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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Roquette-Pinto

RESPOSTA DO SR. ROQUETTE-PINTO

SENHOR Miguel Osório,

Como se fora um prêmio, deu-me a Academia Brasileira o honroso encargo de receber o sucessor de Medeiros e Albuquerque.

Este lugar onde estou, pelas tradições e pela grandeza dos que por aqui transitaram, é sempre luminoso; tem brilho bastante para que ninguém repare agora naquele que está falando. Uma alegria cheia de saudade – o ser chamado a celebrar convosco a lembrança imperecível de um grande amigo, que foi dos mais claros e burilados espíritos do país. Contentamento e ufania também... por serdes vós quem sois: um companheiro muito mais moço, admirado e querido.

Um poeta, ainda que dos maiores, não me pareceria muito à vontade na herança de Medeiros. De certo os seus versos são lindos, mas a poesia, naquele eterno apaixonado das pessoas e das coisas belas, sempre foi atitude transitória. A arte de exprimir os pensamentos sob metrificada forma parecia-lhe exausta; a extinção da métrica, longe de empobrecer as letras, quebradas as simetrias, virá permitir que as idéias sejam transmitidas mais amplamente. É o que ele pregava: “O essencial é que o pensamento se exprima bem.”

Um poeta acrescentaria... e da maneira mais bela possível. Mas o talento de realizar era tão grande naquele homem lógico! Apesar de tudo deixou versos deste porte:

Meu coração de tanto palpitar,
dá mostras de sentir-se fatigado.
Dentro dele se agita o meu passado,
como um plangente, um soluçante mar.

Ora sacode as ondas de vagar
num lamento monótono e magoado,
ora dele se eleva um alto brado
de tristeza, de angústia, de pesar.

Mas o grito maior que dele parte
sobrepujando as outras agonias,
da Morte diante da terrível lei,

é que sinto que vou abandonar-te
quando tu mais de mim precisarias,
filho do filho meu que tanto amei.

Medeiros escreveu contos vigorosos, romances interessantes e admiráveis livros de viagens. Um romancista não encontraria o seu paradigma na complexa personalidade do vosso eminente antecessor.
Mas se um homem de ciência de molde antigo, poeirento, hirsuto, rabona escura e olhar paranóico sobranceiro à turba ignara, não poderia evocar a imagem luminosa do nosso amigo, já o sábio moderno e ágil, claro como sois vós, vivendo a existência árdua e feliz dos laboratórios, sem esquecer que em nossos dias o indivíduo isolado da massa humana é fóssil sem valor, esse poderia bem lembrar Medeiros, que foi, para mim, principalmente, um cientista transviado, espírito pesquisador antes de tudo, que a vida não permitiu seguisse o caminho da inclinação natural.

Medeiros e Albuquerque nasceu no Recife aos 4 de setembro de 1867. Fez seus estudos no Brasil e em Portugal, países em que a cultura científica mal começava a ser levada em conta.
No tempo de moço, os rapazes faziam exame de retórica; e de muito longe ouviam falar da história natural. Rui Barbosa quase escandalizava traduzindo as Lições de Calkains em que há boas noções de zoologia elementar. Pura formação coimbrã, literária e clássica.

Medeiros, porém, era dono de um instrumento cerebral de incomparável agilidade, conforme a feliz definição de Agripino Grieco. Fórmulas vazias o enfastiavam. Para ele o melhor estilo é o que tem mais pensamento no menor número de palavras.
A concisão e a clareza cartesiana do que escrevia deixam manifesto o penhor que o levaria a ser, de fato, um apaixonado estudioso da ciência. Diletante? Sim, porque a sua terra não lhe pôde oferecer ambiente mais propício. Se mais resignado e talvez mais calmo, evidentemente poderia ter feito, no terreno da pesquisa, tanto quanto outros. Houve, porém, dominante, um fator de inquietação que o levou ao jornalismo, no seu conceito “a mais perfeita e a mais completa das belas-artes... arte da vida moderna”. Houve também epicurismo intelectual, muito daquela deliciosa vadiação do espírito, encanto da existência e desespero dos pessimistas. Qual de nós dois, Sr. Miguel Osório, terá autoridade bastante para erguer a primeira pedra? A biblioteca de Medeiros, pela variedade dos assuntos, era uma livraria. Ao lado das grandes composições de todas as literaturas, tratados de biologia e, sobretudo, de psicologia experimental, livros de magia, de anedotas, de arte e de esoterismo, de religião e de eugenia. Medeiros vivia caçando curiosidades. Certa vez, na sua casa hospitaleira tirou da gaveta uma caixa quadrangular, tendo numa das faces diversos mostradores sobrepostos. Algumas pequenas maçanetas giravam, cada qual comandando um dos mostradores. Era uma nova máquina de compor histórias literárias, contos ou romances, que ele mandara vir dos Estados Unidos. Nos mostradores, de cima a baixo, apareciam, pelo rodar das maçanetas, nomes, títulos profissionais, verbos indicando os acontecimentos da novela desejada, lugares em que cenas se poderiam passar, crimes ou desastres para os personagens, intervenções da justiça ou da religião... Sugestões para arranjos e combinações de pessoas, ofícios, acontecimentos. Coisas da América do Norte. Medeiros conheceu a engenhoca no fim da vida, quando toda a sua obra admirável na literatura, na ciência e no jornalismo estava realizada. Com a sua diabólica e sempre alerta curiosidade, talvez tivesse algum dia querido experimentar as virtudes da caixinha. O que ele legou na herança opulenta, foi sugerido pela vida, que sabia analisar e reconstruir, olhos penetrantes e cérebro privilegiado.

Ainda a respeito da sua inclinação para a pesquisa científica recordo-me de um episódio. Certo dia, ao terminar uma das nossas reuniões, pergunta-me ele por que não poderiam os homens aproveitar, na alimentação, a erva que nasce à-toa... Discutimos as poderosas razões que me levavam a responder pela negativa quanto às vantagens da idéia. Mas, a instâncias suas, para que a experiência pudesse ser realizada mais facilmente pelo indivíduo que deveria ensaiar o regímen, obtive que um dos meus colegas do Museu reduzisse a pó, no vácuo, a frio, conservando-lhes as virtudes, algumas folhas. E o material foi entregue ao insaciável investigador. Logo depois adoecia, e desistia do ensaio.

Essa ânsia incoercível de poder diretamente desvendar os segredos do mundo, o delírio de indagar, que vem através dos séculos condicionando o progresso, a fúria de saber – eis, para mim, o traço definidor daquele grande espírito.

Mais que outro qualquer podeis dizer, com autoridade, se Medeiros não foi o sábio transviado nos labirintos da política, do jornalismo, da literatura.

A sua refinada sociabilidade, a extrema simpatia, não consentiram que Medeiros vivesse aprendendo para o seu egoísmo e prazer pessoal exclusivamente. Timbrava em repartir com os companheiros o que ia colhendo. Os seus amigos sabem da alegria com que mostrava as novidades que descobrira na imensa bibliografia constantemente manuseada. No seu ex-libris, entre outros atributos profanos, há um diabo... Pois o Príncipe Vermelho não deve ter aprendido muito na interessantíssima biblioteca de Medeiros, porque os livros estavam sempre nas mãos do proprietário e senhor, que não lhes dava trégua nem descanso.

A graça natural, o bom gosto, a erudição de boa escolha, davam às conferências de Medeiros um encanto superior. Talvez sejam elas o melhor da sua produção, mesmo do ponto de vista social, porque, ali, foi agente dos mais eficazes na divulgação da ciência, da arte e da literatura. Trabalhou por elevar o nível intelectual da sua gente. Eu não conheço nenhum serviço que mais obrigue a gratidão da posteridade. Deve ser posto ao lado de João Ribeiro, mesmo ao vosso lado, Sr. Miguel Osório, visto que na vossa biblioteca não há somente o relato de novas descobertas, pesquisas originais, mas também muito do que de melhor em matéria de ensino público se há feito por aqui.

Dos seus trabalhos, os que Medeiros mais prezava eram os de psicologia teórica e aplicada.
Não é a ocasião própria para discutir se ele tinha razão. Com segurança, e sem desmedido elogio, pode dizer-se que realmente conseguiu sozinho galgar as culminâncias das ciências difíceis da sua preferência. De passagem quero citar o que fez para difundir as doutrinas de James, a psicanálise e tantas outras. Não deixarei no esquecimento os seus estudos do hipnotismo, que Miguel Couto prefaciou, e o seu admirável, pequenino tratado dos Tests, além dos artigos que autorizadas publicações especializadas acolheram com apreço. A respeito da sua vida de administrador ouvimos há pouco Maurício de Medeiros. Quantas medidas interessantes e úteis ele pôs em prática ou aconselhou. No Distrito Federal, o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental – foi sua criação.

A 13 de junho de 1934 desaparecia Medeiros e Albuquerque deixando uma obra magnífica e sincera saudade. Nestas salas a sua voz encantou multidões, acendeu debates. Nunca, mesmo nas mais fortes discussões, tratando de assuntos ou pessoas que o apaixonavam, deixou de ser o polido e atencioso adversário, companheiro bem humorado e prestante.

A Medeiros e Albuquerque e a Afonso Celso, nosso querido presidente, pela doença temporariamente de nós afastado, devemos um espetáculo de rara beleza. De Pedro II, que para Afonso Celso é sempre o “Magnânimo”, na constante e veneranda admiração, Medeiros mais de uma vez disse francamente o que pensava. Sempre Afonso Celso retrucava no protesto de todos esperado e ouvido com respeito. Entre os dois homens tão sinceros jamais houve uma frase ou um gesto áspero ou mau, no tratar da pessoa do monarca ou de outros casos que também os separavam. Por estes tempos de intolerância e de força, quando por toda parte tentam reviver práticas em que o pensamento é mais torturado, às vezes, do que o corpo, deixai-me dizer que a cena era digna do encontro das duas almas diferentes e amigas, fazendo da Academia um lugar de grande bem-estar espiritual. Nem vos posso indicar o que mais crescia na minha estima, pelo exemplo que davam de tolerância e respeito pelo pensamento alheio.
Sois também romancista, Sr. Miguel Osório. Conseguistes facilmente exprimir, no estilo nervoso, as angústias de algumas almas sem abrigo que bem aconchegadas protegeis nos macios refolhos de aguda sensibilidade. Confessais que não sabeis ao certo se o vosso belo volume encerra um romance. Pouco importa. A vida, em si mesma, ainda é a melhor das urdidoras. No livro há gente tão viva que os críticos até imaginaram seres do vosso conhecimento objetivo. Gente que ama e sofre... Deve ser mesmo romance.

Os romancistas pensam que inventam; mas quando o livro é dos que ficam, a história foi um logro que a natureza passou no escritor. Estava dormindo nos complexos, diria Medeiros, nas dobras profundas da personalidade.

Não devem ter muita razão os críticos de que nos falastes. O homem de ciência – é lição dos vossos trabalhos – a não ser os que encarquilham na esterilidade das taxinomias exclusivas e pedantes, não pode caminhar sem o estímulo de um sonho de verdade e de beleza que a imaginação aquece. A verificação – é outra coisa.

Tendes sido o exemplo da vossa geração, arquiteto de edifícios biológicos complexos e úteis, alguns belos e poéticos.

Quem conheceu o solar do vosso pai – casa de requintes espirituais – o ambiente em que vos criastes, numa fraterna e preciosa agitação de idéias nobres e boas, não pode ter surpresa alguma vendo o vosso nome de professor dos mais seguidos luzir tão bem no Uruguai ou em Paris, falando aos alunos na Praia Vermelha ou aos colegas da Sorbonne. Surpresa haverá, muito justa, ao percorrer tudo que tendes realizado na fisiologia experimental, no meio ainda modesto dos nossos recursos nacionais. Fostes inovador dos mais firmes e brilhantes. E não achareis fora de propósito eu, que a todos vos conheço e quero, amigo de muitos anos, recorde agora o nome de Álvaro Osório, nosso mestre insigne e modesto, que não esqueceríamos jamais, no momento do vosso merecido triunfo. O caráter dos vossos trabalhos de fisiologia experimental é definido pelo arrojo das concepções, segurança da técnica, quase sempre criada por meios próprios, a tenacidade com que perseguis a verdade que se esconde e negaceia, quando no determinismo das indagações aproveitais recursos precisos, inclusive os do simbolismo matemático.

Será impertinência dizer que os leitores, em alguns casos, desejariam linguagem mais biológica e menos algébrica como Johannsen queria o estudo dos fenômenos da vida: com matemática e não como matemática... No entanto a razão está do vosso lado. Lê-se no admirável Bayliss que, no fim de contas, os fatos vitais são sempre, em essência, mudanças, variações infinitesimais e, portanto, é tempo dos biólogos se prepararem no cálculo indispensável às teorias da sua ciência. Ainda aí, no Brasil, estais entre os pioneiros.

Mais de cento e cinqüenta memórias, notas ou monografias, versando assuntos originais, opulentam a vossa bibliografia científica. Seria evidentemente impossível esmiuçar uma por uma as notáveis pesquisas; hei de apontar, entre tantas, duas ou três, onde o vosso talento de sábio e filósofo mais se revela e se confirma. Toda a fisiologia tem merecido vossa atenção: os reflexos, a respiração, a excitabilidade dos nervos e dos músculos, as funções nervosas da pele, a circulação, a termogênese. Dos vossos estudos sobre o vestuário nos climas quentes, não direi nada. Não quero afligir os moralistas sisudos que a moda feminina, de tão pouco pano, irrita e desconsola. Não lhes direi nada das vossas conclusões.

O valor de toda a vossa produção foi reconhecido aqui e na Europa; a Faculdade de Paris vos conferiu o Prêmio Sicard e a Academia Brasileira de Ciências, o Prêmio Einstein.
Por isso deve ter repercutido vantajosamente para o nome do Brasil, no Instituto Internacional e Cooperação Intelectual, a escolha do vosso nome para a presidência do Comitê Nacional, cargo que, para atender a Aloísio de Castro, exerci durante algum tempo e vos entreguei como quem dá o seu a seu dono.

A descoberta de algumas leis que regulam a respiração foi, talvez, dos primeiros trabalhos vossos de eco internacional. Mas de todas as contribuições uma existe de valor singular, seja do ponto de vista puramente fisiológico, seja do ponto de vista filosófico. É o conjunto dos estudos sobre a pele. Depois de tudo exposto, rematais: “Descobrimos que a ablação total da pele, na rã, produz modificações profundas do comportamento do animal.” A velha intuição que levou Chamfort à sua célebre, grosseira e pitoresca expressão, séculos mais tarde veio encontrar nas vossas mãos uma elucidação sem dúvidas ou exageros. O bom senso do povo por onde, no conceito do filósofo, surge a sabedoria, já desconfiava. Somente na rã? Deve ser mais geral o fenômeno. A pele influi no comportamento da miserável vida humana. Tanto que os antigos – vejo isso num meu alfarrábio, livro dos Adágios, Provérbios, Rifãos e Anexins da Língua Portuguesa – os antigos juravam pela pele... No batráquio pudestes facilmente executar aquela tétrica operação do arrancamento. Mas a idéia, Sr. Miguel Osório, a idéia dessa técnica, que feroz imaginação não exigiu?

E como é interessante tudo quanto a respeito nos ensinais. “Enquanto permanecem alguns pedaços de pele, o animal pode apresentar modificações do tônus muscular e da coordenação dos movimentos, mas não se apresenta no estado de profunda apatia que caracteriza a ablação total.” Depois de mostrar que o estado de torpor não deriva do choque, nem de qualquer substância segregada, acentuais que a “apatia das rãs é devida à ausência de excitação do mundo exterior. Os sentidos da visão e da audição sendo muito rudimentares na rã, o animal recebe pela pele as excitações necessárias para manter o sistema nervoso em estado de excitabilidade normal, para conservar o que se pode chamar o tônus do sistema nervoso”.

Assim como a corda do violino só se torna capaz de vibrar, nas notas desejadas, depois de estar suficientemente distendida, no tônus, que para os músicos é a afinação, o sistema nervoso precisa também de certo grau de tensão fundamental específica. Na vossa descoberta, a pele e os órgãos dos sentidos afinam o sistema nervoso, para que ele possa vibrar nas reações que a vida impõe.
Será realmente verdade que os poetas pressintam, de longe, o que a ciência há de verificar?

Tu n’as jamais été dans tes jours les plus rares
Qu’un  banal instrument sous mon archet vainqueur.
Et comme un air qui sonne au bois creux des guitarres
J’ai fait chanter mon rève au vide de ton cœur.

Numa página de Balzac as mulheres são como o violino, de que um virtuose tira melodias sublimes. Que pode dar um stradivarius nas mãos de um gorila?
Escrevi há pouco, e agora quero repetir, depois de reler os vossos trabalhos: “A pele é uma das maravilhas da história natural.”

Cabe-vos, como se vê, louvor especial, ao caracterizar a estupenda túnica protetora e sensível, receptora específica dos apelos do mundo, condicionando os impulsos de onde surgem sentimentos e ações, fontes de que brotam as raças. Pensam muitos que o determinismo científico morreu de uma vez, porque os físicos não podem dizer qual será o átomo que há de explodir num momento dado, quando, afinal, hão de ter todos a mesma sorte.

Mas que vale um milímetro na medida da distância que vai da Terra ao Sol?
Trabalhos como os vossos, feitos com precisão e honestidade, são, de fato, um conforto para os que esperam tudo da ciência – na ordem moral, na ordem intelectual e na ordem prática.
Há mais de meio século vêm os sábios trabalhando para explicar os interessantes fenômenos da excitação elétrica dos nervos. Por múltiplas razões o problema apresentava dificuldades transcendentes. Depois de nove anos de pesquisas e cálculos, mil vezes renovados, corrigidos e acrescidos – conseguistes formular uma teoria geral da excitação, vosso trabalho capital que, por isso mesmo, tem de aparecer hoje aqui, ainda que numa breve menção. Mal de mim, que não conseguirei dar, nem de leve, a medida do que nele existe de profundo e belo!

Resolveste abordar o problema tentando uma teoria puramente matemática, sem nenhuma hipótese físico-química. A base da vossa edificação? Admitir que sob a ação do estímulo surgem, nos tecidos excitáveis, dois fenômenos opostos: um proporcional à intensidade da corrente, outro proporcional à perturbação produzida e ao tempo decorrido desde o início. Vossa teoria explica a reóbase – fundamento da cronaxia, de tão largo emprego na prática dos médicos; e dá conta do fato surpreendente, conhecido desde os tempos de du Bois-Reymond, de não agir sobre o nervo a corrente contínua senão no fechamento e na abertura do circuito, ficando o cordão nervoso como que indiferente durante o resto do tempo.

Também quando se varia bruscamente a intensidade da corrente contínua, o nervo responde no momento da variação. E só nesse momento. Pois os vossos estudos vieram igualmente explicar o fato.
Assim apareceu a noção da cronobase – característica racional da excitabilidade, relação entre a reóbase e a cronaxia, multiplicada por um fator.

Passastes depois para o estudo direto da excitação, buscando a interpretação físico-química. Ainda aqui fostes feliz, como quem luta bem armado e é digno da vitória, porque tem razão e não desanima nunca. Pouco importa saber o que o futuro fará desses frutos soberbos da vossa extraordinária capacidade. São trabalhos que hão de ficar nos registros da ciência entre o que de mais elevado houver produzido a nossa América do Sul para o tesouro espiritual da humanidade.
Medir a fadiga – sempre foi coisa muito difícil. Principalmente avaliar a fadiga dos outros, quando trabalham para nós...

O processo que imaginastes para medir o cansaço é simples e elegante. O índice da fadiga é a relação da força máxima desenvolvida pelo músculo, avaliada do dinamômetro, para a potência máxima, verificada no ergógrafo.

Os erros, que levam aos desastres, se não vêm da doença, nascem, na maioria das vezes, da fadiga. D. Miguel de Unamuno tem toda razão: a fadiga é o mal do mundo. Depois de tanto tempo em que os povos viveram agitados no turbilhão das conquistas de toda ordem, precisam dormir, como as crianças travessas, que se renovam nos sonos de pedra. O mundo será velho; o homem é muito moço. Há povos que mal conhecem o fogo e ainda ignoram o mais rudimentar conforto. Os mais civilizados há somente uns trinta anos conseguiram voar. Só agora se ouvem os homens de continente a continente. Nos arroubos da juventude a Espécie ainda não pode escutar a voz profética de alguns filhos mais sábios. Ainda crê na violência; e chama sempre justa a causa do seu interesse. A Humanidade não está decrépita; está cansada. Caminha com o passo incerto dos boêmios tresnoitados, pisando muitas vezes, sem sentir, as melhores e mais delicadas flores da cultura. Está cansada das maravilhas que andou fazendo nos dois últimos séculos. Exausta de sofrer e gozar.

De fartos documentos ressalta, pois, com vigor, a vossa personalidade de sábio; do artista aparece em outras tantas páginas a alma delicada. Lastimo sinceramente todos os que ainda não tiveram ocasião de ouvir as vossas apaixonadas interpretações de Beethoven ou Chopin. E as frases emocionantes e tumultuárias do Tristan, que tanto vivem no vosso teclado.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, fizestes os estudos secundários no Colégio Köpke – nome que recorda um dos meus mais estimados amigos, companheiro numa grande obra de educação popular; no Rio terminastes os estudos superiores. Fizestes o vosso nome sem ter saído do Brasil. Fostes à Europa pela primeira vez, não como aprendiz, mas como professor que aqui mesmo teve a virtude de se aperfeiçoar e impor.

Dos maiores livros de ensaios publicados no Brasil, dois figuram na vossa bibliografia: Homens e Coisas de Ciência e A Vulgaridade do Saber. É difícil dizer qual o melhor. Tudo neles concorre para o brilho com que são tratados temas variados e empolgantes. História, Biologia, Arte, Filosofia palpitam em ambos. Muitas vezes o escritor parece em verdade trair a feição psicológica do autor, que nem sempre se compraz em fórmulas definidas, que seriam de esperar num pesquisador de tal envergadura. Chega a citar um trecho de Renan quando faz apologia dos estados obscuros anteriores à reflexão, estados que o mais claro dos escritores de todos os tempos achava particularmente fecundos para a criação. Mas seja tratando de A Ciência e a Língua Portuguesa, As Mulheres e a Ciência, de A Arte de Esquecer, do Problema da Dor, do Sonho e a Ação, ou escrevendo biografias e artigos históricos – Pasteur, Pedro II e o Instituto de Fisiologia, Ewald, Miguel Pereira, Sofia Kovalewsky – contribuístes para a literatura nacional com muitas páginas definitivas.

Quero dizer ao romancista das Almas sem Abrigo: nunca foi mais amável escritor do que nos dois volumes de ensaios, o estilo jamais teve tanta louçania. Abrindo ao acaso: “Em arte, como em tudo, o passado não pode ser desprezado, nem afastado... Mas pode ser esquecido, envolvido nos véus nunca inteiramente opacos do sábio esquecimento, do esquecimento educado, que anula as exuberâncias nocivas, mas não asfixia as sementes vivas e férteis. Estas renascem em formas novas e mais ricas, quando encontram as condições adequadas para o seu desenvolvimento, reunidas na alma nova das personalidades, raras, mas sempre existentes, que sabem ver e sentir.”

Quanta sutileza nessa página! Que descoberta de extrema finura psicológica o sábio e educado esquecimento, que por desgraça não está ao alcance de todos! Sois das almas novas que sabem ver e sentir, almas preciosas até para os povos de velha cultura profunda e sedimentada. Entre gente que se debate nos lances morais e práticos da própria formação definitiva, agitada como as moléculas quando se orientam para o poliedro nuclear dos corpos cristalinos, são pontos de apoio da sociedade. Da penetrante visão há de a ciência recolher constantemente coisas belas como as que mal pude levemente recordar; da sensibilidade apurada as letras hão de receber o carinho que tantas composições recomendam.

Depois de tudo isso, trazeis para a Academia, como queria Medeiros, o simples encanto do trato pessoal, a elegância discreta das atitudes.

Não vos preocupe mais a indagação dos nossos intuitos no caso da escolha feliz.
Quase estou em afirmar que nem mesmo foi causa – “o romance que vive em toda obra de ciência”. Para os altos valores espirituais há sempre aqui um lugar. Mas os romances guardam o antigo prestígio. A humanidade é muito moça.

Aqui, Sr. Miguel Osório, onde hoje vos recebemos com tanta alegria, muitas vezes há de vir ao vosso pensamento a lembrança daquela nave iluminada, que na lenda medieval singrava o mar, varando o nevoeiro e a tormenta, rumo incerto quando faltava a tramontana, tudo sofrendo sem queixa, dominada pela visão da figura sem par de formosura e meiguice, que de longe atraía toda a cristandade. Depois vereis, de certo, que quase tudo hoje é diferente...

Mas bem depressa concluireis comigo que o mesmo sonho de luz e de harmonia continua. Os da nave antiga nem tinham “a agulha que dita o Norte”; só a Poesia os animava. Nós somos muito mais felizes; além da Arte, a Ciência nos ampara. Eles esperavam tudo da Conquista; nós tudo esperamos do Trabalho. Mas a Esperança é a mesma...