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Estante simbólica

ESTANTE SIMBÓLICA

Almejávamos o objeto perfeito. O livro que fosse capaz de contar a história de mil livros. E que, em cada uma de suas páginas, falasse ao mesmo tempo da fundação de um país, chamado Brasil, e da inauguração há cem anos de uma Instituição que ocupa crescente espaço no imaginário popular da pátria.

Um livro que compensasse o esforço dos homens aplaudindo-lhes o espírito, o saber, aquelas atividades que arrancaram a espécie humana da penumbra, para pô-la a serviço da luz, da promessa da revelação. Um livro que fizesse encômios à sua sofrida memória.

Um livro, sim, que, tão logo folheado, pudesse de imediato narrar, pormenorizar os detalhes do real. Um livro que na estante simbólica de cada brasileiro se destacasse pela elegância, pela corpulência sóbria, pelo papel do qual emana o perfume dos tempos e das doces evocações.

E que, visto de longe, não pudesse ser outro livro senão ele. Por todos os títulos insubstituível para quem o possua, ou por quem o estreita contra o peito, em busca do prazer de ler.

Porque só ele viera para contar a história de uma augusta Instituição e de um punhado de homens de espírito.

Um livro que, ao deixar a estante, onde estivera sob a guarda de tantos, ostentasse o seu caráter celebratório.

O tributo que se presta à memória e aos sonhos dos fundadores, dos patronos, desta Instituição, assim como dos sucessores.

Para tornar-se metáfora, enfim, dos outros livros que vêm sendo escritos há cem anos.

Este livro que se apresenta, hoje, elegante e austero, acata com fervor as contingências históricas de uma Casa cuja origem foi igualmente austera, elegante, brilhante. E cujo título, Academia Brasileira de Letras -100 Anos, bem norteia seus desígnios, pois que em suas páginas é evocado cada um de seus 252 membros efetivos. Cada nome associado à história de um país que começou a ser narrada há cinco séculos precisamente.

Os livros comemorativos, decerto, nascem precários. Custa-lhes abordar com justiça a obra humana. Padecem das circunstâncias adversas, das restrições que cercam seu destino editorial. Este livro também, na ânsia de revelar a grandeza da Academia Brasileira de Letras, sucumbe ao seu peso histórico. Reconhece que a Instituição o excede. Mas, embora tenha ele esbarrado nos percalços dos dias, nos critérios humanos, nas contigências do cotidiano, não renunciou à ambição de abarcar narrativas, de ingressar pelos labirintos de uma Academia que viveu, e vive ainda, sob a égide da criação, do pensamento, da inteligência.

A sorte, contudo, ajudou-nos. Sob a pressão de cumprir uma tarefa editorial dentro do curto prazo imposto pelas celebrações do I Centenário da Academia Brasileira de Letras, contamos com o precioso e indispensável apoio do grupo Unibanco, nossos patrocinadores, que não hesitaram em aceitar tal desafio. Em gesto de radical solidariedade, com o intuito de associar-se definitivamente aos 100 anos da Academia, desistiram de pleitear os benefícios das leis fiscais, a serviço daqueles que investem na cultura, e abraçaram, sozinhos, as responsabilidades econômicas decorrentes do projeto. Renúncia fiscal sim, mas jamais renúncia à história.

A partir desta decisão histórica, entre idas e vindas a São Paulo, mergulhamos com volúpia no passado, nos textos, criando uma iconografia fascinante. Definiu-se a estética do projeto, a sua aparência, contornando o belo texto do Acadêmico Josué MontelIo com discretas luminuras, margens requintadas, tudo dizendo que devia ser o corpo e a alma recôndita do livro. As pesquisas separavam o joio do trigo, realçavam detalhes, conviviam com a memória das coisas. Os partícipes do livro, exigentes todos, sempre apaixonados, merecem ter seus nomes celebrados.

Somos muito gratos.

Eis o livro agora sobre a mesa. Ele existe, arfa, revela rostos, passeia pelo tempo com a desenvoltura de quem sabe os anos evanescentes e quer fixá-los. Suas cores correspondem às nossas. Suas palavras são nossas também. Muitas de suas fotografias repousam em nosso arquivo. De nada temos a nos envergonhar.

Talvez conte ele parte apenas de nossa fecunda história.

Mas a história real é sempre inapreensível. Não há como cingi-la ao círculo de fogo das palavras. No interior, porém, de suas páginas há histórias suficientes para que nos orgulhemos da Instituição. Para que, unidos todos, festejemos um trabalho oriundo do empenho, da esperança, do irrenunciável dever civilizatório.

SENHORAS E SENHORES,

Como parte dos festejos do I Centenário da Academia Brasileira de Letras, apresento-lhes nosso livro. Ele aqui está, agora, entre nós, como se soubesse que em meio às suas páginas pousa a história sonhada por moços e senhores há precisamente cem anos.

Acadêmico relacionado : 
Nélida Piñon