Início > Acadêmicos > Miguel Osório de Almeida > Miguel Osório de Almeida

Discurso de posse

DISCURSO DO SR. MIGUEL DE ALMEIDA

SENHORES!

Quando foi inaugurada vossa Companhia, deixou Joaquim Nabuco transparecer, por demais claramente, suas dúvidas sobre o êxito do novo e assustador empreendimento: “A primeira condição da perpetuidade é a verossimilhança, e o que tentamos hoje é altamente inverossímil”, dizia ele. Entretanto, a fé, ou, melhor, a boa-fé talvez pudesse produzir esse milagre de realizar o inacreditável. Ainda assim, não compreendia Nabuco, ou não previa, a possibilidade de afirmação de uma Academia sem a colaboração lenta e indispensável do tempo. “As Academias, como tantas outras coisas, precisam de antiguidade”, explicava ele. “Uma Academia nova é como uma religião sem mistérios; falta-lhe solenidade. A nossa principal função não poderá ser preenchida senão muito tempo depois de nós, na terceira ou quarta dinastia de nossos sucessores.”

Quem hoje aprecia vossa ilustre Companhia, quem procura avaliar-lhe a alta e incomparável ação na vida social e intelectual do Brasil e quem pesa e mede o seu grande prestígio, sorri com benevolência das previsões cépticas ou pessimistas de vosso primeiro Secretário-Geral. Mostra vossa Academia toda a grave e imponente beleza da maturidade, ostenta com a conveniente discrição esse amável e tranqüilo sorriso, que provém da serena consciência da imortalidade, e já lhe não faltam alguns mistérios, alguns enigmas indecifráveis; por isso não arrefece a curiosidade sempre ativa em torno de vós. Extraordinariamente precoce a vossa maturidade, e não cometerei a estouvada indelicadeza de lembrar a data de vosso nascimento...

Constitui Nabuco mais um exemplo de quanto, no Brasil, é perigoso fazer previsões. Habituado a acompanhar e estudar, pela formação de literato e vida de diplomata, as lentas estratificações com que a evolução de países velhos constitui a estrutura lógica e necessária das sociedades, não podia ele admitir que desprezado ou iludido fosse o tempo. Não contava com a seiva rica e fecunda de terra nova tal qual a nossa, onde o calor tropical acelera a maturação dos frutos e apressa o ritmo da assimilação.
Certamente, e Nabuco bem o sentia, uma Academia não resulta apenas da reunião de algumas dezenas de homens de letras, ainda que escolhidos entre os maiores. Deve formar entidade à parte, resultante da fusão das personalidades que a compõem, mas sem deixar de constituir uma unidade superior. Só existe realmente uma Academia quando, ao enunciarmos-lhe o nome, não nos vêm imediatamente ao espírito, com nitidez das imagens pessoais, as figuras de seus membros. E verdadeiros acadêmicos são aqueles que, ciosos de sua independência, das características de suas mentalidades, sem atritos e sem esforço, se adaptam a essas normas superiores, ainda não expressamente formuladas, finas e delicadas por serem eternamente polidas e repolidas, invisíveis quase, de tão tênues, mas que se sentem e a pouco e pouco enleiam e prendem.

Regras, imposições, preceitos, limitações, impedimentos, leis? Nada que mereça tão antipáticas denominações, mas um pouco de tudo isso e alguma coisa mais. Ao mesmo tempo, inibição e estímulo, originados do receio de mal fazer e da aspiração para tudo que é belo e benfazejo, elevado e nobre, alevantado e puro. Ideal de cultura, no mais largo sentido do termo, revestido de várias formas, expresso de diferentes maneiras, manifestando nas idéias e estilo do escritor, na inspiração e ritmo do poeta, nas pesquisas e dissertações do historiador, nas concepções e técnica do sábio, na moral do homem de Estado, na magnânima austeridade do diretor de consciências.

Os verdadeiros títulos de nobreza são, na época atual, conferidos pela Academia. Não reconhece ela direitos hereditários, mas aceita os direitos adquiridos, e, em certos casos, com penetrante dom de antevisão, prevê os direitos futuros. Profundamente compreende ela que, no mundo do porvir, as forças intelectuais e espirituais farão cada vez mais sentir sua influência na organização da vida coletiva, porque isso é necessário, é enelutável, é fatal. A nobreza, outrora atribuída quase exclusivamente ao valor militar, tende a humanizar-se, muda de direção, afirma-se pela inteligência e caráter, pela benevolência e espírito de justiça.

Quando, surpreendido como sempre ao conseguir a realização de minhas aspirações, verifiquei ter sido tão honrosamente admitido em vossa Companhia, procurei fazer um exame de consciência. No meu caso reconheci um traço de vossa benevolência, e a mim mesmo perguntei se deveria apresentar agradecimentos como homem de ciência, cuja vida tem sido dedicada à pesquisa de algumas esquivas, fugidias e relativas verdades, ou como alguém que, por motivos vários, tem empunhado a pena para escrever algumas coisas necessárias de dizer e talvez inúteis de ouvir. Seria preciso, sem chegar ao paradoxo, justificar, ao ser recebido em uma Academia de Letras, o título de escritor do qual só me apercebi, e ainda dado por alguns, há muito pouco tempo? Os homens de ciência de minha geração cedo compreenderam a impossibilidade de isolamento, daquele esplêndido isolamento no qual se compraziam. Se há sábios apaixonados pelas pesquisas, que a tudo preferem os mais inacessíveis domínios das idéias e conhecimentos, outros nunca de todo perderam o contato com o mundo ativo e sofredor. Os primeiros são anacoretas para os quais não existem tentações fora do deserto; em lugar do areal adusto e ressecado, sob sol escaldante e esterilizador, encontram a sombra de frondosa árvore, os olhos se deleitam na contemplação de rica e luxuriante floração, os ouvidos percebem o rumor sussurrante das idéias a esvoaçarem, aladas e puras, à procura da cabeça dos eleitos. Os segundos, mesmo quando nesse deserto, têm ao ouvido o eco das vozes humanas, raramente alegres, o mais das vezes elevadas em lamentos e não raro em imprecações. Não aceitam a bela e pura ciência só como refúgio; tomam-na como elemento de ação. O mais abstrato e transcendente dos conhecimentos possui esta grande e afetiva virtude: faz-nos perceber por instantes, embora fugazes, a veia da eterna corrente que através dos séculos, das civilizações e das vicissitudes da História, passa pelas almas e fecunda os espíritos. Pô-la em contato com o maior número possível de homens, aspergir sobre estes algumas gotas que refrescam e purificam, é tarefa sedutora. Algumas vezes não pude resistir a essa sedução e, conquanto nada pudesse dar, ao menos pareceu-me lícito indicar a direção a seguir.

De uma feita, porém, prestei maior atenção a vozes que pareciam reclamar alguma coisa além dessa contemplação de abstrações e transcendências: um consolo, amparo para dores mais humanas, imediatas e, enquanto no laboratório passava horas fazendo medidas rigorosas e complexas, ou porfiava no afã de resolver equações destinadas a traduzir, em termos precisos, as manifestações visíveis da realidade obstinadamente oculta, em casa deixava correr a pena em pálidas tentativas de exprimir as angústias de algumas almas sem abrigo. Quando tudo acabou, aos fisiologistas apresentei uma teoria matemática e físico-química de excitabilidade, aos amigos mostrei duas ou três centenas de páginas; à falta de melhor mereceriam elas o título de romance. Romance? Não o sei ainda. Alguma coisa que, sem ser real, poderia ser verdadeira, sem reproduzir fatos passados, pois tudo era simples produto da imaginação, bem correspondia às observações e experiências de muitos. O resultado não se fez esperar. Vários fisiologistas, surpreendidos pela estreita concordância entre as deduções matemáticas e os fatos estudados nos laboratórios, não ocultaram o espanto e – por que não dizê-lo? – a ligeira desconfiança sempre despertada pelas construções intelectuais exatas, receosos de uma imaginação talvez excessiva. Os críticos literários não pouparam censuras à minha falta de imaginação, contando em romance coisas sem dúvida vividas por personagens que não podiam deixar de ter existido.

Não sei, portanto, Senhores, e difícil acho decidi-lo, a que devo a grande honra de vir hoje ocupar um lugar entre vós: se ao romance que se encontra em toda obra de ciência, mesmo na mais severa e árida, se à ciência e experiência que se acham em todo romance ou obra de imaginação. Vossa Academia já tem mistérios e de hoje em diante ser-me-á vedado procurar levantar para os outros os véus que os encobrem... Meu exame de consciência aponta-me, entretanto, um dever e este, como tudo que se faz em vossa Companhia, muito agradável de cumprir: o de manifestar minha gratidão sem procurar, neste caso, aprofundar vossos intuitos...

*  *  *

A multiplicidade de interesses de vossa Academia, o culto por tudo que diz respeito à inteligência e ao espírito, – o romance, a história, o ensaio, a poesia, a ciência, a crítica, a conferência, o ensino, a eloqüência, – tiveram vivo representante, raro, senão único, nesse homem privilegiado a quem venho suceder. Medeiros e Albuquerque era, antes de tudo, alguém que compreendia e que, nessa faculdade nunca esquecida e a todo instante aperfeiçoada e aguçada, encontrava inesgotável prazer. Sua inteligência, rápida, acolhedora, exercitava-se sem descanso na insaciável ânsia de assimilar, saber, perquirir. Sua capacidade de análise estendia-se a tudo, a si próprio, como aos mundos longínquos, aos que o cercavam como aos primitivos homens pré-históricos e aos espíritos envoltos na névoa poética das superstições e idealizadores de mitologias. Para ele não tinham fronteiras os diferentes domínios de conhecimento ou de ação intelectual; passava de uns para outros, percorria-os em vários sentidos, sempre atento e não raro encantado, horrorizado ou deslumbrado com o que se lhe deparava.

Daí alguns traços de sua personalidade, por vezes mal interpretados. Não é impunemente que se desenvolve e hipertrofia a tal ponto uma das faculdades sem o equilíbrio compensador das outras. De Medeiros nem sempre podiam ser completas as grandes satisfações intelectuais. Faltava-lhe, como falta a todos aqueles, sobranceiros e altivos, porém desprovidos de bases para as crenças, qualquer coisa a servir de apoio ao enfrentar os grandes mistérios da vida e do universo. Não se dobram, como Medeiros nunca se curvou, não se submetem, e ele conservou até o fim a serena satisfação da completa independência; mas tudo contemplam com o sorriso amargo da desilusão sem esperanças. Para que se lhes oferecer consolo, apenas bom para outros menos fortes? O vazio da vida, quando aceito com ânimo poderoso, não deve intimidar: pequenos nadas acabam por enchê-lo. E nos momentos difíceis suporta-se a dor e sofre-se em silêncio:

Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!

Medeiros, atônito e dolorido, assistia ao desaparecimento de todos os sonhos e ilusões; quando muito exprimia em algum poema, muitas vezes sem versos, seu estado d’ alma:

Foi aqui um jardim formosíssimo, cheio de flores estranhas e raras, foi um deslumbramento de corolas multicores, a viçarem por toda a parte, luxuriantes de seiva, vibrantes de perfumes... Hoje é um pântano de águas estagnadas e verdes... As flores, não houve quem cuidasse delas... Tudo morreu!... Havia perfumes... há agora miasmas... Dantes os pássaros vinham cantar nos ramos verdes dos arbustos... Hoje no paul verde e sombrio, por toda orquestra, coaxam os sapos à noite... Das palmeiras de outrora só resta uma... as palmas todas já se desprenderam e, secas, bóiam meio enterradas no lodo, sobre o marnel... Apenas o estipe verde aponta ainda para o azul, para o eterno azul indiferente...
O pântano será então como as almas, que já tiveram fé e crenças e ilusões, mas hoje destilam os miasmas do Desengano, molestando os corações que se aproximam delas; será como as almas onde só as saudades e os remorsos coaxam lugubremente e que até a crença em Deus – estipe verde de palmeira a erguer-se para os céus – até essa já perderam...”

Entretanto, a qualquer compromisso de consciência Medeiros preferiu o ateísmo absoluto e as conseqüências que daí pudessem advir. Tornou-se descrente, supondo ter sido a isso levado por estudos e leituras, e nunca mais deixou de agir e falar de acordo com tais sentimentos e idéias. A religião, ou melhor, todas as religiões nele encontraram terrível adversário. Argumentos, discussões, alguns desde muito conhecidos, mas revigorados – e de novo brilho enriquecidos, espalhados foram em profusão. Sobretudo não esquecia de empregar a ironia e, não raro, também o sarcasmo por armas de combate. Suas conferências públicas são férteis em exemplos desse modo de relatar as coisas de religião, subtraídos os fatos ao ambiente de espiritualidade, privados do envolvente e vago perfume de mistério e reduzidos à mais simples e material representação. Em tais condições é certo o efeito humorístico, os atos se amesquinham e o cômico provém do contraste entre a pequenez e vulgaridade das cenas e a grandeza e venerabilidade dos personagens.

Indício seguro de quanto foram sinceras as crenças anteriores é essa sistemática oposição. O verdadeiro e completo ateu nunca sente necessidade de combater qualquer crença divina, a menos que se ela torne a origem de estado de espírito generalizado e perigoso para a sociedade. São-lhe igualmente indiferentes todos os credos e, se estes apenas constituem erros tradicionalmente mantidos, inclui-nos entre os inúmeros que por si destruíra o tempo. A preocupação de fazê-los desaparecer, e em particular um deles, revela um de dois sentimentos: ou revolta contra ilegítima e, portanto, reprovável usurpação de consciência, ou luta íntima contra dúvidas que minam, apesar de tudo, o absoluto do ateísmo, a necessidade de renovar amiúde as provas da inanidade das crenças e a demonstração para si próprio da coragem de afrontá-las com irreverência.

Em Medeiros talvez coexistissem os dois sentimentos. Chegou ao ateísmo após longa e intensa meditação. Leu centenas de obras religiosas. Trabalhou a questão como grave problema, no qual a inteligência acabou por vencer, mas sem dúvida a vitória não foi tão completa como sempre procurou supor. E essas crenças, talvez dormitando quase apagadas no fundo, bem no fundo da alma, ele as temia, receava vê-las ressurgir no dia em que a inteligência vigilante e atenta se tornasse enfraquecida pela velhice ou pela doença. Dirigindo-se ao próprio cérebro, exclamava veemente: “Cérebro meu, tu vês, tu sentes quanto os deuses são ridículos... E, no entanto, um dia, quando a velhice te entorpecer, quando um sangue de moléstia, pobre e envenenado, te alimentar, tu podes bem, desgraçado, renegar as conclusões altivas e serenas do teu esforço e voltar a essas crenças fúteis e loucas, que hoje desprezas... Pobre de ti! Contra o que tu serás talvez amanhã – protesta hoje! Dize que, se isso acontecer, esse renegado que a Morte acovardou não te representa... Cérebro meu de hoje, protesta, firme, contra a miséria que tu podes ser amanhã.”

Não o traiu o cérebro. Conservou-se fiel até o último instante. Com o sorriso nos lábios, tranqüilo, esperou a morte. E impossível não é que ainda lhe tivessem vindo à mente as belas palavras de sua oração à água:

Água, quando eu estiver um dia, dentro da Terra, no leito de que ninguém se levanta, lava-me de tudo que em mim foi baixo e vil, e, desagregado meu corpo, leva-o, molécula por molécula, à seiva das grandes árvores e das pequeninas flores, à placidez quieta das lagoas e à turbulência formidável das vagas do oceano; passeia, algum tempo, um pouco de mim no teu giro incessante, da terra ao mar, do mar ao céu, e do céu de novo à terra; mas, por fim, um dia, transporta-me aos gelos eternos dos pólos, onde eu possa afinal dormir na tua brancura imaculada, único túmulo em que tudo é cândido, em que não há nada nojento e podre.

A sinceridade de Medeiros era, pois, completa. Ser sincero nem sempre é fácil, principalmente quando a razão assume um ilusório predomínio absoluto. Este tem sido o grande trabalho da psicologia moderna: evidenciar quanto possível os motivos obscuros das atitudes e ações, para os quais a razão não encontra justificativas, e que se impõem com invencível força apesar das análises racionais em contrário. O subconsciente, o inconsciente, essas regiões ocultas não se sabe onde, imaginadas para conter e conservar os componentes incompreensíveis e insólitos das personalidades, todo esse conjunto de imperativos, que reserva surpresas nos instantes menos previstos, obstáculo ao conhecimento de nós mesmos, e atraiçoa-nos, rebaixa-nos ou eleva-nos, tudo isso outrora chamado por Pascal o coração, com as razões não reconhecidas pela Razão, impede-nos, malgrado nosso, de saber quando somos, em verdade, sinceramente sinceros. Às vezes, atitudes, doutrinas, sistemas filosóficos empolgam-nos pela nobreza, ou a lógica de suas razões, a coerência ou solidez de seus princípios; a sinceridade de nossa escolha é completa e parece-nos não mais ser possível agir ou pensar de modo diverso. Mas, eis que alguns fatos novos não se enquadram no sistema adotado, obrigam à correção da atitude ou invalidam a doutrina aceita; sobrevêm fatalmente momentos de perplexidade. Quando as idéias e sentimentos são sinceros, eles se incrustam e incorporam como partes inseparáveis da personalidade humana. Esta sem o querer obedece a uma lei de conservação. A sinceridade para consigo mesmo induz a intenso sentimento de respeito e mesmo de proteção à personalidade ameaçada; impõe direção oposta a sinceridade para com a verdade inédita e nova. Inevitável é o conflito e nem sempre o resultado é claro. A dúvida é um torturante estado de espírito. Os que a aceitam e com ela vivem, dela se alimentam e mesmo a cultivam, não são fracos, hesitantes e baldos de energia. Nenhuma força sobreexcede a essa de eternamente fazer flutuar as opiniões, nenhuma energia mais poderosa do que essa de a todo instante destruir e recomeçar. Só algumas resistem a esse permanente estado de inquietação. Os mais acabam por uma resolução definida, em um ou outro sentido, por afirmações sem provas, ou negações sistemáticas, de certo modo ainda forma de afirmação de um estado de equilíbrio e repouso aceitável.

Em constante esforço de sinceridade, Medeiros respeitava em excesso a própria personalidade intelectual. Da inteligência fazia admirável instrumento de classificar e ordenar. Sedutora harmonia caracterizava-lhe o conjunto de idéias e em nenhum momento eram consentidas as sombras, ou tolerados os claros-escuros. Logo, para eliminá-los, sobre eles projetava a luz do raciocínio. Nem sempre, entretanto, teve o cuidado de verificar bem quais os efeitos artificiais devidos a reflexos, os tons emprestados por seu sistema próprio e pessoal de iluminação, e os desvios que a refração produz. O conjunto satisfazia-o, e a esse conjunto permanecia fiel o resto do tempo. Fiel a si próprio, portanto leal para consigo mesmo, mas por isso desarmado diante do perigo insidioso e sempre presente: o automatismo dos raciocínios, a fixidez de certos caminhos dedutivos. Quantas vezes as mais livres inteligências perdem a noção que, com a sua liberdade, acabam elas por se fazerem suas próprias escravas, e, além disso, exercem tirânica pressão sobre outros elementos da mentalidade?
Quando se lêem em curto prazo as obras de Medeiros e Albuquerque fica-se impressionado pela variedade, pela extensão e, acima de tudo, pela unidade e homogeneidade. Mas, depois, em meditação prolongada, o sentimento de insatisfação vai aos poucos se avolumando. Por quê? Não sei, Senhores. Talvez fosse de desejar um pouco menos de coerência, talvez se esperasse encontrar um pouco mais de contradições. Quase meio século escreveu ele para o público, e se alguma coisa cresceu e aumentou durante tão longa vida de trabalho foi a preocupação de ser franco, e dizer tudo que à mente lhe vinha. Entretanto, em sua obra não existem dissonâncias que não encontrem a resolução em acordes perfeitos ou, se o preferirdes, não teve acréscimos o grande edifício construído nos tempos da mocidade. Encheu-se, ornou-se, enriqueceu-se; as linhas mestras conservaram-se inalteradas.

Talvez, uma vez por outra, compreendesse Medeiros quanto o mais simples e leal dos espíritos pode ser enganador e armar-nos algumas perfídias. Nas poesias da juventude exaltou a embriaguez, incitou aos vícios. Ele, porém, nunca bebia. Pardal Mallet diagnosticou logo, ao ler os versos dedicados ao absinto, a sua completa ignorância e inexperiência do tóxico. De fato, a Canção Báquica, os versos sobre o absinto, as perversas poesias sobre o amor, “toda essa exibição imoral”, diz o próprio Medeiros, “não passava de literatura”. E muitos anos mais tarde sorria ao escrever: “Para que, entretanto, essa exibição de vícios? Creio que ela era apenas uma forma de espírito revolucionário, que procurava todos os modos para manifestar-se: em religião, em política, em moral... Mais nada.”

Tal tendência para as atitudes extremadas, fixadoras pouco exatas de fictícia personalidade, essa ostentação de irreverência em relação aos princípios fundamentais da sociedade, todos esses elementos são, muito freqüentemente, os sinais iniludíveis de quase incurável timidez, de invencível pudor com o qual os grandes emotivos cercam e abrigam a sensibilidade por demais viva. É indescritível o que sofrem elas, as almas delicadas! Quando têm a seu serviço inquieta e absorvente inteligência, não são apenas os fatos exteriores, os acontecimentos quotidianos, os causadores de dúvidas e obsessões, angústias e dores. Idéias abstratas, problemas filosóficos, questões metafísicas; o sentido da vida, a significação da morte, as bases da moral; fundamentos da religião, legitimidade da ciência e, em nível menos transcendente, os princípios de organização social e política, tudo, tudo é pretexto para esse sofrimento sine materia. Nada escapa ao exame, à analise, mas o que define o exame e acompanha a análise, é a ânsia, a emoção, em uma palavra, aspecto dramático de que tudo se reveste. Descobrir que a religião é ilusão herdada de geração em geração não tem importância para espíritos pouco sensíveis; concluir que até hoje a moral não achou bases definitivas, quando em seu nome é conduzida a Humanidade, não significa grande coisa para alguém pouco preocupado com o julgamento de seus atos; considerar a morte como o limite intransponível da vida do indivíduo, sem nada além do momento em que o corpo se decompõe, não abala profundamente aqueles para os quais a vida de todos os dias é suficiente. Numa grande alma, porém, a ilusão de todas essas descobertas, o desaparecer desses mistérios, ou mesmo a negação das soluções recebidas que tão suavemente a sustentavam causam grave e às vezes decisiva crise. Dessa crise de adolescência intelectual é a intensidade a medida da nobreza do espírito, da elevação e pureza dos sentimentos. Por ela passou Medeiros. Como a tantos outros perseguiu-o a tentação da fuga, do abandono, do suicídio.

O seu pessimismo, forma abstrata de um pessimismo de origem acentuadamente intelectual e emotiva, descendo a impregnar e deformar todas as faculdades, e mesmo todos os instintos, secava-lhe as fontes da alegria de viver e envenenava-lhe os sentimentos; não era entretanto por esse tempo um gênero literário à procura de sucesso. Pouco insistiu em seus escritos sobre essa fase; os grandes e verdadeiros pessimistas temem deixar ver a escuridão em que se debatem. Apenas uma ou outra alusão; assim no soneto “Resposta”, no qual já se notam alguns indícios de fadiga, saciedade, e esgotamento da capacidade de sofrer:

Hoje até mesmo o pranto já nos cansa.

Em vão procura o poeta na poesia “Nirvana, o olhar de Deus: tudo é mentira, o Bem sossobra, o Belo esvai-se e a Verdade,

única luz restante,
entre os escombros do porvir, em pé,
também treme e vacila agonizante,

e conclui:

que se extinga afinal
a vida derradeira!
e role e caia a Natureza inteira
num aniquilamento universal!

Chegado a tal grau de desespero, ao pessimista não parece suficiente o suicídio, que apenas suprime o sofrimento do indivíduo. Por que desaparecer deixando atrás de si tão absurdo e revoltante Universo? Seria injusto, inútil, nada ficaria resolvido. Que tudo se acabe, a vida se aniquile, e só, inerte, inconsciente, continue a matéria, no eterno turbilhão indiferente de reações mútuas, obedientes a leis sem significação.

Na transposição da dor para o exterior, nessa dilatação progressiva e contínua, faz-se o primeiro passo para a salvação. Atribuindo ao Universo inteiro o cruciante mal que oprime e asfixia, provoca-se o relaxamento da tensão, alivia-se o peso esmagador e insuportável. Pouco a pouco a fadiga anestesia e entorpece. A negra situação de pessimismo paulatinamente evolui para uma incolor posição de cepticismo. De tudo descrer, a tudo negar importância e valor pode ser triste e deprimente, mas não mais é excessivamente doloroso. E depois, com o tempo, aos poucos os olhos se reabrem, os ouvidos recomeçam a atentar aos sons, de novo os contatos se impõem à atenção. Sem querer, os olhos percebem que as flores, no fundo, nada valem, nada representam, mais ainda assim são muito mais belas e agradáveis do que a maioria das coisas por eles contempladas; os ouvidos preferem o canto dos pássaros ou o sussurro dos riachos aos ruídos descompassados e violentos; os dedos comprazem-se no contato das superfícies macias e aveludadas e distinguem-nas das asperezas e rugosidades. E, com renascente confiança, a inteligência vai confessando a si mesma que algumas idéias são muito mais úteis, sólidas e harmoniosas do que outras, alguns sentimentos consoladores e nobilitantes. Sim, a vida é absurda, o Universo incompreensível, nada tem significação, mas..., nem tudo está no zero absoluto. Há coisas melhores ou mais belas. O Bem e o Mal, o Belo e o Feio, o Nobre e o Mesquinho, o Superior e o Inferior, toda a escala de valores ressurge, reaparece, reassume os seus postos. E por que o não escolher, por que o não optar, por que o não tentar todos os esforços, já que a vida é desilusão, no sentido de criar novos valores e melhorar os que existem? Por que não cultivar novas ilusões? São belas por si algumas coisas; pelo menos, assim nos aparecem. Criemos, pois, a maior quantidade possível de beleza, aperfeiçoando-a e purificando-a; em uma palavra, desenvolvamos a Arte. Na conquista e domínio dos fenômenos naturais alguns dos conhecimentos revelados pela experiência mostram-se-nos úteis; no constante labor da adaptação de nosso espírito ao mundo que nos cerca e sobre nós reage, aparecem-nos fecundas algumas idéias; tratemos de ampliá-las, descobrir os meios de conquista mais efetiva e de domínio mais eficaz, procuremos as condições de melhor adaptação, quer dizer, façamos Ciência. Certos atos humanos são causa de males, outros mitigam o sofrimento, aliviam as dores, ou proporcionam alegria e bem-estar. Por que não sistematizá-los, não aconselhar uns e reprovar outros? E quem tal tentativa faz está muito naturalmente fazendo, a seu modo, o que se chama Moral.

Isso tudo explica, Senhores, o aparente paradoxo: os grandes pessimistas, ao evolverem para um tolerável cepticismo, transformam-se, não raro, nos homens mais altivos, idealistas e amáveis deste mundo. Isso tudo faz também compreender certas bizarrias ou atitudes estranhas; não temem eles voltar ao abismo de onde vieram, que, aliás, para eles, ainda é refúgio.

De sua crise saiu Medeiros preparado para a vida que viveu. No meio de suas intenções, sempre alevantadas, nobres e puras, insinuava-se, por vezes, o ressentimento contra as grandes construções humanas, em cujo exame passara tantos momentos de angústia e de desespero. Tolerante, mas de tolerância não raro amarga, quando transparecia o involuntário desprezo por ela disfarçado. Extremamente operoso, mas pronto a deixar perceber que o trabalho era meio de encher o vazio da existência, sem constituir mérito considerável. Defensor de causas justas, e entretanto – sempre sereno a denunciar assim a ausência de paixões profundas, e com isso reduzindo o prestígio de sua ação. Apesar do estilo descuidado e simples, de clareza sem par, escreveu para as massas, e nunca teve sobre estas considerável influência. Elas pedem que se lhes faça vibrar os instintos; a inteligência, os raciocínios, a ordem lógica das deduções para elas não têm significação; sentem confusamente e esperam a aprovação dos sentimentos. Inútil explicá-los ou pô-los em ordem.

Para o quadro a ser formado por sua vida e atividade Medeiros e Albuquerque criou, pois, esta moldura: o realismo, o materialismo, o racionalismo. Assim apareceu aos olhos de toda a gente, analista, raciocinador, inexorável em suas deduções, de ânimo forte em aceitar todas as conseqüências. Estas iam às vezes demasiado longe. Com a coragem dos grandes tímidos, que coram diante de uma bela mulher e enleados ficam em situações nas quais todo o mundo se move com naturalidade, mas não parecem levar em conta os perigos reais que arrostam impassíveis, Medeiros, com a pena na mão, ia até às enormidades se estas se impusessem como conclusão forçada de seus raciocínios. Quando, porém, tinha tempo para libertar sua verdadeira natureza, esta vinha à tona e apareciam as contradições: então Medeiros, como na realidade o era, entremostrava o fundo magnânimo de sua alma. Esparsas pelos seus escritos encontram-se destas frases: “O que faz a superioridade do homem sobre os outros animais é que ele compreendeu como na luta pela vida uma das armas mais eficazes é a bondade, é a assistência recíproca, é a caridade...” “O sonho do futuro... há de ser quando sempre que dois homens se encontrem, sejam de povos, sejam de raças, sejam de classes diversas, possam apertar as mãos como amigos. Não há sonho mais nobre que o da grande fraternidade humana.”

Tornou-se de seu feitio não recuar diante de afirmações profundamente graves sobre questões fundamentais, mas recear os mal-entendidos em torno das idéias menos importantes. Vede bem o mecanismo psicológico desse modo de proceder. Não há risco de se tomar ao pé da letra uma categórica sentença sua sobre o infanticídio, ou sobre a legitimidade do assassinato de professores que reprovam indevidamente os estudantes. As idéias do leitor não se abalarão por isso. Mas, quando se trata de questões menos compactas, sobre as quais a maioria não possui opinião profundamente enraizada, seria perigoso e até de menos probidade induzir a conclusões falsas. Medeiros, toda a vida, teve instintivo receio da ironia. Sabia manejá-la, porém, tinha o cuidado de prevenir aos leitores ou auditores que estava gracejando. E assim incorria nas pequenas faltas de civilidade do autor que deixa perceber opinião tão pouco lisonjeira sobre o espírito de seu público. Não importa; preferia isso a concorrer para vislumbres sequer de idéias errôneas. Suas passagens irônicas são, em seus efeitos, sempre atenuadas pela terminação cautelosa e precavida. Também seus paradoxos só se desenvolviam, livres e brilhantes, quando ninguém pudesse ter a ingenuidade de duvidar da insofismável e visível intenção de fazer paradoxo.

Não só em relação a si próprio, a suas idéias e sentimentos menores Medeiros e Albuquerque tomava tantas precauções com o fim de evitar mal-entendidos. O mesmo processo emprestava ainda a muitos de seus personagens. Quando, no diálogo, a intenção irônica é sublinhada por sorrisos, ou gestos, tinha ele o cuidado de assinalar o gesto ou o sorriso e, se em certos casos o personagem deve no espírito do leitor produzir boa impressão, fá-lo dizer o que ele mesmo diria em idênticas condições.

Isso porque, Senhores, em muitas ocasiões nas figuras criadas por Medeiros, romancista ou narrador, se notam patentes semelhanças com ele próprio. Intencionais talvez não fossem, mas o escritor não fugira à regra: atribuir a seus personagens idéias e sentimentos, aspirações e atitudes, impressões e lembranças que lhe pertencem. Quantas frases, quantas descrições são encontradas quase idênticas em seus romances e contos, em suas memórias, em suas conferências ou narrações de viagens! E quando, com caráter simpático ou nobre, queria pintar um personagem, dele fazia retrato no qual sem dificuldade é possível reconhecer as qualidades que mais apreciava e prezava.

Nunca se preocupou Medeiros com a classificação e sistematização das escolas literárias, como também não se impôs a si mesmo exigente disciplina de qualquer dentre elas. Devia sentir que, em torno das modas e tendências, as discussões podem facilmente degenerar em total incompreensão do que de belo e verdadeiramente artístico há na literatura. Alguns grandes espíritos, Guy de Maupassant, Ernest Renan, Anatole France – e quantos outros poderiam ser lembrados! – já haviam combatido, cada um a seu modo, a pretensão de estabelecer regras estreitas e sistematizadas e, portanto, de conter o impulso da criação original em moldes preestabelecidos, nos quais, à custa de deformações causadoras até de monstruosidades, é o talento forçado a se adaptar.

Abrindo um pequeno parêntese, permiti, Senhores, assinalar o prazer que sinto neste momento, ao pronunciar os nomes dos três grandes artistas acima citados. Vossa Academia: dos poucos lugares onde ainda possível é, sem receio e sem pejo, falar de alguns escritores cuja influência foi das mais fortes e acentuadas sobre as gerações passadas entre as quais, sem dúvida, muitos não hesitam em incluir a minha. À viva força, quer o futuro agora ao presente se substituir e deslocar para o passado tudo que aí se encontra. Como, nos dias que correm, é difícil, sem previamente tatear e sondar o ambiente, citar uma idéia de Maupassant, opiniões de Renan, paradoxos de Anatole France! Há poucos anos em Paris, num salão literário começou alguém uma frase: “Anatole France...” quando foi interrompido por um jovem escritor: “Anatole France? – C’est vrai, il me semble bien que j’ai déjà entendu prononcer ce nom là...” Talvez, por isso, nem sempre os jovens, tão cheios de vida, de talento e força, compreendem a mentalidade das Academias. É a paixão o que o caracteriza, e, neste ponto, devemos confessar serem eles felizes e invejáveis. E a paixão não admite discussões, nem compreende o espírito da tolerância. Fruto da experiência e da sabedoria, o vosso modo de apreciar as coisas pela sua real essência de beleza, independente da forma atual em que se cristaliza essa essência, se lhes afigura, no seu veemente entusiasmo, quase falta de caráter...

Maupassant, pois, no admirável prefácio do romance Pierre et Jean mostrou como são legítimas todas as escolas quando correspondem às tendências verdadeiras dos escritores que as representam. “Não nos irritemos, dizia ele, contra nenhuma teoria, pois cada uma delas é simplesmente a expressão generalizada de um temperamento que se analisa.”

Em resposta a inquérito literário, Renan, com o seu aspecto benevolente que, apesar de tudo, o fazia parecer velho eclesiástico, disse a seu interlocutor: “Les modes littéraires... c’est puéril, c’est enfantin. Ce n’est pas intéressant, non, vraiment. Dans deux ans, il ne sera plus question de tout cela…” Já quase vencido mas insistente, o jovem literato que conduzia a entrevista, ainda falou de um ou outro escritor e depois, em último esforço, lembrou os simbolistas, os psicólogos, os naturalistas... Então, Renan apenas respondeu, “Ce sont des enfants qui se sucent le pouce.”

Anatole France, este, mais de uma vez, deixou-se catalogar. Por algum tempo figurou entre os psicólogos. Algumas outras etiquetas lhe foram aplicadas. Mas, todas as vezes que falou de si ou de outros, pouco se preocupou com as pretensões classificadoras. Foi ele mesmo sempre vário e numeroso. Abandonou-se, entregou-se às flutuações de seu pensamento fluido e elástico e, ao mesmo tempo tenso e forte. Revia-se nos livros dos outros e em vão a si próprio procurava em seus próprios livros. Fazia crítica subjetiva, porque acreditava ser ficção o aspirar ao conhecimento da personalidade dos autores que, no espírito de cada leitor se revela de modo diferente. Não raras vezes sustentou ser a estética destituída de fundamento, porquanto cada afirmação pode ser amparada por deduções e raciocínios tão legítimos como os que conduzem à afirmação contrária.

Em seus contos e romances Medeiros deixaria os críticos bastante perplexos. Realista? Naturalista? Psicólogo? Impossível dizê-lo. Nunca manifestou grande cuidado em construir a psicologia de seus personagens, de modo que estes moralmente se nos imponham, obrigando-nos a reconhecê-los, amá-los ou odiá-los, criticá-los ou admirá-los. Os tipos por ele postos em cena, esquecemo-los facilmente; não se fixam em nossa memória. Não nos apresentam essas complicadas análises de estados da alma, nem sintetizam modos de ser, quase não merecem a denominação de tipos. A psicologia, dentre as ciências a que mais interessou Medeiros, tinha para ele um valor geral e, por isso, não devia ser diluída ou restringida a alguns casos individuais. Dentro da estrutura de seus escritos movem-se homens e mulheres apenas como indispensáveis suportes de história imaginada e interessante de contar.

Superficial exame levaria a incluir Medeiros entre os realistas ou os naturalistas. Os temas escolhidos, sua técnica de composição e, sobretudo, as influências literárias que sofreu autorizariam a qualquer crítico profissional a tirar essa conclusão. Sobressaem em seus livros as dificuldades encontradas pelos escritores realistas. Propunham-se estes, em suas obras, a representar toda a verdade, e só a verdade da vida quotidiana e, por assim dizer, normal. Aí se encontra o primeiro obstáculo. Tomado ao pé da letra, semelhante programa imporia a composição de relatórios, memórias ou biografias, precedidas de pesquisa rigorosa, de severa discussão de documentos e depoimentos. Impossível; mesmo redigidos no melhor dos estilos, tais escritos não seriam literatura. Era necessário, pois, que nada fosse real ou verdadeiro, mas que tudo pudesse ser. O romance realista precisa ter personagens imaginários, que se fossem, por uma espécie de mágico poder, criados vivos, e nos aparecessem e se tornassem conhecidos nossos, os achássemos perfeitamente naturais; deve contar cenas, descrever sentimentos, ou relatar fatos que não coincidam exatamente com fato algum, sentimentos ou cenas observados ou conhecidos, porém, sempre dentro das possibilidades admitidas. Nessa escola tudo é verdade menos a própria verdade... No fundo o que se encontra sempre é a imaginação rigorosamente vigiada e fiscalizada pela experiência pessoal e a experiência coletiva. O resultado é a formação de categorias, se não explicitamente formuladas, ao menos implicitamente contidas no envolver lógico da composição e no acanhado bom senso da verossimilhança, tímida e limitada. O receio do inverossímil foi uma das constantes preocupações dos autores e, devido a esse receio, fogem eles às bases do sistema para furtivamente, com as devidas precauções, introduzirem alguma coisa da realidade verdadeira; isso não deve ser percebido...

Procurando ficar dentro dos limites do possível, os realistas não percebem que toda forma de arte por eles adotada assenta sobre uma convenção disfarçada; proclamam o predomínio e o culto da verdade, e, quando aceitos, tacitamente se lhes atribui poder que deveria ser sobrenatural: o de, em qualquer momento, sem nenhuma indicação precisa, saber tudo que se passa no mais recôndito das almas, ou na mais secreta das circunstâncias. Logicamente, os romances ou os contos realistas deveriam ter sempre a forma de confissões de personagens. Mas assim não é, e diante das afirmações de princípios nas quais o rigor dos argumentos não faz concessões, ter-se-ia a tentação de perguntar: tudo isso talvez seja a verdade; como, porém, poderia sabê-la o autor?

A onisciência do artista é admitida sub-repticiamente, sem discussão. Pensando bem, não haveria dificuldade maior em tolerar tal convenção. Mesmo em ciência se insinuam processos mentais dessa natureza, malgrado o rigor e a disciplina dos raciocínios. Não foi o grande Henri Poincaré que, em um de seus mais subtis escritos sobre a filosofia das matemáticas, demonstrou serem os postulados da Geometria apenas convenções disfarçadas?

Medeiros mais de uma vez abusou dos direitos de onisciência do autor e criou situações que, por conjunto fortuito de circunstâncias, representam singulares exemplos de tal sistema. Levou, sem o perceber, o processo ao absurdo e ele próprio, muito mais tarde, ministrou os dados para o julgamento desse absurdo. Em seu livro sobre os tests relata um, usado em certa época pela polícia de Londres no exame dos candidatos. Contava-se-lhes a seguinte história: Em certa igreja um homem, ajoelhado ao lado da esposa, ouvia o sermão. Bruscamente caiu morto. Submetida a interrogatório a mulher explicou o caso. Havia o marido sonhado achar-se na Revolução Francesa, condenado à morte; o momento em que ia ser guilhotinado coincidiu exatamente com o instante em que ela, com o leque, e para despertá-lo, lhe deu na nuca leve pancada. A emoção foi excessiva e ele morreu, de susto. Para obter boa nota deveria o candidato mostrar a impossibilidade da história contada. A mulher, assim como ninguém, nunca poderia saber o que ocorrera na mente da vítima, que passou do sono diretamente para a morte.
O gênero de absurdo de semelhante história, cuja evidenciação é test simples, encontra-se em muitas produções literárias.

 Dois contos escreveu Medeiros que em diferentes exames poderiam servir de tests. Deles basta-nos lembrar este: Um jovem, estouvado, feliz e despreocupado passa doloroso dia de meditação sobre a morte de seu melhor amigo, estudante da Politécnica e incorrigível pessimista, que se suicidara com um tiro no coração. No momento de deitar-se o rapaz alegre examina o revólver igual ao do companheiro perdido. Adormece. Sonha ou, antes, longo e opressor pesadelo desenrola-se com as imaginárias cenas do suicídio do amigo. Quer intervir e, dormindo, toma do revólver, colocado junto ao leito; o tiro parte, a bala vara-lhe o coração.

Em tais casos não há fugir à questão: como seria possível conhecer o sonho do personagem morto encontrado sobre o leito? Em boa lógica, contos dessa natureza só poderiam ser apresentados como hipóteses, aliás, inverificáveis, para explicar fatos que, dados os precedentes, nos parecem inexplicáveis. A respeito do “Rapaz alegre” percebe-se ter tido Medeiros muito tarde um sentimento de alívio: na conferência sobre o sonho pode relatar fato que teria sido autêntico. Em São José de Além-Paraíba, alguém sonhou com uma briga entre um galo e um peru. Interveio à faca e feriu o peru... ferindo-se gravemente, pois em si próprio dera as cutiladas.

Os romances e contos de Medeiros eram, pois, histórias inventadas, nas quais a imaginação, em momentos de repouso, cedia o lugar às reminiscências do passado. Mas, quase sempre, em minúcias secundárias.

Onde se sente que Medeiros não se filiava integralmente à escola realista ou naturalista, é na decidida preferência por situações insólitas cujo desenlace é difícil de achar. Para um de seus romances só encontra uma solução. Em cena inesperada, o marido, já tendo motivos de desconfiança, surpreende sua mulher Laura em uma aléia do jardim a ouvir declarações de um sedutor profissional; insulta-o, violento e desesperado. Os dois sacam de seus revólveres e... todos têm a ilusão de um só tiro. Simultaneamente as armas haviam disparado; saíram mortos ambos os contendores, este com o crânio perfurado, aquele com o coração varado. O desfecho brutal era a imprevisível conseqüência do plano de Laura, para desviar a atenção do marido, pouco confiante, do primo, seu único amor, platônico, aliás, com quem não casara por imperdoável erro do destino. A morte do marido de Laura, que não tinha chegado a merecê-la, também pode ser levada à conta da amoralidade do destino. Tudo ainda estava perdido, pois razões de sobra tinha o primo Mário para estar profundamente ferido com o procedimento de Laura, que só podia mal interpretar. Ela explica-se, por carta, comunica-lhe sua intenção de suicídio, ingerindo dose mortal de narcótico. Mas, para os leitores, que sem dúvida não desistiram das esperanças na realização dos direitos de Laura e Mário à felicidade completa, isso seria cruel demais. E tanto custou ela a achar o veronal que, logo após a sua ingestão, necessária para mostrar a sinceridade de seu intuito, Mário, arrependido e aflito, apareceu com o médico e os socorros salvadores, a tempo de tudo resolver.

Nem sempre podia Medeiros fazer tantas concessões à exigente sensibilidade dos leitores. Quando a certo ponto chegavam as situações, outro remédio não havia senão sacrificar os personagens, a fim de evitar a violação de princípios sagrados de moral. Em Marta, Leopoldo só encontra esta solução: o suicídio por motivos ignorados de todo o mundo, menos do autor e dos leitores...

Não poucas vezes em seus contos, o leitor, comovido e enternecido, descobre grandes riquezas de sentimentos. Histórias românticas de vidas inutilizadas por cego acaso ou de amores perdidos por escrúpulo sutil ou ideal imarcescível. Aqueles dois velhos da “Flor seca” nunca se uniram porque, quando jovens, o sim dela não podia ser dito de viva voz ou escrito em carta; deveria ser gravado em um amor-perfeito seco, deixado entre as folhas de um caderno. Assim foi feito, mas, às mãos do rapaz não chegou. Seu professor, maníaco pela literatura latina, inadvertidamente o colocara entre as páginas de um volume. Já era tarde quando foi descoberto. “Você tinha respondido? – Você não viu? – Que tristeza! Os olhos dos dois encheram-se de lágrimas... Ele tomou-lhe a mão encarquilhada e seca na sua mão também seca, também encarquilhada, e apertou-a com emoção... Murmurou sacudindo a cabeça: – Só agora...” Estes dois velhos ainda farão umedecer muitos olhos, ressecados pela descrença e ceticismo, a receberem, assim, o doce orvalho dos sentimentos esquecidos, quando, à noite, as estrelas inaccessíveis e puras lembram os sonhos para sempre evolados, lá no alto, à nossa espera...

Este outro velho médico, bonacheirão e alegre, forçado a fazer confidências, conta seu único amor. No baile conhecera a noiva e, pouco depois, dela fora obrigado a separar-se. Tinha ela a seus olhos todas as perfeições; encarnava todos os ideais. Mais ainda divinizou-a a ausência. No momento de revê-la, recuou. Para que, possivelmente, destruir tal ilusão? Melhor seria guardar a imagem única. “Nunca mais a vi; não procurei saber notícias suas.” Amara-a demais para poder arriscar a vida em comum. Não há aí uma idéia fina e delicada? Resistir às contrariedades de todos os dias será bom ou mau indício para a grandeza e intensidade do amor? Lembrai-vos do diálogo entre Madame du Deffand, já cega, e seu fiel Pont-de-Veyle:

– Pont-de-Veyle?
– Madame?
– Où êtes-vous?
– Au coin de votre cheminée.
– Couché, les pieds sur les chenets, comme on est chez des amis?
– Oui, Madame.
– Il faut convenir qu’il est peu de liaisons aussi anciennes que la nôtre.
– C’est vrai, Madame.
– Il y a cinquante ans...
– Oui, cinquante ans passés.
– Et, dans ce long intervalle, pas un nuage, pas même l’apparence d’une brouillerie.
– C’est ce que j’ai toujours admiré.
– Mais, Pont-de-Veyle, cela ne viendrait-il pas de ce qu’au fond nous avons toujours été fort indifférents l’un à l’autre?
– Cela se pourrait bien, Madame.

Em vários contos, Medeiros dá liberdade à instintiva ternura pelas crianças. Sente-se bem quanto as estimava, como conhecia a sua encantadora maneira de expressão, e como soube compreender os ingênuos, porém fortes sentimentos que as dominam e, muitas vezes, quando injustamente vilipendiados e reprimidos, são recalcados para se manifestarem como vagas de fundo, invisíveis, nas nevroses e obsessões.

Por alguns considerado grande poeta, Medeiros cedo abandonou a arte do verso. Segundo os moldes consagrados, a poesia era para ele uma prisão e, bela que fosse, insuportável como todas as prisões. Seu pensamento multiplicava-se, enriquecia-se. As variadas tonalidades de suas idéias não toleravam a simplicidade voluntária do ritmo certo, ou de ressonância verbal periódica. A exuberância da floração, continuamente desabrochada em seu cérebro, terreno inesgotável, levou-o a dizer: “Minha alma é como uma floresta... Floresta, sim, e como as de meu país, tumultuária, variada e anárquica.” Essa floresta não se prestava à harmonia metrificada do verso. De fato, sua alma não era jardim bem alinhado em figuras geométricas, calculada disposição, onde flores raras são cultivadas à custa de esmero e cuidados.
Não quer isso dizer que Medeiros não sentisse, ou não compreendesse a poesia. As críticas e análises que empreendeu levavam-no a prever o seu desaparecimento, muito embora só visassem a poesia considerada como forma de expressão e não a grande e profunda poesia das coisas, capaz de se exprimir sem versos. Quando moço, ainda menos independente de pensamento, mostrou quanto era capaz de ser poeta. De origem intelectual seriam suas poesias. Mas, qual o poeta autorizado a afirmar serem suas produções espontâneas, naturais, e, por assim dizer, involuntárias? A poesia é arte, onde, como em todas as artes, o gênio, ou, pelo menos, o talento impera, mas na qual não é possível dispensar o estudo, a técnica e o trabalho. Nem se diga ser na alma dos poetas a emoção mais viva do que na alma de outros. Emoção, elemento sem o qual nada de bom se faz neste mundo! É necessário educá-la, contê-la, discipliná-la, dirigi-la; jamais combatê-la ou destruí-la. E até os mais aparentemente áridos e secos homens de ciência, se nos fizessem confidências, poderiam mostrar quantas emoções profundas e grandes, de beleza, harmonia, ansiedade e exaltação encontram na pesquisa a que se entregam a fundo e por paixão.

Estudou Medeiros a origem da poesia, acompanhou-lhe a evolução e concluiu ser ela forma primitiva da arte, destinada a desaparecer como regra, ou, antes, libertar-se, purificando-se e desprendendo-se de suas atuais cadeias. Insiste ele sobre a transformação, com o tempo, de muitos poetas em prosadores. “Assim portanto, escreve, que o artista da palavra se sente senhor absoluto das várias formas de expressão, o progresso individual para ele consiste em passar da poesia para a prova. A marcha inversa – que seria uma marcha regressiva – ninguém faz”. Entretanto, a causa dessa evolução individual dos poetas pode ser outra. Voltaire já havia escrito: “Le loisir fut certainement le père des Muses; les affaires en sont les ennemis et l’embarras les tue.”

Não cabe a mim, Senhores, decidir se a Medeiros assistia a razão. Enquanto houver poetas haverá poesia e esta estará assegurada em sua imortalidade. Os poetas, obedientes às Musas, e aqueles que sabem descobrir ou criar outras, imortais como suas maiores, formam raça privilegiada; para ela não existe o declínio e o fim.

No caso de Medeiros, a evolução do poeta para o prosador talvez não fosse devida à crescente maestria no manejo das formas de expressão. A política, a administração, o jornalismo e o magistério cada vez mais lhe absorviam as preocupações e a imensa capacidade de trabalho. Dominado pelo romantismo político das novas gerações, tomou parte na propaganda republicana. Como sempre acontece com aqueles que necessitam de forte trabalho de sugestão externa e mesmo de auto-sugestão para se apaixonarem por uma causa, entregou-se ele de corpo e alma a novos ideais. No momento da proclamação foram-lhe confiadas importantes missões.

Os propagandistas das revoluções sociais e políticas, em geral, pensam mais na parte destrutiva dos programas do que na preparação e organização de coisas futuras. No espírito de todos os seus propugnadores a República foi ponto de apoio para a oposição sistemática aos representantes da Monarquia. Afigurava-se mais como sedutora e bela miragem, mal definida de formas, pairando longe sobre o futuro promissor, devida à inquietação, aos anseios e descontentamentos da hora que passava. O próprio evolver do exercício da propaganda, a embriaguez da luta, a vontade de exagerar o pessimismo acerca do presente e o otimismo cheio de esperanças em um porvir entrevisto no torvelinho de idéias teóricas e pouco assimiladas, levaram os românticos batalhadores a pintar com as mais escuras cores o quadro da política e da administração brasileiras de então.

Como foi feita a República, até hoje não se pode bem saber. Um conjunto de circunstâncias, um pouco o acaso, a extrema fadiga, o desânimo e talvez a bondosa filosofia do Imperador, a indiferença ou, quiçá, o desejo de mudar por mudar, quase como distração de um povo ainda pouco desenvolvido. Medeiros, porém, trabalhou por ela e logo foi aproveitado em cargos de responsabilidade.

Da propaganda e exercício da política e da administração ficaram-lhe duas idéias sobre as quais nunca se cansou de insistir. A oposição feita à Monarquia transformou-se em oposição pessoal e permanente a D. Pedro II. Quanto à República, nunca pôde concordar com o regímen presidencial adotado pela Constituinte de 91. Compreende-se bem como em seu espírito essas duas idéias deviam estar estreitamente associadas: imposição de lógica e de coerência. Adepto sincero do parlamentarismo, contrário à hipertrofia do poder pessoal que, no regímen presidencial, é conferido a homens não raro chegados ao supremo posto pelos acasos e vicissitudes da agitação política, não estaria ele muito longe de reconhecer o erro da destruição de um governo parlamentar, coordenado e moderado por um Chefe de Estado que por herança, tradição, interesses de família e educação, se mais não houvesse, integralmente se identificava com o país. Além disso, Medeiros escreveu: “O povo... não compreende os assuntos de um modo inteiramente abstrato.” De fato, para as massas e, no tempo da proclamação da República, as massas no Brasil ainda eram incultas, as idéias de Pátria, organização social, progresso e bem-estar moral são por demais sutis. Uma figura de Monarca, aureolada de histórico prestígio e cercada de respeito, simbolizando os destinos do país, concretiza em si as aspirações difusas e semiconscientes do povo. O serviço do rei é alguma coisa cuja finalidade é mais próxima e imediata do que o serviço público ou o bem da nação, tão vasta e difícil de conhecer e condensar em síntese ao alcance de todos.

Portanto, a sinceridade de Medeiros, ao entrar na propaganda, quase esteve atraiçoá-la. Ela própria impedia-o após ele ver e reconhecer o erro em que caíra. O regímen presidencial, em sua opinião, “foi uma surpresa e um logro”; o progresso de nosso país desde a proclamação da República “não se fez por causa do regímen presidencial, mas apesar dele”; esse regímen é “estável para o mal e instável para o bem”; o regímen presidencial trouxe como conseqüência fatal de seu mecanismo, uma corrupção moral inominável: “ele é o regímen das adesões e traições”. Apenas transcrevo aqui algumas das proposições que servem de títulos aos capítulos de seu livro O Regímen Presidencial no Brasil.

A seu ver, o regímen parlamentar tinha todas as vantagens. No tempo da Monarquia, teria ele sido um tanto reduzido em seus benefícios pela ação pessoal do Imperador. Era necessário, pois, justificar a seus próprios olhos, e isto o fazia inconscientemente, por uma reação psicológica que não percebia, o movimento do qual resultou a perda de todos os bens do regímen por ele sinceramente admirado e continuar a demonstrar quão indesejável se lhe afigurava a pessoa de D. Pedro II. Às vezes, seu indefectível amor à verdade, que podia ser iludido, mas a que nunca voluntariamente faltava, levava-o a escrever uma ou outra frase bem significativa: “Depois dos incessantes testemunhos de todos os chefes de partidos da monarquia brasileira, é impossível negar que D. Pedro II tivesse tido uma influência permanente. E se a que ele exerceu não foi muito má, ninguém sabe o que seria a da Princesa Isabel...”

Em sua maturidade poderia Medeiros, melancolicamente, repetir o conceito de Maquiavel: em política não se trata de escolher entre o bom e mau, mas apenas de saber escolher entre o mau e o péssimo...
Pondo ao serviço da causa parlamentarista os recursos de sua dialética, capacidade de escritor e cultura, trabalhou pela boa causa. Útil ou inutilmente? Ninguém pode asseverar serem ou não possíveis tais ou quais transformações políticas, máxime em se tratando do Brasil. Incontestavelmente, como bases de suas conclusões tinha ele larga série de observações pessoais, grande experiência administrativa e parlamentar e meditado estudo do andamento das formas de governo em diversos países. Impressiona, em sua argumentação, o contato permanente com a realidade. Muito de propósito, afasta-se das dissertações bem compostas e solidamente arquitetadas, para recordar este ou aquele fato particular em que as reações individuais se apresentam com toda a significação.

Se houvesse sido, entre nós, adotado o regímen parlamentar, Medeiros teria podido, na Câmara ou Senado, prestar grandes serviços. Certamente foi ele deputado, mas a um Congresso cuja ação era pouco mais do que zero. Sem dúvida trabalhou, apresentou projetos, defendeu algumas causas, atacou outras. Mas tudo isso era o desempenho do dever, sem nenhuma possibilidade de desenvolvimento eficaz. A redução progressiva da influência parlamentar na política brasileira impediu a criação ou a evidenciação de grandes valores pessoais. Medeiros não foi sacrificado, o prejudicado foi o país.
Não lhe faltavam, de fato, as tribunas e os meios de se comunicar com o público. O jornalismo oferecia-lhe terreno para a luta, e nesse terreno seria difícil superá-lo. Tudo, por ele, era analisado, comentado, criticado: o pequeno fato do dia, a última resolução administrativa, o movimento da política, os livros de literatura ou de ciência. Sua lucidez de espírito era incomparável. Seria possível em certas questões não adotar a sua opinião, mas ai de quem a desprezasse!

Não era nem podia ser enciclopédico, porém, possuía sobre inúmeros pontos idéias claras e bem orientadas. Dotado de extraordinária memória, tendo o que se poderia chamar o vício da leitura e organizado o seu trabalho de documentação com perfeito método, podia em muito pouco tempo sobre a maior parte dos assuntos apresentar dados ou informações precisas.

A obra jornalística de Medeiros e Albuquerque, esparsa em muitos milhares de artigos, representa considerável e respeitável esforço. Efêmera, visava a ação imediata, e destinava-se à vida curta. Entretanto, para o futuro, os historiadores que, com probidade, quiserem estudar a evolução política e administrativa do país e procurar ouvir voz sincera e poderosa, dizendo desassombradamente os juízos de um homem clarividente, durante mais de quarenta anos, voltarão às velhas coleções de jornais. Sem dúvida, sentirão nessas folhas amarelecidas a vibração inextinguível.

Por todos os cultores das letras, interessados pelo que se convencionou chamar idéias gerais, os estudos de crítica literária e as conferências de Medeiros, conservados em numerosos volumes, são relidos com proveito e prazer. Modo todo pessoal de fazer crítica. Não discutia nem analisava escudado em princípios de estética; nada tinha de pedantesco. Fazia o que ele próprio denominou crítica impressionista. Dizia impressões, contava associações de idéias sugeridas pela leitura, comparava e, com sincero entusiasmo, tinha a amável preocupação de salientar o que encontrava de realmente belo. Custava-lhe atacar ou demolir um livro, pois só criticava os que lhe pareciam ter mérito. Possuía a primeira qualidade do crítico: simpatizar com as alheias produções, instintivamente colocando-se no estado de espírito e nas condições do autor em seus momentos de criação.

Ainda durante os últimos tempos, seria no Brasil impossível ou quase impossível a homem, como Medeiros e Albuquerque, dar à sua atividade intelectual direção única e definida. Cedo compreendeu ser sua principal missão explicar, aligeirar, esclarecer, dissociar, facilitar aquilo que se apresentasse obscuro, difícil, compacto, maciço. Não falhou à sua missão. Pouco a pouco tornou-se polígrafo.
Trouxe-lhe isso em certos meios alguns inconvenientes; o trabalho do polígrafo é considerado secundário e superficial. Com que graça se justificou ele em páginas de todos conhecidas! Polígrafo ou não, Medeiros prestou a este país imensos serviços na introdução de vários movimentos científicos ou intelectuais. Tests, doutrinas de Freud, ocultismo, hipnotismo, tais os objetos de alguns de seus mais afamados escritos.

Amador de ciência sempre o foi, e amador em mais de um caso capaz de ombrear com os profissionais. Não pode, é claro, formar base sólida para pesquisas seguras. Faltou-lhe a austera e rigorosa disciplina da inteligência característica dos verdadeiros pesquisadores. Não entrou arregimentado no combate pela verdade; era antes um livre-atirador. Em tal caráter, quantas vezes precedeu às vanguardas, e outras vezes organizou e ordenou o terreno conquistado. Várias passagens de seus livros demonstram noções claras dos métodos e processos do trabalho científico. Nunca perdeu ocasião de ensinar, de salientar o papel da ciência na história da civilização e a parte a ela reservada na constituição da humanidade futura. Escreveu frases como esta: “A verdade é que a ciência é que leva o mundo.” Por tudo isso, Senhores, Medeiros e Albuquerque bem mereceu da Ciência.

Tão grande e sustentado esforço, tão absorvente atividade nunca o impediram de ser um admirável causeur. Sua bela e atraente figura despertava a simpatia e, com a voz um tanto velada, de timbre pouco firme, sem efeitos estudados, quase sempre mesmo tendente à monotonia, conseguia prender a atenção por tempos esquecidos graças sobretudo ao interesse do que dizia e à agilidade do espírito. Ainda como causeur fazia conferências. Ao ouvi-las, dir-se-ia serem apenas conversações nas quais por força das circunstâncias só ele falava.

Sua amabilidade e delicadeza eram perfeitas.
Não se abandonava facilmente, mas era de absoluta lealdade para com os amigos.
A vida de Medeiros e Albuquerque foi agitada, fértil em episódios interessantes, cheia e sempre difícil e afanosa. Nunca procurou resolver os problemas de carreira por concessões e processos quaisquer que não fosse o trabalho; a este atirava-se sem reconhecer fadigas ou fraquezas.

Um de seus traços característico foi a constante preocupação de dizer mal de si próprio, ou apresentar-se como alguém perdido de pecados e faltas. Disse-o em todos os tons: sorrindo com displicência ou então, grave, consciente do que asseverava. Não se contentava com afirmações, com as quais seria lícito ou não concordar. A respeito dele mesmo contava fatos, proezas, com a insofreável intenção de dissipar qualquer dúvida. Nada disso em relação às atitudes profissionais, ou à moralidade do homem público. Tampouco no concernente à probidade do intelectual ou do escritor. Nesses pontos era intransigente. Tinha, porém, perverso prazer em escandalizar. Reação de tímido e emotivo, à procura, na afronta à opinião, de vingança e castigo? Orgulho, desprezo das convenções, respeitáveis quando insignificantes, porque amáveis, intoleráveis quando pretensiosas, solenes e mascaradas com o grave título de princípios? Penacho de cavalheiro a demonstrar a todos e, principalmente, a si próprio que não teme este ou o outro mundo? Pequena mania, inocente divertimento? Convicção enraizada, inabalável ou instintivo anseio de penitência e humilhação?

Talvez um pouco de tudo isso.
Nos artigos e conferências cada vez que falava de religião, não se esquecia de prever a futura vida no inferno. Ainda no prefácio de suas memórias, ressoa o característico tom de tais ocasiões: “Mas um defunto que deve estar, quando tu leres isto, leitor amigo ou inimigo, em pleno inferno, com 100.000 graus de calor à sombra (se é que no inferno há sombra), faz lá caso de responsabilidades...” Mas, também, dirigindo-se ao filho morto, em página impregnada da dor sem remédio, resistente até à resignação: “Fizeste bem, meu filho... Tu acreditavas que eu era bom, sincero, generoso. Se te fosse dado penetrar os arcanos de minh’alma, arcanos de que nem mesmo eu tenho consciência, verias que sou uma fera como as outras, tão hedionda como as demais.”

Vontade íntima, pode dizer-se mística, nunca inteiramente satisfeita, de se rebaixar e amesquinhar aos olhos do mundo. Culminou nas célebres páginas finais da autobiografia. Aí Medeiros teve o receio de não ser acreditado. Multiplicou as precauções, lançou mão de todos os recursos, foi até à prolixidade e ao luxo das minúcias inúteis, fez coisa fora de seus hábitos de escritor.

A psicologia faz compreender porque assim agiu e contradiz a matéria de suas narrativas em relação a esse ponto. Discreto, recatado, preocupado até aos quarenta anos só com as coisas intelectuais, poderia então ser vítima do demônio do meio-dia; mas da infernal legião sem claros de demônios de midi e de l’après midi? Não insistamos. Prosper Mérimée escreveu um dia: “L’amour peut tout excuser; mais il faut être bien sûr qu’il y a de l’amour.” Acharia Medeiros perdoável tudo que contava justamente pela razão contrária? Estava seguro de que não se tratava de amor...

Senhores! Durante algumas semanas estive, através de livros e escritos, em permanente contato com o espírito do grande Acadêmico. Cresceu em mim a admiração pelo homem com quem havia trocado apenas algumas centenas de palavras. Homem que tanto sofreu, lutou e trabalhou, bom e generoso, fiel aos amigos, amável, nunca se deixou abater e dominar; e acreditava ser um ente pervertido e abominável, excomungado e danado, como proclamava à face do mundo! Entretanto, “ninguém sabe se é digno de amor ou de ódio”, conforme a sentença atribuída ao Santo Espírito. Por isso, a princípio sem saber porquê, depois cada vez mais conscientemente, à medida que me esforçava por compreendê-lo, uma recordação de leitura procurava tomar forma em minha memória. Por fim, reapareceu nítida e precisa: era o episódio da história de São Pafúncio, lido havia muitos anos. Contou-o Ernest Helo e eu o resumo.

Depois de viver no deserto, em inimaginável austeridade, Pafúncio, um dia, fez uma prece singular:
– Senhor, entre os vossos santos, qual aquele com quem mais me pareço?
– Pafúncio, Pafúncio, responde-lhe a voz celeste, tu te pareces com o músico que canta naquela aldeia próxima de Heracléia.
Pafúncio saiu à procura do músico e encontrou-o na taverna.
Perguntou-lhe o que havia feito para chegar à santidade e, no auge da estupefação, consigo mesmo pensava: “Eis aí o santo com o qual me pareço!”
E o músico respondeu-lhe: “Sou o último dos miseráveis: minha vida é uma série de abominações e tenho horror de mim mesmo.”

Pafúncio insiste e pede minúcias. Nada, nada tinha feito de bom. Enfim, a muito custo, consegue o músico lembrar-se de dois episódios de sua desgraçada existência. Um dia, com o seu bando, encontra uma virgem das consagradas a Deus e, respeitoso, leva-a ao mosteiro donde havia saído. De outra feita em pleno deserto descobre formosa mulher. Procurava esconderijo, a fim de evitar a prisão onde por questões de dívidas já se achavam o marido e os filhos. Tudo que carecia, deu-lhe o músico, até mesmo o dinheiro necessário para o pagamento da dívida. Reconduziu-a à cidade e em troca nada exigiu.
Se, nos dias que correm, no deserto houvesse solitários, as carnes laceradas pela flagelação e emaciadas pelo jejum, na ânsia de chegarem à salvação da alma e à santidade pela tortura do corpo e privação de tudo que suave e amável torna a vida, e, um dia, algum deles tivesse perguntado às vozes celestes qual o santo com o qual mais se parecesse, não é impossível que, surpreso, ouvisse: “Tu te pareces com aquele escritor e jornalista de São Sebastião do Rio de Janeiro.” E, quando o solitário encontrasse Medeiros e perguntasse como tinha chegado à santidade, ouviria uma franca e gostosa risada: “Mas eu sou excomungadíssimo! Já tenho o meu lugar marcado no Inferno; leia a história de minha vida nas Memórias.” E, se o solitário insistisse em saber alguns atos seus, salvadores da alma, Medeiros nada contaria, e ele voltaria ao Deserto mais perplexo do que Pafúncio diante do músico de Heracléia.

Medeiros nada contaria, mas quantos outros os poderiam contar, por ele, desses atos e ações grandes, fortes, e admiráveis! E a justiça divina, – misteriosa sabedoria, – “leva em conta todas as coisas relativas porque ela é absoluta”. Julgará ela que os cilícios, as flagelações e o jejum não são mais torturantes do que as torturas de um espírito elevado, desamparado e só, baldo de certezas e entregue a todas as dúvidas, e o Deserto não é, para certas almas, mais vazio do que a vida no século?