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Discurso de posse

Nazaré da Mata. Mauro Mota. Na realidade, se o início de tudo é o mais difícil, eu falaria da dúvida do início, a “dúvida constante”, de que cuidou o poeta baiano, a “quanta indecisão”, de que tratou o vate mineiro. Vacilo, procuro, entre os nomes, um nome: o nome da cidade ou o nome do poeta?

O dono dos Grandes Sertões – João Guimarães Rosa – socorre-me com uma palavra mágica: “Cordisburgo”. Cordisburgo abre e fecha o seu discurso de posse. Faz dezoito anos. Faz e não faz dezoito anos, porque é hoje que Guimarães Rosa acende em meu espírito não a palavra cordisburgo mas a palavra nazaré. Em verdade, Nazaré da Mata. Chamo Nazaré da Mata e chamo, em seguida, Mauro Mota. Mata e Mota. Por que tal ordem? Porque, quando eu pronuncio Nazaré da Mata, sem dúvida que digo Mauro Mota e, de uma certa forma, eu também me digo.

“Cordisburgo”, escreveu Rosa, “era uma pequena terra sertaneja, trás-montanhas, no meio de Minas Gerais”. Digo eu: Nazaré da Mata é uma terra entre canaviais, na parte norte e doce de Pernambuco. Lá, viveu o poeta Mauro Ramos da Mota e Albuquerque. Lá, coincidência, nasci eu, filho de Evalda, nazarena astuta, perspicaz; e de Antônio, agrestino, dos bons de coração.

Nazaré da Mata: engenhos de açúcar; a mata substituída pelos canaviais; as bandas de música apelidadas Revoltosa e Capa-Bode; Epaminondas, de “seu” Alfredo Laurindo, de Crimeia; Laurindo, de Japaranduba; Maçu, do Hotel; Sinhozinho, de Pedra Furada; a escola de Alice e D. Vieira; as farmácias de Artur Neves e de Joel de Lima; Joca Progresso; Cordeiro contando mentiras; “seu” Quintino, o italiano; Nanci, de doutor Fernando; Célia e Vanda; a Troça Carnavalesca Doutor Pisada; o Cinema Lux; a Praça da Catedral; Aguiar, dentista; coronel Vitor Vieira de Melo; Alfredo Coutinho e o Engenho Pedregulho; a Rua do Bom Jesus; Papi; o Centro de Prosa, de Eugênio Pimenta; Virgínio Simplício; Paulo Guerra – vaqueiro e governador, Mandacaru e Violeta; Arquimedes, de Babilônia; Quincas, de Oratório; a Rua do Juá, a Gazeta Nazaré; dona Amélia, mãe de D. Ricardo Vilela; as sentenças do juiz de direito, Djalma; a parteira D. Dedé; “seu” Martins, cozinheiro; Alcides Preguiça, motorista; Adani Filipe, fuxicando; Nazaré de ontem e de hoje, Nazaré que não mudou nas mudanças.

Evoco outro poeta pernambucano, Marcus Accioly, que, em sua louvação a Mauro Mota, diz: “Em Nazaré da Mata (Pernambuco) / um poeta viveu sob um menino / (como a semente vive sob o fruto).”

Quando vai para Recife, Mauro leva e guarda consigo Nazaré, o tempo todo. Se está no Bar Lero-Lero, junto ao Diário de Pernambuco, ou no Restaurante D. Pedro, em frente ao Arquivo Público – lembre-se que, do Diário e do Arquivo, foi diretor –, Nazaré está junto. Nazaré, o tempo todo.

Nas “peladas” do Baby Futebol Clube, em frustradas tentativas de ser goleiro, nas aulas do Salesiano, quando o padre Nestor lhe ensinava a fazer versos, onde conheceu o colega-irmão Álvaro Lins e onde foi aluno de Oscar Mendes, o que Mauro sentia no sapotizeiro do pátio do colégio era o cheiro do mel de Engenho Nazareno: “Vinha dos banguês a doçura dos ares, / pregões de cocada, alfenim, caramelo.”

Ele juntou o Recife a Nazaré. Os bairros do Recife, flutuantes em mar e rio, boiavam nas águas do Tracunhaém, o rio que molha Nazaré.
 
Não negava isto. Na sua trajetória pelo Jornalismo, seja nos jornaizinhos escolares – O ColegialO LírioAltos Coqueiros – ou em A Pilhéria e no Diário de Pernambuco é fácil encontrar a impressão da marca nazarena.
 
Mais tarde, vemos que o Jornalismo foi nele a sobrevivência imediata, depois impossível de abandonar. E aí cumpriu, no suplemento literário do Diário, um papel transcendental de apoio aos novos. Novos, como já foram novos Edson Regis, Edilberto Coutinho, Virginius da Gama e Melo, José Sarney, Carlos Pena Filho, Renato Carneiro Campos e até eu mesmo, quando ali publiquei um artigo sobre Jubiabá, felizmente nunca do conhecimento de Jorge Amado. O suplemento era, de uma parte, um coração de mãe, de outra, uma peneira seletiva, mas tudo de forma harmoniosa, nada conflitante.
 
Dessa capacidade de produzir uma triagem eficiente dos textos, em sua época de redação, é que, no Diário, não mais se falava do tempo desta forma:

Imenso e imóvel, o azul foi invadido de nuvens
alvadias que o eclipsaram soberbamente.
Afiada como uma lâmina de aço, passeou a lua,
à noite, através dos campos sidérios.

E mais: aos redatores e repórteres, Mauro Mota dava a sua lição: bispo é bispo, não é respeitável prelado; médico é médico, não conceituado esculápio; menino é menino, não é interessante petiz; faca é faca, não é instrumento cortante; fritada de caranguejo é fritada de caranguejo, não é fritada de crustáceos acéfalos.
 
A picardia de Mauro Mota, tão comum na sua prosa, ao contrário dos versos, tão no formato da dor, consubstanciava-se – e para isto já chamou a atenção de todos o Presidente Austregésilo de Athayde – em absoluta seriedade nos editoriais.
 
Foi um praticante da dermatologia literária: tira as manchas do fraseado, remove os chocalhos da adjetivação.
 
Perdoai-me, que para mim o tempo agora pára, suspende o seu voo, como no verso de Lamartine. Por isso, desajeitado, eu tento pegar o pássaro, tento escrever a elegia que seria a de n.º 11, a elegia de Nazaré da Mata. Mas não é a elegia de que preciso. Preciso de Mauro Mota vivo, aqui, ao meu lado: “tua lembrança chega esta noite / depois de percorrer longos caminhos do espaço / rompidos pelas músicas da distância.”

Ele disse: “Meus amigos, vou-me embora.” Ele disse, mas não se foi, Mauro nunca se vai, Mauro é o que fica.
 
Ele não está lá, está aqui. Ele, que falou do navegante Gilberto Amado, é “o menino vestido de marujo” – e eu diria mais: é o menino vestido de mar – como “Alfonsina”, na canção.

Ele, que escreveu os Epitáfios, que viu “tudo nos seus espaços / o mundo e o carrossel”, mereceria o seu autoepitáfio: “Fique a lembrança do Pastor Fugace, / que foi pastor só para que ficasse / nas colinas a música da flauta.”

Pastor Fugace, poeta maior, “poeta poetíssimo” – como disse Gilberto Freyre –, Mauro foi um lírico desalentado, e “o seu canto de desalento” – diz José Lins do Rego – “transformou-se em imagens e ritmos de um grande poeta”. “Não sei de versos brasileiros” – aponta Valdemar Cavalcanti – “onde se encontre tão nítido o sentido do patético. Tem aí a sua poesia um acento de prodigiosa ressonância”. “Retirando o verso do sangue” – agora é Adonias Filho quem observa – “a conversão poética, surgindo com espontaneidade, retoma uma espécie de romantismo heterodoxo porque, ao invés de pensar, o que faz sentir é Poesia”.

Aí está a grande diferença dos poetas, pois há um poeta que faz e um poeta que sente. Fernando Pessoa falaria dos graus da Poesia Lírica, que vai do poeta “monocórdio de emoção” até o “poeta que vive”. João Cabral de Melo Neto fala do ato de “aprisionar a poesia do poema” e do de elaborar a Poesia em Poema.

POETA DO MUNDO QUE SE VAI

Em outra linguagem, teríamos o poeta “possesso” e o poeta “artífice”. Mauro foi um poeta possesso, possuído por todas as musas.
 
Quando Hermantine Cortez fica – apenas pelos fios castanhos dos cabelos – preso à vida, ele se desespera em dez elegias, talvez as mais belas escritas em nossa língua. Elegias de “sombra, perfume, ressonância, imagem”. Ele se desespera na “desesperada solidão”, nos “passos incertos sobre as lajes frias” e busca o “fantasma dançando a valsa lenta”.
 
Ele arranca da morte a vida, prende a “brisa da tarde” e canta a canção que as mães cantam, mesmo apesar de mortas, “para embalar os pequeninos filhos”.

Josué Montello chama a atenção que,
   
de repente, seu nome cresce e irradia-se. Como Leopardi, a morte foi o deflagrador instantâneo de sua genialidade evidente. Até então Mauro Mota era o intelectual, quase circunscrito ao renome pernambucano. A morte da companheira, ocorrida de modo tão atordoante, levou-o a seguir à risca o conselho de Goethe – transformando a sua dor em Poesia.

Thomas Mann, fazendo o elogio ao efêmero, havia dito que é ele
   
que cria o tempo, e o tempo é, ao menos em potencial, o dom supremo, o mais útil, aparentado por essência e mesmo identificado a todo elemento criador e ativo a toda mobilidade, todo valor, todo esforço, toda progressão no sentido de um plano mais alto e melhor. Onde não existe o efêmero, nem começo nem fim, nem nascimento nem morte, o tempo se abole – e a atemporalidade é o nada permanente, absolutamente desprovido de interesse.
   
O efêmero é elemento motivador de seu contrário: a perenidade. É através dele, por seu intermédio e pelo receio do perecível e pela busca que o homem tem de permanência e duração das coisas, que o efêmero toma importância e se revela como a força propulsora dos movimentos para a eternidade.

Mauro Mota havia escrito em seu livro de aforismo: “Precisamos morrer para saber se somos imortais.” Aí parece estar resolvida a dialética do efêmero e do eterno, do que fenece e do que perdura. Através de sua obra, onde, a princípio, os temas são fugazes, fragmentos do cotidiano ou da memória, cenas da vida nordestina, Mauro vai construindo sua definitiva e duradoura obra, rompe a linearidade das coisas de desprezível interesse, secciona e estanca o tempo para nos dar a beleza e a imortalidade da sua produção.

Adonias Filho falou do sentimento e do sangue em Mauro Mota. Eu falo do Mauro Mota possesso, ou seja, do que possui o sentimento do sangue ou o sentimento no sangue.

A Poesia cai bem sobre esta noite, sobre esta Casa: “A casa inverte a missão domiciliar, sai da rua. / A casa agora mora no antigo habitante.” Escreveu Mauro Mota e, novamente, inverte-se a missão domiciliar: o antigo habitante, Mauro Mota, mora nesta Casa que morou nele, nesta Casa-Academia. Por isso, compreendo este sentido da imortalidade, o antigo habitante volta a habitar o tempo, volta a habitar a Casa de Machado de Assis, que é também a dos senhores.

Ao contrário da Irene, de Bandeira, ao chegar ao céu, entro aqui pedindo licença.

Pedindo licença, é certo, mas também fazendo uma oferenda, pois trago na alma, para esta convivência, além do Capibaribe, meu rio, “espelho do meu sonhar”, meu rio do Recife e de Limoeiro, os

Guararapes, montes
sagrados dos pernambucanos,
germinais da Nação,
cenário mais antigo que compomos
para ser o que somos.

Tenho a impressão de que não chego a esta Casa, para merecer a honra de vossa companhia, nem muito cedo, como o que aqui chegou aos vinte e cinco anos, nem muito tarde, com o que bateu à vossa porta depois dos oitenta.

Dir-se-ia que, para alcançar esta eminência, escolhi a idade em que as ilusões já estão sujeitas ao reativo da experiência.

Chego em circunstância singular, como sabeis, desde que o pernambucano, meu compadre, meu padrinho de casamento e amigo, me trouxe até a entrada desta Academia.
 
Vede bem que digo: à entrada desta Academia. Sentia ele a vida declinar, por uma emboscada da má fortuna, e queria que fosse eu o seu sucessor. Entretanto, e eu o sabia, esse tipo de escolha não era próprio dos critérios que regem o ingresso nesta Instituição.

E disse-lhe:

– Meu amigo, se eu vier a entrar para a Academia, o importante para mim é o seu voto, que já tenho, não a sua vaga, que não penso ter.

Mauro Mota, como sabeis, era uma alma lírica e um espírito brincalhão. Nunca se podia saber quando o espírito brincalhão se misturava à alma lírica, porque Mauro conservava, por trás de seu bigodinho branco (o dos últimos anos), a mesma gravidade bem composta, o mesmo ar sisudo com que dissimulava, por vezes, o seu riso e as suas alegrias.

Então, segurando-me pelos ombros, a olhar-me de frente, ele me disse:
 
– Compadre Vila, estou falando sério.

Preferi mudar de conversa. Por que insistir em imaginar a glória desta Casa, associando a imortalidade acadêmica à perda de um dos meus melhores amigos? O tempo correu, e Mauro não deixava de insistir no seu apelo, que me perturbava e me comovia.

Com a sua morte, perdeu a Língua Portuguesa um de seus mais altos poetas, perdeu Pernambuco um seu grande filho, perdeu o Brasil uma das grandes expressões de sua Cultura, enquanto nós, os seus amigos e conterrâneos, perdíamos o companheiro querido, de tão grato e inesquecível convívio.
 
Eu poderia ter adiado a ideia de transpor a entrada desta Instituição, que reúne tão altos nomes da inteligência brasileira. Mauro trouxera-me até ela. Competia-me subir-lhe os degraus. Foi o que fiz, graças à vossa generosidade. E tenho, assim, oportunidade de fazer nesta noite, que me comove, o elogio de Mauro Mota: celebrando o homem, realçando os valores de seu feitio e de sua condição, repassando o amável itinerário de nossa amizade fraterna, destacando o poeta e o escritor, fazendo incidir sobre a sua incomparável figura humana a luz do elogio acadêmico.

É da tradição, na Academia, que o escolhido sempre o é por unanimidade, descontando naturalmente o voto de seu predecessor. No meu caso, posso dizer que Mauro Mota também votou. E votou não só em mim, votou para que Maria do Carmo, Marcantônio, Rodrigo Otaviano e Taciana Cecília pudessem ver o que para tanto contribuíram no carinho do apoio e da animação, sem pressa e sem descanso.

Falou, como sabeis, a alguns de seus confrades, pedindo-lhes que sufragassem meu nome, na hipótese de seu desaparecimento. Talvez alguns votos tenham resvalado na urna em decorrência desse compromisso sentimental. E é por isso que vos digo que Mauro Mota também se associou à unanimidade que me levou à glória acadêmica.

PERICUMÃ E CAPIBARIBE

Aporto nesta Casa, senhores acadêmicos, trazido por meus amigos. Todos. E, como se os sufrágios não bastassem, destes-me o remate da amizade, para a solenidade desta noite, fazendo que me recebesse na Academia, em vosso nome, outro fraterno amigo, o Acadêmico José Sarney, sem ignorar até mesmo o fato de que ele tem uma metade pernambucana, acorrentada por D. Kiola – mãe dele –, pernambucana de Correntes, pertinho de Lajedo, onde meu pai nasceu.

Ligam-me a ele laços de forte afeição, na amizade que entrelaça as nossas famílias, sob as ternas lideranças de Taciana Cecília e Roseana.
 
Para Taciana, ele escreveu este “galope”, onde, nos exageros, vê-se como pensa que somos: da família dos boagentes, consanguíneos dos bonsdeuses:

Quando nasceu Taciana
no reino do rei Vilaça
e da rainha Maria,
do Carmo também chamada,
o povo todo sabia
que a menina era dotada
das belezas que trazia
dessa rainha Maria
e grandes dotes de graça
dos sangues do rei Vilaça.

Agora aqui tá chegando
das terras do Maranhão
gente que vem presentear
bonduras do coração
para homenagem da nina
da terra pernambucana
doce e bela Taciana
a quem devo devoção
dentro dos céus e da lei,
dessa família o escravo,
o cantador.

José Sarney

Devo confessar-vos que, se houvesse um signo efetivo e objetivo para presidir as vidas humanas, a minha teria por signo a amizade. Ouso alterar a frase de filósofo que tanto influiu em minha geração, para dizer-vos que, ao longo da vida, nada mais tenho a reconhecer que as amizades. Alegro-me em reconhecer que as amizades nunca me faltaram. Por isso, nesta hora, enche-se de amigos este Salão. Amigos de toda a vida.

MENINO DA NAU-CATARINETA

Mauro Mota não foi um menino de engenho. Foi “o menino debaixo dos cajueiros” da cidade interiorana. Há uma diferença grande entre o menino de engenho e o menino de cidade do interior. A poesia de Mauro revela esta diferença.

O menino de engenho canta o aberto, e o menino da cidade do interior canta o fechado. Mauro Mota se fecha em seu canto e canta. É preciso ler o Capitão de Fandango para entendê-lo, é preciso entrar nas boticas e ver “o tempo sem remédio na farmácia”.

É preciso olhar o simples, o cotidiano. É preciso ver o que ninguém vê, para vê-lo. Ele está por trás, por dentro, nas dobras, nas mangas: ele é a mágica do mágico. Carlitos de “sapatos soluçantes”, de “novos itinerários”. Sim – Carlitos – por que não? Quem não o viu fazendo uma frase-feita? Quem não recebeu, pelo telefone, um trote da sua voz? Ele foi muitos. Ele se multiplicou. Ele era Mauro Mota e era Ramos e Albuquerque.
 
Mas era também André Bicalho, Conrado Montezuma, Meneleu Padilha, Suzana Cantuária, Major Aristarco Gadelha, Mateus Camorim, Dr. Muta, para os famosos trotes, em que sobressaía um talento específico, o da adequada representação teatral.
 
Falando ao telefone, tanto podia ser o sacerdote quanto o ministro de Estado, o médico ou o comissário de Polícia, o cobrador quanto o amigo distante, o inimigo furibundo quanto o admirador incondicional e desconhecido.
 
Dava-nos a impressão de que não apenas se comprazia com suas amizades, divertia-se com elas.
 
Mauro Mota perdurará, em nossa memória, como a criatura singular – ora  angélica, ora diabólica, mas de um diabolismo específico, mais perto do Céu que do Inferno. Um diabolismo que levava antes à graça divina que à desgraça da condenação eterna.

De suas brincadeiras, fui aprendiz e cúmplice. Da nossa preferência, naquele tempo de espichadas viagens em aviões de hélice, era promover aniversários de passageiros amigos. Muitas vezes já embarcávamos com o bolo camuflado. E minha sogra era a vítima mais frequente.
 
Numa dessas ocasiões, inventamos o aniversário da minha querida comadre Marly Mota – pintora e cronista, esposa exemplar e mãe boníssima. Guardo os versinhos que ele pôs num papel, tão logo acabaram de sugerir-lhe um “apaga-vela” para Marly:

Querido Marcos Vilaça,
sua ideia é ideia-mãe.
Que Marly mais anos faça,
quero que ela me acompanhe.

Que grande contador de histórias foi Mauro Mota. E o danado é que a gente nunca conseguia apurar a veracidade delas.
 
Uma delas: vai dar a aula inaugural no Instituto de Educação. Ao final, as alunas o cercam. Abraçam-no. Dizem do prazer de ouví-lo. Uma das alunas confidencia:
 
– Mamãe fala muito do senhor.

– Ah, é? Ela lê minhas crônicas no Diário ou gosta das minhas poesias?

Resposta da estudante:

– Nem uma coisa nem outra. Ela foi sua namorada.
 
Mais outra: sua tia Yayá, muitíssimo surda, teria sido aconselhada pelo sobrinho padre, o hoje bispo D. João Mota, a levar escrito ao confessor, dentro do missal, a lista de seus pecados, evitando que os proclamasse, aos berros – como boa surda – dentro da igreja.

Um dia, eis que Mauro Mota descobre a papeleta e conhece os terríveis pecados da tia Yayá:

“Olhei para trás na igreja durante o santo sacrifício da missa.”

“Sábado, deixei de rezar o ofício de N. Senhora.”

E encerrando sensacionalmente:

“Tentativa de mau pensamento.”

O FINO TECELÃO DA POESIA SOCIAL

Nele conviviam o chiste e a seriedade. Impossível esquecer o “Boletim Sentimental da Guerra no Recife” ou a poesia social A Tecelã: “Para ti nem sobra ao menos um pano preto de luto. / [...] / Teces toalhas de mesa, e tua mesa vazia.”

Ou em a “Cantiga do Engenho Cavalcanti sobre o Livro de Assentos do Barão de Tracunhaém”:

Ainda o pomar em volta
com suas interdições para todos os moleques:
manga de noite é veneno;
abacate dá sezões;
goiaba, dor de barriga;
jaca-mole, hidropisia;
para morrer de repente,
talhada de melancia.

Aqui o poeta denuncia dura realidade e se engaja numa poesia nunca despida à poeticidade de visão estética. Mauro optou em A Tecelã pela participação e colocou seu nome entre aqueles que fizeram da Poesia uma arma poderosa e acusação contra uma realidade cruel que cerceia e corrompe a dignidade do homem. Ao falar do “sofrimento têxtil” das moças tecelãs nas fábricas, Mauro deixou por um instante a sua lírica pessoal e entonou uma poesia de lírica coletiva, se assim podemos dizer.

Gilberto Freyre havia dito que o lírico, em Mauro Mota, não deixa de ter namoros épicos. O Brasil existe, como totalidade épica, para ele, tanto quanto existiu, com suas palmeiras e seus sabiás, para Gonçalves Dias, exilado. “Ele não sabe compreender-se, nem como pessoa, nem como grande poeta que é, desligado desse Brasil total”.

Se pensarmos que toda a extensa obra de Mauro Mota, constituída de sua prosa e verso, bem reflete essa visão plural do Brasil e de Pernambuco, que a sua epicidade se dá em termos do conjunto que ele tentou globalizar, em afrescos menores que formariam um grande painel, é com A Tecelã  que Mauro Mota mais agudamente tenta retratar uma realidade desse Brasil épico-lírico / particular-coletivo.

Essa capacidade de virtuose em operar com o lírico e o épico sem perder a noção social nas pequeninas coisas domésticas, circunstanciais, nem perder o senso heroico até nas configurações humanas de experiências individuais e microcêntricas, é um dos grandes méritos da poesia mauriana.
 
O épico, aqui, não é tonitruante, reverberante no fazer do coletivo a personagem e o pano de fundo de sua poesia; o épico é sussurrante, ecos de paixões, canção fraternal para os humildes, lances heroicos de sua lembrada gente. Não é propriamente um canto coletivista, mas um grande mural onde vemos, no drama individual destacado, o drama da multidão.

De outra parte, a fidelidade de Mauro Mota ao seu circundante, já explicou Eduardo Portella, não deforma nele o poder de universalização. O regional não é provincianismo. A região se transfigura em nobre e digna dimensão simbólica.
 
Veja-se no primeiro capítulo – “Algemas e alfenins” – de O Pátio Vermelho – o que Mauro Mota escreveu:

O alfenim partido, a semente retroativa.

Desintegra-se, recua, cresce verde. Molha-se no
açude, enche o vale.

Bois e cavalos, brinquedos e iguarias, furos nos
chifres e cortadeiras, trabalham nesse estágio. A
canga e os cambitos.

As enxadas, o feitor. Suor no campo, carne viva
nas moendas.

Os canaviais entram pelas casas da rua, expulsam
a gente.

Aí, sem dúvida, está uma amostra do seu mundo. Mundo esmiuçado, um pequeno grande universo de coisas que, do interior, se amontoam no íntimo da memória. O canavial entrando pelas casas da rua, expulsando a gente. O menino da cidadezinha olhando a luta do vento, nas folhas, tudo chega do campo e assalta a cidade.

O ENSAÍSTA DE PLANTÃO

O ensaísta em Mauro Mota é fruto da inquietação intelectual. Aí, também, nele, o sentimento encontra a palavra adequada à sua expressão.

Muito já se anotou de como Poesia e Prosa se confundem em Mauro Mota. O Cajueiro Nordestino é uma boa prova de que tem razão Eugênio Gomes ao afirmar que ele realiza a extrema temeridade de entremear Poesia e Ciência, tudo dando certo.

Esse suposto antagonismo entre Poesia e Realidade foi rejeitado por Unamuno, ao falar do que havia de poético em inventores e engenheiros. E poderia ter lembrado, como o fez Gilberto Freyre, a comunhão com a Poesia ser possível até mesmo aos políticos, inclusive, aos políticos do tipo britânico de um Disraeli.

Quando Gilberto disse isto, é bom registrar, não havia ainda a Nova República, nem muito menos poeta-presidente ou presidente-romancista.

A tese de Mauro Mota para a cátedra de Geografia, no Instituto de Educação de Pernambuco, mais do que uma dissertação didática, para ater-se ao rito da conquista, é um esplêndido estudo sóciocultural, imprescindível para o conhecimento da realidade brasileira.

E assim acontece a sintonia da Ciência com a Lírica, da objetividade com o sonho, tudo no formato da boa linguagem, como em Paisagem das SecasGeografia LiteráriaVotos e Ex-VotosFitofobia e Dietas, entre outros. Acontece também ao escrever para a Rádio Tamandaré “peço a palavra”, crônica diária, tal como no jornal a seção “Agenda”.
 
Num de seus últimos livros, Pernambucânia ou Cantos da Comarca e da Memória, título e temas parecem querer explicar tudo que fez e foi o nosso querido Mauro.
 
Há uma trajetória de saudade, já que a “rememoração é o seu forte”; há uma obsessão da morte – a mãe dele, D. Neném, nunca tirou o luto da viuvez –, onde o que não morre é assassinado, como a confirmar o Tiempo Homicida de que falara Antônio Machado; há o choro que não resvala para o grito de um revoltado; há o humor, que Edilberto Coutinho chegou a defender como elemento estrutural da sua poesia e sua prosa; há a sua província, o seu mundo, o seu vasto mundo.
 
“Pernambucânia” aporta bem no binômio (comarca-memória). De um lado, o chão; do outro, a memória individual/coletiva do homem.

Mauro Mota realiza esse desafio de unir a tradição à ruptura. Ele é renovação e herança.

Misturador do regional com o universo, parte do pequeno para armar o grande. E consegue.

Há palavras nossas que são apenas dele: alfenim, compota, guarda-louça, açúcar-cândi, pião, realejo.
 
Não é Luciana, é ele quem brinca com a caixa de letras e apreende um tempo, assim como se a partir do doce na compoteira fizesse uma viagem retroativa e o açúcar voltasse ao caldo, o caldo à cana, a cana à terra, a terra ao homem.
   
   
A CADEIRA 26, DEPOIS DA 35 E DA 1

Em muitos discursos de posse nesta Casa, anoto lembranças às coincidências das cadeiras tal como houve – ainda que poucas – nas minhas Cadeiras 35, da Academia Pernambucana de Letras, e 1, da Academia Brasiliense de Letras. Pois nesta, também, existem, seja pela sua nordestinidade nos últimos tempos, pelo que é significativo de presença do Jornalismo ou pelos poetas que nela se sentaram.
 
Mas cantarei algo especial para mim: a 3 de outubro de 1965, ao me receber na Academia Pernambucana de Letras, quase cinco anos antes de sua posse na Academia Brasileira, lembra Mauro Mota, abrindo o discurso:
   
Ainda na casa dos vinte, chegais a esta Academia, ultrapassando o estágio academicista. Dele se livraram bem poucos entre os pernambucanos e brasileiros, hoje  academiados.

Um caso, símbolo dos outros, o desse escritor de sete fôlegos revelados no seu primeiro livro de memórias, sem estilo castigado e citação, livro de pena solta e do menino, solto em Itaporanga, ganhando para o romancista, para o ensaísta, o erudito, o congressista, o embaixador na ONU; fazendo dessa aldeia de Sergipe uma cidade universal da Literatura; do vasa-barris, que lhe molha as terras, um portento da geografia fluvial.
 
Esse caso, símbolo dos outros, inclusive dos nossos, o de Gilberto Amado. [...] Esperou, ou foi esperado um tempo equivalente ao duplo de vossa idade, Sr. Marcos Vinicios Vilaça: cerca de meio século.
   
Como imaginar que, mais tarde, ele substituiria Gilberto Amado, de quem, certamente, guardais convosco a lembrança da posse, ao evocar Ribeiro Couto, já quase cego, a tatear a mesa, à procura do talher, como se tocasse piano na toalha do mármore.

E como imaginar que, agora, seja eu a me apresentar aqui, nordestino fanático e pernambucano ortodoxo, para ser guardião das glórias de Laurindo Rabelo – Patrono da Cadeira 26 –, de Guimarães Passos, seu Fundador, e dos sucessores.

Cada um dos que me antecederam incorporou à tradição da Academia o seu modo de ser, a sua reação diante a vida.
 
Paulo Barreto, vertiginoso, todo nervos, deu a impressão de ser uma força da natureza. Uma dessas janelas por onde se formam as correntes de ar: abre-se a rótula, e os painéis voam, e as cortinas se arredondam, no impulso do vento que vai entrando.

Ainda está para ser mais bem examinado o trabalho dele na inovação do Jornalismo, nas duas primeiras décadas deste século, aqui no Rio de Janeiro.
 
O que escreveu, pôs no jornal. Acreditava no jornal. Lendo-se A Alma Encantadora das Ruas e As Religiões no Rio, verdadeiras pesquisas no campo da Psicologia Urbana e da Antropologia Cultural, é que a gente sabe nada significarem lembranças polêmicas que deixou no rastro.

Depois dele, Constâncio Alves – o famoso dizedor de verdades amargas. O que definiu a Carlos de Laet como jararaca de pátio de igreja.
 
Em seguida, Ribeiro Couto, o reformador do Conto e da Crônica, que abriu caminho a Marques Rebelo. Foi ocupante, por longo tempo, desta Cadeira. A sua mensagem transita pelos tempos, e dela Carlos Drummond de Andrade diz ter “eternidades do minuto” e ocupar “um território privativo da nossa Poesia”.
 
E é com a plena consciência da significação excepcional desse legado de Arte e de Cultura que recolho a honra da sucessão, nas glórias desta noite.
 
Não venho suceder ao poeta nem ao grande homem público de que Pernambuco e o Brasil tanto se orgulhavam. Venho zelar por sua memória, na Cadeira que ele elevou de modo tão irradiante. Porque é essa, também, senhores acadêmicos, uma das funções da Academia.

No norte da África, ao ver em certa cidadezinha uma rua com o nome de Flaubert, perguntou Georges Duhamel, ao guia que o acompanhava, quem era aquele Flaubert.

E o guia, para não deixar a pergunta sem resposta:
 
– Foi um rei, senhor.
 
Talvez alguém diga, no terceiro milênio, que Mauro Mota foi um rei. Dirá bem, se o disser. Porque, se não foi um rei, no sentido dinástico ou monárquico, foi certamente um príncipe – no modo de ser, como figura humana e no modo de afirmar-se, com a singularidade de seu talento criador.
 
Andarilho de Olinda – para onde me convidava sempre, não para o “banho de mar” mas para o “banho de oceano” –, dono de todos os bodes e de todos os cajueiros, dono do boi de barro de chifres doces, chifres de cana-caiana, Mauro Mota foi um príncipe, um cavalheiro, uma flor de gente.

Agora, à semelhança de “seu” Miguel da Banda Euterpina Juvenil, de Nazaré da Mata; não pela Rua da Palha, mas pela Avenida Presidente Wilson; não de clarineta, mas de flauta; não de farda, mas de fardão, limpo de tempo e de areia, Mauro Mota vem permanecer conosco.

Está tranquilo: o canário seu gouveia e o galo-de-campina alcione vão cantar; sua comadre Maria do Carmo fará comida sem cebola; as evaldinas estão no jarro da janela; os cajus amarelos foram colhidos no jardim da Fundação Joaquim Nabuco, tanto dos seus amores; Marly fritou agulha e preparou a tapioca de coco; tem água fresca na quartinha e cerveja bem geladinha.

2/7/1985