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Rodrigo Octavio Filho

                                         ÁLVARO MOREIRA

Álvaro Moreira nunca mudou. Foi sempre o mesmo homem, o mesmo escritor, o mesmo poeta. Inteligência e coração, ironia sem maldade, seriedade e bom humor. Desde a Legenda da luz e da vida (1911), até As amargas, não... (1954), oferece ao leitor a mesma sensibilidade, a mesma filosofia. Mais do que excelente poeta, Álvaro Moreira é um excepcional artista, considerando-se o termo na sua significação mais alta. Em Álvaro tudo é estesia. Dá relevo estético às palavras que pronuncia, às coisas que explica, aos sentimentos que revela. Sempre fez da alegria e da dor uma obra de arte. Desde pequeno guarda a saudade no coração: “Esqueci o berço. Não esqueci o colo”, escreveu ele. E de longe também lhe vem o sentido da felicidade: “A felicidade não morre toda. A gente é sempre um pouco feliz da felicidade que teve.” Ou ainda: “O tempo feliz é sempre o tempo que passou. Embora, nesse tempo, se tivesse sido muito desgraçado...’

As ambições do poeta sempre foram diferentes, modestas: “Para fazer um céu basta uma estrela...” Sorrindo à ilusão chegou a escrever: “A ilusão, além do mais, nos torna melhores do que os outros homens...” Atura o silêncio porque “o silêncio é o sonho que não dorme...” E nunca se queixou da monotonia da vida: “Há certas paisagens sempre novas, aquelas por onde passamos todos os dias!...”

O autor de Um sorriso para tudo foi o amável filósofo dos poetas da sua geração, aquele que encarou a vida com mais otimismo: “Vamos sorrindo sempre, envelhecendo devagar... Um sorriso de êxtase para a beleza, um sorriso de esperança para o amor, um sorriso do encanto e de mofa para a vida... triste ou alegre, um sorriso para tudo...” E examinando-se a si mesmo, filosofou: “Cada homem tem em si mesmo, um mestre e um discípulo... O mestre aparece menos, é compassivo e triste; o discípulo aparece mais e é quase sempre um mau discípulo... Estas palavras são do meu mestre e do meu discípulo...”

Quem ler a obra de Álvaro Moreira, verificará ser toda ela epigramática. Ninguém melhor soube dizer em frases rápidas, claras e sintéticas o que quis. Em sua geração foi voz de comando. Pregou serenidade e sentido. Fez do paradoxo um jogo de palavras, base da sua arte. Comentou e criticou. No comentador está o homem em que a ironia se torna elemento de surpresa, espontâneo, inesperado. No crítico, surge o homem que sabe discernir.

Álvaro Moreira teve sempre bons olhos para ver as coisas boas e as coisas más da vida, e sentir, pelos homens, mais pena, mais piedade, do que admiração ou entusiasmo.

Viu a vida passar como um menino que vê as nuvens no céu movimentando-se, mudando de forma. É um homem feliz porque nunca anda só e saberá envelhecer:

“Todos nós na nossa vida, - escreveu - temos um poeta e um músico que nos acompanham. Felizes ou desgraçados nunca andamos sozinho. Eu tenho Verlaine e Schumann. Vão os dois comigo. Não preciso chamá-los. Vão agora como antigamente, quando eu tinha vinte anos. Faz uma noite muito branca. Vaga um perfume de primavera distante em torno da minha casa. Fico a pensar nas outras primaveras que chegaram, floriram e lá se foram. Como é bom envelhecer! Oh! minha vida! minha fita cinematográfica! Abro a porta que dá para a varanda. Em frente há um canteiro com um cipreste, umas rosas, umas magnólias. Os cenários mudam, os atores repetem sempre o eterno papel... Estou alegre? Estou triste? Não sei. Estou feliz. Tenho vontade de ligar o telefone para toda a gente...” Alô! Desculpe-me perturbar o seu sono. Mas a noite é linda e eu me sinto tão feliz, tão feliz... Desando a representar para mim mesmo... De repente, a memória acorda a Rêverie de Schumann... longe... E exalam-se depois da minha voz, uns versos trêmulos de Verlaine...”

Este trecho, tão característico da antiga prosa de Álvaro Moreira, que tanto é poeta escrevendo como vivendo, é padrão literário que mostra bem o escritor e o homem, o escritor emotivo e o homem isento de egoísmo.

Não será fácil encontrar em nossa literatura prosa mais musical do que a de Álvaro Moreira. Sempre diferente na interpretação, é o mesmo escritor harmonioso calmo e humano, poetizador de paisagens e sentimentos.

Páginas admiráveis são as introdutórias do livro O Brasil continua (1933); e terrivelmente verazes e maliciosas as caricaturas da parte do livro intitulado “Guarda-roupa” onde dá asas a sua ironia sem maldade.

O prosador Álvaro Moreira, bem como o teatrólogo, o poeta, o homem, não são diferentes. E ao longo da vida foram sempre os mesmos. Para bem conhecê-los basta ler as “lembranças” que reuniu em As amargas, não... Nelas, conta tudo. Não oculta nada. Transborda sinceridade. Confessa que sua educação sentimental veio toda do século XIX, daquele fim do século XIX, com Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e, ainda, Romantismo.

Álvaro Moreira fez parte do grupo dos sete rio-grandenses que de Porto Alegre partiram para o Rio de Janeiro, onde se integraram na literatura brasileira na fase final do Simbolismo, sala de espera do Modernismo que vinha perto. Os sete do grupo foram fichados por Eduardo Guimaraens, em versos humorísticos, que objetivavam a faceta original e mais extravagante de cada um. A ficha de Álvaro Moreira termina assim:

                               ...Vede-o: é o mais conhecido e atacado dos sete!

                  E para que da crítica o estilete

                               Definitivamente o sangre, o espete, o esmague,

                   Vai nos mostrar, por uma sexta-feira,

                   A claridade estética da Sombra.

Álvaro Moreira conta-nos que do colégio dos padres, em São Leopoldo, foi diretamente para o jornal em Porto Alegre. E desde então outra coisa não tem sido senão escritor. E confessa não saber a que escola literária pertence. “Ribeiro Couto fichou-me, por uns tempos, na escola penumbrista.” Em 1914, foi posto na escola futurista. “Em 1934, para Tristão de Ataíde, minha escola era a católica. Ora, eu não pedi matrícula em nenhuma dessas escolas.”

Definindo-se com certo pitoresco, não deixa de fazer um bom autorretrato, ou melhor, uma excelente caricatura, à qual falta, apenas, acrescentar uma dose de Romantismo: “Eu me pareço mesmo é com essas ampolas de injeção de bismuto. Tenho em mim as coisas necessárias. Mas preciso de ser sacudido, para que todas se misturem e, então, eu possa ser usado utilmente. A vida tem me sacudido bem...”

Apesar de escritor moderno, atualizado, Álvaro Moreira foi grande ledor de clássicos portugueses. Sobre Camões, escreveu: “Abandona-se Camões. Briga-se comos sonetos. E, um dia, de repente, é por um soneto que se volta a Camões.”

Por ter um sorriso para tudo, Álvaro é escritor e porta da mais alta sensibilidade, e que tem o seu lugar certo em nossa história literária. Em sua poesia existe sensibilidade e verdade. Em todos os seus versos uma infinita ternura:

                   Quero de ti a promessa:

                   quando vier o último sono,

                   hás de poisar-me a cabeça

                   em folhas mortas de outono...

 

                   para que sonhe (tão lindo!

                   o sonho dos sonhos vãos!)

                   que vou sereno dormindo

                   no amparo das tuas mãos...

 

Para encerrar, anote-se o epitáfio revelador:

                   Acreditei na Vida, e a Vida em mim. Depois,

                   desandamos a rir de nós mesmos os dois.

                                                            (Simbolismo e Penumbrismo, 1970)

 

                                      O QUE É UMA GERAÇÃO?

O que pretendo é escrever sobre poetas; sobre alguns poucos poetas portugueses, que li e amei na mocidade, poetas que influenciaram os rapazes de minha geração.

Mas a esta altura sinto que surge um problema: o que devemos considerar como nossa geração? Álvaro Moreira fez-me, há tempos, presente de um ensaio de João Pedro de Andrade sobre a poesia da moderníssima geração portuguesa, em que o crítico, definindo a gênese de certa atitude poética, julga que o conceito de geração é insuficientemente claro para que se possa aplicar com rigor a uma exposição de ideias.

Albert Thibaudet, a propósito de correntes literárias, publica, na Encyclopédie Française, um artigo em que expande opiniões sobre o que seja geração literária. E escreve que pode ser considerado como contemporâneo, atual e ativo, todo o período dos cinquenta aos sessenta últimos anos durante os quais os escritores, hoje ainda vivos e produzindo, se iniciaram, criaram e agiram. É uma opinião, um conceito aceitável, que Thibaudet assim justifica: “Il y a là une durée littéraire qui est vivante non seulement par ses deux extrémités mais par sa masse, se maturité et sa force.” E referindo-se aos movimentos literários que tiveram sua eclosão nos anos de 1820, 1850 e 1885, lembra que hoje, como sempre, o passado subsiste, de modo que os contemporâneos batizaram o romantismo de paroxismo ou surrealismo, o naturalismo de populismo, o simbolismo de poesia pura.

Por outro lado Henri Massis, em seu livro Évocation, escreveu: “Toutes les générations entrent dans la vie par un fort coup de pied qui vigoureusement les dégage.” E lembrando uma conversa que tivera com Péguy, certa noite de julho de 1910, na qual o místico poeta lhe falava do partido que pretendia organizar - le parti des hommes de quarante ans - e das dificuldades intransponíveis para conciliar criaturas de idades diferentes, registra-lhe o conceito: “Peut-être est-ce pour cela qu'on ne peut se faire d’amis que du même temps, du même âge, de la même promotion.

Realmente, para mim o tema - geração - pode ser reduzido ao enquadramento de um grupo de criaturas, que viveram irmanadas em várias e determinadas horas da vida e que receberam, em conjunto, a influência de ideias cuja resultante tenha sido a adoção de certos princípios. Fruto de uma emoção coletiva. Gente que riu com as mesmas anedotas e que serviu de material humano aos mesmos episódios. Que olhou com o mesmo modo de olhar as mesmas alegrias. Que gostou das mesmas coisas, que amou o mesmo tipo de mulher. Que agiu por intuição e acreditou em juramentos tácitos. E que por causa de tudo isso discutiu, louvou, brigou e sofreu.

Focalizo, pois, neste estudo, etapa de uma geração: a da mocidade, a inicial.

Nesse sentido temos que concordar que em literatura todas as gerações são mais ou menos revolucionárias para destruir o que existe ou pôr ordem no que anda desajeitado. O essencial é fazer o contrário. No Brasil, minha geração foi ultrarrevolucionária.

Do simbolismo escorregou para o penumbrismo e passo a passo chegou à Semana de Arte Moderna, em São Paulo, no ano de 1922, espécie de bomba atômica - lançada na pacatez do mundo literário brasileiro... Os poetas ficaram meio loucos... É possível que a razão estivesse com a loucura deles... pois a verdade é que aí temos a poesia estabilizada na obra de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Ribeiro Couto, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Adalgisa Nery e outros e outras. E isso não impede que o eterno e malsinado soneto, maravilha da técnica poética, já encontre novos adeptos e louvadores.

O fato é que durante certos períodos a literatura se estabiliza. Por isso pensam que ela quer se tornar acadêmica e que tudo que é acadêmico deve ser destruído, para que novos movimentos sejam impulsionados. Pura ilusão. Nada menos estático do que uma Academia. A nossa, a brasileira, por exemplo, guarda, mas não destrói. Registra como legítimas todas as tendências literárias, mas as deixa livres em sua natural expansão. Desde que nasceu, assim tem agido. E hoje? Já premiou Cecília Meirelles e elegeu Manuel Bandeira. E fez muito bem.

Se quisermos fazer justiça ao passado, devemos confessar que a precedência de nossas leituras poéticas cabe à obra de Gonçalves Crespo, o que se deu quando minha geração (que no dizer de Levi Carneiro vive, hoje, no pardieiro dos sessenta anos), andava então pela bela e caiada casa dos quinze ou dezesseis.

Antes, porém, devo lembrar o nome de três poetas: João de Deus, lido por inspiração paterna; Camões, leitura oficial, e Guerra Junqueiro, que atraía pela eloquência rítmica e pela coragem de dizer, em verso, coisas que não se devia dizer em prosa...

João de Deus, de quando em quando, quem o não lê? Camões, foi o martírio dos meninos do meu tempo! Os Lusíadas eram leitura obrigatória, cacetíssima, desdobrada em análises gramaticais e lógicas, causadoras do ódio de uma geração inteira ao poeta máximo, ódio que só se amainaria e desapareceria quando leituras espontâneas nos mostraram a grandeza espetacular do grande épico.

Finalmente, Guerra Junqueiro foi, durante certo tempo da adolescência, leitura de todos os dias. Aqueles versos de marcha militar e rimas fatais eram o encanto de nossos ouvidos. Havia ledores especializados em Guerra Junqueiro, como houvera em Castro Alves. Esse entusiasmo, porém, teve vida efêmera, pois, o que veio foi a moda de não se gostar de Guerra Junqueiro... Então - esta é a hora da confissão - o poeta da Velhice do Padre Eterno e de Os simples era lido às escondidas...

Gonçalves Crespo, que faleceu com 37 anos, publicara o seu primeiro livro - Miniaturas - em 1870. Sua poesia chegou a nós com uma doçura de embalo de rede, com uma melancolia que vinha do fundo da alma daquele mestiço luso-brasileiro, poesia das mais espontâneas, impregnada de uma saudade da nossa gente e da nossa terra, que nunca largou o coração do poeta, exilado desde menino.

Brasil e Portugal consideram seu, o poeta Gonçalves Crespo. No caso, todos têm razão. A Academia Brasileira não lhe deu o patronato de uma de suas cadeiras. Mas o festeja e lembra em todas as oportunidades.

Sua poesia veio de Portugal para o Brasil. Por isso o incluo nesta página de memórias, em que lembro os portugueses nossos poetas.

Aqui não direi uma palavra de crítica - nem dele nem de nenhum outro -, pois ele e os outros foram lidos e amados na idade em que o espírito só tem uma faceta: a do entusiasmo.

Lembrarei, porém, que sua mulher, Maria Amália Vaz de Carvalho, fez em 1913 a seguinte pergunta: “Por que é que nesta vertigem da vida moderna em que tudo tem uma existência efêmera, em que a intensidade das sensações as condena a serem fugitivas e rápidas, em que a voga consagra sucessivamente os mais diversos nomes e que se esquecem de um dia para outro os que gozaram de maior fama, este autor persiste e dura, sem reclames e sem louvores da imprensa, sem discípulos que o aclamem e continuem, sem coterie que o levante artificialmente?” E pergunta ainda a nobre escritora: “Por que morrem na imaginação e na memória dos homens tantos poetas, e ele fica, sempre, e chamando a si pelo encanto da sua sinceridade, pela magia de sua graça?”

Realmente este poeta de dupla nacionalidade nunca sacrificou (como observa sua mulher) a emoção ao primor da forma nem a beleza plástica do verso à impressão que o faz vibrar.

                                                      [...]

                (O espelho de duas faces, presença de Portugal no Brasil, 1972)