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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Pereira da Silva, A. J.

RESPOSTA DO SR. A.J. PEREIRA DA SILVA

SEDE bem-vindo, Sr. Múcio Leão.

Sois, em verdade, um escritor, um jornalista, um crítico, um romancista, um contista, um poeta, um homem de letras completo. Alguém já me havia falado de vossa infância dedicada aos estudos. Principiastes a aprender estilo aos doze anos de idade. Preludiastes versos, tentastes contos, perpetrastes críticas, fizestes literatura de todo o gênero. Tudo isso para vós e para os vossos íntimos. Essa biblioteca manuscrita ainda a conserva a ternura maternal da Sr.ª dona Ceci Carneiro Leão, como preciosa relíquia que é dos primeiros surtos e estremecimentos do vosso espírito. Como vedes, mesmo que não o houvésseis confessado agora, já era conhecida a vossa vocação.

Não sei por que esse horror à primeira pessoa, a que aludis em vosso discurso. Deixemos Oscar Wilde com os seus paradoxos. Aliás, não creio na sua sinceridade. Era muito formoso, esse Narciso inglês e genial, para não gostar de falar de si. Não. Em arte, o Eu é que é tudo. Orgulho ou miséria, só o Eu é que é uma afirmação da consciência humana. Tudo o mais não passa de matéria-prima para a retorta mágica desse alquimista ridículo ou sublime.

Hugo disse a verdade: nenhum de nós tem honra de ser uma vida à parte. Minha vida é a vossa; vossa vida é a minha; viveis o que eu vivo. O destino é uno. Quando vos falo de mim, falo de vós. Como não o sentis?...

Fizestes bem revelando a vossa infância, porque se vê que, de origem, o próprio do vosso espírito é a curiosidade. Filho de pai tão ilustre, é possível que a tivésseis herdado já assim tão ponderada, mesmo na adolescência. Faço a conjetura, porque vos noto trabalhado de idéias e sentimentos profundos desde os vossos primeiros escritos.

Talvez houvesse também concorrido para tanto o curso de vossos estudos superiores, nessa Faculdade de Direito do Recife, tão merecidamente orgulhosa de suas tradições didáticas, e sob cujos influxos decorreram, de 1914 a 1918, os dias aurorais da vossa adolescência e da vossa mocidade. Passastes uma e outra entre uma colméia alvissareira de belos espíritos: Barbosa Lima Sobrinho, Edmundo Jordão, Orlando Sete, Manuel Sete, Oliveira e Silva, Maviael do Prado, e tantos outros, que hoje fulguram nas letras, no jornalismo, na magistratura. Bebestes, como eles, naquela faculdade, cujo prestígio mental, como a de São Paulo, tanto acelerou, entre nós, o futuro das gerações sucessivas, as lições de grandes mestres da cultura jurídica, tais como Aníbal Freire, Henrique Milet, Gondim Filho, Odilon Nestor, Meira de Vasconcelos e a figura de relevo de vosso pai Laurindo Leão, adorado pelas gerações que ensinou, filósofo e homem de letras de tão marcante e notória atuação, e cujo perfil acabais tocantemente de traçar em página de tanto esplendor e viva justiça que ficará sendo, entre as vossas, a de mais sensível e irresistível beleza. Chegara o momento de virdes à publicidade, e foi no Diário de Pernambuco, de Carlos Lira Filho, dirigido por Manuel Caetano, que ensaiastes, em iterativa colaboração, os primeiros vôos, estudando Graça Aranha, Eça de Queirós, Oliveira Lima, Afrânio Peixoto, Machado de Assis, Afonso Arinos, Assis Chateaubriand e outros. Esses ensaios atraíram, para logo, a admiração dos espíritos de elite. Apenas, quando chegavam à redação – deveis estar lembrado – causavam um verdadeiro alvoroço. Traçáveis os vossos ensaios em caligrafia de tão difícil leitura que os redatores do Diário se agrupavam em torno à grande mesa do chefe (nem sempre os homens de letras são de letra), para descobrirem o que havíeis escrito. Paciente, Manuel Caetano reproduzia em sua letra perfeita os vossos trabalhos, para tranqüilidade da pobre gente da tipografia e da redação.

Com Barbosa Lima Sobrinho e Edmundo Jordão, formáveis uma trindade tão cordial e tão íntima, que residindo este último a dezesseis léguas de distância do Recife, e dando expansão a esta vossa inata inquietude e amor pelas caminhadas – andarilho terrível que sois vós! – arrastáveis Barbosa Lima Sobrinho por todas essas léguas, para Goiana, a cidade da legenda e do sonho, a cidade que tão gratamente ressoa ao ouvido do nosso querido Adelmar Tavares – “Minha Bruges pernambucana” – como ele o diz, como um Rodembach, nos seus poemas evocativos – “Minha Bruges pernambucana com os seus verdes canaviais, as suas usinas de açúcar, as suas velhas igrejas cinzentas do tempo, os seus canais adormecidos, onde os barcos pousam como cisnes”, cidade onde certamente ele viu partirem aquelas barcaças, “Rosa Branca”, “Luz do Dia”, “Navegantes”, “Flor do Mar”, levando trigo para os enfermos, vinhos e jóias para os felizes, madeiras para tálamos e ataúdes.

Dessas caminhadas à Cidade Gloriosa há várias páginas por vossa obra. Uma delas, e das mais lindas, é a Poesia do Nordeste, na qual estudais as produções do nosso folclore, e outra, a daquela procissão descrita na Promessa Inútil. É da primeira este trecho tão sentido e tão comunicativo:

Há recordações que nos ficam eternas. A memória das nossas emoções é longa e consoladora. E tudo aquilo que embalsamou de poesia e sentimento a doçura da nossa infância continua, através dos tempos, a brilhar em nossa alma, sobre-dourado de um infinito encanto, de uma divina graça. O feitiço da terra é um desses filtros prestigiosos. Nós, aqueles que nascemos nos Estados, e fomos forçados, pela vida, a emigrar, nós bem sabemos as solicitações dessa voz antiga quanto são ardentes e fortes. Os mais ilustres e os mais humildes, todos ouvimos a delícia dessa voz, e todos a ela cedemos. Joaquim Nabuco, que escreveu em ouro livros de pensamento e de meditação, narrou esse poema, suave e ao mesmo tempo amargo, da saudade da terra natal. E o escritor confessava, com uma encantadora ingenuidade, que, longe embora, em cortes pitorescas, entre homens finos e mulheres belas, tinha, sempre, diante dos olhos, a visão das terras da infância, e nos ouvidos, a música dos canaviais balançados pelo vento. Mercê desse mesmo sentimento, que Nabuco definia, é que todos guardamos, pela vida adiante, a recordação dos quadros onde formamos a alma e o espírito, e a lembrança do mundo onde lentamente nos iniciamos nos sofrimentos e nas delícias do Universo.

Vindo para o Rio, aqui chegastes em 1919, e, logo depois, aos 21 anos, já éreis o crítico literário do Correio da Manhã, função essa que deixáveis mais tarde, substituído por Humberto de Campos, para ingressardes no Jornal do Brasil, no qual, provisoriamente, indicado pelo próprio mestre João Ribeiro, o substituístes no “Registro Literário”, e, depois, de maneira definitiva, quando ele se partiu para o “Reino das Sombras”.

 O vosso primeiro livro, Sr. Múcio Leão, os Ensaios Contemporâneos, é de uma gravidade admirável em estréias literárias. É possível que houve concorrido para isso o momento em que apareceu. A Grande Guerra vinha absorvendo todas as inteligências. Surpreendeu a vossa em plena juventude. Consciente ou subconsciente, a calamidade memorável deveria ter influído em vossa psicologia. Deveria, não. Influiu, decerto, como aconteceu a todos nós, os espectadores de uma civilização, que se acreditava fundamental e irredutível, e abatia, de vez, como um teto, sobre nossas cabeças. Era impossível que vossa imaginação, educada pelo gênio clássico, mantivesse o equilíbrio num mundo que ruíra de fato e não mais logrou até hoje o ritmo que lhe imprimira no espírito, durante vinte séculos augurais de esperanças, o gênio messiânico de cristianismo.

Uma justa apreciação sobre os Ensaios notará que foi considerável a reserva de vossas energias íntimas contra os embates da nova mentalidade. Resististes até certo ponto aos delírios iconoclásticos da hora, e o trabalho inicial – Das Condições de Cultura no Brasil – é uma prova deste asserto. Digo até certo ponto, atendendo ao cepticismo do livro, que é, a meu ver, um reflexo mental daquela hora expectante. Daí, certamente, as vossas apreensões de noviço depois da leitura das obras e da observação dos caracteres morais e espirituais das nossas duas últimas gerações de autores. Estudando-as, aliás com simpatia e discernimento, acabastes quase desolado; pois só vos ficou, de nossa atualidade intelectual, uma impressão de desarmonia e da anarquia de alma, de pensamento e de ideal, numa hora de tanto pragmatismo científico e tecnicismo utilitarista. Essa impressão talvez não seja injusta. A verdade, porém, é que uma nação obedece a leis naturais de desenvolvimento. Essas leis são demasiado complexas e por isso podem admitir interpretações diversas. A nossa sociogenia, a nossa e a de todos os povos da América, processou-se em circunstâncias tão inextrincáveis que qualquer estudioso dos nossos assuntos históricos encontra elementos para as suas ilações pessoais. Daí a variedade de critério filosófico dos comentaristas de nossa evolução indígena. Para uns parece insignificante o que, para outros, é um motivo de ufania. Questão de pontos de vista ou de opiniões, igualmente meritórias, porque visam, cada qual a seu modo, o mesmo objetivo: a verdade. Por isso não leveis a mal que eu tenha, nestes assuntos, o meu modo de sentir, um pouco diferente do vosso em 1923 – modo de sentir que hoje talvez já não seja o mesmo.

Quer-me parecer que, nos defeitos geralmente atribuídos à nossa psicologia, deve ser levada em linha de conta a falta de experiência e conhecimentos, que não tínhamos, nem podíamos ter, justamente nas épocas em que nos envolveram os episódios mais significativos do destino de povo ainda em estado embrionário: a Independência, a Abolição e a República. Não obstante, penso que os homens dessa fase da vida nacional revelaram qualidades excepcionais no desempenho dos seus papéis históricos. Idealismo, inteligência, coragem, espírito de sacrifício, virtudes heróicas, encontraram neles figuras vivas e reais, nos momentos de propaganda e das realizações, por vezes dramáticas, das suas idéias e dos seus sentimentos cívicos.

Considerado assim, do alto, abstratamente, parece que somos um povo de contemplativos, alheios à sua própria destinação. Mas a realidade dos fatos da nossa história, e a galeria que já possuímos de homens eminentes em todas as ordens de ação cultural, não justificam o cepticismo teórico, ainda que bem intencionado, do comum dos nossos críticos e etnologistas.

Em regra, esses argumentam baseados em comparações com outros povos europeus. Mas esse método de verificação de valores é rigoroso demais aplicado às gentes americanas. A balança será sempre contra nós. Nada mais natural: em um dos pratos da balança figuram, apenas, alguns séculos, que não são nada contra os milênios do outro. O que é admirável é que o fiel da balança, mais de uma vez, já tenha oscilado em nosso sentido. Não é isto uma prova de que, apesar de todas as contingências de nossa origem, temos vencido de tal forma o tempo e o espaço que já nos libramos – Deo gratias! – nas mesmas esferas superiores dos outros povos? Este é o meu modo de pensar. Talvez seja critério de poeta. Talvez sejam razões sentimentais as que me levam a ser tão otimista. Mas não seria nobre nem justo que as recalcasse no espírito e no coração.

O vosso livro inicial é digno da estima dos estudiosos porque é todo inspirado no verdadeiro sentimento da imparcialidade. Quereis advertir, e advertis, de fato, em vários capítulos, os homens e os moços das novas gerações, dos prejuízos morais que vós mesmo sofrestes, na formação do vosso espírito, e que entravavam, e ainda entravam, o desenvolvimento harmônico da nossa cultura. Vossos conceitos são de tal modo elevados que se impõem à simpatia daqueles que apreciam as coisas de outra maneira. Há, porém, nos Ensaios, páginas de evidência tão bela que serão unanimente admiradas. Tal, entre outras, o estudo sobre Machado de Assis. Nele, discreta, mas profunda, palpita a vossa emoção íntima diante dessa figura tão impressionante, que dificilmente se compreende como houvesse levantado, em ouro e luz, e numa raça tão nova, a mais fulgurante das obras literárias que ainda foi concebida e vivida na mais sábia e pura ourivesaria do estilo. A análise a que submetestes o homem e a sua obra ofereceu a mais feliz oportunidade ao vosso espírito crítico e à vossa plasticidade expressional.

Não resisto ao desejo de ler, pelo menos, um trecho de ouro desse estudo tão comovido e comovente:

Machado de Assis teve um destino singular. Nascendo num lar humilde, passou a existência sem nenhum desses traços fortes, crespos, que parecem assinalar os homens de gênio. Vindo de uma extrema pobreza, teve ocasião de contemplar e analisar a vida, no que a vida tem de mais doloroso e de mais absurdo. Dotado de um senso de observação interior incomparável, capaz de discernir com a mais clarividente das precisões o universo de dúvidas, de amarguras, de sofrimentos, que é cada um espírito, ele se deliciou em vasar, nos seus livros, essas observações que somente a retina de um homem de gênio seria capaz de recolher. Mas não nos iludamos: nada há nele de frívolo nem de superficial. Nesse poeta, nesse psicólogo, sábio na arte de animar com uma vida suprema as visões mais impalpáveis não há a menor das exterioridades. Suas análises são tão-somente de almas; suas anatomias são de espíritos. Lendo-o, muitas vezes cerramos as páginas de seus romances e nos perguntamos: – “Aonde foi esse homem buscar essas impressões, em que abismo de coração, em que silenciosa profundidade de almas”? – Tal de suas páginas narra o estado de espírito de um sacristão que, tendo recebido para as almas uma cédula de dois mil réis, fica a lutar consigo mesmo no desejo de guardar essa espórtula. E que análise minuciosa, horrivelmente torturante, Machado de Assis fez, com esse episódio tão simples! É que ele teve o segredo único do gênio: adivinhou o mecanismo dos sentimentos alheios. Ibsen, descrevendo um anormal, transmite-nos a impressão de ter sido, ele próprio, um anormal; Dostoievski narra o crime de Raskolnikoff e o seu terrível mundo cerebral, como se fosse, ele próprio, esse celerado. Flaubert sofre, com Madame Bovary, todas as torturas do envenenamento por arsênico; e o maior de todos, Shakespeare, como é alternativamente louco com Hamlet, apaixonado e terno com Romeu, apaixonado e sofredor com Otelo, e doce com Miranda, e puro com Ofélia! É que esses homens têm o poder divino; eles vêem desenrolar-se o quadro doloroso e pungente da alma humana. Único, no Brasil, esse desventurado, esse singularíssimo Machado de Assis possuiu a chave do segredo maravilhoso.

O capítulo dedicado a Raimundo Correia é outro lindo retrato, inciso e conciso, do poeta perfeito. Falando de Raimundo Correia, dizeis: “não posso deixar de me sentir fascinado. Esse poeta era complexo e profundo”.

Como se vê, o cepticismo teórico do primeiro capítulo dos Ensaios não resistiu ao exame direto das grandes figuras das nossas letras. Ao contrário, estimulou e aprofundou as vossas faculdades de apreciação justa.

Outro sentimento não me inspiram as páginas sobre Renan, isto é, – “sobre a vida e pensamento de um filósofo harmonioso, cuja sabedoria era temperada pelas belas luzes trêmulas de uma poesia sem fim e o idealismo fecundado por uma paixão ardente da razão e da verdade”.

Muito haveria que dizer de vossa atividade de jornalista, crítico literário, romancista, novelista e contista. Como poderia fazê-lo? Faltam-me duas coisas essenciais: a acuidade analítica e o tempo. Não seria justo, porém, que na hora em que a Academia proclama a vossa consagração, deixasse eu de destacá-la, ainda que sem o brilho merecido. A curiosidade, que é a dominante de vosso temperamento, não podia deixar de conduzir-vos, como conduziu, às lides da imprensa. Não lhe bastariam os livros. Como Humberto de Campos e tantos nomes gloriosos na literatura propriamente dita, tendes dedicado a ela a inteligência, a cultura e a presteza de estilo que ela impõe, nesta hora de precipitação, ao dinamismo sensacionalista dos seus servidores. O artigo de fundo, o comentário político do momento, o suelto, a entrevista ocasional com as individualidades de exceção, a crônica do dia sobre as idéias e sobre os acontecimentos mais controversos, o registro social encontram, na agilidade de vossa pena, a vida e o movimento indispensáveis ao êxito profissional. Por isso mesmo, apesar do vosso feitio retraído, gozais dos vossos contemporâneos esse prestígio que só se conquista pelo mérito real e pelas vitórias incontestadas. O jornalista tem que ser o intérprete instantâneo de todas as idéias e sensações transitórias. Vivê-la, pois, diariamente, a todo instante, é uma prova de exuberância mental, é fazer da própria vida nervosa dos nossos dias matéria plástica ao arbítrio de nossa inteligência. O jornalista, o repórter e o escritor se confundem nessa azáfama de verdadeiro paroxismo intelectual, que é a imprensa diária.

A vossa obra, Sr. Múcio Leão, é uma prova evidente deste conceito. Que nos apresentais, na sua variedade, senão o reflexo da tragicomédia que vivemos? As diferenças que ela oferece são outros tantos modos de ver da vossa personalidade. Mudam os aspectos, muda o estilo. E o plumitivo de há pouco cede a pena ao crítico de agora. Vem a serenidade, a reflexão, a consciência, a sondagem da análise nas correntes subterrâneas das ações e dos sentimentos humanos. E nas linhas e entrelinhas dos livros que a crítica vai buscar a sua razão de ser, a sua nobre razão de ser: – “estudar, como diz Ernest Hello, as idéias mesmas, interrogar, no escritor, a verdade que ele serve ou deveria servir e o erro que adotou e devera ter combatido”. – É uma espécie de exame da consciência alheia, uma arte difícil, porque implica qualidades excepcionais, não só inatas como adquiridas na escola viva da própria experiência. Pela sua causa e finalidade, é ela a mais alta função espiritual. Tendes desempenhado essa função com a tolerância e emulação que dignificam o mister e acrisolam as intenções incipientes dos verdadeiros temperamentos estéticos. Vê-se bem, na vossa maneira, que tendes o vinco espiritual dos vossos mestres. Vosso espírito crítico se plasmou sob o influxo de Renan e Sainte-Beuve, de Lemaître e Anatole France, de Machado de Assis e João Ribeiro. O entusiasmo discreto pelos mais privilegiados, e um sorriso, que é um misto de benignidade e ironia, pelos outros. Procedeis, sem dúvida, como uma força de estímulo e de incentividade, cujos propósitos imprimem aos espíritos novéis o ânimo para os triunfos certos ou prováveis ou impossíveis.

Para provar a sutileza e a penetração de vossa crítica não me seria preciso mais do que referir-me ao vosso livro João Ribeiro. É uma justa apologia ao homem, ao poeta, ao professor, ao sábio, cuja memória deve ser exaltada como exemplo de vida ilustre. De trinta anos para cá nas escolas, nas Academias, nos livros, as gerações estudiosas não encontraram melhor guia. Todo o Brasil contemporâneo se abeberou nessa fonte inesgotável de saber. João Ribeiro foi além do professor. Foi um missionista. Na imprensa, na cátedra, nas livrarias, em toda a parte e por toda a parte, encontrávamos, sempre, essa bondade humanista, essa erudição estimuladora, essa inteligência dadivosa, essa cultura enciclopédica, esse milagre vivo de memória, de método, de vontade, de raciocínio, – de todas as prerrogativas de um educador e orientador de gerações. O tributo de discípulo amado, que vindes prestando à memória desse Mestre de princípios e normas tão nossas, pela benevolência e desinteresse, é a melhor prova do quanto a sua influência foi real e enobrecedora. Vosso convívio de espírito e coração com esse Doutor das belas e boas letras vos deu o senso da medida, a paixão da beleza, o equilíbrio no juízo crítico. Não lhe exagerastes, num átomo, as excelências de caráter, nem procurastes as sombras ou os entretons para atenuardes, na expressão dessa fisionomia, os defeitos que porventura tivesse a sua humanidade. Fizestes obra de uma consciência que procura refletir outra. Para tanto, além do afeto, era mister que estimulásseis em vós mesmo as idéias e emoções que definiram o modelo, ou melhor, o ídolo de vossa admiração. O labor, apesar de árduo, não vos arrefeceu o anelo. Tão forte foi este que, ainda sob a impressão recente do luto da grande perda, iniciáveis aquela série de conferências que atraíram para a sua biografia e a sua psicologia a admiração de quantos ainda ignoravam o que numa e noutra havia realmente de singularidade e beleza.

Essas conferências constituem obra de tocante probidade intelectual. A afeição e a verdade ajustam-se na forma e no fundo das apreciações, dos conceitos ou dos comentários. Viveis com o pitoresco do estilo anedótico ou com as sutilezas da crítica psicológica os múltiplos aspectos dessa inteligência, tão peregrina nos seus dons especulativos e na sua própria afabilidade intimista.

A vossa minudente interpretação da obra de João Ribeiro, prismática e complexa como a sua psicologia, ficará sendo um verdadeiro elucidário para os futuros críticos dos espíritos de elite, cujas associações e dissociações de idéias precipitam a caracterização específica do gênio brasileiro.
Do contista e romancista que sois falam mais alto que a minha palavra os aplausos que tem alcançado o aparecimento de cada um dos vossos livros – Promessa Inútil, Prêmio de Pureza, No Fim do Caminho, Castigada.

Promessa Inútil deu-vos a coroa, concedida pelo Instituto de Cooperação Intelectual de Genebra ao melhor livro no gênero.

Em Castigada, romance de ação e de paisagem, usos e costumes cariocas e nordestinos, revelais vivas qualidades de observador, descritor e fixador de caracteres humanos. Estudais a vida da mulher moderna no Brasil e os sérios problemas que ela suscita, e que, no entanto, são encarados “com esse sorriso de fútil ironia com que recebemos tudo quanto vá além de uma dourada exibição de talento”. Se, em Castigada, fizestes, com perfeito conhecimento de técnica, o romance social, não fostes menos afortunado na fatura, isto é, na forma e no estilo do romance psicológico, o romance de análise sutil e silenciosa, que é No Fim do Caminho. Era de esperar que tal acontecesse a quem já havia burilado aquele impressivo estudo “O Idealismo no Romance”, um dos melhores capítulos dos Ensaios. O gênero é o de Machado de Assis, e Humberto de Campos lhe fez o paralelo com o Memorial de Aires, demonstrando as afinidades de técnica e pensamento entre os dois livros, e de caráter e de destino entre as figuras principais de um e outro, o Conselheiro Aires, ministro aposentado em Viena, e Antônio Pedro, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal. Esse confronto, por si só, com um livro de tal excelência vale pelo mais invejável encômio aos vossos justos desejos a um lugar nesta Casa, que é de Machado de Assis, modelo vosso e de quantos aqui lhe veneram a glória tutelar. Mas, não satisfeito com uma comparação tão significativa, Humberto de Campos assim confessa, no mesmo estudo, completando-a, a sua admiração ostentosa pela vossa obra:

Romancista, contista, ensaísta, ou poeta, o que aparece, em cada um dos seus livros, ou das suas criações, é sempre o Sr. Múcio Leão, isto é, o escritor elegante e sóbrio, o artista em que se fundem a graça a palavra e o encanto do pensamento. Cada livro seu é um desdobramento, apenas, da mesma personalidade – circunstância que, impedindo a variedade da obra dentro do mesmo gênero, é uma garantia certa contra a vulgaridade.

E é por isso mesmo que certa vez, perguntado na Academia, qual dos nomes novos escolheria se fosse permitido ao acadêmico indicar o seu sucessor, isto é, o herdeiro da sua poltrona, respondi sem tergiversar:

– O Sr. Fernando de Azevedo ou o Sr. Múcio Leão!
Esta confissão, que ficará valendo aqui por um bilhete póstumo aos acadêmicos que nos sobrevieram, dirá ao criador do Ministro Pedro o que é, intimamente, a minha admiração pelas suas virtudes literárias, pela graça do seu estilo, pelas tendências da sua cultura e do seu gosto, pelo equilíbrio, em suma, da sua palavra e do seu pensamento.

Se é verdade, como creio, que os mortos velam pelos espíritos que amaram e deixaram no mundo, Humberto de Campos certamente vos está aqui aplaudindo conosco, embora com a sua presença invisível. Consenti que colabore também na justiça com que acabais de pronunciar o memorável elogio dessa figura tão estranha pela inteligência e pelo infortúnio que não pude ver morta sem proferir esta apóstrofe:

HUMBERTO DE CAMPOS

De corpo exausto e de alma combalida,
Após um longo dia de canseira,
Vim de deixar na terra derradeira
Os despojos mortais da tua vida.

Toda a cidade estava encandescida
Sob a luz deste dia de soalheira,
Luz sonora, luz cálida, vívida
Como a luz da tua alma, Humberto, em Poeira.

E agora, à noite, penso a sós comigo:
A glória, o sol dos mortos, grande amigo,
Trouxe-te, presta, o láureo galardão.

Teu destino foi mau como Procusto.
Mas a dor nos redime, Deus é justo,
E não há gênio sem consagração!

Além das credenciais de prosador, trazeis as de poeta. Os Ensaios já vos indicavam como tal. Nos capítulos – “O espírito da nova poesia”, “A poesia do Nordeste”, “Raimundo Correia” e outros – a emoção do estilo trai a cada instante, o poeta latente do Tesouro Recôndito. Só mesmo um poeta versaria tais assuntos como o fizestes. Os sentimentos que inspiraram essas páginas não teriam brotado tão espontâneos de vossa alma, se esta não fosse naturalmente inclinada às solicitações do ritmo. Sem uma tal receptividade íntima, não teríeis compreendido tão bem o nosso folclore, sentido tão intimamente as correntes poéticas de emoção nova, e interpretado de alma tão afinada os frêmitos dos corações musicais.

Por tudo isso, era de esperar o Tesouro Recôndito que já estava nos rumores imperceptíveis de vosso sangue. Cada um de nós tem o seu senso íntimo. Eu diria: o seu prelúdio interior. Ouvimo-lo em certos estados de alma, que alguém define assim: inconsciente, latente, ativo. Mas não é isso que é a inspiração, a poesia? Qualquer que seja a explicação teórica do fenômeno, o certo é que em alguns temperamentos ele se manifesta na espontaneidade rítmica das estrofes, tal como se manifestam os gorjeios na efusão lírica dos pássaros.

Ouçamos a vossa Musa, em dos seus estados de graça:

Todos vós, todos vós, só viveis meditando
Nas coisas que possuís.
E nem vedes que, assim, ides a alma entregando
A sonhos vãos e vis.

Olhai, porém, para essas várzeas flóreas;
Vede os lírios dos campos viridentes,
Que os vales enchem, na sazão vernal.

Nem o rei Salomão nas suas glórias,
Nas suas glórias mais resplandecentes,
Teve uma pompa igual...

É a linda parábola bíblica. Como, aqui, a instintiva afinidade da Poesia e da Religião se ajustam na letra e na harmonia do verso! Como as duas liturgias, a da Natureza e a do Espírito, se confundem no mesmo ato de contrição e desejo de que os homens ascendam, pelo desprendimento dos sonhos vãos e vis, à vida perfeita, isto é, à vida sem preocupações de riquezas ou inquietações de consciência! Pouco importa que essa visão superior da alma humana pareça fora das cogitações atuais. O nosso destino interior no-la impõe a todo momento como a única razão de ser da nossa própria inteligência, cuja origem e finalidade cada vez mais se nos afiguram imperscrutáveis e divinas. Os místicos têm toda a razão. Há uns claros-escuros intelectuais que somente os temperamentos dos artistas, votados, por desígnio secreto, à Perfeição, logram viver nos seus momentos eucarísticos de concepção e composição estéticas.

A simplicidade é o que mais me agrada, Sr. Múcio Leão, nos vossos poemas. Os versos vos surgem das próprias inclinações. Sentis a necessidade de vos integrardes à beleza visível ou aos estremecimentos íntimos da nossa natureza imortal.

Os estremecimentos de um coração de poeta! O seu mundo inexprimível de impressões, refrações, reflexões, sentimentos, idéias, formas substanciais que não logram nunca vir à luz das realizações plásticas! Muitos dos vossos versos revelam as origens de onde emergem, isto é, as fontes vivas de onde correm, transparentes, o seu rumor e a sua frescura. Nada de requintes em vossa composição. Estesia natural, sem artifícios, vibrando como um instrumento acústico.
A Natureza é ainda quem vos sugere aos sentidos todos os entusiasmos ou apreensões. Estais identificado a ela como uma planta – planta humana, cujos conceitos rebentam como frutos.

Entrai a porta menos nobre.
Bebei do mais humilde vinho
Que der a mais humilde mão.

Lembrai-vos, sempre, que o caminho
Que for mais árido e mais pobre
É que conduz à perfeição.

Para a vossa musa, em plena graça dos primeiros módulos, tudo é emotividade. Ouvir e ver basta-lhe às vibrações. Não lhe faltam nem claridade ambiente, nem motivos de ternura, condições essenciais à verdadeira poesia. Esse estado de alma, ou, melhor, de harmonia perfeita das duas realidades, a subjetiva e a objetiva, ou seja, a estética e a especulativa, ou melhor ainda, a mística ou imanente e a lógica ou racional, é que imprime à poesia o seu duplo mistério de expressão humana e divina: o verso e a música. O fascínio desse mistério varia em cada autor, vindo em uns do sentimento, em outros dos sentidos: neste, dos instintos, naquele das idéias ou das intuições puras.

Ouçamos ainda essas lindas estrofes do vosso Tesouro Recôndido, já que o tempo não nos permite ouvir outras e outras não menos significativas do vosso numen poético:

“Quem diz que a felicidade,
Jardim de meandros subtis,
Não seja a simples vaidade
De quem pensa que é feliz?”

“Eu também, meu irmãos, como vós, perjurei!
Ante o altar do meu Deus piedosamente orei,
Cheio de crença o olhar, de esperanças o peito,
E não cumpri, depois a palavra que dei!”

“É noite. Os céus fulguram, silenciosos.
Novas constelações desabrocharam
Como jardins ardentes, num tremor.
Eu sonho, sob os astros generosos,
Como um dia, há milênios, já sonharam
Meus primeiros avós na terra em flor.”

Tendes, Sr. Múcio Leão, a vossa maneira autêntica de sentir e pensar como poeta e prosador. Melhor do que eu, sabe a Academia apreçar os vossos méritos. Nela encontrareis o vosso ambiente. Mantemos aqui a crença generosa de que o sentido da vida é o da inteligência. Foi a lição que nos confiaram os gênios protetores deste cenáculo. Temo-la como verdadeira, e todas as nossas energias profundas são para bem interpretá-la, senti-la, vivê-la no fundo e na forma das palavras eternas. Mercê da força viva da fé, eles, os mestres, nos animarão a nossa apetência de mais luz e beleza na estilização do que pensamos e sentimos. Não é o senso alegórico da vanglória que aqui nos reúne, mas o fervor recíproco por nossas letras e por todas as vocações literárias do Brasil, – deleite para nós e dever de consciência para com as juventudes que se devem suceder melhorando, aperfeiçoando, sublimando os atributos étnicos; pois, só assim, um dia estaremos à altura dos nossos desígnios, se o destino cíclico das civilizações porventura deslocar a glória mediterrânea do gênio latino para os povos adolescentes do Novo Mundo.

Afigura-se-me que os dois instrumentos mais poderosos para levar uma nação à plenitude de sua forças harmônicas são a Política e a Literatura, isto é, a ação direta dos estadistas na realização das idéias úteis, e a influência dos intelectuais na formação educacional do espírito coletivo.

É esta correlação, acorde necessária, que desejamos ver bem compreendida. Há uma visível inquietude e um vivo espírito de renovação no Brasil deste momento. São sintomas de revivescentes impulsos propulsores, que não podemos nem devemos recalcar em estado latente. Ao invés disso, impõe-se o dever de trazer à tona essas aspirações surdas, orientando-as no fio do pensamento da raça. Tal foi sempre a nossa orientação. “A Academia, disse-o a Comissão de Poesia em 1926, – a Academia não tem, nem pode ter, preocupações de escolas ou pautas, como se lhe tem procurado atribuir. Não! A Academia tem em mente a legenda de Santos Chocano: Na arte cabem todas as escolas, como num raio de sol todas as cores. Se bem que seja dos seus princípios fundamentais velar pela pureza da língua e defender o sagrado patrimônio dos nossos antepassados clássicos, ela não marcha às avessas, como aqueles Matuiús de que nos fala Bilac no seu Tarde, que ‘quem os segue vai para o passado, quem os imita foge do futuro’. A Academia procura, apenas, nas escolas onde se encontre a beleza em sua plenitude e serenidade. Ela pode estar em todas as escolas, como estão num raio de sol todas as cores.”

Para a Academia, como vedes, só há uma distinção: a do culto da verdade e da beleza como a concebe, compreende, sente e vive a expressão imperecível da nossa língua.

Tudo quanto obedece, na ordem especulativa e emotiva, a esse impulso finalístico, a Academia admira e exalça, como obra aceleradora e cristalizadora das nossas energias.

Lendo-vos, sentindo-vos, acompanhando-vos, Sr. Múcio Leão, vemos que esse é o espírito que também vos solicita e orienta. Vinde, pois, com a glória da vossa juventude e da vossa inteligência, colaborar em nossa ação, de equilíbrio e de estímulo às virtudes imortais.