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Discurso de abertura da exposição Machado Vive!

Discurso de abertura das comemorações referentes ao centenário de falecimento de Machado de Assis no Salão Nobre do Petit Trianon da Academia Brasileira de Letras em 27 de junho de 2008

O BRASILEIRO MACHADO DE ASSIS

NÉLIDA PIÑON

Machado de Assis faleceu na madrugada do dia 29 de setembro de 1908 na casa de Cosme Velho. O velório realizou-se no Syllogeu, onde a Academia Brasileira de Letras, carente de sede própria, se reunia. O corpo do escritor, repousado no sólido caixão , cercava-se de flores, círios de prata e lágrimas discretas. Não se lhe via o rosto, coberto por um lenço de cambraia. Velado pela comunidade brasileira, sua despedida, fora dos padrões habituais, constituiu uma consagração para o menino pobre, nascido em um morro carioca.

A cerimônia fúnebre tem um caráter emblemático. O escritor, sem viúva e filhos ao pé do ataúde que lhe chorem a partida, é saudado pelos seus pares. Louvores, lamentos, silêncios, reverências jamais antes prestadas a um criador literário. O discreto Rio de Janeiro despedia-se de Machado de Assis como a luminosa Paris seguira o cortejo de Victor Hugo.

Amigos e admiradores, ali presentes, pressentiram que Machado de Assis, a partir daquele setembro quase benfazejo, deixava de lhes pertencer. Entregue ele ao arbítrio da morte e à imposição da imortalidade, a própria instituição, que ajudara a fundar , e da qual fora primeiro presidente, perdia a prerrogativa de zelar com exclusividade pela sua memória. O genial escritor incorporava-se ao Brasil que lhe celebraria a obra nos anos vindouros, plenamente identificado com a aventura criadora de quem melhor interpretara as idiossincrasias civilizadoras da nação.
 
Desde a infância, Joaquim Maria Machado de Assis rondou-me a casa. E graças ao pai, Lino, imigrante espanhol aficionado à leitura, que me indicou a presença de Machado de Assis em sua estante. Confiante o pai de ser aquele narrador capaz de me alertar dos indícios ambíguos que, presentes no humano, davam margem às pistas equivocadas da realidade. Encarregado ele de me prevenir quanto a natureza de sentimentos, em geral, nem sempre ajustados aos nossos interesses.
 
Ao longo da minha formação, Machado de Assis foi-me inculcando a marca de um pensamento que, além de preservar preciosas concepções estéticas, reforçava-me a brasilidade. Sua vida, escassamente faustosa, destituída de lances arrojados, como aqueles que eu atribuía a Simbad, o marujo, inspirou-me, desde cedo, a coragem de lhe conferir uma dimensão simbólica, de ampliar sua presença na minha cidadania, de associá-lo às noções que eu podia ter de pátria. Daquela espécie de pátria que, modelada ao acaso, à mercê das emoções aleatórias, pode ser também tudo que se espera dela. Desde a mangueira do quintal dos avós, a paisagem da pequena aldeia, até o retrato de Machado de Assis dependurado nas paredes do Brasil. Palavras a esmo que, no entanto, me levam a considerar este brasileiro como a minha pátria. A pátria que tenho no coração, a representação que elegi à guisa de bandeira. A pátria do país que almejo ter. E não se estranhe semelhante convicção, se Machado de Assis, para tantos de nós, encarna um ideal que corresponde à medida de nosso humanismo. E por que não acreditar na pátria de Machado de Assis, na pátria de Homero, na pátria de Dante, na pátria de Camões, na pátria de Cervantes, na pátria de Shakespeare ?
 
Tenho, pois, motivos para agradecer ao presidente da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni, a honra que me concede de reverenciar Machado de Assis na solenidade de abertura da exposição com a qual prosseguimos nas celebrações de seu primeiro centenário de morte.

Semelhante mandato induz-me a rastrear-lhe a obra uma vez mais. A indagar, como um corifeu do coro grego, quem foi este mestiço, filho de mulher branca e homem negro, pobre, de físico miúdo, que nasceu no morro do Livramento, em meio aos escombros urbanos, à cidade mal-tratada, entregue a toda sorte de malefícios. E que, confrontado com o caos e as adversidades diárias, fez da própria vida pretexto para a construção de uma linguagem cujos alicerces alteraram os cânones estéticos do Brasil.
 
No conjunto, porém, Machado de Assis não diferia de nós. Se no início da carreira fora uma presença inexpressiva, embeleza-se com o passar dos anos. E, ao atingir a plenitude intelectual, seu corpo, já no final da existência, ganha transcendência, um aspecto intemporal. Há, em seus últimos retratos, uma elegância plácida, gestos contidos, cerimoniosos, alheios à insídia da morte que se avizinhava. Parece haver nele, então, o deliberado propósito de impedir que a dor da viuvez, o desatino da emoção e dos sentimentos, assomem-lhe o rosto. Como se a matéria da vida devesse estar unicamente circunscrita ao texto, onde quis instalar a perfeição criadora. Para tanto lutara com denodo, tendo em mira uma narrativa que enunciasse a realidade e seus misteriosos atributos.

Machado de Assis, homem de seu tempo, viera de longe, trazido pela imaginação. Viera do lugar onde se centrava a crise, com o intuito de ativar o pensamento, de falar do Brasil, da África, de Port Royal, da Grécia antiga, das passagens do Antigo Testamento. Era tal a sua arregimentação universal que o Brasil, sozinho, não poderia reivindicar a sua posse. Mesmo porque, Machado fugia dos espaços estreitos, do verbo ineficaz, do tempo que, segundo ele, era um roedor. Terá vivido, como uma espécie de êxtase, a agonia provinda da densa alteridade dos seres que foi inventando ao longo de sua obra. E conquanto se mostrasse diligente com a casa, com a Academia, com as atividades laborais, as garras da imaginação o ocupavam. O arfar diário destinava-se a engendrar personagens, enredos, um universo ficcional que daria títulos como Quincas Borba, Esaú e Jacó, Memorial de Aires, O Alienista.

A modernidade pairava sobre sua obra. Mas, quanto a sua vida, e o seu processo criador, resta-nos especular. Talvez valha suspeitar que mesmo no casulo do lar, no Cosme Velho, a escritura antepunha-se aos deveres conjugais. Motivo pelo qual não podia a própria Carolina, a quem prestara juras de amor, contrariar o que procedesse de sua lavra. Pois que, sendo a criação soberana, era de exclusivo uso do esposo. Levando-nos a deduzir que a mulher tinha a ele, mas não a sua escritura. Ele não lhe devia fidelidade, enquanto criava suas criaturas com intransigente rigor. Sabia Machado que a arte abolia qualquer decálogo a privá-lo da liberdade de fabular. E, como se fora um poeta francês a embebedar-se de absinto, a tinta que escorria pela pluma de Machado de Assis, submetia-se apenas ao jugo do seu verbo.

Mas terá ele, de fato, se compungido da mulher que, privada de criar, dependia dele para alçar vôo ? Terá o marido, Machadinho, liberto por momentos dos efeitos abrasivos da narrativa, se confidenciado com Carolina, para expor-lhe a intimidade da alma que cuidava em abandonar à porta da casa, antes de entrar ? Acaso afirmou-lhe que seu repertório criador não fazia parte dos haveres conjugais ? Ofertou-lhe, distraído, a face sua impressa nos livros taciturnos, desesperançados, irônicos ? Ou, ciente de estar a esposa à espreita, asfixiou, em nome do amor conjugal, a luxúria seca trazida da rua, com o propósito de preservar intacto o modelo de amor que ambos decidiram construir desde o casamento?

As pegadas biográficas não esclarecem sua têmpera de criador. O percurso narrativo sobrepõe-se aos feitos do cotidiano. Desta forma, a persona de Machado, harmônica ou disforme, permanece enclausurada nos livros. Esta vida recôndita que ele nunca extravasou, havendo encerrado no coração a sete chaves. Sua obra surgiu da poética da existência. Do ato radical que advém da matéria essencial da imaginação, do saber imensurável, da multiplicação de instantes e flagrantes imperceptíveis. Uma vida que, ao levá-lo a refugiar-se nas incertezas da ficção,obrigou-o a apurar a arte de simular, a aderir o impulso literário a um imaginário onde se acomodam intuições criadoras e toda sorte de saberes.

A um imaginário brasileiro que, partilhado por todos, constituía-se de língua,de geografia, de temperamento, de vestígios de todos os povos, de bens intangíveis. E que, oriundo de causas coletivas, e à disposição de um brasileiro do século XIX, ajudava a elaborar claves atuantes na concepção estética de Machado de Assis. A este acervo acrescentando-se o severo pessimismo, a acuidade que se refinava diante de imprevistas circunstâncias, a crescente austeridade. Nada, no entanto, que o incapacitasse a aspirar os olores dos trópicos, a sensualidade da rua, equivalente a da alcova, enquanto fingia não sofrer de seus efeitos.
 
Machado parecia afugentar o prazer de viver, as manifestações lúdicas, exceto no exercício de seu fino sarcasmo. Mas, a sua aguda sensibilidade, própria dos povos que padecem de distintas influências étnicas e culturais, alargou-lhe a criação. Como conseqüência, sua obra reconhece-se parte de uma realidade comum a todos. No escritor perduram vínculos essenciais, mesmo quando sua estética pende para outras direções.

Machado de Assis estende a ambigüidade da ficção à sua vida que, conquanto substância palpável, desemboca no desenfreado universo ficcional, e ele se cala. Afinal, desde a juventude, a sua existência pertencera à escritura. Compunha sua partitura novelesca com o inadiável propósito de se afogar nos escaninhos da criação, com a esperança de salvar-se.

Uma criação diante da qual, cem anos depois, nos motiva indagar, ao próprio Machado, quem somos nós, que fomos outrora seus personagens ? Se julga possível que seres, como nós, do século XXI, ainda emocionemo-nos com suas magistrais epígrafes ? Se a singularidade do seu gênio ainda agora eleva-nos e nos consola ? Se a trama sua que reproduziu no passado a cobiça existente no Segundo Reinado, vale ainda para a ambição desenfreada ora instalada no Brasil dos nossos dias ?

A intensa afinidade havida entre nós felizmente não esmoreceu nestes longos anos. Seguimos sendo filhos de Machado de Assis. Herdeiros de seu fardo e da sua magnitude. De um legado mediante o qual reivindicamos a paternidade que ele, enredado com o verbo, recusou no próprio lar. Sua carne não quis, ou não pôde, reproduzir-se senão na escritura. E embora fora fiel esposo de Carolina, propiciou um vazio em suas vidas que só a criação literária tinha como preencher.

Sem sucessores diretos, Machado de Assis fez-nos seus herdeiros. Legou-nos a obra que agora é nossa. De seus leitores. Dos brasileiros que compreendemos a incômoda declaração contida no romance Memórias Póstumas de Brás Cuba, que se encerra com a frase : “ Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria “. Eis a melancólica ironia de Machado. De um autor que, havendo nascido e morrido no Rio de Janeiro, escolheu esta cidade como cenário narrativo. A fim de que divisássemos, em seus livros, as entranhas psíquicas dos habitantes, as casas, os sobrados, os palacetes típicos de uma urbe ibero-americana do século XIX. Quando suas crônicas e labirintos novelescos esmiúçam as lides teatrais, os chás da Colombo, as tertúlias, as intrigas, os encontros furtivos, os bailes dos salões do império.
 
Em semelhante ágora, povoado de recalcitrantes criaturas a lhe cobrarem destino ficcional, concentram-se a  mentira, a hipocrisia, as misérias diárias. Vender e comprar ilusão, porém, é o dever de quem narra. E tal panorama movediço é do gosto do narrador, assim como os dias calorosos, quando Machado ausculta homens com trajes escuros, cartolas enterradas nas cabeças, e mulheres cujas saias agitam-se no afã de proteger voluptuosas virtudes. Mas, a despeito das tramas em pauta,Machado não se engana com a falsa alegoria citadina. O seu sarcasmo, que é uma espécie de nódoa, repudia a visão triunfal que distrai os seres de seu inevitável declínio. Sugere aos pósteros-que somos nós-, que aquelas criaturas não foram ingênuas e nem felizes à época em que, cúpidos, caminhavam pela rua do Ouvidor.

Educado,porém, distante dos centros civilizados, e impedido de expressar sua inconformidade com as idéias e as estéticas consagradas pela Europa, Machado de Assis compensa suas carências acumulando leituras, conhecimentos, aprendendo línguas, interpretando o mundo fora das fronteiras provincianas. E ao inventar uma cidade da imaginação, mas de traçado real, como laboratório da reflexão ficcional, ele amparou-se no Rio de Janeiro. Uma urbe de embusteiros, inescrupulosos, figuras de proa com que descrever uma sociedade impiedosa, egocêntrica, sem traços de bondade, regida por estatutos hierarquizados que prevêem um persistente oportunismo, freqüente, aliás, na corte. Engendra, enfim, uma tipologia de concepção acanhada, cruel, complexa e dúbia, como é forçoso na obra de arte. Força-nos a cogitar que personagem seu se salva em meio a tantos agravos e desenganos ? A quem ele julga inocente. Acaso Flora, Aires?

Ao eleger, pois, o Rio de Janeiro como metáfora do Brasil, Machado de Assis instala neste centro cósmico a memória brasileira. Fixa, nos limites da cidadela, os dados essenciais com que abordar a realidade, os substratos de uma suposta alma interior. Arrola o drama narrativo com o qual antecipa a dimensão secreta do Brasil. Como se entre tais muralhas se abrigassem enigmas que de modo algum se contrapõem à uma eventual identidade nacional.

Mas terá ele intuído, em seu aprendizado de tipógrafo, na Tipografia Dois de Dezembro, que o Rio de Janeiro, encarnando a sua futura gesta, legitimaria sua criação ? E que sua linguagem pudesse ser um dia a representação do Brasil ? Haverá pressentido que, conquanto desfalcado de credenciais acadêmicas, se tornaria no futuro insuperável intérprete da gênese brasileira, das suas fundações, do transcurso sociológico da nação?

Embora o projeto criador de Machado careça de eloqüência, a exegese do Brasil persiste em seus livros. Encontra-se, em suas páginas,o país, e o país a vir a ser. A emissão de uma realidade sem imposições canônicas, disjuntivas, mas ensejando retificações, versões múltiplas.

Nem nas suas entrelinhas há apelos à construção pomposa, a sociologia realista. Ele limita-se a recuperar os pormenores psíquicos e sociais, a fim de atrelá-los à índole do seu tempo. Com a intenção, talvez, de esboçar retratos que ampliassem o conhecimento tido do século XIX. Sem tal incursão significar mínima renúncia ao dever ilusório provindo da sua arte narrativa, que é o de cobrar a suspensão da descrença.

Coubera, à sua geração, a tarefa literária de narrar a história de um país que, contrário as formulações vigentes, existira muito antes da chegada de Dom João ao Rio de Janeiro. E que, a despeito de ter em 1808 instituições praticamente inexistentes, frágil arcabouço jurídico, e de estar, talvez, a ponto de fragmentar-se, ocupava a memória dos brasileiros a partir da sua própria fundação. Pois, se houvesse a crença de que o Brasil se iniciara praticamente com a chegada da família real, que país teria herdado Machado, se nascera ele em 1839 ? Como se conformaria o escritor em acolher um país desfalcado de memórias, de atribulações históricas, do acervo das paixões sedimentadas, das tergiversações criadoras,das vísceras que se rasgam para ler a sorte, da lenta substância com que se forja a civilização ?

Como aceitaria Machado de Assis um legado tão recente, de menos de 100 anos, até a sua morte, desprovido das agonias e dos assombros que irrigam o tumulto humano, dos vínculos antigos com os gregos, de um monoteísmo que se confundia com outros deuses trazidos pelos índios e os negros, da língua lusa que no Brasil sofrera a deslumbrante metamorfose imposta pelas glebas dos seres ?

Ao captar, no entanto, a mensagem nacionalista de José de Alencar, Machado filia-se ao autor cearense. Como conseqüência, adapta, à sua narrativa, os momentos constitutivos da civilização brasileira. E torna-se, apesar das agruras pessoais, partícipe dos instantes hegemônicos da terra e da língua, dos percalços padecidos por todos.

Como súdito de um regime monárquico, sofre a influência iconográfica do imperador Pedro II, de queixo prognata sob o resguardo da barba branca, marca dos Habsburgo, em cuja linhagem se destaca Carlos V. Um traço genético que se averigua no retrato a óleo, ora no Prado, que Tiziano pintou do augusto imperador do Sacro Império. 
Mas, enquanto exerce a cidadania da época, Machado absorve as excelências da arte. Disciplina as intermitências da criação e envereda pela ingente tarefa de unir a tradição à modernidade, o particular ao universal. Situado no epicentro, ele vai às margens, às beiras, insiste em indicar, em seus relatos, a imperfeição humana, e não nos perdoa. Nada se lhe escapa, está ciente da nossa precariedade. É um homem de Terêncio, mas afeito às civilizações. Tanto que transita pelo Ecclesiastes, por Pascal, Montaigne, Montesquieu, Schopenhauer. Não lhe faz falta ir a Europa para auscultar as inquietações do continente.

Decerto, ele é pioneiro na defesa de uma estética compatível com a vocação atlântica, com o repertório étnico e lendário do Brasil. Afinal, quantas terras somos em uma única ? Mas, consciente da marginalidade maligna que nos espreita, prega a evolução das matrizes nacionais, a criação de uma amostragem literária representativa, o refletir sobre os tremores contemporâneos. Em especial, a necessidade da postura vigilante, da contínua e ininterrupta ascensão na escala civilizadora.

Como resultado de tantas revelações, Machado de Assis publica, em 1873, o ensaio INSTINTO DA NACIONALIDADE. Reflexivo, insinua sermos o que imaginarmos. E que, na esteira da invenção, se estabeleçam novos estatutos. Como se Machado pretendessenortear os fundamentos estéticos para um país recém saído da dependência política, necessitado de defender o território, a língua, de que ele era mestre. Ciente, porém, da urgência de consolidar a tradição literária que impulsiona esta mesma língua, convinha fortalecer as bases nacionais, torná-las compatíveis com o brasileiro que emergia.

O Brasil tem-se equivocado ao não incluir o nome de Machado de Assis entre os seus notáveis intérpretes. De não reconhecer no autor uma transcendência analítica que instaura a modernidade no projeto nacional. Como se a intelectualidade brasileira tivesse escrúpulos em aceitar que a invenção literária, em sua fulgurante expressão, tem caráter interpretativo, assertivo,analógico, havendo sido sempre a plataforma da qual examinar, exumar, reconstruir o horizonte do Brasil.

Por que, então, excluir de semelhante categoria este regente de exímio discurso narrativo, que lanceta a hierarquia social vigente e faz sangrar personagens cuja índole ajusta-se ainda hoje ao que somos ? Este construtor da linguagem, que é o anteparo das ações humanas, e com a qual, e tão-somente, se socializa a realidade ? Pois, como interpretar uma nação sem o amparo de uma visão criadora que perpetua o fascinante delito de viver os limites da radicalidade social?

Após a crise que o acomete em 1880, em torno dos 40 anos, Machado de Assis atinge a supremacia literária com a publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. A partir do qual envereda por procedimentos inovadores, busca a superação estética e filosófica, o verbo nunca inadvertido. Sem perder, porém, a invencível atração pelo inquietante centro da narrativa.

A partir desta secreta crise, Machado de Assis pauta-se pela frase : “Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o realismo. Assim não sacrificamos a verdade estética. A realidade é boa, o realismo é que não presta nada “Graças a tamanha argúcia, ele se torna um transfigurador da realidade que semeia conflitos, ambivalências, controvérsias. A arte e a vida, embora de origem comum, não se confundem. Não dispõem as duas de códigos equivalentes. As convenções, que ordenam o cotidiano, contrariam as linhas mestras de qualquer criação. Sobretudo porque a linguagem de Machado de Assis, límpida na aparência, comporta conteúdos simbólicos, insinuações míticas. Esta sua linguagem é um cristal que tem a idade da terra.

Sua palavra, fundeada no universo urbano, de raízes rurais, transita por uma sociedade arcaica e modernizante, de cosmopolitismo incipiente. Em nome, pois, da construção verbal, Machado se acerca dos barões da terra, dos coronéis provincianos, do clero, dos sacristãos, dos advogados, dos médicos, dos banqueiros, dos parasitas, dos estudantes, dos agregados, das costureiras, das viúvas. Das mulheres ávidas como os homens. E faz-nos crer que o Hades, concebido por ele,não se comunica com um Campos Elíseos idealizado.

Em abordagem precursora dos intérpretes que o sucederão no século XX, o autor esmiúça as artimanhas monárquicas e republicanas, o poder predador e sutil, os perniciosos costumes políticos e sociais, as tramas que advém da família patriarcal,dos casamentos de conveniência, das alianças sucessórias. Amplo arco que atende às instâncias profundas da vida brasileira.

Tantos anos passados de sua morte, Machado de Assis ainda desperta contínuas interrogações. Perante os enigmas que suscita, sentimo-nos à deriva, engolfados pelos seres como Brás Cubas, Ayres, Rubião,Simão Bacamarte, Conceição, que, concebidos pelo apuro da sua arte, tornaram-se réplicas da nossa mortalidade.

Uma arte que, moldada pelo fulgor da ilusão, altera os rumos da urdidura novelesca ao bel-prazer do autor. Como quando Machado de Assis, no romance Dom Casmurro, arbitra em favor de um desfecho que não ofendesse seus interesses estéticos, ainda que o gosto da época se inclinasse para soluções trágicas. Zela, simplesmente, para o livro ser a história de uma imaginação exacerbada. A história da modernidade dos sentimentos. A história das emoções em vigília, à margem do perturbador espiral de uma civilização que se constrói paulatinamente.

O romance, de repertório autoral, é conduzido por Bento. Cabe-lhe a decisão de determinar a dose de prestígio que cada personagem merece na trama. Mas ao cobrir estas criaturas de um véu que tem o peso de um julgamento moral, Bentinho ativa a imaginação como estratégia e, desta forma, acoberta sua dolorida solidão.

A adesão de Machado ao real, compromete as ações morais de suas criaturas. Bentinho, assim, ao sacrificar os seus ideais de narrador, está livre para atormentar Capitu. O que terá levado o marido de Carolina a se perguntar, após capitular em prol do narrador, se havia o risco de Capitu vir a ser considerada o modelo da mulher brasileira que, submetida à afronta do inseguro marido, tem a honra maculada ? Mesmo quando Capitu, em capcioso mutismo, conduz Bento ao desespero que o leve a conhecer a si mesmo. Ou quando pretenda governar-lhe a memória, expor, ao mundo da ficção, a alma desordenada do marido ?

E terá sido como ora conjeturamos? Ou Machado, cioso defensor da verdade narrativa, ao anotar os transtornos da realidade conjugal, não lhe restou senão ampliar o índice da ambiguidade presente no livro e dar seqüência à desenvoltura da fabulação?
 
Não nos enganemos, no entanto, com as poderosas narrativas de Machado de Assis. Em qualquer delas, romances, contos, crônicas, o mais comedido ingrediente tem a sutil propriedade de espargir em torno pistas tão falsas quanto as das nossas vidas, mulheres e homens agora reunidos nesta sala do Petit Trianon.

E não são assim os atavios humanos, as intempéries do cotidiano, a farsa do destino, o fluxo das nações? Não é assim que o Brasil se apresenta sob a cáustica ótica de Machado de Assis, que é glória e epifania nossa?

Prezados amigos,

Há anos repito, à guisa de mote, que se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível. A enfática declaração significando que o país não pode fracassar. Não há motivos e nem fundamentos deterministas que impeçam à nação de cumprir os desígnios de sua grandeza.

Machado é, igualmente, um amigo que me acompanha. Assim, ao vir à Academia Brasileira de Letras, reduzo os passos diante da sua estátua, no pátio à entrada do Petit Trianon. Cumprimento-o com reverente respeito e faço-lhe ver que, graças a ele, sou melhor brasileira e escritora. Asseguro-lhe, também, que somos todos filhos agradecidos do seu gênio.

Aliás, em algum momento após sua morte, Olavo Bilac disse: aqui vimos e viremos e aqui virão, quando tivermos desaparecido – aqueles que nos sucederem “.

Aqui estamos, Machado de Assis, cem anos após a sua partida, a cumprir o vaticínio do Poeta, a reclamar sua memória, a pedir-lhe que se sente ao nosso lado, faça-nos companhia. E diga-nos, em voz audível, para o Brasil todo ouvi-lo:
 
PRESENTE

Acadêmico relacionado : 
Nélida Piñon