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Discurso de posse

DISCURSO DO SR. LAUDELINO FREIRE

SENHORES Acadêmicos:

Cantam ainda, nas largas ressonâncias das vibrações patrióticas, os hinos triunfais da Festa do Sol.

Todo um povo coroava, no altar da sua admiração, o jubileu de uma existência flamejante, não raro combatida, mas sempre venerada, cheia de lutas, vicissitudes e contrastes, mas só vivida para simbolizar o bem e a beleza, a justiça e a liberdade, o saber e a glória. Era o Brasil unânime, sem antagonismos nem rivalidades, por suas legítimas soberanias – “a soberania da nação, a soberania da inteligência, a soberania da consciência social e a soberania da verdade eterna” – a divinizar um nome, aclamando-o, entre os esplendores de uma solenidade singular e rara, à face do mundo e com o testemunho de Deus, o do maior dos seus homens.

Dir-se-ia que, no primeiro dia do tríduo memorável, ao celebrar-se no Campo de São Cristóvão a imponente cerimônia religiosa, se consumara afinal o consórcio da grandeza moral da pátria com a onipotência espiritual do filho.
Sublime quadro, e talvez único em toda a nossa vida, foi o desse instante!

Quando, sob a comoção de tantas e tamanhas dignificações, de olhar volvido aos céus, pedia o excelso compatriota ao Senhor dos mundos lhe desse força para resistir e ânimo para agradecer, – toda a multidão ali compacta, enternecida e arrebatada nos estos da mesma exaltação, banhava-se na luz de dois sóis – a que descia das alturas siderais e a que se derramava da eloqüência do homem, em cuja boca selara Deus o poder presciente do verbo, que o fizera divino entre humanos.

E como se lhe não arrebentaram as cordas do coração, represado pela intensidade de tantas alegrias, de tantas compensações, de tantas vitórias, alcançadas sobre tantos dissabores, tantos reveses, tantos martírios? Que se passaria no recôndito daquela alma, vendo-se assim transformada em objeto de veneração tão profunda e de tão grandiosas pompas, como só se tributam aos que, mergulhados já no sono da outra vida, ressurgem, no seio da história, engrandecidos pela posteridade?

A vida de Rui Barbosa, onímoda e onipatente, revela o quer que seja de essência miraculosa.
Eleito para galgar os altos cimos do pensamento, tornou-se mestre entre sábios, arquétipo do homem de estado, assombro da tribuna; encarnação viva do espírito liberal, idealista e evangelizador; a mais elevada expressão mental e política do seu país e do continente, condensando em si uma época e um idioma.

À luz dos julgamentos definitivos é que há de avultar-lhe o nome. Resplandecidos então pelo crisol da justiça sem manchas, refulgirão os predicados que lhe deram a ele a posição extraordinária e única, que começou de conquistar, tanto que se estreou, madrugando, nas lides e lutas do homem público.
Contemporâneos da sua época, aquecidos ao calor dos seus ideais, tocados da magia da sua palavra e do fogo comunicativo das suas paixões; participantes das suas pelejas, nelas combatidos ou com elas solidários, ora arrebatados no torvelinho dos temporais, ora arroubados nos transportes dos hinos das suas vitórias, sentindo as mesmas alegrias, ou curtindo as mesmas dores, – nós, os que aspiramos o ambiente em que viveu, lutou e se desdobrou esse homem-prodígio, apenas podemos sentir-lhe a grande obra e gozar-lhe os primeiros frutos.

Sentimo-la somente, mas não a entendemos; fruímo-la, sem lhe penetrarmos a extensão, que a eleva indisputavelmente ao plano das maiores construções ideais em prol do direito contra o despotismo, da verdade contra o erro, da virtude contra a maldade, da firmeza contra a frouxidão, das realidades grandiosas contra o instituto das razões de estado, não raro delusórias e fementidas.
Coevos desse esforço de reconstrução política e trabalho messiânico de beleza e patriotismo, nem por isso deixam de existir vozes negativas, que acusam o reformador, como a Cristo acusaram os judeus dizendo, no pretório do magistrado que lavou as mãos diante da sua fraqueza (segundo o Evangelho de S. Lucas, cap. 23, 2): “A este temos achado pervertendo a nossa nação.”

Há uma luz, Senhores, a luz da verdade, que dissipa o fumo negro que se exala do profundo da maldade humana. A lâmpada que ilumina as campas mortuárias não tem a mudez sempiterna do sepulcro. – “Lampas contempta apud cogitationes divitum, parata ad statutum.” – São palavras de Jó.
Para o julgamento do homem que se divinizou na obra do engrandecimento de um povo, na redenção de uma raça, na vigilância das liberdades, no apostolado do regime; do político clarividente cuja ação teve epopéias como a do civilismo, a de Haia, a de Buenos Aires e a do Código Civil – “há de estar sempre guardada e prestes para quando for tempo” aquela lâmpada que, sem intermitências, já ardia nos templos das divindades pagãs, simbolizando a luz da verdade eterna.

É através dessa claridade que há de mostrar-se a figura de Rui, esculpida na grandeza do profeta e na majestade do pensamento, como o brasileiro que maior obra doutrinária realizou para a sua pátria, que nele não teve o agitador estéril, o retórico, o demagogo, o paralogista, senão o semeador do bem e o realizador fecundo, o missionário da paz e o sustentador da ordem, o apóstolo do direito e o antessignano da igualdade jurídica das nações.

Tão extenso fora o campo das suas lidas e fainas; em tantas províncias da sabedoria fora o primeiro; de tantas coisas tratara e em tantas cuidara que, dir-se-á, nenhum assunto importante, quer político, econômico ou financeiro; jurídico, internacional ou lingüístico; de ensino, de ética ou estética, dele deixou de receber soluções, que para logo serviam a inspirar governos e estadistas, legisladores e economistas, tribunais e juízes, juristas e advogados, professores e filólogos, educadores e periodistas. A sua palavra tornara-se oracular: “Rui locutus est, causa finita est”, em paráfrase, escreveu alguém, traduzindo uma verdade.

Nem espaço, nem tempo me sobrará, nos limites desta oração, para trazer-vos a síntese do quanto, no decurso de cinqüenta e quatro anos, produziu, ainda que puséssemos a mira em só considerar o que mais acentuadamente lhe fixasse os lineamentos e o relevo literário. Quase todos os assuntos versou a sua pena e, numa visão de milagre, surge-nos centuplicando aspectos: jornalista, poeta, orador e parlamentar; advogado, jurista, legislador e financista; diplomata, moralista, candidato e sociólogo; crítico filólogo, pedagogista e tradutor.

Se a imaginação e a fecundidade criadoras são os caracteres do gênio, em tudo o que lavrou e construiu, insculpiu e cinzelou, juntas avultam a abundância e a eloqüência, unidas sobressaem a fertilidade e a beleza.

Podemos aferir-lhe a obra pelos traços de luz divergentes que, partindo da sua mente para a multiplicidade dos conhecimentos, se refrangem numa vasta e fecunda atuação, a qual se espraia na amplitude sem perder a unidade característica de, no conjunto, ser inconfundível criação estética, levantada ao maior fastígio do ideal. O pensamento, na sua exteriorização, atinge a formosura suprema, e na harmonia com o poder da expressão está a luminosidade do estilista, em quem há páginas que não são ultrapassadas pelos mais perfeitos artistas da palavra, chamem-se Demóstenes, Cícero ou Tácito; Chateaubriand, Hugo ou Castelar; Vieira, Mont’Alverne ou Latino.

Lutam os escritores com a falta de correspondência entre o trabalho de elaboração mental, infinitamente acelerado, e a faculdade de expressar-se, em regra, retardada e perturbada no tumulto refletido das idéias. Em Rui, porém, era quase miraculosa a facilidade de falar e escrever.
O seu espírito vivera “continuamente em busca de um ideal”, que ele confessara nunca ter chegado a divisar, senão “muito ao longe, como esperança que se esbate num sonho de realidade”.
Com a íntima convicção do verdadeiro crente é que se debruçava na torrente da vida “para observar-lhe os destinos ignorados”.

“Na cerração que os encobre”, escutai-o, “há clarões grandes, que rasgam os espaços do mundo moral, e nos deixam ver, além das fronteiras das nossas desilusões, nos longes mais remotos do nosso descortino, os espigões de serra do futuro, doirados pelo sol de promessas divinas. Surpreendido, então, nessas abertas de luz, o homem, reconciliando-se com a fé, que se lhe esmorecia, sente-se ajoelhado aos céus, no fundo misterioso de si mesmo...”

Entreabria-se-lhe assim, na suavidade do culto interior, a fé ardente, na sua expressão mais alta: para Deus é que se voltava com o mais profundo sentimento religioso.
Imaginação, fecundidade, poder verbal, ideal e crença foram as grandes forças que trabalharam aquela organização privilegiada. E daí a estatura do jornalista, a grandeza do causídico, o insuperável do tribuno, o assombro do candidato e o Fídias da palavra entre os escritores; ou o próprio gênio, através do evolver dos séculos, resumindo, nas mais arrojadas manifestações, inúmeras daquelas virtudes antigas que inspiraram a Plutarco a galeria imortal dos seus varões.

Bastaria vos lembrásseis que de Sólon e Licurgo teve a larga visão no legislar; de Publícola, a resistência contra a tirania; de Péricles, a dignidade do proceder e a grandeza d’alma; de Marcelo, a coragem cívica; de Catão, aquele saber e utilidade nas orações do Senado; e de Demócrito, a mesma doçura e humanidade depois do triunfo, porque em Rui como naquele varão de Plutarco havia o horror da “vitória que degola os vencidos”.

O que de César escrevera Salústio pode-se-lhe aplicar:

“Grande pelos seus benefícios e pela sua munificência; pela afabilidade e clemência se ilustrara, dando, socorrendo e perdoando, glória alcançou; (Cesar dando, sublevando, ignoscendo... gloriam adeptus est); era o refúgio dos perseguidos, e tinha por sistema trabalhar, velar..., não denegar, coisa digna de conceder-se”.

Se César para si só quisera coroas e honras marciais, por exemplo “um grande comando, um exército, uma nova guerra”, a fim de que, por inteiro, se lhe patenteasse todo o valor ou gênio – Rui, ambicionando o poder, no posto de mais árduos sacrifícios, que é pelourinho, só desejara, devemos crer, com a afirmação da liberdade e da ordem, pôr a grandeza do seu saber a serviço da sua nação.
Num país onde o censo da elegibilidade faz que se colham os triunfos dos sufrágios na teia urdida pela lógica e sentimentos que radicam a política do poder pessoal, a livre sanção das urnas é ainda virtude insólita.

Ninguém, no entanto, mais talhado para encaminhar-nos os destinos do que o homem que, no dizer de Coelho Neto, sustentou nos ombros, ele só, toda uma pátria, levantando-a tão alto que o mundo todo a vê e admira.

Envaidecem-nos tais confrontos, porque eles só cabem aos predestinados, a exemplo do compatriota abnegado, a quem se ajusta o diadema com que Tácito circundara a fronte de Júlio Agrícola: “Tudo... quanto nele nos maravilhou, subsiste e subsistirá no pensamento dos homens, na série dos tempos e na recordação das coisas...”

Se no reconhecer ao vosso confrade, como estou a fazer, tantos cabedais e tamanhas virtudes há exageração, não é minha só, porque consenso quase universal é que nunca ninguém, entre nós, subiu mais alto que aquele que chegou a ser o orgulho e o ídolo dos brasileiros.

Fácil é, portanto, Senhores Acadêmicos, sentirdes a angústia que me oprimiria, se desta tribuna, aonde me trouxeram os vossos generosos e reiterados sufrágios, tivesse eu de descer para ocupar, substituindo-o, a cadeira em que se ele assentou.

Não; não me elegestes para substituir a Rui Barbosa.
Influem sem dúvida as eleições acadêmicas certas relações ou alianças; mas o que nelas realmente ocorre é um seguir-se, um vir depois, ou melhor, uma perpetuação sucessiva de nomes, enlaçados apenas na solidariedade espiritual do culto e amor das letras e da língua. A liberdade de escolha é sempre o que se nos depara nas instituições literárias de organização eletiva, não raro inspirada na equivalência paradoxal dos contrastes e dos extremos. Nem sempre os resultados correspondem, como em tudo sói acontecer, à justa conformidade de valores, que se quisera fosse o critério inspirativo; mas nem por isso deixam de ajustar-se a causas preponderantes, a que se não furta nenhuma atuação entre homens.

*  *  *

Tendes em mim um caso que vos será lícito incluirdes entre os daquela equivalência; mas cabe-me obtemperar: se a morte, ao ceifar de vidas entre as vossas fileiras, impusesse a afinidade ou igualdade de virtudes e talentos por norma invariável de vossas preferências – que gênio poderia restituir àquela cadeira o brilho da luz que se nela extinguiu? Quem lograria fixar-lhe os clarões da eloqüência que dela irradiou?

Ligam-me ao meu antecessor, além dos sentimentos de veneração, os laços daquela solidariedade espiritual no culto do idioma, do mesmo modo que se lhe afeiçoam quantos à língua materna testificam devotamento e amor.

É possível que nem uma escolha houvésseis até agora feito, sem que vos tivésseis inspirado em determinadas relações. É possível que, também, quando escolhestes a Osvaldo Cruz para sucessor de Raimundo Correia, ou o bispo de Mariana para suceder a Alcindo Guanabara, pudesse ser discutida a existência de quaisquer semelhanças intelectuais. Porventura, porém, na obra comum do engrandecimento do país e do seu patrimônio mental, não se unem e completam a ação beneditina do sacerdote com a ação tumultuária do jornalista, ou a grandeza daquele poeta com a estatura daquele sábio?

Assim o entendestes e assim o deliberastes.
Não se obstinou, por outro lado, o vosso escolher no só critério literário das obras de imaginação; ou de mera fantasia. Não quisestes empunhar o fantascópio. E por isso não desconhecestes, antes o proclamastes, o merecimento dos trabalhos de Francisco de Castro, de Jaceguai, de Lafayette, de Pedro Lessa e de Rio Branco, e não parece que obras de ficção sejam as Efemérides, as Dissertações e Polêmicas, o Direito da Família, a Guerra do Paraguai e a Clínica Propedêutica. É que não compreenderíeis a Academia, sem que aqui luzissem aqueles altíssimos engenhos, e deixasse este recinto de encher-se de nomes tão cobertos de benemerência e glória.

Não fostes insensíveis talvez à referência honrosa ao meu nome aqui feita, no seu discurso de recepção, por um dos vossos mais brilhantes confrades, crítico arguto e severo, em cuja pena a paixão com que olha homens e livros não lhe prejudica a independência; e, sem embargo do velho princípio dos extremos, bebido nos primórdios da filosofia clássica, entre os que, dentro de uma mesma ordem, distam um do outro o mais possível, fostes buscar-me, isto é, trazer o último para seguir-se ao primeiro, o menor para vir depois do maior dos escritores, dando por sucessor do advogado-rei o menor dos súbditos do dever profissional.

Mas, Senhores, direi com Castilho: “Vós sois a Academia e sem dúvida estais pedindo conta das suas obras.”

*  *  *

Foi a infância de Rui como todas as infâncias que se entreabrem e transcorrem nos lares felizes.
A sua educação, fruto de severa disciplina, deram-lha, esmerada e completa, os progenitores, presidindo-lhe toda a fase do curso preparatório, quer o de adaptação às disciplinas secundárias, quer o de adaptação às matérias superiores, o próprio pai, o Dr. João José Barbosa de Oliveira, humanista provecto, espírito nutrido de larga cultura, e “na província a maior cabeça da sua época, o orador mais perfeito, distinguindo-se, ao mesmo tempo, como um caráter de limpidez e inflexibilidade adamantinas” (são palavras do filho).

Forma a boa educação almas austeras e puras. E Rui poderia repetir o que confessara Marco Aurélio: “Meu pai ensinou-me a não ter nada de cobarde, nem de efeminado; minha mãe a evitar o pensamento do mal... a ser benfazejo, a preferir a verdade a tudo”; e ainda acrescentar: “amei as crianças e fui amigo das flores.”

Aos quinze anos concluíra, perfeitamente habilitado, o estudo das humanidades, não com a preparação vulgar do comum dos alunos, mas com a madureza capaz de dar-lhe autoridade magistral. Ele próprio o confirma:

“Estudante pertinaz e incansável, estava eu, em fins de 1864, aos meus quinze anos de idade, habilitado para a matrícula no Recife, com atestados como o do engenheiro Silva Pereira, grande matemático, rival outrora do primeiro Rio Branco nos bancos acadêmicos, que me declarara capaz de ‘ensinar matemáticas elementares’, e o de fr. Antônio da Virgem Maria Itaparica, sábio filósofo daqueles dias, que testificava achar-se o seu jovem discípulo em condições de ensinar ‘filosofia racional e moral’.”
Era a Bahia nessa época, e em todos os tempos, viveiro de inteligências aprimoradas e de estadistas de renome, centro de grandes mestres, tribuna da eloqüência, e região ubérrima de talentos predestinados; e nesse meio e nesse ambiente foi que madrugou aquela criança.
“Esse menino de cinco anos de idade”, atesta o velho professor Ibirapitanga, “é o maior talento que conheço em trinta anos de magistério; em quinze dias fez a análise gramatical, distinguiu as diferentes partes da oração e conjugou todos os verbos regulares.”

Causou isso assombro a mestres e condiscípulos. Estando ainda a cursar o Ginásio Baiano, dirigido pelo Dr. Abílio Borges, depois barão de Macaúbas, ensaiou os primeiros vôos tribunícios. Informa um dos seus biógrafos que “Contando apenas onze anos, por ocasião de uma festa literária ali realizada, pronunciou um discurso tão sentencioso e cheio de lindas imagens, que seu pai, radiante de alegria, inquiriu do diretor do colégio: – Você não colaborou neste discurso do Rui? – A mesma pergunta lhe ia eu fazer, retorquiu-lhe Macaúbas.

Presente à festa, Muniz Barreto pediu imediatamente a palavra, improvisando estas quadras:

Admira numa criança
O engenho, o critério, o tino
Que possui este menino
Para pensar e dizer.

Não, não me iludo na minha
Bem firmada profecia:
Um gigante da Bahia
Na tribuna ele há de ser.

Concluindo o curso, o barão declarou ao Dr. Barbosa: – “Seu filho nada mais tem a aprender comigo.”

Foi nessa fase inicial que se lhe despertaram os pendores para os estudos clássicos, hauridos nos ensinamentos paternos e dos primeiros mestres Fiúza, Ibirapitanga, Itaparica e Carneiro Ribeiro, nomes veneráveis.

Na mesma inclinação incitou-o ainda uma sociedade de estudos filológicos, então ali existente e da qual fazia parte. E assim, em boa companhia “se imbuiu desse classicismo, que lhe tornou admiráveis as orações, os artigos, as polêmicas” (palavras de um seu biógrafo).
Não deixou jamais de viver no trato dos clássicos, fazendo-se-lhe familiar a língua de Cícero, e penetrando já o halo luminoso e circundante do monumento que ao idioma legou o gênio de Vieira.
Não é, minhas Senhoras e Senhores, sem entranhada comoção, sentindo palpitar-me o amor de filho, neste momento que seria de tanto júbilo e glória para os entes dignos e bons que me trouxeram à vida, que eu vos recordo a gratidão filial que em Rui foi sentimento preponderante.
Em todos os instantes das suas maiores alegrias, ou quando sobre a cabeça do homem político se desencadeavam as descargas dos ódios e ultrajes, do seu amor filial era que fazia o sacrário, onde confiava que as amarguras e injustiças podiam dissipar-se, ou para nele depôr os estemas que lhe coroavam os triunfos.

“Vós, Senhor, me destes progenitores imaculados, que buscaram ensinar-me a não errar os vossos caminhos.”
Como se lhe derrama o suave da linguagem em toadas de harpa eólia, e se lhe desabotoa o sentir à flor dos lábios para envolver no perfume da ternura a imagem dos pais:
“Espírito supremo daquele que me ensinou a sentir o direito e querer a liberdade, espírito severo de meu pai; imagem da bondade e da pureza, carícia do céu na manhã de meus dias, espírito sideral de minha mãe... Vós, autores benignos do meu ser, vós sois a árvore dadivosa, cujos benefícios sobrevivem no reconhecimento, que não murcha.”

Mais tarde, em ímpeto dominador, respondendo a um julgamento iníquo, assim invoca a memória paterna:

Nasci, é verdade, na pobreza; e de tal me honro... Mas se disso me desvaneço, não é menor a honra, para mim, de ter sabido, com o suor de tantas agonias, transformar espinhos em frutos de bênção, fazendo do meu trabalho um manto de respeito para a memória de meu pai. E por isso bem é que a memória do pai venha trazer hoje o testemunho incorruptível dos mortos em favor do filho indignamente difamado.

E, de fato, a memória do pai ficou dignificada “na honra triunfante do filho”.
Embora clínico, e clínico que do labor médico fizera apostolado, na presciência de largos horizontes que se abririam ao futuro do filho, encaminhou-o o Dr. Barbosa para a Faculdade do Recife, na qual iniciou ele em 1866 o curso jurídico, tendo-se transferido em 68 para a de S. Paulo, onde se formou em 70.
Aí, a frase é dele, “o mundo acadêmico e o mundo político penetraram-se mutuamente”. Os seus companheiros de estudos; as vibrações das idéias liberais, que enchiam as cabeças daqueles moços, contra a repercussão dos atos emanados do trono; o golpe que, a pretexto da escolha senatorial de Inhomirim, fora desfechado contra o partido liberal, subindo ao poder o conservador, com o seu ministério chefiado por Itaboraí; a reação que lhe opuseram José Bonifácio, Nabuco de Araújo e Zacarias, este que não podia conformar-se com a iniqüidade da queda do gabinete a que presidia; a irradiação do liberalismo de Saldanha Marinho, na presidência da província – tudo formava ambiente propício para o surgimento do entusiasmo dos moços em prol da idéia democrática, e, especialmente, em favor da redenção da raça infeliz que sofria o guante do cativeiro. Rui, Américo de Campos, Luís Gama, Benedito Otoni, Bernardino Pamplona, Joaquim Nabuco, Ferreira de Meneses, Castro Alves (que geração!) eram o escol da mocidade em cujo peito ecoavam as apóstrofes de José Bonifácio, verberando no parlamento nacional os supostos golpes da coroa.

Foi nesse tempo, em 1869, e em meio assim preparado por sucessos emergentes e incidentes que, no jornal O Radical Paulistano e na loja maçônica A América, despontara jornalista e orador o discípulo que mestre já saíra do colégio do Barão de Macaúbas.

Enunciava o semanário acadêmico, de que fora ele o principal redator, o programa republicano em essência, pois que se embebera nos princípios democráticos. Na tribuna, “ali acidentalmente sob o rito maçônico”, se mostrara o moço, de vinte anos apenas, o precursor da lei relativa aos nascituros de mãe escrava, fincando destarte o primeiro marco da majestosa atuação que, meio século depois, se tornara objeto do culto cívico que celebramos sob aclamações nacionais e ruidosas.
Descerrava-se assim o gênio que na unidade integral do seu eu fora por excelência uma organização política. A unidade consubstancial, trabalhada por fascinações empolgantes, tresdobrou-se na obra imensa realizada pelo jornalista, pelo advogado e pelo orador.

E cheguemos, Senhores Acadêmicos, aos grandes clarões deste espírito que foi maior do que o seu tempo, e deste homem que, consoante as expansões que se lhe rebentaram da alma crivada de desgostos na sua já incurável descrença dos últimos anos, “atravessou uma vida inteira em quase perene combate com o seu meio”, empenhado “num ingrato duelo com o irrealizável”.

*  *  *
Pelo saber quase enciclopédico e mágico prestígio da palavra, pelos problemas de que se ocupou e eficiência que exerceu nos últimos tempos do Império e na República, foi sem contestação o primeiro dos periodistas, em cuja consciência, segundo o sentia, lavrava “o incêndio comunicativo da fé nos princípios, a paixão ignescente do ódio à tirania”. “Pelo temperamento reverencial de su’alma,” definia-se ele, “pelos hábitos metódicos do seu espírito, pelo pendor artístico do seu gosto, nunca foi senão um liberal de molde conservador, um amigo do progresso pela reforma, um incrédulo na eficácia das revoluções.”

Pregoeiro da ordem constitucional, não ocultava que o lábaro que devia acobertar as vivas comunicações do jornalista com a nacionalidade era a majestade semidivina da justiça.
“Todo o bem de que vive um povo civilizado”, sustentou, “se resume neste elemento de confiança que se chama justiça; e não há justiça sem imprensa. A publicidade é o princípio que preserva a justiça de corromper-se. Todo poder que se oculta, perverte-se.”

De ânimo mergulhado nesse credo, desenvolveu-se-lhe a trajetória jornalística numa ascensão de astro que, já assomando formoso e luzente, vai subindo às amplidões de mais intensa irradiação.
Das suas memoráveis campanhas, a primeira foi a do Diário da Bahia, no decênio de 70 a 80. Aí batalhou lutas ingentes pela vitória dos princípios fundamentais do partido liberal, a que se filiara, posto às vezes dele se divorciasse, sobretudo nos momentos em que, “rompendo-lhe o programa, esposava o federalismo como bandeira de ação e reforma imediata”.

Empenhou-se com ardor na defesa de todas as questões que encerravam as “aspirações gerais à liberdade e a democracia”. Da cruzada redentora foi campeão; campeão da eleição direta. Na questão religiosa declarou-se, diante do poder indissimulável do clero, adversário do ultramontanismo, tendo sido, todavia, segundo o seu próprio testemunho, “pelo direito dos prelados católicos ao livre exercício da autoridade espiritual contra o odioso e inepto regalismo da coroa”. Mereceu-lhe estudo especial a lei da conscrição. Imprimiu sempre aos seus editoriais notável força persuasiva e lançava-os com tal esmero artístico, que com a plena maturidade de mestre e estilo inscreveu na história do nosso periodismo aquele decênio de doutrinação liberal.

A segunda campanha foi a de 1889, no Diário de Notícias, cujo programa apontou a republicanizar a monarquia, a bem da sua conservação, porque nutria o vidente político a certeza de que “não há monarquia compatível com a liberdade, se não for essencialmente republicana”. A verdadeira fórmula, indicou-a ele, seria “praticar seriamente o governo parlamentar, e conceder à opinião nacional, inclinada nessa direção de 1831, a grande descentralização: a federalização das províncias, sob o regime parlamentar da monarquia”.

Sobre os troféus da idéia abolicionista soergueu a da federalização, a fim de, com esta, como afinal sucedeu, abismando-se o império atravessado no incidente da questão militar, concorrer para implantar a descentralização, que, na torrente dos acontecimentos, já não podia ficar sob a presidência parlamentar da monarquia, mas sob a direção presidencialista da União Federal. Foi das mais intensas a campanha do Diário, e bem a definiremos se a tomarmos pelo fator mais ostensivo e imediato da revolução de 89. A idéia republicana, com a vitória da abolição, ganhara indisputável terreno. Pugnar naquele momento, segundo o fizera o Diário, pelo pensamento descentralizador, seria aumentar a confusa orientação dos partidos que sustentavam o trono, facilitando que se viesse a concretizar a aspiração dos que combatiam a monarquia. E assim se deu. Quando estampou Rui Barbosa o seu célebre artigo Plano contra a Pátria, o qual na opinião de Benjamin Constant foi o impulso decisivo para a revolução, uma semana depois, na alvorada de 15 de novembro, tremulava vitoriosa a bandeira da República, sem embargo de nunca ter formulado em programa a solução republicana:

Nunca a advoguei: apontei-a à coroa, aos partidos e à nação, como perigo evitável, mediante a reforma federalista. E quando... se verificou tão depressa o meu prognóstico, aceitei o fato como resultado por todos os motivos irrevogável.

Aí tendes, Senhores Acadêmicos, o papel que coube ao vosso glorioso confrade no drama final do Segundo Reinado, perfeitamente idêntico ao que desempenhou Evaristo da Veiga, na terminação do primeiro; e, com ele, a afinidade evidente entre o patrono da grande Cadeira e o seu primeiro ocupante.
Vitoriosa a questão do fato político, não estavam contudo triunfantes os princípios. Feita a República, mais que nunca havia mister do trabalho de preparação. Recrudesceu, por isso, o esforço de Rui, em quem desapareceu o jornalista para surgir o organizador no ministro, no subchefe do governo revolucionário e no autor da Constituição, das leis orgânicas e da sábia lei que separou a Igreja do Estado.1
Em tudo atuou com liberalismo indefectível e larga visão, adquirindo prestígio incontrastável. É Benjamin Constant, o chefe militar, então de maior autoridade moral, quem declara: – “Acompanho cada vez com mais confiança o senhor Rui Barbosa, com quem prefiro errar a acertar com outros.”

Cai sobre a República nascente o golpe de estado de 1892. Floriano Peixoto encarna a reação e, conseqüentemente, o princípio de legalidade. Mas quando ao doutrinador pareceu que o marechal começava de praticar ilegalidades, rasgando as constituições estaduais com a de deposição dos governadores solidários com Deodoro, se insurgiu o nume tutelar da democracia contra o erro da legalidade. Sentiu Rui que a sua velha tribuna seria o posto de onde poderia “pugnar pela Constituição para restabelecê-la, restabelecer a Constituição para conservá-la”. E ei-lo à frente do Jornal do Brasil, em 1893.

Nova cruzada e nova vitória, concretizada no estabelecimento do poder constitucional, engrandecido na austeridade, na pureza e energia do eminentíssimo varão, que foi o primeiro governo civil da República.
Não houve na vida do jornalista a continuidade do tempo, mas a contigüidade dos princípios nunca foi interrompida. A par com a firmeza do esforço a conservação dos mesmos sentimentos. Notai que nele a pertinácia na defesa do liberalismo, da federação, do governo civil e da verdade constitucional se conservou inalterável em todos os tempos.

Em 1898, sob o sugestivo título A Imprensa, fundou a sua nova tribuna, e aí desenvolveu, com igual abnegação patriótica, mais uma das suas fainas de guerreador-profeta, penetrado sempre da fé nos princípios que se lhe antolhavam por úteis e convenientes à nação. Levanta, com prudência, no artigo “Projetos e esperanças”, a idéia do revisionismo. E idéia em que uma vez tivesse meditado para logo adquiria força capaz de resistir aos mais desenfreados choques adversos.
Daí a transformação do apóstolo no lutador, que com a mesma dedicação pleiteava as boas idéias, fortalecendo-as, ungindo-as e purificando-as no espírito da “regeneração, da verdade e da resistência”.
Ainda outra vez reviveu o Diário de Notícias, e de novo ficou assinalado na imprensa do país mais uma fase de evangelização e esplendor.

O civilismo, no seu aspecto de construção doutrinária contra as negações dos princípios fundamentais da democracia e liberdade, é, sem dúvida, a mais levantada e significativa das batalhas que se hão travado na vida política do país. A natureza dos elementos que se nele empenharam, dão a extensão da notável cruzada, na qual, como em nenhuma outra, participara o sentimento cívico do povo, excetuado talvez o momento histórico em que, esboçando-se já a consciência da nacionalidade, o amor nativo impôs ao General Avílez o embarque das suas tropas impertinentes, e outras coisas mais soube exigir em prol do advento da independência.

Duas temerosas forças, de quando em quando divorciadas para o infortúnio dos povos em formação, travando-se das suas armas – a palavra e a espada – procuram devorar-se, tendo ambas por árbitro a uma personalidade de influência ocasional e efêmera, como, entre nós, costuma ser toda força de índole política. O poder civil luta contra o poder militar, diante de um pretório, que impunha o prestígio soberano e irrecorrível das decisões eleitorais.

Três nomes de brasileiros ilustres, infelizmente já mergulhados na noite eterna, representam naquele instante as aspirações exaltadas dos elementos prosélitos militantes.
É cedo para o exame sereno dos processos e resultados que do conflito advieram para a regeneração dos nossos costumes. Todavia pode afirmar-se que com Rui estava a nação. Mas se este juízo que, conforme vedes, é contemporâneo, está sujeito a restrições, uma verdade permanecerá de pé, hoje, amanhã e sempre: naquela luta memorável, alteia-se, grandiosa e estupenda, a figura de um lutador com proporções descompassadas.

Debaixo de tempestades chamejantes, de ventos que bramem e de raios que, riscando a profundeza do espaço, estalam em descargas aterradoras, tendo no alto a natureza a tremer no furor dos elementos desencadeados, e ouvindo, em torno, o troar dos canhões, “os trovões de artilharia”, o metralhar das máquinas, o fuzilar das armas e o brandir das espadas – imaginai, Senhores, assim “nessa atmosfera eletrizada”, diante do espantoso desse bombardeio geral de céus e terra, um só homem a lutar, lutar sempre, lutar heroicamente, imperturbável, erecto, pequenino e imenso, cada vez mais abraçado à “onipotência incompressível” da sua palavra, que respondendo a tudo – tremebrilha, chispa e fagulha, lampeja, atroa e deflagra, fere, flagela e fulmina, – e aí tendes a Rui no civilismo.

“Um lutador não é um apóstolo”, sentenciou o mestre. “Exigir”, sustentou ele, referindo-se a Pombal, “exigir, nas condições de um destino tão excepcional, a benevolência filosófica de Voltaire casada a essa exuberância de energia; a esse temperamento de combate que caracteriza aquele extraordinário extirpador de abusos seculares, é converter em possibilidade o mais quimérico dos entes de razão. Um lutador não é um apóstolo.” (M. de Pombal, 39).

Toda obra de Rui, versasse assunto que versasse, é, no entanto, a afirmação de que na alma do homem que viveu a pregar a fé nas doutrinas, dela se não apartou nunca a do combatente que se coroava no sacrifício das realizações.

Não seria dado, portanto, desconhecer a missão apostólica do jornalista, que permaneceu sempre na fileira da vanguarda, de pena transformada em clava, e de onde só se recolhia abençoado dos hinos de triunfo.
Essa, Senhores Acadêmicos, a vida de Rui no jornalismo: “vida inteira de ação, peleja, ou apostolado.”

*  *  *

No tirocínio da profissão do advogado, que tanto ilustrou, divisa-se também e também se sente a rija fibra do combatente a palpitar nos monumentos de doutrinação jurídica, que lhe inscreveram o nome, insigne entre os maiores, nessa ordem onde fulgem Nabuco, Lafayette, Teixeira de Freitas, Carlos de Carvalho, Ouro Preto, José Higino, Clóvis, Carvalho de Mendonça, Eduardo Espínola, Mendes Pimentel, Alfredo Bernardes...

No profissional tendes ainda o lutador, ou, melhor, pressente-se a fascinação do político. Penetrai-lhe a multidão de pareceres, de razões, de petições, de habeas corpus e demais trabalhos forenses, e sentireis que o que aí mais vibra é o sentimento, a índole, a alma daquela atração irresistível, o que, contudo, não inibira o homem do direito de, no direito, perpetuar-se em maravilhas de sabedoria.
A desafiar os tempos – aí está a sua doutrina acerca do conceito extensivo do habeas corpus, que nenhuma legislação consagra e pratica com maior perfeição; aí correm os seus ensinamentos sobre o estado de sítio; aí tendes um tratado de matéria constitucional contido no Direito do Amazonas ao Acre Setentrional, nos Atos Inconstitucionais do Congresso e do Executivo, na Anistia Inversa, na interpretação do Art. 6.o; aí está a Posse dos direitos pessoais; aí se nos deparam os seus vastos estudos referentes às questões de limites; aí está, enfim, essa Constituição republicana, fruto das suas prédicas, do seu liberalismo e da sua cultura.

*  *  *

Aos primeiros albores da adolescência infiltrara-se-lhe na alma a paixão política, que havia de empolgá-lo por todo o transcurso da vida.

O seu espírito, que se formara nas idéias do constitucionalismo inglês e bebera na infância os princípios da veracidade e da independência, não se voltaria senão para a política com a influição soberana do seu contato; para a política que disciplina, dirige, vigora e felicita povos; institui ao governo normas sábias, retas, prudentes e benéficas; ampara e assegura a administração incontaminada e incorruptível da justiça; da política que encaminha e equilibra os Estados, evitando-lhes os antagonismos.

“Meu pai”, escreveu ele, “meu pai que era um liberal de educação política essencialmente inglesa, imprimiu as suas simpatias na trama do meu tecido moral... Destarte me aparelhava para a política... Educado nessa escola de sinceridade moral e liberdade constitucional... entrei em cheio na vida pública, levando a ela no meu seio, como base de tudo, a persuasão de que os princípios eram verdades, as ligações políticas obrigações, as idéias deveres, os programas pactos de honra, e de que na palavra humana, empregada no serviço do bem, reside uma força irresistível, em sendo perseverante e desinteressada.”

Atentai nessa sua persuasão de que na palavra humana reside força irresistível.
É que com ele nasceu essa faculdade, o maior dos seus dons, a qual ao calor daquela paixão se sublimara a ponto de chegar a ser o que foi: o mais alto poder de expressão, entremesclado às maravilhas de eloqüência quase sobre-humana.

Conjugadas a fascinação política e a virtude da palavra, formaram ambas o homem público que, consagrando-se ao labor das grandes construções, criou para o seu país a escola política do liberalismo e da verdade; da intransigência diante do erro; da reação contra a prepotência, contra a dissimulação, contra a fraqueza; a escola do respeito, da polidez e da competência; a da construção da ordem civil e da eficiência do direito como veículo das grandes conquistas; a escola, em suma, da política que transpôs as fronteiras continentais e internacionais para, penetrando o contubérnio das nações, doutrinar e vencer em Haia, evangelizar em Buenos Aires, fazer febricitar de comoção a alma da Bélgica, pesar nas grandes decisões da Conferência da Paz, e tornar mais fortes os laços da solidariedade que nos une às gloriosas irmãs sul-americanas, ou sejam os nossos queridos amigos paraguaios, uruguaios, argentinos e chilenos, ou sejam as dignas nações do Equador, Bolívia, Venezuela, Colômbia e Peru.
Vencer em Haia! Bastaria esse feito, que enche um século; bastaria que daquele “comício imenso”, onde se congregaram quarenta e duas sumidades mundiais, tivesse Rui Barbosa saído aureolado com a vitória moral do princípio da igualdade soberana das nações, para envolver-se-lhe o nome na imortalidade!

Escutai-lhe o depoimento do que para o mundo e, especialmente, para América, significou a grandiosa conquista da sua consciência jurídica:

Da resistência do Brasil com a unanimidade do apoio das nações americanas resultou o advento da América triunfante nas serenas regiões do direito. Tal, na sua síntese evidente, a lição do drama de Haia, que a intuição das suas testemunhas mais diretas imediatamente classificou, sem contestadores, como o novo descobrimento político, a relevação do peso deste grande fator, até então desconhecido, na vida internacional.

Que brasileiro já houve que fizesse tanto? Quem possuiu jamais tamanho prestígio, ação mais radiante e maior benemerência?
Serei enfático? Perdoai-me.
Estarei de olhos turvos, no altar da minha admiração por esse compatriota?

O deslumbramento é o que me causa a sua altura. E não é estranho que a intensidade da luz turve a vista e deslumbre o olhar, reduzindo ou ampliando as proporções objetivas. Dir-vos-ei, no entanto, se é que a minha visão vacila, que não só a mim é que porventura a névoa encobre ou a luminosidade ofusca.
Toda a nação brasileira, ou quase toda, nunca deixou de seguir, aplaudir, endeusar esse filho, essa vida, esse apóstolo, com extraordinárias expansões de admiração e respeito. Não há ênfase em referir-vos que ninguém nesta terra recebeu ovações iguais nem alvo foi de tantas e tão entusiásticas glorificações populares. Nem mesmo os grandes cabos de guerra que, trazendo ao peito distinções marciais, conduziram por entre hinos de vitória a bandeira da nação, receberam mais altas honras, consagrações públicas mais solenes e apoteoses mais soberbas.

E eram-lhe assaz compensadoras essas efusões do sentimento cívico nacional.
Um dia visitei-o em Petrópolis. Acolheu-me com a bondade de sempre, e, como se nada lhe tivesse acontecido, com a serenidade que transparecia do profundo do seu olhar, disse-me: – “O Presidente da República acaba de decretar a intervenção federal na Bahia, a fim de manter o governador. Aí está a solução da campanha de patriotismo e libertação em que me envolvi. Vou endereçar ao chefe de Estado esta carta, que lhe passo a ler.”

Ouvi a leitura da vibrante contestação ao ato presidencial, e ainda uma vez tive a visão da alteza de tão privilegiado espírito, e espírito de energia tão inflexível. Ousei dirigir-lhe palavras referentes à impressão produzida na opinião pública pela formidável cruzada política. “Educa-nos todos os dias V. Ex. na verdadeira escola da democracia”, afirmei-lhe eu. “Sim, meu amigo, respondeu-me, tenho certeza de que o poder entre nós é detestado, mas a oposição é estéril. Isso, contudo, não me derriba o ânimo, porque sinto que o povo me ouve no interesse porque essa nacionalidade não se arruíne pela desunião, pela descrença e pela injustiça, e tudo já o disse por escrito.”

Sim, sabemos todos que toda vez que ele falava da tribuna popular, orando ao povo “rosto a rosto”, tinha a certeza de que a influição comunicativa do seu verbo ungia, corrigia e convencia a consciência das multidões.

“Em torno do homem que fala aos seus concidadãos”, dizia-o ele, “as multidões engrossam como os mares ao redor do veleiro, que, de crista em crista, se vai agüentando nas águas agitadas. A eloqüência aí é a da concisão das vozes de manobra entre os assovios do vento, ou a dos clarões do farol entre os cabeços dos abrolhos.”

Li, em boa fonte, Senhores, que a persistência do direito contra a obstinação da lei é a origem dos males sociais. A constante desarmonia entre o princípio e a aplicação gera as perturbações e as lutas.
Em regra, a lei não traduz o direito: desvirtua-o. A lei, é certo, “decorre do direito”, mas vede que “a lei procede do direito” “como o rio da sua origem”, recurvado em várias direções e “apanhando as impurezas das margens”. É que por homens elaborada, a lei terá necessariamente as imperfeições da falibilidade humana.

Alta expressão do direito é a liberdade; no entanto a lei que a traduz é, não raras vezes, a da proscrição, ou a do jugo sob qualquer das suas formas.
Mais alta expressão ainda da ordem jurídica é a inviolabilidade da vida, mas a lei criou a guilhotina e, não raro, de outro aspecto, abre as portas das penitenciárias para a evasão dos matadores.
A ordem pública, além de condição, é expressão do direito, mas a lei se detém diante do problema da intervenção do poder central na vida dos Estados, de modo que a própria intervenção sirva de meio, ou pretexto de perturbar a ordem.

Escreveu Victor Hugo que lhe impunha a consciência, nas suas funções de legislador, a confrontação permanente e perpétua da lei que os homens fazem com a lei que faz os homens.
A vida de Rui exauriu-se nesse esforço de pregar a expressão veraz do direito na fidelidade incorruptível da lei; e no alto de todas as tribunas que iluminou, o pensamento que o guiara fora sempre o Pro jure contra legem.

Essa, Senhores, a flâmula do orador miraculoso que agitou e dirigiu seus concidadãos; profligou a desvirtuação da verdade; incentivou aspirações e fortaleceu ânimos; amparou os fracos, animou a infância; flagelou costumes, adversou impatriotas, enfrentou potentados, defendeu adversários; derrocou situações, e levantou o sentimento brasileiro até os hinos ao patriotismo, à democracia, à crença e à beleza; orador em quem a fecundidade e imaginação, unidas ao ardor das paixões e à magnitude da coragem cívica, davam a impressão de que o seu gênio, no dizer de Plutarco, nem era de homem nem de Deus, mas participava de uma e outra natureza; orador que a tal eminência subiu que, quando falava na rua de São Clemente, a sua palavra era ouvida em Berlim, Londres e Paris, e por toda parte onde pudessem ser escutados os ecos dos grandes pensamentos.

Sem embargo das negações dos dissidentes, pois Rui os teve, díscolos por temperamento, partidarismo, ou porque lhe não conhecessem a obra, (e cumpre dizer que não menos do que a injustiça assim também a prevenção irreverente se extremaram), ser-me-á lícito escrever esta verdade: maior orador do que ele não possuiu o Brasil.

As suas proporções, pelas pompas da eloqüência e elevação do pensamento, tornaram certo que, maior do que o orador parlamentar só o orador acadêmico; maior do que o orador da tribuna judiciária, só o orador das candidaturas presidenciais; maior que o orador de Haia, só o orador de Buenos Aires.
À semelhança de Cícero, foi Rui tribuno, jurisconsulto e gramático; escritor e analista como Tácito; homem de estado e orador como Demóstenes.

Eu não me animaria a inculcar-vos que o varão brasileiro, o seu estilo quase sobrenatural, se mostrara maior do que Tácito e, no Senado da República, a sua figura ultrapassasse a do príncipe dos oradores romanos, nem transcendesse os “ecos da palavra demostênica”.

Mas, Senhores Acadêmicos, se as tradições de um passado tão distante, confrontadas com as opulências da cultura contemporânea, podem ensejar, sem despropósitos, comparações que nos honram, eu vos recordaria que a plasticidade da eloqüência do grande Rui se retratou em formas que, sublimando-lhe o verbo, o fizeram rival de Demóstenes, mais rico do que Tácito e, pela força da idéia, de ação mais penetrante na consciência coletiva do que Cícero.

Não desertareis a observação de que o seu estilo teve a magnificência e concisão do orador grego, “que falava à razão de preferência às paixões, com gravidade, sem afetação, austero e meditativo”; possuiu a eloqüência serena da verdade, a doçura da harmonia, a beleza da simplicidade do estilo de Tácito; e revestiu-se das modalidades invectivas das catilinárias, sem a exclusão do perluxo, à feição do de Cícero.

Se se buscasse em Tácito o retrato que traçou da palavra de Cícero, oratória que se lhe afigura edifício de arquitetura grosseira, de paredes sólidas e duráveis, mas sem brilho nem polimento, e tribuno que do seu jus verrinum e do eterno esse videatur, nos seus discursos, só de três em três frases é que dava lugar a um pensamento, sentiríeis que não aventurei apenas simples voto pessoal para engrandecer na hipérbole a figura formidável do civilismo. Todavia, não deixará de haver quem descubra na vida e obra do Cícero brasileiro aquilo que admiravelmente salienta Boissier na obra e vida do acusador de Catilina: certa insaciável vaidade, certa mobilidade de impressões, certa facilidade a deixar-se prender e dominar pelos acontecimentos, e ainda aquela maravilhosa faculdade de fazer-se o espectador do que ele próprio referia e narrava.

O copioso desenvolvimento que costumava dar às orações fruto era do seu saber vastíssimo, enriquecido da aptidão de levar a análise até aos excessos do meticuloso.
Procurava o bem, o mal e o belo na alma das coisas e dos fatos para, louvando, ferindo ou cantando, abraçar-se ao ideal, que ele dizia se não define, mas “se enxerga por clareiras que dão para o infinito: o amor abnegado; a fé cristã; o sacrifício pelos interesses superiores da humanidade; a compreensão da vida no plano divino da virtude; tudo que alheia o homem da própria individualidade, e o eleva, o multiplica, o agiganta, por uma contemplação pura, uma resolução heróica, ou uma aspiração sublime”.
O mesmo doutrinador que discursava durante horas seguidas, – duas, quatro e, às vezes, mais, em dias sucessivos, – possuía o condão da síntese capaz de resumir numa frase uma doutrina, numa apóstrofe um julgamento, um programa numa sentença e numa palavra uma individualidade. Numa só imagem encerrava páginas de psicologia. Vede O estoiro da boiada; vede o Caranguejeiro; O perdigueiro e o Tatuaçu; vede o Chantecler dos potreiros; As aves palreiras e guinchantes; vede a Múmia de Sesóstris; A couve e o carvalho ...

Nesses quadros, debuxos e epigramas, lançados e pintados através de uma burilada, com as farpas da ironia e estiletes cruéis, não se livrou aquela palavra de mergulhar no fel das paixões para mostrar que, entre sublime e divina, não deixava de ser humana.

Nem era de esperar que disso se apartasse um homem que viveu meio século a lutar e sofrer, vencer e ser vencido, dizendo verdades e semeando idéias, com a vigilância do “piloto que mostra os escolhos”.
Pouco menos de dois anos antes que se lhe apagasse a vida, a sua consciência elevara-se à nobreza destas palavras:

Ainda hoje estou na persuasão de que, em geral, fui justo. Pelo menos, sempre trabalhei pelo ser. Mas, onde quer que, contra a vontade, me tenha sucedido a desgraça de pecar contra as maiores de todas as leis, as leis da justiça, e da caridade bem entendidas, perdoem-me os agravados, como Deus me perdoará! Não pequei de propósito: terei pecado por erro, ignorância, ocasião, falibilidade incurável dos juízos humanos. Devo confessar, e confesso que, verdadeiro sempre quanto aos fatos..., nem sempre no apreciar dos indivíduos consegui acertar.

Ainda, em colóquio, de suavíssima ressonância ática com os moços de S. Paulo, abrindo-lhes, num ato de fé, o livro da sua vida, reafirmou a sinceridade dos seus sentimentos:

Deus me é testemunha de que tudo tenho perdoado... Assim me perdoem, também, os a quem tenho agravado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante, maligno ou descaridoso.

Aí está o exemplo edificante de uma velhice excelsa, envolvida nas siderações da verdade, mas amadurecida no fragor das lutas, a mostrar à mocidade o caminho da mansuetude e do perdão.
Nas vibrações da sua palavra – e assim na oratória de todos os grandes tribunos – esfusiava a ironia, a destilar-se em trocadilhos e paronomásias. Ironia fina e sutil, amarga e penetrante, mas respeitosa e polida. Nunca resvalou a insulto, ainda nos momentos em que, defrontando inimigos e detratores, sentia mister de responder a eles no tom explosivo em que Catulo, o satírico, revidara ao advogado que, em pleno debate, lhe inquirira “porque ele, quando discursava, ladrava tão alto”,2 ou ainda quando, ao calor das grandes causas, a palavra lhe saía, consoante o mostrara, “rechinando, esbraseando, chispando como o metal candente dos seios da fornalha”.

Na do orador alvorejou em 1869 a alma do abolicionista. Aos vinte anos, realizou a sua primeira defesa do escravo contra o senhor. Em 1871 estreou-se na tribuna judiciária; em 74, ainda na tribuna popular, em favor da eleição direta, assunto de que aos vinte e cinco anos já se preocupava. Em 76 é o conferencista a propugnar a liberdade religiosa; no ano seguinte, a sua eloqüência literária derrama-se sobre a memória de Alexandre Herculano. O orador parlamentar surge em 78, no Legislativo Baiano, em prol da liberdade comercial e, no ano imediato, no parlamento nacional, respondendo triunfalmente a Silveira Martins.3

Sem a pretensão de com acerto distinguir, não me furto, todavia, ao impulso de uma referência, na qual se nos mostra o titão a escalar, em maravilhosa ascensão, os cimos até aonde parece ser capaz de chegar o humano poder da eloqüência.

Aí tendes, entre o Discurso de 79, em resposta a Silveira Martins, e a Oração de Buenos Aires, por traços mais luminosos da trajetória do orador:
– Discurso, no Teatro S. João, na Bahia, resposta a Manuel Vitorino;
– Conferências abolicionistas, ali proferidas em 24 e 26 de maio de 1897;
– Elogios de Castro Alves, Pombal, José Bonifácio e Osvaldo Cruz;
– Discurso, no Senado, à porfia com o deputado Zama, modelo de réplica parlamentar;
– Orações de paraninfo em Friburgo e São Paulo;
–  Discurso, no banquete do Jornal do Commercio;
–  Discurso a Machado de Assis;
–  Discurso no Instituto dos Advogados;
–  Conferência, no Liceu de Artes e Ofícios;
–  Orações, no Supremo Tribunal, contra o bombardeio na Bahia e as de habeas corpus em favor do cônego Galrão, e do doutor Aurélio Viana;
–  Fala às andorinhas de Campinas;
–  Conferências da cruzada civilista;
–  Orações, na campanha eleitoral da Bahia.

Os discursos parlamentares, de que servem de modelo os que constituem o livro Finanças e política, são talvez hoje inumeráveis.
Sentindo com verdade a eloqüência de que fora encarnação, ninguém melhor do que ele poderia traduzir o que ela é:

É o privilégio divino da palavra na sua expressão mais fina, mais natural, mais bela. É a evidência alada, a inspiração resplandecente, a convicção eletrizada, a verdade em erupção, em cachoeira ou em oceano, com as transparências da onda, as surpresas do vento, os reflexos do céu, os descortinos do horizonte.

Neste trecho retrata-se: esta eloqüência é o orador, orador que, pela irradiante influição artística, e força oracular da linguagem, era, de plano, e à semelhança de Cícero, no dizer de Fernando de Azevedo, primoroso escritor, um vulto “que tinha as grandes dimensões para o Capitólio”.

*  *  *

As qualidades que lhe enriqueciam a linguagem falada, por maneira tal se ajustam às da língua escrita, que, em se pintando assim na eloqüência, ressurge, ao mesmo tempo e nas mesmas linhas, perfeito e completo, o escritor, com aquele privilégio divino da palavra no estilista hierático, inimitável e soberbo.
A sua linguagem é gama surpreendente dos segredos e riquezas idiomáticas, mimo de elocução culta, polida, abundante e clara; exemplar na correção, copiosíssima no vocabulário; fluente e harmoniosa, cheia de aticismo e plasticidade estética.
Na gradação da luz, que ora é claridade branda e suave; ora, clarão, ou fusil de relâmpago, ofuscante e rápido; ora esplendor, que é luz em plenitude, o seu estilo dotado destas tonalidades radiantes, reflete-lhe as tempestades da vida, o ímpeto das paixões, as quimeras dos sonhos; eleva-se às regiões ideais do belo, envolve-se nas cintilações, brilha, auriluz, e extravasa-se na expressão da sua facúndia arrebatadora.

Tomai, Senhores, as proporções inauditas deste homem, nas múltiplas formas em que se lhe subdividiu a atividade.
Custa a crer que atrás do jornalista que tão largo tempo passou a doutrinar; do batalhador político de tão flagelante e eficiente ação; do parlamentar envolvido em pugnas incessantes; do advogado e jurisconsulto de cujas luzes se não prescindia nos litígios importantes; custa a crer que, atrás de tantas personificações, ainda houvesse lugar e tempo para o escritor, que se não improvisa, mas se faz à custa de vigílias estafantes, áridas investigações e pesados estudos.
E se vos detiverdes no admirável do fato, tereis ainda por detrás do prosador o poligloto e o filólogo, precedidos do gramático.

E não vos surpreenda que lhe chame nome tão suspeito, como, entre nós, é este último.
Prazer ou malícia é fulminar censuras, em fórmulas de sucinta proscrição, a toda a classe dos estudiosos, em regra modestos e simples, que se consagram ao estudo da sistematização dos fatos lingüísticos.
Aos gramáticos costumam reconhecer o papel de guardas impertinentes das complicações do idioma, ainda àqueles que lhe têm dado o cabedal dos seus conhecimentos. É opinião preponderante que são eles quem criam e inventam as dificuldades.

Ora, direis que isso parece um paradoxo de insciência, ou, pelo menos, mau sintoma de obstinação contra o aprendizado essencial da língua, que nenhuma existe sem ter os seus fenômenos e fatos estabelecidos e regulados.

Certo é, porém, que os que nutrem horror aos gramáticos são os que justamente não amam a gramática e, na persuasão de que logram passar sem ela, tanto se lhes dá o escreverem segundo os cânones sintáticos, como o escreverem com desatenções, indiferentes aos solecismos, às impurezas vocabulares e de ouvidos moucos às formas exatas que rutilam a beleza das idéias.
Afirma-se, e é verdade, que a gramática não cria a língua, não tece a linguagem; nem faz o estilo. A língua preexistiu à gramática. Mas, no evolver dos acontecimentos, coube-lhe o papel disciplinador e o ser fonte imprescindível onde primeiro vamos aprender como deve ser praticado o idioma, consoante ao gênio tradicional e à legitimidade da construção, que não deve ficar no livre alvedrio dos fantasistas descuidosos.

Também é verdade que os agrupamentos humanos preexistiram à legislação escrita. Onde, porém, encontrareis grupos de homens social e politicamente organizados, vivendo sem submissão às leis e obediência aos códigos?

Num país, à semelhança do Brasil, onde a cultura filológica se patenteia assaz desenvolvida, não há cabimento para o desapreço iníquo em que são tidos aqueles que, se o quiserem, podem rir-se dos escritores que menosprezam a sua língua.

Infelizmente não sou gramático, nem filólogo sou, e, talvez com razão, e por castigo de o não ser, se me inclua no rol dos últimos. Como quer que seja, sinto o amor do idioma e, por isso, não me é dado deixar de ter para com os seus mestres, os seus paladinos, os seus gramáticos, acatamento e veneração.
Quando vejo que em minha terra é que à língua portuguesa se deparou o maior dos seus escritores, aquele que lhe simboliza o gênio, avulta a minha admiração pelo brasileiro que, já sendo em tudo o maior, chegou ao ponto de condensar um idioma, comum a dois povos tão distanciados pelo espaço quão amigos pelos laços étnicos e pelo coração.

De mim afasto a faculdade de um juízo pessoal, e entrego a missão de sentenciar a quem de direito, a um dos gramáticos primazes, educador emérito e prosador de escol, o professor Carneiro:

Não nos lembra escritor algum, excetuados o padre Antônio Vieira e o fecundo Antônio Feliciano de Castilho, em alguns de seus passos, que escreva e fale com a propriedade com que se exprime este exímio escritor.
Não somente em virtude deste já excepcional predicado, aí acentuado, ascendeu Rui à culminância a que chegou nas letras portuguesas, de aquém e além-mar.

Na exuberância do vocabulário, e no opulentar o léxico com a faculdade inventiva de vozes, dificilmente se lhe apontará outro igual. No farto da sinonímia, luxuriante e donosa, é prosador sem rival. Lede a Esfola da Calúnia, o panegírico de Osvaldo Cruz e os seus editoriais de imprensa, por amostras.
As expressões jorram-lhe sem artifício e têm o cunho autenticamente clássico. Se, às vezes, as repassa o sabor arcaico, dir-se-á que antes é para as impregnar “desse aroma de antiguidade, une certaine fleur d’antiquité, que do hábil emprego das boas locuções antigas se desprende”, segundo ele declarava.
Para Rui o arcaísmo “é um dos segredos da graça e força nos escritores de grande raça, nos estilistas de escola, nos renovadores do gosto literário, nos criadores de obras d’arte duradoiras”.
Não empregava a palavra antiga pelo simples desejo de ostentar estilo clássico, que, no caso, rebuscado e artificioso, não sairia de pena feita e refeita na segurança da vernaculidade.
“Não convertamos em espantalho o nome de arcaísmo”, aconselhava ele. “Todas as gerações assistem ao reabrir de palavra antiquadas, que outra vez, ao influxo de novos tempos, rebentam de seu, espontâneas e belas, sob a pena dos escritores do bom gosto.”

Aliás o emprego do arcaísmo foi de todos os tempos e entre bons escritores. Já os contemporâneos de Salústio lhe exprobravam o hábito sistemático e abusivo do giro da frase antiga e de locuções inusitadas em Roma. Cícero não lhe perdoava a ele a maneira de Lucrécio e a mania de imitar a Catão, o antigo.
Em França de tanto arcaísmo usam ilustres escritores que acabam tendo a linguagem “parasitária, sem graça, sem sabor e sem beleza”.

A exemplo de Vieira, teve Rui a predileção das antíteses para engrandecer a frase e o prazer das repetições para realçar o estilo. É notável, pela superabundância, a adjetivação do delicioso autor das Cartas de Inglaterra. Onde é que Boileau foi descobrir que basta enunciar simplesmente as coisas para as fazer admirar?
É possível que assim seja no idioma francês, língua de índole e construção diversas do português, onde, pelo contrário, o adjetivo exerce função importante, qual a de vigorar a frase, em não sendo inexpressivo, mal ajustado, trivial e impróprio.

Eliminai, por exemplo, da descrição profundamente comovedora do suplício de Dreyfus, no momento em que se passa a cena da degradação militar, aqueles adjetivos, que ali palpitam e tanto avultam a cruel solenidade, e sentireis que o artista soube daqueles epítetos fazer notas vibrantes na harmonia descritiva do episódio trágico, que até nós chegaria descorado, se ali eles não estivessem a pôr em relevo, no grandioso horrível da cerimônia, o horrível pomposo do sofrimento
Mas na língua francesa, como na portuguesa, o adjetivo imprime ao estilo graça, exuberância e força. Aí está Chateaubriand, cuja pena é modelar, e que foi um dos reis do adjetivo, como lhe chamaram; tendes a Lamartine, Victor Hugo e Renan para confirmarem esta observação de um crítico francês: “Os adjetivos são as mais ricas e numerosas palavras da nossa língua. Oferecem recursos infinitos. Representam valores e dão vida às demais palavras.”

Possui mais Rui Barbosa inigualável poder descritivo, manifestado eloqüentemente na associação das vozes e nos segredos do uso verbal.
Reatentai no vigor desta descrição:

Calmaria ainda não vi igual. Não sopra o vento; não gemem as vagas; não murmuram os rios; não cantam as fontes; não ramalham as árvores; não ondeiam as messes; não acenam as flores; não bolem as folhas; não trinam as aves; não zumbem os insetos; não avoejam as borboletas; não se move o ar; a luz não oscila; não se mexem as sombras; a vela não se enfuna; o lago não se increspa; o homem não respira: como que não vive a natureza.

Observou alguém que foi Bossuet quem fez ressaltar, na índole do estilo, a importância dos verbos, máxime dos verbos criados, “que são os que surpreendem pela novidade, pela imagem, pelo sentido e aplicação imprevista”.

Dentro das mais rigorosas normas da derivação vernácula dotou Rui o dicionário brasileiro não só de muitos verbos expressivos e enérgicos, senão ainda de outros inumeráveis vocábulos significativos, formosíssimos e irrecusáveis.4

Pode dizer-se que o estilista matinou já de posse dos singulares cabedais que lhe adornam o escrever.
Se se pretendesse, entretanto, assinalar-lhe a fase em que atingiu mais vigor, correção e excelência, no grau de quase perfeição que é o do escritor sem erros, – não se iludiria quem olhasse as Cartas de Inglaterra como a primeira na série das suas mais acabadas produções. E se não estivesse longe de mim a intenção de fatigar-vos, fácil seria ordenar outras e outras escritas com os primores da língua, desde os pareceres acerca do ensino até os volumes da Queda do Império.

Dir-vos-ei contudo que, se entre as suas produções esparsas e menores, merece distinguida, por modelo de lídima vernaculidade, a Oração aos Moços, na Faculdade de São Paulo, entre os seus livros é a Réplica às Defesas da Redação do Projeto de Código Civil aquele em que o prosador está sobranceiro na plenitude dos seus dons e méritos literários.

Gramática das gramáticas, porque vale por todas, a Réplica é tesouro de riquezas idiomáticas, que as obras congenêres mais consagradas na língua portuguesa não igualam.
É livro-evangelho, na filologia; livro-padrão, na linguagem; livro de oiro, no estilo, e monumento dos monumentos nas letras brasileiras.

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Minhas Senhoras e Senhores:
O panegírico do Sr. Conselheiro Rui Barbosa, à altura do seu verdadeiro e extraordinário merecimento, excede os limites desta solenidade.

Aí tendes, Senhores Acadêmicos, o que dentro neles pude condensar.
Quisestes que eu fosse o ocupante da sua Cadeira e aqui estou para ter a honra insigne de, recebido pela voz amiga, eloqüente e magistral do eminente Sr. Aloísio de Castro, nela tomar assento e ficar no vosso luminoso convívio.
Serei o último dentre vós, não importa; serei o último, mas com a sinceridade do crente que se posta diante do seu ídolo.

E ídolo foi ele, sem rivais, de todos os homens de letras que, admirando-lhe a correção, a pureza, a resplandescência e contextura deslumbrante da frase, as excelências da linguagem e os lavores requintados do estilo, o proclamaram o artista supremo do idioma pátrio.
Objeto ainda do mais entranhado afeto, também o foi do sentimento nacional, que chegou a extremá-lo do resto dos mortais, numa apoteose, da qual já, em vida, o ia arrebatando a própria imortalidade.
E ele subiu, subiu e deixou-nos, para elevar-se até àquela estátua mitológica, banhada na transparência das lágrimas da Aurora.

Mas, assim como, nas primeiras alvas do despontar do dia, derrama a Aurora o orvalho, para nos raios do sol nascente banhar a estátua de seu filho Memnón, assim a Pátria Brasileira, inconfortada e triste, não deixará nunca de envolver nas lágrimas da sua dor o nome de Rui, que é o seu orgulho e a sua glória.

E para que dele e não de mim vos fique a impressão última, que suavize a monotonia deste discurso, aspirai, por momentos, o aroma que, em volutas de sublime louvor, se lhe desprende da pena, ao cinzelar a personalidade de Carlyle, dando-nos, talhada em alto relevo, a própria índole do seu gênio e obra, oraculares e maravilhosamente grandes:

A sua inflexível sinceridade, o íngreme dos seus contrastes, o bravio das imagens que lhe povoam o estilo, a luta contínua da sua originalidade com os preconceitos e convenções sociais, o seu entusiasmo pelas expressões heróicas da individualidade humana, o fragor das suas apóstrofes, as mutações indefiníveis do seu humorismo, melancólico e ridente, austero e escarninho, eloqüente e brutal, a própria monotonia de certas correntes do seu pensamento iterativas e periódicas como certos ventos em certos quadrantes do céu, dão a lembrar um panorama de penhascos escalvados à borda das águas azuis, com o cristal das ondas franjando-se em espuma branca, a marulhada rebramindo contra os promontórios silenciosos, o vôo solitário das aves marinhas, e por cima, nas tréguas da procela, quando as faíscas não esfusiam pelas arestas atrevidas, a eterna calma do firmamento, a força, o conflito, a pureza, a eloqüência, a imortalidade.