro, de olhos cor-de-mel, o menino Aurélio sorria compadecido. Com dez anos apenas, tudo armazenava naqueles dias. Aprontava-se para captar os gestos da mãe, para melhor defini-la no futuro.

A mãe queria abrir a porta da inteligência daquele filho sensível e ígneo, absorto diante do mar, à deriva da inspiração e do sol, a percorrer, desabrido, as praias do litoral alagoano, enfeitadas de coqueiros, jangadas livres, areia escaldante, ao alcance da mão. Tudo ali em proporções desmedidas, igual ao Brasil.

Alfabetizou-o pessoalmente. Segundo ela dizia, queria desasná-lo. Restaurar-lhe, através da leitura, a condição humana. Arrancá-lo da penumbra a que a ignorância condenava.

Aurélio preferia ouvir o pai, seu Manuel. À noite, levavam as cadeiras para a calçada. A brisa colhia-os primeiro ali que na sala. Com o proveito de verem e serem vistos, incluídos assim todos no rol humano.
 
As palavras do pai, a serviço de uma fantasia que o arrancava dos circunscritos limites de Porto de Pedras, perpetuavam, através do filho, as histórias que lhe brotavam da memória. Como se pudessem os dois, mediante esta fórmula simples, alcançar Portugal, do outro lado do oceano, de onde a família se originara.
 
Para enriquecer seu relato e atender aos reclamos da história contada, seu Manuel adotava desvios que realçassem um tecido de sonho, resistente e palpável.
 Querendo provar que a vida, apesar de restrita, naquele vilarejo ela ardia. Mas havia que buscar, onde fosse, uma outra, farta de amor e risos.

A família, unida, amassava o pão diário naquele confim esquecido.  O Brasil, para eles, não passava de uma abstração. Uma geografia que preenchiam com imaginação e espírito cívico. Espécie de livro a que não tinham acesso e de árdua leitura.
 
Os ruídos do Rio de Janeiro, as ocorrências nacionais chegavam-lhes abafados. Desse modo, pai e vizinhos urdiam, por conta própria, enredos compatíveis com a única forma de experiência que conheciam. Cometiam, em conjunto, a bravura de confirmar a realidade.
 
Por sua vez, Camaragibe, onde Aurélio nascera, em 1910, Porto de Pedras, Porto Calvo, bem cerca e mais ainda ao norte, eram terras propícias aos contos rendados, sem começo e fim. Os ecos da utopia negra, como exemplo, sediada no Quilombo de Palmares, próximo dali, repercutiam entre eles sem carecer de recuar no tempo. Davam natural guarida ao lendário Gunga-Zumba, ao aguerrido Zumbi, heróis que a morte não varrera.

Aurélio tivera a sorte de nascer no Nordeste, enclave agudo da imaginação brasileira. O Brasil iniciara-se perto daquelas dunas e perplexidades. Moldura perfeita para agasalhar lendas e gratas ilusões.  À beira da soleira da casa e da praça, eles acolhiam os andarilhos, seres de apurado sentido deambulatório, que lhes traziam notícias de longe. A vida chegando-lhes por empréstimo.

E recebiam ainda cantadores que, sem moradia e rumo, se pareciam aos trovadores, egressos da Baixa Idade Média. Como aqueles da Europa dos séculos XII e XIII, também aqui seus clamorosos improvisos irrigavam a região com poesia desavergonhada, atuante, satírica, cheia de enganos e astúcias. Sem cerimônia, misturavam eles feitos da República, quase recente, com outros, oriundos da Península Ibérica.

O menino recolhia os mitos com entusiasmo. Alguns, de melancólico Sebastianismo, não haviam decerto nascido em Alagoas. Nem sempre comeram com eles farinha e carne-de-sol. Embora esses mitos agora, intrusos e insaciáveis, se acomodassem nas cercanias, e até mesmo se sentassem sobre o balcão da loja do pai.
 
Desses cantadores, Aurélio aprendeu cantigas e assimilou o sentido teatral do mundo. Registrava, emocionado, aquela prática poética nascida do anseio daquele povo, cujas palavras, antes mesmo de se atomizarem, de retornarem às suas origens e, portanto, ao recato humano, ganhavam, na fala popular, novas evidências, outros estados.
 
A mãe tinha razão. Aurélio não largava de olhar o mar. Quem sabe ansiava surpreender, por obra de milagre, as primeiras naus portuguesas prestes a desembarcar no Brasil, despejando entre nós as idiossincrasias de uma Europa seiscentista e ainda aventureiros que traziam debaixo das axilas, entre o suor e a avidez da aventura, aquela Língua Portuguesa que o menino se preparava para amar.
 
Uma Língua que, mal chegada aqui, conheceu o vazio na matriz mesma do seu coração. E que ouviu, por força dos dilemas impostos pelo novo continente, o arfar da doída nostalgia que se sucede a qualquer espécie de exílio. Uma contração naquele instante necessária, para o Brasil passar a ser, ao reverter tal oco provisório, a nova prática desta Língua.

A família precisou deixar Porto de Pedras. Em Porto Calvo agora, terra da mãe, restava-lhe o consolo de ali também as intrigas entrarem pelas frestas das janelas, reduzindo a distância entre o desejo e a frustração.
 
Nesses cenários alagoanos, os escassos atos diários, vencendo a modorra da tarde ensolarada, infundiam-lhes ânimo e conformidade ao mesmo tempo. O cotidiano, para a maioria, terminava como simples depósito de feitos que dificultavam o culto ao imaginário.

Adolescente e curioso, Aurélio seguia o caminho da imaginação das palavras, como se fora um Fernão Mendes Pinto a peregrinar. Em vez de dizer que visitou o reino da China e da Tartária, apronta-se ele a proclamar, diante do cristal da Língua, o fulcro mesmo das palavras. Já não é mais quem só ouve e acumula. Inicia-se nele prolongada ascese intelectual, a que só a morte há de pôr reparos.
 
Sob a inspiração do casario local, que retinha vestígios de antiga elegância, apura suas maneiras, atento aos trejeitos sociais. Divaga entre as ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, datada de 1630, e ali pensa ver o vulto de Domingos Calabar, assombração que a sedícia e o malogro da invasão holandesa no Brasil obrigaram a penar sem resguardo. Na escola, sua inteligência entusiasma o Professor José Paulino, que cobra do pai um dicionário e uma gramática de Francês. Pedidos inusitados naquelas paragens.

Aprende a fruir as linguagens dos homens. Para melhor compreendê-las, estabelece analogia entre elas. Nota-lhes o caráter profano e sacro, mistura admirável. Naquelas regiões a feira e a igreja, vizinhas integradas, quase réplicas medievais, constituíam universos que guardavam entre si confidências, cortesias, salpicadas irreverências. No átrio, em dias de quermesse, as palavras, festejadas pelo povo em escala que ia do sublime ao escárnio, selavam a aliança entre os poderes do mundo.
 
Oriundo de lar temente, em que o pai jamais pronunciava o nome de Deus em vão, Aurélio desenvolve, ao lado de outras virtudes, rara afabilidade no trato. Sua gentileza era tão esmerada, vespertina, que mais parecia um aristocrata rural que recebeu, como prêmio, o direito de nascer no seio do povo. Poucos homens terão sido galantes como Aurélio. De galanteria solene, pícara, respeitosa, nela a prática social ganhou foros éticos. Todos os seus atos asseguravam que a cortesia, entre os mortais, encerrava uma lição de ordem moral, um postulado político.

Tento agora cerzir retalhos da história de Aurélio apoiada em seu livro Dois Mundos, publicado em 1942. Esses contos, cobrindo infância e adolescência, são de natureza tão reveladora que, à simples leitura, me acodem as figuras de João e Maria, arrastados pela floresta, deixando tombar no chão pedaços de miolo – sobejas esperanças – com a confiança de virem logo a ser resgatados.
 
Também Aurélio deixa-nos transparecer, nesta obra, que o inventário familiar, sua gênese, portanto, é a essência de sua matéria narrativa. Ao fazer, em algum desses contos, uso ostensivo da primeira pessoa, voz de enternecida densidade, torna-se ele avalista dos próprios sentimentos e dos lamentos da sua grei. Ainda que adote sobriedade quase ética, como se a revelação do conteúdo ficcional aflorasse do ponto de vista de um narrador oculto.
 
A sua incursão pelo discurso da Memória, gênero assinalado pelas pegadas do constrangimento, não tolhe a criação de personagens antológicos. No conto “O Chapéu do Meu Pai”, o filho, ao observar o pai no caixão e à vista do velho chapéu, frágil herança de toda uma vida, sucumbe às lembranças. Pendido o objeto do porta-chapéus, só lhe faltava um formilho que, em substituição à cabeça do pai, desse forma à sua copa. O autor, porém, elegendo o chapéu como epicentro do drama, multiplica emoções, suas e da família, realça os costumes da época, esmiúça os devaneios das vilas do interior, cujos rastros, sob o signo de uma verdadeira sociologia dos sentimentos, são preservados de forma quase documental. Com tal perfeição, o escritor desenha em dois planos a história desse pai, um estático, o outro insurrecional em matéria de tempo, que logra devolver-nos, como se vivo fora, a figura do pai.
 
Notável, da mesma forma, é o retrato de Cândida Rosa, sua avó. Uma mulher que esparge crueza e contradições, mas com rigorosa observância às pesadas limitações impostas a uma mulher da sua condição social. Ao descascar-lhe a alma agreste, Aurélio fustiga-a com um desconsolado afeto.
 
É com maestria que Aurélio elude a fatalidade dessa voz individual. Através de urdida dança temporal, transporta-se e às suas criaturas para o âmago dos folguedos e rancores humanos, equanimemente repartidos entre todos. E, ao aguçar o caráter evocativo dos textos, torna-os comoventes peças coletivas que parecem emergir da criação puramente ficcional.

Diante de nós agora surgem outras vinhetas, memórias esmaecidas. A família de seu Manuel, já acomodada no barco, para tentar a sorte em Maceió. O mar, para aquela gente, era a estrada natural. Essa viagem, porém, rompe de vez a bolha inchada pela fantasia e pelo tempo ocioso que unia pai e filho.
 
O capitão, apesar do curto trajeto, cumpre todos os rituais. O apito selou-lhes as despedidas. Queriam deixar para trás um Brasil que lhes empurrava pela goela frituras gordurosas e parcas esperanças.

Do convés, Aurélio contemplava mares que sabia existirem no horizonte do mundo. Para ele, alvoroçado, as águas da Pátria simbolizavam a Língua e a imaginação da sua gente. O barco vencia Passo do Camaragibe, São Miguel dos Milagres, Paripueira, as praias de Prata, de Jatiúca, de Pajuçara, nomes da alma.

Em Maceió, retoma os estudos. Desenvolve veleidades literárias. Fala dos poetas com feliz acerto, aprende de cor poemas na íntegra. Descobrira a prodigiosa memória a serviço de sua expansão cognitiva.
 
Para aumentar a precária renda familiar, emprega-se no comércio, pratica tarefas serviçais, que lhe burilam o espírito, a intensa humanidade. Mais tarde leciona aos colegas, exercita o ofício que lhe confirma o fervor na aprendizagem humana. Paciente e obstinado, reparte seu tempo. Adquire, com folga do ordenado, a gramática de Maximino Maciel e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Duas aquisições que ajudam a definir sua vida.

Estuda a Língua à exaustão, aplica-se a conhecê-la. Ao intensificar o convívio com os livros, assinala as frases com as marcas da sua paixão. Elas hão de servir-lhe um dia para as suas abonações. E se muito depressa apreende o significado dos vocábulos, logo pressente que lhes faltam outras acepções. A vida cobrando-lhe, pois, novos valores.

Devagar esmiúça a obra de Machado de Assis. Estuda-lhe, além da psicologia, o estilo único. Prepara-se para devotar-lhe longo estudo. E, a despeito da profunda admiração por tal Mestre, arroga-se a licença – poucos anos depois – já em pleno exercício crítico, atividade para a qual, aliás, demonstra vocação e bom gosto, de fazer reparos a certos expedientes do genial escritor no seu ensaio Linguagem e Estilo de Machado de Assis.

O jovem crítico, que igualmente se manifestará, com admirável acuidade, sobre Eça de Queirós, Gonçalves Dias, Simões Lopes Neto – seus livros, em especial Território Lírico, dão prova desse talento –, observa que nos indivíduos pobres, esforçados, como é o caso de Machado, encontra-se mais aceso o gosto pela correção da Linguagem. Dificilmente, ocorre-lhes a audácia de romper com a tradição, com os parâmetros da Língua, havendo o mulato Joaquim Maria encontrado, através do soberano domínio da Língua, os meios adequados para superar a modéstia da própria origem.

Seduzido pela tentação de dar, tão jovem ainda, testemunho de independência crítica, Aurélio aponta em Machado aquilo que considera hesitações no seu estilo. Abuso de palavras, de expressões, avanços e recuos que julga, nas frases, meros tropeços. E dos quais resultaria, às vezes, a sensação de monotonia na leitura de certos textos.
 
Atento para o desabafo ou a ironia de Machado, quando este comparou o próprio estilo ao caminhar dos ébrios, decerto Aurélio reforça a sentença amarga de Sílvio Romero, para quem o romancista sofreria, por força da sua gaguez, de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra.

Por outro lado, entretanto, Aurélio detém-se na alma secreta de Machado, um criador sucumbido ante o acúmulo de dúvidas e descrenças. Enfatiza, com propriedade, que buscou ele, na Arte, derivativo ao calado martírio, resultando dessa verdadeira busca do Santo Graal extraordinário e insuperável conjunto narrativo.
 
Com a vitória da Revolução de Outubro de 1930, sem luta armada em Alagoas, inicia-se ali o sistema de interventores. A cidade floresce na área cultural. Brilhante geração de jovens converge para Maceió, comprime-se no bar do Ponto Central, entretida em longas tertúlias.

Irreverentes, passam o País em revista. Com aguçado filtro político, insurgem-se contra a sociedade que amesquinha o homem. Querem, como escritores, retratar, sob uma ótica comprometida, a vida do Nordeste.

Subjugados, porém, pelo espelho embaçado da História, longe estavam de supor que a glória rondava o grupo, formado por Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, por todos, aliás, julgado irmão mais velho, Waldemar Cavalcanti, Raul Lima e tantos outros.

Sob o impulso da amizade, Aurélio testa o talento junto aos companheiros. Define sua vocação de infatigável homem de letras. E, a despeito dos embaraços econômicos, cumpre o ritual do prazer, das descobertas. Vive com rara intensidade.

Após formar-se em Direito e dirigir a Biblioteca Municipal de Maceió, instala-se no Rio de Janeiro, em 1938, em pleno Estado Novo. Contratado para professor do Colégio Pedro II, publica com frequência artigos na Imprensa carioca. E, por sugestão de Manuel Bandeira, passa a colaborar no Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, respondendo pelos brasileirismos do mesmo.

Conhece Paulo Rónai, recém-chegado da Europa, que se surpreende com sua erudição. Unidos por amizade fraterna, dedicam-se juntos, ao longo de trinta anos de exaustivo esforço, a organizar Mar de Histórias. Uma antologia de rigorosa seleção de contos e narrativas curtas, cujas primorosas traduções e enriquecidas notas críticas revelam, em dez volumes, admirável repertório narrativo que abarca os primórdios mais remotos da civilização, a partir dos primeiros textos sagrados até expressões da contística moderna.
 
Irresistível recenseamento que confirma haver o homem trazido desde sempre consigo, ativa e perdulária, a matriz da criação.
 
Por todos agora chamado de Mestre, Aurélio não se descuida, no entanto, do mundo afetivo – lavra preciosa –, constituído de amigos e filhos e de Marina, companheira sempre presente e devotada.

O temperamento do Mestre homenageia a existência com exultante espírito. Ri, canta modinhas, genuflexiona-se, onde seja, dando provas públicas de admiração aos amigos. Ama os frutos da terra. Deus seja louvado.

Emerge da sua biografia um ser filiado às obras humanas e afeito às instâncias absolutas da Língua. Moral e intelectualmente esculpido para fazer o dicionário que respondesse à curiosidade brasileira pelo Idioma. O desafio mais dramático da sua história pessoal. Afinal, procedia do mundo clássico a assertiva de que a palavra era uma sombra cercada de equívocos, em torno da qual havia a imprecisão, a dúvida, o erro humano ao ajuizar seu peso e sua medida. Quem sabe a palavra podendo ser substância untuosa oriunda da baleia Moby Dick, perseguida pelo desvairado capitão Ahab.
 
Mestre Aurélio, porém, apossou-se das palavras, como se tivesse a Língua Portuguesa inscrita na genética do seu espírito. Empenhado, com desmedida devoção, em descobrir as regras universais da Linguagem.

Cúmplice desta Língua, o País, por inteiro, isto é, as palavras, desfilavam à sua frente enquanto exercia o labor de lexicógrafo. E, sofrendo todas, indistintamente, o assédio dos sentimentos e, por isso, capazes de reproduzir o que estava mais próximo do pensamento e da emoção. Apegadas à memória coletiva e aos registros históricos, traziam elas consigo o estigma da perpetuação. Reproduziam, com volúpia, conceitos, temas, mentalidades humanas. Favoreciam o alargamento do mundo das ideias, propiciando num átimo a sua revelação.

Aquele sentimento enfim de que, por existirem as palavras, o nosso pensamento autoriza-se a atingir raras culminâncias. E empenha-se ainda para que a emoção expresse um estado comum a todos os homens.

Com pertinácia, noite e dia, Mestre Aurélio persegue o mundo aparentemente inanimado e abstrato dos vocábulos no afã de defini-los. Sua polida sensibilidade amola, afia, esmerilha as palavras. Conciso, descreve-as legitimando suas acepções. Sem perder de vista a superfície poética, a vizinhança do humano que as palavras aportam no seu bojo. Espécie de criaturas com as quais engendramos intrigas e fazemos amor.

Na feitura do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, que se enfileira, em importância, ao lado dos Oxford, Larousse, Webster, Zincarelli, do Diccionario da Real Academia Española, transita Mestre Aurélio pelos secretos escaninhos do idioma. Para tanto, habitando o silêncio, a penumbra, a cerração, a névoa, as pautas musicais de cada vocábulo. Conferindo sua luminosidade e reverberação.

E para que o Novo Dicionário Aurélio pudesse ser – o que é hoje de fato – a feliz recolha do rosto brasileiro, o Mestre não ensurdece aos apelos do idioma, que lhe chegavam por meio de escritores, dos marginais, dos políticos, dos rufiões, das festas populares, que lhe ressoavam na lembrança. Com segurança, ele abriga no seu dicionário a insolência do idioma, a escatologia que ele comporta.

Enquanto compila os estados oficiais da Língua, sua natural saturação – quer lexical como semântica –, atende igualmente às camadas interditas que, banidas embora na aparência, forram e dão consistência à nossa obscura alma, ao nosso voluntarioso e intransigente desejo.

Esforça-se o Mestre por não assumir compromissos com a moral de salão, imposições teológicas, hierárquicas. Inclina-se, com seus registros, ante a insolvência das instituições políticas e sociais. A palavra é uma chibata, à disposição de quem a reclama.
 
Mestre Aurélio decide absorver a gíria, que quase não difere fonética, morfológica e sintaticamente da Língua ordinária. Ele reconhece que a gíria, fazendo uso de procedimento astuto, dissemina-se pelo corpo social de forma a abandonar a esfera grupal onde foi concebida. Assim, o que no princípio era matéria dos iniciados, tratou o Novo Dicionário Aurélio de acolher. Pois que essas gírias tinham a função de cobrir vazios, expor sentimentos inusitados, radiografar mazelas típicas de uma época.

Por sua origem popular, Mestre Aurélio mostrava-se sensível a tais rogos. Dizia-lhe a intuição qual palavra precisamente teria força persuasiva, ante os contemporâneos, para não vir a ser expulsa da cidade do verbo.
 
Portanto, mais do que operar com os preceitos do idioma, sabia ele que o coração orientador desta mesma Língua pulsava nas ruas, nas praças, especialmente dentro dos textos de criação. Em seus escritores, cujas frases, às vezes, em inspirada síntese, captavam o espírito de uma sociedade.

Na poesia dos longos anos de Mestre Aurélio, ele lutava com denodo e sacrifício pessoal pela sobrevida de cada termo, tendo ao lado a sua equipe de trabalho: Marina, sua mulher; Margarida dos Anjos, Elza Tavares Ferreira, Stella Moutinho, Joaquim Campello. Um homem, sem dúvida, fiel e sensível à expressividade que emana das locuções, aos ruídos que as palavras fazem em marcha forçada para reter as realidades humanas. Que nenhum pesar, júbilo, secretos fluidos fiquem sem batismo, conheçam o desterro.

Eis o mistério da fé transfigurado em palavras que escoram a alma popular, a relíquia da memória. Palavras nascidas em algum rincão descuidado, de um Brasil sem fim – reforçadas, porém, nos presépios, nas casas de tapera, sem luz. Centrífuga, aliciante rodamoinho, a palavra vence o tempo, consome gerações em sua impiedosa máquina semântica.

O Novo Dicionário Aurélio, afinal publicado em 1974, pela Editora Nova Fronteira, graças ao descortino de Carlos Lacerda e Roberto Riet, torna-se um tesouro léxico, faz de Mestre Aurélio legenda viva do seu tempo.
 
Decerto livro angular da nossa Cultura, contempla ele extensamente, com seu sentido aglutinador, a dicção engenhosa e autônoma de cada região. Fala-nos, esse poderoso livro, de um país vigente, de voz sonora, e a cuja acústica devemos as límpidas badaladas que nos chegam do mais longínquo carrilhão. Como se, por intermédio desse dicionário, nos forçássemos de novo a mapear o Brasil. E, por meio dele, ainda prosseguíssemos a auscultar aquelas realidades gestadas pela nossa insaciável urgência de expressar o mundo e a natureza humana.
 
Aqui estamos, Mestre Aurélio e eu, repartindo esta Cadeira 30. Neste 3 de maio de 1990, em que cumpriria ele oitenta anos. Juntos, recolho agora sua sombra, sua doce memória, para trazê-lo a mim sempre que nesta Casa eu estiver. O destino, afortunado, une-nos a partir de hoje.

Juntam-se a nós, formando cortejo, outros antecessores. Os mortos, quando respeitosamente convocados, reassumem formas de outrora e acatam as novas que lhes atribuímos como preito de saudade. Fazem-se, de repente, jovens. E seus rostos, tocados pela graça, arfam, entre nós, delicados, livres de sobressalto.
 
Em cada canto, vejo Machado, Nabuco, tantos outros. A vida não teve poder de apagá-los de uma Casa que sempre lhes pertenceu. Observo ainda Pedro Rabelo, ilustre fundador desta Cadeira, que teve Pardal Mallet como patrono. Sucedido por Heráclito Graça, filólogo e estudioso dos clássicos portugueses. Um beneditino nos estudos vernáculos, no dizer de Antônio Austregésilo, seu imediato sucessor. E que, por sua vez, mereceu de Mestre Aurélio, em 1961, ao herdar-lhe a Cadeira, oração de sincero louvor. Antônio Austregésilo ganhou notoriedade como humanista de estirpe, escritor – fino retratista, entre outros, de Tobias Barreto. Sobretudo como emérito professor, médico, uma mente centrada na Ciência. Aliás, todos os ocupantes desta Cadeira 30 deixaram-se subjugar pela magia da Língua Portuguesa.
 
Chego à Academia Brasileira de Letras trazida inicialmente pela paixão da Linguagem e pela fidelidade à imaginação, este território pelo qual transita a liberdade. Nessa jornada me secundam companheiros de ofício, amigos, familiares, rostos que vi de relance e jamais pude esquecer. Meu coração, sobretudo, contrai-se agradecido à minha mãe Carmen, a melhor amiga, o mais nobre e dadivoso guia.

Aos senhores membros desta Academia, que me acolheram com generosidade quando lhes bati à porta pela primeira vez, declaro-me sinceramente honrada. A esta Casa cheguei não tangida pelas glórias, que jamais consolam quando tanto nos falta ainda por fazer. Vim em busca, sim, do convívio enriquecedor, do ensejo único de privar com a preciosa memória que emana desta histórica Instituição.
 
Sei bem que a vida nos regala sentimentos de transcrição penosa. Sob a égide, contudo, dessas emoções, quantas delas sem nome, reunimo-nos aqui, agora, trazidos pelo consolo de nossas discretas crenças. Certos, porém, de que enquanto formos capazes de honrar a modesta aliança que até em meio às trevas estabelecemos com nossos respectivos sonhos, terá valido, para nós, esta viagem que cada qual iniciou na fonte mesmo da sua origem.
 
Uma viagem que nos leva a buscar, aflitos e solitários, as provas do amor humano. Este amor que, embora revestido de mil máscaras, sempre nos chega sob a guarda da comoção. E é ele – signo maior da nossa augusta humanidade – que ora invocamos, para que seu cetro e manto nos cubram neste momento, quando, comovidos e expectantes, veneramos todos a Língua Portuguesa – nosso espírito – irmanados uma vez mais em torno deste País chamado Brasil.

3/5/1990