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Aquino Correia, Dom

TERRA NATAL
De Terra natal (1920)

Em frente, ao rio, envolta nas miragens
do orvalho que de pérolas a irrora,
aos arrebóis da sertaneja aurora,
assoma a capelinha entre as ramagens.

Sobre nuvens de pétalas selvagens,
Orago virginal, Nossa Senhora
da Penha lá sorri, a protetora
dos que partiram para as longas viagens.

E enquanto, lá por fora, as enxurradas
de fevereiro roncam, empoladas,
os bandeirantes dobram o joelho,

e adoram em silêncio a Hóstia santa,
que ali, à vez primeira, se levanta
nos braços de Jerônimo Botelho.

 

AO BRASÃO D’ARMAS

Brasão de minha terra! tu que ostentas
O ouro do pátrio solo abençoado,
O verdor destas matas opulentas,
E destes campos onde brilha o gado!

Tu, que, no azul do céu, nos representas
Esse pendão do bandeirante ousado,
Relembrando as monções sanguinolentas,
E os heróis que nos bordam o passado!

Tu, que nos falas de um ideal infindo,
No surto dessa fênix estupenda,
Brasão de minha terra! Como és lindo!

E como é lindo e nobre, o imorredouro
verbo da tua fúlgida lenda:
“Confiemos na virtude, mais que no ouro!”

 

OS SINOS

“Sinos de minha terra! Grandes sinos,
Cujo timbre de bronze e de veludo
Estremece estes ares cristalinos,
Sinos da velha Sé, eu vos saúdo!

Quando aos reclamos do passado acudo,
Desde os tempos da infância matutinos,
Percebo a vossa ressonância em tudo,
Da minha vida entre os mais belos hinos,

Aonde quer que eu vá, na alma exilada,
Vós me ressoais, tal como a voz convulsa
Do mar distante, em concha abandonada.

É que na vossa voz doce e plangente.
Voz de hoje, voz de outrora, vive, pulsa
E canta o coração da minha gente!”

Nova et vetera (1947)

 

AO DIVINO MESTRE

Mestre! que na visão poética dos muros
Da tua velha pátria, ainda me sorris,
Por entre o louro mar dos seus trigais maduros,
E das comas em flor de crianças gentis;

Tu que amavas ouvir essas harpas estranhas,
Que, em horas de soidão, vibra o mar galileu,
E fizeste da grimpa excelsa das montanhas,
A tribuna, em que o sol do Evangelho esplendeu;

Tu que oravas na paz dos mornos olivedos
Dormentes ao luar do teu céu oriental,
E cismavas a sós, pelos desertos quedos,
Entre as aves do azul e a açucena do val;

Tu que enchias de luz as almas desoladas
Dos lázaros, das mães, dos filhinhos sem pai,
E passaste cantando ao longo das estradas,
Este doce estribilho: amai! amai! amai!

Perdoa-me, Ó Rabi, se talvez indiscreta,
Soe nesta hora a voz do bardo sonhador;
Mas dize-me: não foste o sagrado Poeta,
Que nos trouxe do céu a poesia do amor?

Pairava, como um caos, sobre o mundo a sombria
Vaidade da filáucia e do orgulho fatal;
Sobre a face do abismo, as asas sacudia,
Agoureiras, o torvo espírito do mal!

Então foi que disseste aos homens: Entreamai-vos!
Qual Jeová dissera outrora: Seja a luz!
E a terra, inda a mostrar, de sangue e treva os laivos,
Na aurora do teu verbo, iluminou-se a flux!

O Pindo emudeceu! E o amor que então gemia,
Na lira dos galãs de Sulmona e de Teos,
Entoou no teu lábio, essa imensa harmonia,
Que vai da alma do hilota, ao infinito Deus!

Divinizaste o amor! Mas não lhe deste a rosa
De Chipre, nem a voz das eólias canções;
Não lhe deste por mãe, a Vênus fabulosa,
Nem por vida, o que vive a flor das ilusões.

Deste-lhe por ideal o Infinito, e o puseste,
Peregrino do azul, sobre esta terra vil;
Deste-lhe para o canto, um saltério celeste;
Uma virgem, por mãe; por pátria, o eterno abril!

Adoro-te, ó divino e pálido Poeta,
Que revelaste ao mundo, o evangelho do amor!
Inspira-me, ó Rabi! banha-me a fronte inquieta,
Na música imortal desse hino redentor!

Eis-me a teus pés, ó Mestre! A esse amor consagro
A lira, a mente, a alma e tudo que ela tem;
Da que eu passe da vida este vale tão agro,
Preludiando num salmo as cítaras do além.

Oh! que nunca, jamais repercuta em minha harpa,
Outro amor, que não esse! Antes quebra-ma, ó Deus,
Qual Moisés estalou, do Sinai contra a escarpa,
As tábuas da Lei Santa, em face dos hebreus!

Que o teu Calvário seja o meu Parnaso santo;
Minha lira de amor, a tua grande cruz;
Teus espinhos serão o laurel do meu canto,
E meu canto de cisne, o teu nome, Jesus!

1917.

(Nova et vetera, 1947)

 

MUSA CELESTE

O Musa, tu che di caduchi allori
Non circondi la fronte in Elicona;
Ma su ne’cieli, infra i beati cori,
Hai di stelle immortali aurea corona;
Tu spira al petto mio celesti ardori,
Tu rischiara il mio canto!
           

Tasso.

 

A que me inspira, divinal Camena,
Não modula a terrena
Flauta das melopéias mundanais;
Nem nunca se lhe ouviu o canto lindo,
Junto às águas do Pindo,
Bordadas de caducos loureirais.

Nunca seus dedos diáfanos e ágeis
Esfloraram as frágeis
Cordas da lira de Ésquilo ou de Alceu;
Nem o doce Virgílio, nem Horácio,
Nenhum cantor do Lácio,
Jamais sonhara essa visão do céu!

Outrora ela passou por sobre a terra,
Lá, onde a branca serra
Do Líbano reluz no etéreo anil;
E a seus pés humilharam-se as beldades,
Desde a palma de Cades,
Até a Sulamítide gentil!

Circundavam-lhe as formas luminosas,
As mais vernantes rosas,
E os lírios dos convales orientais;
E ela era como a lua encantadora,
Ou como a pulcra aurora,
A sorrir dentre os célicos rosais.

Vate não houve então, que merecesse
Decantá-la; mas desce
Do Olimpo um anjo, irmão do serafim,
E com voz, que nos séculos perpassa:
“Ave, cheia de graça! .
O Senhor é contigo!” diz-lhe assim.

Rompe aí ela em mágicos acentos!
Tudo se cala; atentos,
Ouvem-na os celsos páramos do Hebron;
Nas harpas de Moisés e de Isaías,
As grandes harmonias
Morrem do seu gorjeio ao meigo som!

Na transparência virginal e pura
Da sua alma, fulgura
Um divino sorriso maternal,
Como raio de estrela que ilumina
O seio duma fina
Ânfora de alabastro ou de cristal.

Hoje ela enflora a sideral morada
Do empíreo, coroada
Por um nimbo eternal de doze sóis;
Cantam-na em coro universal as gentes,
Os mais resplandecentes
Anjos e os mais esplêndidos heróis.

Foi esta a Musa dos sagrados bardos,
A que aos divos Bernardos
Ungiu os lábios de celeste mel;
A que encantou o gênio audaz do Dante,
Sorriu ao Tasso errante,
E as telas sublimou de Rafael.

Mais doce que a Melpômene sonha
Pela mente inspirada
Do venusino lírico imortal,
Ela abençoa os berços perfumados
Dos poetas fadados
A viverem a música do ideal.

Votei-lhe também eu, a minha lira,
Que por ela suspira,
Nas trevas desta sáfara mansão;
Não foi, bem sei, nenhuma lira de ouro,
Mas foi o meu tesouro, .
Pois foi este meu próprio coração.

Lira fatal de misteriosos nervos,
Onde bailam, protervos,
Os favônios de um século traidor,
Dei-lha nas mãos, a essa Musa amante,
Por que só pulse e cante,
Ao sopro virginal do seu amor!

E quando, ó Deus, a derradeira fibra
Deste órgão, que hoje vibra
De entusiasmos, um dia me estalar,
Oh! seja inda ela, a Musa da minha alma,
Com mão piedosa e calma;
Quem nele entoe o último cantar!
1917.

 

(Nova et vetera, 1947)

 

MENSAGEM AOS HOMENS DE LETRAS

Senhores Acadêmicos

Ao falar desta tribuna da Academia Brasileira tenho a impressão de que, fechado embora neste breve recinto, ouve-me toda a intelectualidade da nossa Pátria. Nem cuideis se deva tanto o milagre ao poder misterioso e mágico do rádio, quanto ao prestígio dos vossos nomes, que não somente representais a flor do pensamento nacional, senão também, à semelhança dos grandes mastros, acumulando os fluidos elétricos, atraís todas as atenções do nosso mundo bem-pensante, que, em meio à tempestade das paixões e críticas desencontradas, acende em vossas frontes os santelmos luminosos da admiração e da glória.

Bem de imaginar é, pois, a responsabilidade que em tal circunstância há de sentir um arcebispo, único do Clero em vossa douta companhia, e para quem toda e qualquer tribuna, mesmo sem a eminência, a distinção e a aristocracia desta que ora ocupo, deve de ser sempre sagrada. Assim é que recearia profaná-las, se, em hora tão grave qual a que vivemos, para aqui trouxesse assuntos, por mais importantes que fossem, mas não passassem dessas questões, que vão apenas da ortografia à sintaxe, ou da filologia à estilística,

De outro lado, porém, tenho medo de entrar aqui em teses que entendam com a vida, e, por isso mesmo, com a moral e a religião, persuadido, como estou, de que não é fácil tratá-las em assembléias como esta, que não sois apenas vós, como já disse, mas todos os intelectuais do Brasil, alguns dos quais sorriem ante a convicção dogmática, com que soem os católicos versar matérias de fé e costumes.

 

MITRAS ACADÊMICAS

E aqui me ocorrem os amenos conceitos com que, ao discurso de posse do segundo arcebispo nesta Academia, referiu-se Humberto de Campos, que os atirou jovialmente à batina acadêmica, como se fora uma sátira à maneira de Horácio, de quem já disse um poeta italiano que usava para chibatear uma vergasta de rosas: usa sferzando uno staffil de rose.

Aí, entre outras coisas mais sérias, dizia ele que o arcebispo “não tergiversara sequer, no discurso de posse que proferira na Academia, em condenar, perante um público de pecadores elegantes, a beleza literária inspirada pelo pecado”. Humberto exagerava. E mais se lhe nota o exagero, quando, desde o início do artigo, aludindo aos dois arcebispos acadêmicos, classificava do seguinte modo o ilustre quadro da nossa Academia: “São, assim, na lista acadêmica, os únicos filhos legítimos de Deus e da sua Igreja. Alguns outrora são filhos naturais da Igreja, ou de Deus. O resto, ali, pertence ao Diabo.”

Como quer que seja, o certo é que surgem, por vezes, situações melindrosas, em que eu mesmo já me senti solicitado a depor. Peço vênia, pois, para, aproveitando o ensejo tecer aqui algumas ponderações, na esfera alta e serena das idéias, e naturalmente, sem nenhuns intuitos de sermão ou parênese, mas com o só desejo de esclarecer a posição dos católicos, que pode tornar-se desagradável a posição dos católicos, que pode tornar-se desagradável a eles próprios, não menos que aos outros. E a razão é que, em ocasiões que tais, avulta desde logo a nota clássica de intolerância, a estigmatizar-lhes, como um ferrete, a estranha atitude. Vejamos, pois, se um “filho legítimo” da Igreja logra, de alguma forma, elucidar este ponto.

 

INTOLERÂNCIA DE PESSOAS

Senhores! Aprendi com os velhos mestres escolásticos que um dos recursos mais freqüentes nas justas cavalheirescas do espírito, há de ser a distinção lógica dos termos: assim aconselhavam eles no final dum conhecido hexâmetro didático: distingue frequenter. Onde quer que se insinue a confusão, aí se impõe ela. E, não raro, nos dá, deveras, a sensação dum raio de sol em plena treva. Ora, um dos vocábulos mais confusos da linguagem polêmica é precisamente a intolerância. Tanto assim que podemos distingui-la, não em duas, mas em três espécies, que, para maior clareza ou efeito gráfico e mnemônico, designarei por três pês: intolerância de pessoas, de palavras e de pensamentos.

Nada mais anticristão do que a intolerância de pessoas. Basta abrir os evangelhos: Jesus levou nesse terreno a tolerância a tal auge que escandalizou os fariseus, pois, afrontando-lhes embora a indignação e o desprezo, achegou-se aos publicanos e pecadores. E máxime em pritaneus acadêmicos, como o nosso, é que se ela impõe, como já fazia notar, com a costumada lepidez, o saudoso confrade Carlos de Laet: “neste habitáculo das letras, escreveu ele, a tolerância de pessoas não é somente uma virtude, mas uma exigência impreterível, para a serenidade em nossos debates, mesmo naqueles que mais nos escandecem, isto é, os da questão ortográfica.”

Não é, portanto, essa, a intolerância, de que se possa acusar o catolicismo, porque ninguém menos católico, nem mais intolerável, do que um católico intolerante para com as pessoas.

 

... DE PALAVRAS

Em segundo lugar, vem a intolerância de palavras, compreendendo-se nesta expressão toda a intolerância no modo de expor ou defender a doutrina. E esta igualmente, longe de praticar, há de condená-la quem quer que se preze de verdadeiro católico. Mestre das controvérsias católicas, investido oficialmente nesse título pelo Papa reinante, é S. Francisco de Sales. E é ele próprio quem nos diz que o polemista, que se enfada, torna suspeita a sua causa. A luz da verdade, ensina ainda ele, não se dardeja aos olhos do adversário, com perigos de cegá-lo: faz-se-lhe alvorecer de mansinho. E tamanho era o seu cavalheirismo, que desejara tratar os contendores, não somente com luvas, mas luvas perfumadas. E aqui vem a propósito aquelas duas palavras com que os livros santos definem a ação da Providência no governo do mundo: fortiter e suaviter, as quais bem se podem aplicar ao floreio elegante da dialética, na mão dos paladinos da causa católica: firmeza na verdade, gentileza no defendê-la. Fortiter in re, suaviter in modo.

 

... DE PENSAMENTO

Esta firmeza na verdade nos leva naturalmente a considerar a terceira classe de intolerância, que é a do pensamento. E esta, sim, meus Senhores, devo confessar-vos que o catolicismo, não somente a professa, mas dela faz timbre nas armas heráldicsa do seu apostolado, outra coisa não sendo ela, senão a intolerância do erro. E não há condescendências nem amizades que valham a justificar a adoção do erro, um só que seja. Já dizia Aristóteles que, com ser amigo e admirador de Platão, não deixava de o ser, e muito mais, da verdade: Amicius Plato, sed magis amica veritas.

Muitos, todavia, nem com essa intolerância se conformam, e a razão se me antolha óbvia: é que não admitem a verdade integral dos dogmas do cristianismo. Diante destes, a situação dos católicos continua a ser aquela mesma de Jesus em persença de Pilatos: ante a convicção com que o Cristo falava da verdade, que viera revelar ao mundo, pergunta-lhe o procurador da Judéia, com um sorriso de humorismo, que bem se lhe adivinha nos lábios: “E que vem a ser a verdade?” Quid est veritas?

E, efetivamente, para os que vêem na doutrina católica, a par de algumas verdades, não poucas superstições e crendices, nada mais insuportável que a presunção, com que a proclamamos e defendemos contra tudo que lhe repugne. Mas, por outro lado, se o católico, convencido como deve estar dessas verdades, a ponto de, no dizer de Pascal, deixar-se degolar por elas, não praticasse essa intolerância daria bem triste prova da sua convicção, ou, melhor, documentaria a sua incoerência. Tolerar idéias contraditórias, é próprio só de espíritos que ainda não se firmaram na verdade. Há de se, pois, fazer justiça aos católicos, reconhecendo, ao menos, a coerência da sua atitude: verdade e erro não se toleram entre si, repelem-se: hurlent de se trouver ensemble.

 

FÓRMULAS CLÁSSICAS

O que vos eu acabo de expor, não é meu, nem novo: acha-se já admiravelmente cristalizado, há 16 séculos, naquela fórmula clássica de Santo Agostinho, que assim reza: “Amai aos homens, destruí os erros, certos, mas não soberbos de possuir a verdade, e lutando, mas sem paixões, por ela!” Diligite homines, interficite errores: sine superbia de veritate praesumentes, sine saevitia pro veritate certantes.

Não se pense, entretanto, que tudo no cristianismo sejam dogmas: ao lado destes, existem aí também não poucas teses incertas e duvidosas. A intolerância, de que falamos, circunscreve-se aos domínios do dogma; fora daí, há liberdade de pensamento. É o que lapidarmente, como costumava, fixou o mesmo Santo Agostinho neste brocardo, que tão de molde vem ao nosso assunto: “No dogma, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade.” In certis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

Nem será por demais frisar melhor aqui esta liberdade de pensamento, para que se não cuide que, em se tratando de dogmas, desapareça ela, de todo em todo, o que seria falso. Basta, para isso, distinguir na fé o seu ato e o seu objeto. O ato de fé é sempre livre, essencialmente livre, tão livre que sem liberdade não pode existir a fé: ou se crê livremente, ou não se crê. Daqui a estultícia da fábula do “crê ou morre!” O objeto da fé, este, sim, é que exclui a livre escolha, não podendo ser outro que a verdade.

 

NEO-HUMANISMO

Não era, porém, isto, Senhores, que trazia em mente dizer-vos: levou-me demasiado longe a digressão, e dela vos peço mil excusas.

O de que vos quero falar, é tema que muito mais de perto nos interessa, assunto vivo e fresco da atualidade, movimento eminentemente literário, que se me afigura hoje uma dessas correntes do pensamento universal, que por vezes orientam a alta mentalidade de toda uma época da história, da mesma forma que os ventos das alturas voltam, para o mesmo quadrante do céu, todas as frondes das palmeiras erguidas no píncaro da serra.

Refiro-me ao moderno humanismo, assim chamado pelas suas afinidades com a escola dos humanistas que, no século XV, fizeram a Renascença. Como todos sabem, outra coisas não foi a Renascença, senão um retorno à cultura clássica, onde o espírito daquele século, fatigado, talvez, pelas altíssimas lucubrações filosóficas da idade média, fora buscar, nas inspirações maviosas das musas gregas e latinas, o repouso e o prazer duma beleza menos abstrata nas letras e nas artes.

E como entre os latinos esses estudos literários se chamavam humanos, humaniores literae, daí foi que derivou o nome de humanistas aos próceres do Renascimento. Os velhos humanistas, contudo, não acentuaram bem o caráter humano da cultura literária, a que justamente se dera a denominação belíssima de “humanidades”, por isso mesmo que devem tornar o homem mais humano, mais homem, desenvolvendo e aperfeiçoando nele tudo aquilo que o distingue das brutas alimárias. Nisto é que vai a grande diferença entre o antigo e o novo humanismo, revelando, desde logo, a excelência incomparável deste sobre aquele. O humanismo contemporâneo, de fato, quer se caracterizar pela finalidade suprema, a que visa, da perfeição humana, e conquanto nem todos convenham no mesmo conceito dessa perfeição, não deixa ela de ser o ideal mais digno de inspirar toda e qualquer escola literária ou artística.

E posto que floresça já sobre a matéria uma farta literatura, baste-nos lembrar dois livros que parecem resumir toda a tendência humanística do atual momento.

O primeiro é L’humanisme et l’humain, de Charmot, em que tão bem se lançam os princípios da nova escola, mostrando ao mesmo passo as suas atinências com o humanismo de antanho; o segundo é o Humanisme intégral, de Maritain, em que se diria que o autor tirou as últimas conseqüências do moderno humanismo, na sua fecundidade integral a bem da humanidade. Poder-se-ia também citar aqui a recente obra, não menos interessante no seu gênero, de Aleixo Carrel, L’homme, cet inconnu, em que se sente não sei que repercussão do humanismo, nas vastas e maravilhosas províncias da ciência médica, apesar de que nem todas se lhe possa subscrever as opiniões e alvitres.

 

O MEU HUMANISMO

Pondo à margem quaisquer outras modalidades do moderno humanismo, é meu intento esboçar-lhe apenas o aspecto literário, que mais diretamente diz respeito à Academia, humanismo, aliás, que não sei se corresponda bem à realidade, mas é como o eu entendo e prezo, e estaria quase a chamar-lhe, por isso, “meu humanismo”.

Três elementos apraz nele distinguir, que designarei com os nomes de princípio, meios e fim. Princípio essencial de todo e qualquer humanismo, quer-me parecer que seja o culto da beleza. De nada se preocupavam tanto os humanistas, como da forma e elegância do estilo. O que os encantava nos prosadores e poetas clássicos da antiguidade greco-latina, não eram tanto as idéias, quanto a arte de exprimi-las com beleza. O verdadeiro humanista sempre foi, nem pode deixar de ser, antes de tudo, um esteta da palavra. Assim, pois, tenho para mim que prescindir da beleza literária na definição do humanismo, o mesmo fora que desnaturá-lo.

E se inquirirmos agora os meios, a que se deve socorrer o candidato ao humanismo, para adquirir essa arte da palavra, não será, talvez, despropositado lembrar o que do poeta já dissera Horácio: “nem cultura sem talento, nem talento sem cultura.” Ego nec studium sine divite vena, / Nec rude quid posit video ingenium. (Arte Poética, 409-410)

Da mesma maneira, penso eu, nem todos, mas só os dotados dessa “rica veia”, divite vena, de que fala aí o poeta, podem aspirar à perfeição literária própria dum humanista. E a estes não há outra recomendação geral a fazer, senão aquela do mesmo cantor da Arte poética, que deixou escrito: Scribendi recte sapere est et principium et fons, ou seja, pouco mais ou menos, em linguagem,

Não há bem escrever,

sem estudo e saber.

Mais digno de nota, porém, é o que em seguida acrescenta o velho mestre, aconselhando aos discípulos nada menos que a doutrina de Sócrates e dos filósofos: Rem tibi Socraticae poterunt ostendere chartae. Que de mais útil se poderá incular ainda hoje aos novos humanistas, hoje sobretudo, que, à míngua de formação filosófica, vai perdendo tanto em clareza e profundidade, a palavra dos pensadores?

Finalmente, descendo mais ao particular da elocução e do estilo, manda Horácio os seus alunos manusearam, noite e dia, os grandes modelos gregos:

Vos exemplaria graeca

Nocturna versate manu, versate diurna.

 

HUMANIDADES CLÁSSICAS

E aqui se nos oferece, como de per si mesma, a famosa questão do ensino das letras gregas e latinas, tão intimamente ligadas à história do humanismo. Pergunta-se: dever-se-á, ainda hoje, seguindo a orientação do venusino, prescrever aos humanistas o meneio das literaturas da Grécia e do Lácio? Ou por outra, serão esses estudos essenciais ao humanismo? E respondo: no sentido histórico do humanismo, não há duvidar, porquanto foi essa precisamente a sua razão de ser; mesmo, porém, falando em absoluto, estou que o humanista não possa abstrair desses estudos, e tanto mais tal será ele, quanto mais neles se aprofundar. Por isso é, talvez, que se vai notando um belo reflorir das humanidades clássicas, a coincidir auspiciosamente com a florescência do neo-humanismo, que, embora norteado por ideais superiores, tem as raízes no humanismo da Renascença.

Propagandista ardoroso e culto desta reabilitação das humanidades, acaba de surgir nos meios pedagógicos do País a figura moça de um jesuíta, o Padre Arlindo Vieira, que nisso, aliás, bem representa as tradições gloriosas da Companhia de Jesus, em cujos colégios o programa de ensino, a célebre ratio studiorum, sempre reservou lugar de honra aos clássicos de Roma e da Hélade.

Propugnando especialmente o restabelecimento do latim e do grego entre as matérias do curso secundário, publicou já o douto sacerdote três valiosos volumes, num total complexivo de 963 páginas, de cada um dos quais, tenho hoje a satisfação de entregar à Academia um exemplar, pelo próprio autor a ela dedicado em homenagem.

O que mais conforta, porém, é sentir o eco simpático que vai despertando essa campanha em nossas altas camadas literárias, tendo-se já pronunciado francamente a favor da mesma vários dentre os mais ilustrados acadêmicos desta casa, os Srs. Amoroso Lima, Celso Vieira e, como era de esperar, o Barão de Ramiz Galvão, que foi no Brasil, como sabeis, o continuador de Tautphoeus e Schiffler no ensino das belas letras helênicas, por ele cultivadas a ponto de nos dar, em versos vernáculos, uma notável tradução do original do Prometeu acorrentado, de Ésquilo, além do seu precioso Vocabulário etimológico, ortográfico e prosódico das palavras portuguesas derivadas da língua grega.

A este coro magnífico, que já hoje se alarga por todas as nações mais civilizadas, é que também quero ter a honra de juntar, inexpressiva embora, a minha voz, pugnando em nossas escolas secundárias por um ensino eficiente do latim e do grego, que tenho em conta de utilíssimos, senão indispensáveis, à formação humanístia do homem de letras. E isto por motivos que reduzirei a três, conforme passo a expor.

 

TRÊS ARGUMENTOS

Primeiro, estou convencido, como é, aliás, opinião geral dos entendidos, constituírem os estudos clássicos uma espécie de ginástica intelectual, que prepara o espírito jovem para toda a sua atividade futura, do mesmo modo que a ginástica física, praticada na adolescência, produz, durante a vida inteira, os seus benéfícos efeitos. Formar assim a inteligência para que possa melhor funcionar, é bem mais importante que embutir-lhe desde logo muitos conhecimentos, ou, como dizia Montaigne, mais vale uma cabeça bem feita, que bem cheia.

É o que já fazia notar a certos pais utilitaristas o Professor Arnold: “A questão, ponderava ele, não é saber o que vosso filho vai fazer do latim, mas o que o latim vai fazer de vosso filho.”

Segundo, só ignorância ou má fé pode negar que o trato íntimo com os grandes luminares das duas línguas clássicas, seja, por si só, uma escola de beleza literária, insubstituível pelas versões, porquanto, além de que tradutore traditore, traduções são sempre traduções, e não passam de cópias, que, por melhores que sejam, nunca suprem originais dum Fídias, dum Michelangelo, dum Rafael ou dum Rembrandt.

Terceiro, finalmente, e é a razão principal, last, not least, ninguém ousa contestar a utilidade máxima, ou, digamo-lo mesmo, a necessidade do latim e do grego, para o conhecimento perfeito da língua portuguesa. Ponto é este, sobre que se poderia aduzir legião de testemunhas: mas valha por todas uma, cuja autoridade e cuja expressão hiperbólica bem mostram a importância da verdade que afirmo. Foi o Visconde de Castilho quem disse não acreditar que “sem muito latim, possa haver, nem um pouco de português”. Ora a língua vernácula é, para o humanista, o que era a panóplia sagrada para os cavaleiros andantes.

 

IDEAL SUPREMO

Para os neo-humanistas, porém, há de ser ela ainda mais, porquanto não é apenas filologia, gramática ou estilística, senão também um dos mais importantes fatores sociológicos, cujo valor me praz firmar aqui numa sentença duplamente venerável, por isso que não só vem dum dos maiores gênios da humanidade, qual foi Santo Agostinho, mas dela fez ainda Martius o dístico desse monumento da nossa lingüística, que é o seu Glossaria linguarum Brasiliensium. Eis o que da língua pensava o magno hiponense: “unidade e semelhança da língua, diz ele, é o mais forte vínculo da religião e da sociedade humana.” Linguae unitas et similitudo firmissimum est vinculum societatis humanae et religionis.

Este pensamento nos eleva às mais excelsas regiões desse idealismo, a que aspira a nova literatura humanística, e que é, como já dissemos, concorrer com todos os atrativos da arte literária, para que atinjam os homens, quanto possível, a sua perfeição e felicidade. Ora, Senhores, o homem não é homem pela sua animalidade, nem pelos seus instintos, mas sim pelo espírito, pela racionalidade, pela moral, pela honra, pelo sacrifício no desempenho dos deveres sociais, cívicos e religiosos.

O novo humanismo, portanto, longe de insistir em frivolidades, mais ou menos elegantes, e sensualidades, mais ou menos pornográficas, procura, por todos os meios, acender nos corações o fogo divino do entusiasmo pelo ideal, ideal este, que há de ser para cada homem, acima de tudo, o próprio aperfeiçoamento espiritual, o caráter, que o torne sempre mais homem, isto é, feito à imagem e semelhança de Deus. E o caráter, como sabeis, é a melhor defesa das pátrias, a maior barreira que opor se possa à anarquia e à barbárie.

(Discursos, vol. II, 2a ed., 1945.)