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Discurso de posse

Senhores:

Minha primeira ambição consciente foi esta: ser acadêmico. Na infância, as tendências de cada qual nos levam, sem modéstia nem jactância, aos postos mais humildes, como às situações mais culminantes: à frente de um exército ou à boléia de um carro.

Tive a meninice enfática. Passados alguns anos desse sonho, a Academia era realidade e a vossa indulgência consagra hoje minha ambição de criança: vós me fizestes acadêmico.

Não me direi surpreso, como é de uso de todas as investiduras cobiçadas, porque pedi os vossos sufrágios, nem escondo o contentamento de os ter alcançado. Volvido da primeira emoção da escolha, a humildade, que nos seres orgulhosos é uma espécie de pudor da inteligência, leva-me a procurar a razão dessa bondade que não encontro. Perdoai-me se, por vezo de educação, busco, ainda aí, a causalidade necessária. E, porque não acho, imito os espíritos positivos: imagino...

A Academia Brasileira atravessa neste instante, de seus quatorze anos, aquele delicioso e encantado período da vida que um dos mais suaves líricos de nossa língua chamou de menina e moça.

E pensei que se de uma pôde ter a reflexão com que vos escolheu a todos vós, bons partidos do talento e da cultura, não recuou da sagrada leviandade da outra, buscando alguém sem glória e talvez sem esperanças, para o qual ela fosse, só e completamente, a grande consagração de uma vida por encher. De fato, senhores, vós a amareis menos, porque a adornais com o favor do vosso nome... o meu, obscuro, ilumina-se na sua companhia e ela sente que essa dádiva que me fez não é remate de um programa literário, mas uma existência toda, ocupada em reconhecimento e amor, pela sua formosa inconseqüência.

Este pequeno e único desvario em todas e tantas escolhas felizes representa apenas a quota insignificante de altruísmo, sem a qual a Academia não seria um instituto humano, incapaz de ação sem interesse...

Não quisestes, porém, ainda num ato de bondade singular, esquecer-lhe a origem e o destino humano: temperaste-o de malícia. Fizestes-me suceder a Euclides da Cunha...

Sobre humildade não dissimulada, humilhação bem recebida, porque vem de vós... Depois, nesse consolo jactancioso que vai tão bem às situações irremovíveis, pensei que se outros podem mais nobremente, ou mais justamente, falar dele, estava eu indicado para fazê-lo com melhor amor, com maior admiração. Amei-o e admirei-o pela distância de mim, pelo contraste comigo. E é o que vos venho dizer.

Euclides da Cunha: O Homem

Euclides da Cunha, como devia ser, veio da Bahia. Como tantos outros iguais – Rebouças, Nabuco, Murtinho, Bilac, Rio Branco... de ascendência baiana e nascidos pelos acasos da vida longe de sua origem –, foi dádiva feita ao Estado do Rio pela generosidade perdulária daquela terra, que, além de dar ao País os seus melhores homens, ainda possui com que enfeitar e servir as suas irmãs menos fartas. Sem lhe apontar essa proveniência, não o podereis compreender. Aquela bravura improdutiva e arrogante, aquele amor do gesto vistoso e da palavra sonora, aquele desprendimento das utilidades e das conveniências, contidos dentro de timidez, que antes a suspeição tácita da inferioridade dos outros, da modéstia, que era apenas a consciência segura de um justo orgulho, e que sintetizam a sua vida, ruidosa e vazia, gloriosa e desaproveitada, admirada e desquerida, vêm todas das qualidades primaciais daquela terra, a mais generosa e menos interesseira das nossas, que depois de gerar, criar, educar e governar o Brasil, deu-o às outras, em seguida, para a sorte comum dos nossos desmandos. Na vida curta e impetuosa de Euclides da Cunha vereis todos estes caracteres concretizados, como num símbolo vivo. Permiti que vo-la recorde, contando os lances maiores.

O Gesto da Escola Militar

Saíra ele da meninice para a Escola da Praia Vermelha. Era por volta de 88. A Questão Militar havia provado evidentemente o desapego das forças armadas ao regímen dinástico. Nas escolas militares sobre o entusiasmo altruístico dos moços caía a doutrinação liberal de mestres indisciplinados. Incidentes menores vinham todos os dias acirrar ódios latentes entre inimigos, que haviam apenas adiado o duelo de morte de um ano mais tarde. Propalava-se que o Governo Imperial pensara em distrair do centro da atividade política, para remanso discreto, em Angra dos Reis, a Escola Militar. Os ânimos assim postos em suspeição, por isso que merecida, explodiram em doestos e veleidades de reação contra o exílio preparado. Os mais ousados encabeçaram o grupo e um esboço de conjuração formou-se para reagir. Cumpria começar, mostrando ao Governo, pelos seus mandatários, o descontentamento da mocidade melindrada.

Estava anunciada visita do ministro da Guerra à Escola. Prepararam-se os rebeldes, em conluio, para manifestação de indisciplina. À tarde, já formado o corpo de alunos ao longo do corredor que se estendia por toda a frontaria do edifício, soube-se que a visita fora adiada para a manhã seguinte, um domingo, em que, desfalcados os rebeldes de numerosos elementos, a manifestação surtiria diminuída. A exasperação, tão fácil em ânimos juvenis, levou-os, à voz de comando – descansar armas! – a fazê-lo tão violentamente que o assoalho abateu. Contudo, a forma debandou sem maior. Na manhã seguinte, ainda cedo, antes da hora habitual em que os licenciados deviam chegar, apresentou-se o Ministro, acompanhado por um senador, que tinha filho entre os rebeldes. Era talvez um meio jeitoso de armar à sensibilidade, e no Brasil ela dominou sempre a inteligência e o caráter. No pátio central da Escola os alunos formaram pelotões que marchavam em evolução, diante da autoridade militar e civil. A primeira companhia desfilou sem incidente, na ordem perfeita de uma disciplina de parada... Assim iriam naturalmente as outras... Quando chegou a vez da segunda companhia, um aluno abandonou a forma e deu alguns passos à frente; tirou do sabre, tentou debalde quebrá-lo, forcejando sobre o joelho, conseguindo apenas amolgar-lhe a lâmina inteiriça, e atirou-o ao chão, proferindo algumas palavras:

- Infames! A mocidade livre cortejando um ministro da Monarquia!

Era Euclides da Cunha. Havia sido dos conjurados mais ardentes, vira como o acaso e as circunstâncias diminuíram o êxito da rebeldia premeditada; assistia à deserção coacta dos ânimos mais exasperados, observava ali mesmo naquele instante a passividade inerte com que se submetiam todos numa disciplina prestigiadora da autoridade. Tinha a hombridade da revolta desacompanhada, da rebeldia solitária. Não era dos que só lutam para vencer: sacrificou-se. Sabia do que o esperava: o regimento do Conde de Lippe. Arrostou-o.

Salvou-o, num favor prestado à Monarquia, a bondade de um de seus mestres, ao mesmo tempo também médico da Escola, o Dr. Lino de Andrade. Chamou inferiores e ordenou que o recolhessem à enfermaria: devia estar doente. Este ato, que produziu uma primeira surpresa, foi considerado depois como habilidade política, acrescida ao que tinha de sensivelmente humano. Superexcitação nervosa por excesso de trabalho mental – foi o diagnóstico: era bom, sem deixar de ser verdadeiro. Da tribuna parlamentar, Silveira Martins tachou de histeria e a imprensa, que depois viria a glorificá-lo, chamou ao rebelde pobre moço...

Não o quis ser Euclides da Cunha. Transferido para o Hospital Militar do Castelo, permaneceu aí vestido, de pé, junto do leito que lhe destinaram, recusando comprometer-se na bondade ou na evasiva que o pretendia salvar. Lá ficou no ângulo de uma vasta sala, isolado pelo seu orgulho e pela prevenção dos que se não queriam arriscar em perigo de suspeição ou cumplicidade.

Só muito tarde alguém se aventurou a procurá-lo: era uma velha irmã de caridade, que essa não tinha quem temer, e o compreendera. Achegou-se mansamente, com um sorriso bom nos lábios, e perguntou-lhe, simplesmente, há quanto tempo não rezava. Não o sabia. Tomou-o pela mão e, sem palavra, mas com a suave persuasão do carinho, conduziu-o até à Capela. Ajoelhou-o a seu lado e deu-lhe um livro de horas... Aqueles dias e aquelas noites agoniadas, de excitação e de ansiedade, de revolta e de ódio, fundiram-se, acabando num gesto de sensibilidade humana: beijou-lhe a mão que o acariciava, e chorou a seu lado, como criança que era, sem pejo ou temor da curiosidade indelicada dos mais. Foi, na vida que começara a sofrer, a vez única que lhe veriam lágrimas nos olhos.

Ela o consolou sem voz, maternalmente, deixando que vazasse em seu santo regaço todo o fel humano de que precocemente se envenenara... Vinte anos depois, a imagem dessa criatura passava ainda na memória dele num embevecimento de êxtase...

Os outros - doentes, enfermeiros, internos e médicos - dele não se aproximavam: temiam talvez comprometer-se com o réprobo. Um dia, porém, na enfermaria quieta e silenciosa, de onde os curativos e as visitas haviam passado, deteve-se um homem alto, trajado de negro, macilento de aspecto, barba talhada à nazarena e face pálida pelas vigílias contínuas... Aproximou-se tranqüilamente e, ao alcance, travou-se um diálogo...

- Posso servir-lhe de alguma coisa?... De que sofre?...

- Não lhe importe... Não sou doente... não preciso dos seus cuidados...

Era desabrido o tom da resposta: movia-o repelir com brio a piedade que o insultava, defendendo-se de confissão que julgava covarde...

Não desanimou o outro; com voz mais branda, na qual se denunciava um laivo de sentimento ofendido, replicou: - Não sou quem o senhor imagina... Não vim compadecer-me, nem agravá-lo... sou passível de simpatia humana. Pois que o evitam, devia aproximar-me para dizer-lhe que nem todos os que o cercam são incapazes de refletir a beleza de seu gesto e a generosidade de sua ambição... Perdoe-me se lhe magoei a suscetibilidade... quis apenas estender-lhe a mão, mais que num aplauso... numa solidariedade...

A voz ia pronunciando palavras polidas num esforço de comoção... e antes que acabasse, tocado por essa outra bondade que encontrava em seu caminho, Euclides estendeu as mãos ao desconhecido para apertar afetuosamente a que lhe oferecia.

Era o Dr. Francisco de Castro.

Não faltaram na vida, a Euclides da Cunha, esses impulsos de bondade: foi como teve ânimo para vencer as agressões que seu talento e seu brio fizeram, tantas vezes, brotar no seu caminho.[1]

A "Parada" da República. A Revolta. Partida da Fileira

Menos de um ano, já desligado da Escola Militar, e cursando a de Engenharia Civil, ele o sentiu de novo, a 15 de novembro.

Realizava-se a sua ambição de adolescente: proclamava-se a República. Antes que o País acordasse, assustado e perplexo, entre um hábito antigo e uma moda nova, Euclides abalou a pé, de São Cristóvão, onde morava, guiado por instinto divinatório, para alcançar em meio do trajeto os seus condiscípulos, que agora marchavam de fato contra a realeza, desarmado e à paisana, embora, mas para conduzi-los à vitória, eles que o deixaram partir sozinho, sem um protesto e depois de uma conjura, degradado por uma baixa e dissimulado por um diagnóstico... Vingou-se destemidamente, sem prever a conseqüência, cuidando até marchar para o perigo...

Mas a proclamação da República nem mesmo foi parada vistosa: ameaça na sombra e capitulação apressada. Apenas, no outro dia, quando se apuravam feitos heróicos por fazer e possíveis perigos transpostos, no crepitar dos entusiasmos precoces pela ficção coletiva que faz da forma de governo decorrer mirificamente a felicidade do povo, o Marechal Deodoro, soldado lógico e coerente, não compreendeu esse heroísmo em disponibilidade, sem a fórmula prestigiadora de uma farda. E perguntou a Euclides da Cunha, que lhe apresentaram no momento, onde estava a sua.

Percebeu-o o moço aventuroso. Ganhou imediatamente o pátio do quartel-general, cavalgou a primeira montaria desocupada, endireitou rumo da Praia Vermelha, entrou pelos alojamentos abandonados, enfiou o primeiro uniforme que se lhe ajustava menos ridiculamente, e assim, desengonçado, desgracioso, destemido, entrou na fileira para a vida militar que o enjeitara em uma parada e em outra o adotara.

Não se lhe esmoreceu mais o ardor pela República. Volveu aos cursos à procura dos galões que os estudos deviam dar-lhe, e continuou por merecê-los, até a nossa guerra civil.

Atravessava o Brasil um desses períodos climatéricos da vida política da América do Sul, em que a suspeição, o medo, a corrupção e a crueldade recebem nomes de revolta ou de pronunciamiento. Foi em 93. Da competição de militares que se apossaram do governo surgira dissidência pessoal que, abrigada sob o nome pomposo de reivindicações constitucionais, armou o marinheiro contra o soldado. A ambição de mando, desvairada e agressiva em um, aguerriu o outro na defesa da própria vida e do bem apoderado, e projetou, na cenografia bamba de história lamentável e efêmera, luta civil, em que irmãos chegaram a se convencer de que assassinavam por convicções. Nuvens prenhes de tormenta que se encontram, em colisão, no espaço, são sempre a resultante de um estado vesiculoso, ia dizer enfatuado, a que servem de núcleo grãos de poeira, ensoberbecidos na altura...

Eram os dois inimigos igualmente fracos: não se decidira ainda por nenhum deles o contingente grosso e sempre alerta das adesões que esperam dar razão ao mais afortunado. Por isso, enquanto em escaramuças ensangüentadas, canhoneios assassinos, entradas e saídas apenas imprudentes pela barra, esperavam o imprevisto... os ares eram turvos e abafados. Pesavam de suspeição e de medo. Não se sabia com quem contar: duvidava-se de todos. Olhavam-se de esguelha os homens e guardavam impressões para a delação. Era suspeito quem se não excedia em clamores e protestos. Quem não tinha sua idéia cruel e executada era vigiado. Cultivava-se a maldade por seleção. Faziam-se prisões por adiantamento e julgamentos sumários por previsão...

Indivíduos desclassificados, talvez inocentes, foram acusados de pretender explodir os túneis da Estrada de Ferro Central... O outro dia apareceu, expectante, uma bomba de dinamite na redação de um jornal. Era testemunho e ameaça; deu-se alarme: tentavam destruir os bens do Estado, agravar dificuldades ao Governo, fazer calar o órgão das opiniões do poder... [2]

Não se conteve, então, um senador da República, e escreveu carta pública ao jornal  ameaçado,  pedindo  a  morte  para  os  rebeldes presos, ou, “se  faltasse  essa medida  necessária e  benéfica”,  lançarem, eles, os patriotas, não das mesmas armas, reduzindo a  ruínas os calabouços e enxovias, matando a todos os que as enchiam por esse processo sumário e digno.  Depois seria a vez dos bens, casas e haveres, fossem nacionais ou estrangeiras as vítimas... só assim a República seria vingada de seus inimigos como cumpria...

Nunca o crime de não ter opiniões políticas iguais às nossas excitou apetite mais ganancioso de vingança sanguinolenta. E a ninguém repugnou o horror do conselho ou da incitação. Se alma nobre existiu que protestasse, foi talvez algum Tácito furtivo que pensou em escrever para o futuro... Entre brasileiros coactos e brasileiros desaçaimados, não houve quem punisse pela honra de uma civilização que recuava assim até se renegar, menos que em tirania cesariana, na chacina da caudilhagem.

Houve apenas um homem. Foi Euclides da Cunha.

Escreveu revide heróico e abnegado à barbaria. Não encontrou letra de fôrma que lho quisesse publicar. Os que o deviam, pela simpatia da idéia, temiam pela própria conservação ameaçada; os que o podiam, pela comparsaria com a violência, tinham a paixão alarmada e insaciável de brutalidades maiores, para se deterem em censurar uma, apenas aconselhada. E assim não o podiam nem o quiseram imprimir. Por fim, o artigo foi ter às mãos de alguém que tinha a paixão de seu ofício, um desses românticos retardados que em tempo de industrialismo utilitário faziam ainda bravatas de afrontar as próprias conveniências.  Ferreira de Araújo publicou na Gazeta de Noticias, cercando-o de cautelosos comentários, mas publicou-o. Essa denúncia de um grande crime a perpetrar poupou à nossa vergonha mais um daqueles tantos de que essa época foi pródiga.

Mas não se perdoa facilmente a quem não comunga dos nossos ódios; Euclides da Cunha ficou desde aí suspeito à legalidade: era o nome pelo qual se davam, como sempre, os abusos do poder. Não lhe valeram os sacrifícios e os perigos, a morte tantas vezes arrostada com bravura e sem escarcéu, quando, em meio dos tiroteios, andava a construir e a velar pela segurança das trincheiras, cumprindo o seu dever de engenheiro militar. Começou para ele a reserva ostensiva, a desconfiança tácita, o afastamento premeditado da ação, isolando-o em passividade ou em suspeita que não podia sofrer seu brio.

Esmoreceu-lhe a fé militar: determinou deixar as fileiras. Carta de seu sogro, o general Sólon, [3] um dos autores da República e dos primeiros perseguidos por ela, procurara dissuadi-lo, lembrando quantas vantagens tem a carreira das armas e concluía: “será um desastre abandonar a melhor profissão que existe no País”. Mas não atendeu. Foi insensível à sedução do interesse. Sentiu, claramente, que, tendo uma pena que havia de ser instrumento de civilização no Brasil, a espada e a forma, a disciplina e as conveniências o coagiriam em subalternidade dolorosa e pêca enquanto esperasse as promoções. Não era dos ânimos que se prendem aos proveitos e garantias. Abandonou a farda pela segunda vez... A criança indócil repetiu-se no homem experimentado... Agora, porém, tranqüilamente, refletidamente, talvez apenas com maior mágoa no coração. Repudiar o ideal é, certo, mais doloroso do que vê-lo morrer, ainda aviltado e incompreendido.

Foi então engenheiro e foi jornalista, em Minas e em S. Paulo. Construiu vigamentos de aço e armou peças temerosas de artigos, uns e outros possuidores do poder formidável de desígnios fortes, expressos numa forma intrépida. Assim até 97.

Campanha de Canudos

Fato policial, transformado por incúria e descaso em calamidade pública, chamou para os sertões da Bahia a atenção do País. Em um recanto abandonado, como tantos do interior do Brasil, de que nos falta até a consciência, sem vias de comunicação, sem liames morais de instrução ou dependência administrativa, formou-se sociedade rudimentar em torno de uma fé simples, que lhe dava esperanças em Deus, já que fora completamente largada da providência dos homens. Fanático, do qual a lenda fez celerado, réprobo e até – monarquista – atentando contra a moral e ameaçando a ordem estabelecida, reuniu em torno de si alguns milhares de pobres gentes sertanejas, que viviam parcamente de lavouras e rebanhos, o dia em que uma autoridade leviana e má interveio desmandadamente em agressão. Talvez apenas imprudente, ou estouvado – e resultou a provocação irritante de um conflito. Começou a guerrilha, no desbarato sucessivo dos destacamentos de polícia, dos contingentes de tropa de linha, chegando finalmente às provações aflitivas de mobilização do Exército nacional, dobrado de milícias dos Estados. Foi história triste e vergonhosa. E porque éramos os únicos culpados, por não termos sabido dar-lhes cultura e civilização, vingamo-nos com violência espantosa: imolamos, inermes, os milhares de vagabundos e párias, que assim mesmo só conseguimos vencer pela desproporção formidável do número e dos meios de luta. Fizemos como as crianças ou os selvagens com brinquedos desajeitados e os artefatos perros que não têm habilidade para consertar: quebram os objetos. Por isso assassinamos milhares de brasileiros em Canudos. Se houve voz de protesto, foi débil e partiu de alguns moços generosos e destemidos, alunos das faculdades da Bahia, que o ousaram dizer de frente, no rosto dos responsáveis. Mas não foi ouvida pelo País: o clangor das fanfarras e das passeatas gloriosas que deviam fazer os triunfadores pelas ruas empavesadas das capitais abafou-a no esquecimento merecido.

Só ficaram Os Sertões: depoimento, libelo, sentença, que punirá, no dia em que tivermos consciência, a crueldade dos mandatários e a inépcia dos mandantes. Euclides da Cunha partira para o lugar da ação, levando o compromisso de escrever para um diário, O Estado de S. Paulo, mas o maior de testemunhar esse crime coletivo de uma civilização incapaz. Cinco anos depois estava o livro publicado, e foi como um ato de coragem desesperada.

Ficou sem resposta, e quase sem comentário na substância. É um dos meios de justiça no Brasil: o silêncio responde à acusação mais provada... Apenas a ousadia e o gênio de Euclides da Cunha contarão no futuro aos historiadores curiosos, como ainda às portas do século XX, as aparências civilizadas interrompem, de espaço a espaço, essa idade de bronze de nossa nacionalidade que vamos vivendo.

A Glória Literária

Depois d’ Os Sertões, exerceu Euclides da Cunha engenharia e fez arte. Teve a celebridade. Se não se pejaram do crime que ele denunciou, regozijaram-se ao menos com a pompa esplendorosa do seu estilo. E glorificaram-no. Escreveu então artigos apressados para os jornais e começou a dar estabilidade àqueles ensaios históricos, políticos, sociais, que seriam gênero literário a propagar no País sobre o outro, mais meritório, de fazer-lhe admoestações e ensinamentos duros e necessários.

Dessa pausa espiritual saiu para missão de caráter técnico e ao mesmo tempo diplomático, chefiando a missão brasileira de reconhecimento do Alto Purus. Custou-lhe imenso esforço e tremendas provações e foi empresa quase malograda. A pequena restrição vai devida a tudo o que viu, experimentou, deduziu e escreveu em páginas magníficas depois, para compensar-se de esforço inútil e de pena baldada. Partidos para o Amazonas perderam a paciência e o tempo, esperando instruções que só chegaram quando a vazante impedia quase a viagem e punha obstáculo ao termo do empreendimento. Lêem-se nas entrelinhas do relatório que escreveu, e até no desabafo das notas, as queixas e os protestos. Elas não contam, porém, todas as vicissitudes dolorosas experimentadas no contacto irritante de uma comissão estrangeira, suprida de supérfluos e fartas suscetibilidades, muito ao invés da nossa, à qual tudo faltou, e a que só resistiu, sem humilhação e com decoro, porque velava Euclides da Cunha. O seu brio defendeu sempre, até o sacrifício, a nossa vergonha. Esta expedição, se fora contada, daria a Os Sertões uma parelha, na intensidade da descritiva e na intrepidez da acusação. Guardo ainda comigo os acentos épicos do que lhe ouvi... Testemunhos singelos confirmaram-me que aquela epopéia obscura e destinada ao esquecimento não era ficção de mente escandescida...

Voltando ao Rio, continuou a faina intelectual. A Academia Brasileira, que o elegera, recebeu-o em sua gloriosa companhia. Continuou a escrever para a imprensa. Publicou num livro, Contrastes e Confrontos, ensaios dispersos, e noutro, Peru versus Bolívia, razões de um litígio internacional. Ainda mais ensaios, reunidos depois no volume último A Margem da História. Tentou o magistério, concorrendo a uma cadeira de Lógica, no Ginásio Nacional: vieram-lhe então no encalço todas as mediocridades que ele tinha o dom perigoso de açular. Parecia não haver lugar para ele, onde tanta gente andava indevidamente. Contudo, e isso é digno de ser assinalado, ao contrário do que seria de esperar, veio-lhe a justiça da escolha.

A vida lhe correria agora tranqüila e segura, sem dispersões vãs nem aventurosas ambições. Galgara aprumado e decidido, como as árvores dos aclives empinados, o topo da montanha. Não iria transmontar, porque aos quarenta e três anos, posto grande escritor e conhecido grande caráter, se distendiam para ele caminhos largos nas rechãs indefinidas...

Foi neste momento que um grande infortúnio se abateu sobre nós. O ponto final de uma bala assassina pôs fecho trágico nesta vida, cujas possibilidades seriam ainda maiores do que deviam ser o remorso de alguns e até, de todos, a mágoa inconsolada.

Euclides da Cunha: O Artista

Tal foi o homem. Superpõe-se-lhe a obra num decalque preciso... sem se acrescentar num paralelo espiritual da ação, mas se desdobrando como derivação lógica e necessária daquela vida...

Um de vós, pensador sutil, [4] atinou com a razão de ser dessa qualidade indefinível na obra de arte que é ter estilo. Seria como que a revelação do caráter. Tomou por exemplo a Frei Luís de Sousa. Se buscasse símile nacional, desmedido e bárbaro, como era a feição do homem e do seu meio, teria Euclides da Cunha.

Não vai aí restrição nem revide à fórmula clássica, consagrada pela repetição de uso, nem sempre consciente. O estilo é, sim, o homem, sem que por isso todos os homens tenham estilo. É preciso primeiro ser homem, distinto dos outros homens, afirmando uma personalidade na posse de um caráter. A vontade revelada pelo talento... eis o estilo.

E assim chegamos a concluir que se o estilo pode ter qualidades julgado em si, não tem graduações julgado nos homens. Porque são falsas essas expressões que emprestam a todo o mundo caráter, deste ou daquele feitio. A distinção será simplesmente entre os que não o possuem, imensa maioria, e os que o possuem, bom ou mau, segundo o juízo vário do sentimento. Ordinariamente, quando se tem caráter, disse um que o tinha, ele é mau... Porque se impõe deliberadamente, decisivamente, vigorosamente; afirma quando todos duvidam, ousa quando todos vacilam, tem vontade quando ninguém possui orientação... os outros os invertebrados, os amorfos, o rebotalho hão de vingar-se no insulto, que é já reconhecimento...

Assim também do estilo. Muita gente escreve; toda gente pode escrever. Chega-se até, tanto o hábito tem força, a escrever legivelmente. Mas o artífice jamais chegará a artista se o não for, se não tiver sensibilidade. Tão difícil e mais raro ainda que a sensibilidade e a vontade. Cultiva-se, depura-se, aprimora-se um estilo, porque o caráter se desenvolve, se tempera, se aperfeiçoa. Não se faz estilo, como o supõe a ingênua vaidade. Por isso, havendo tanta gente que escreve no Brasil, tem ele tão poucos escritores dignos desse nome...

O Estilo é o Homem

Euclides da Cunha, pois que teve caráter, devia ser um estilista. Tinha, ao demais, o que dizer, e fazia-o, como devia, coerente com sua fé. No seu estilo, como naquele caráter, havia, porém, qualidades impetuosas e dominadoras que lhe criariam, desde logo, um círculo enorme de submissões simpáticas e de irrefletidas admirações. Era como nervosidade comunicativa e entusiástica que despertava em violenta contradição a indolência e frouxidão de nossa índole. O momento em que surgiu talvez fosse propício a esse contraste e ao enorme sucesso que o acolheu.

Quando Os Sertões foram publicados, andávamos num período de estagnação literária. Haviam calado os últimos românticos. Machado de Assis e Coelho Neto não tinham discípulos. Parnasianos em poesia e naturalistas na prosa de ficção estavam sem progênie. Dissolviam-se  aqui, por imitação de modas francesas, pequenos engenhos ruidosos e vazios, em uma literatura arrebicada e presumida, na qual o artifício fazia de gosto e a extravagância de senso comum. E como escasseavam os letrados, multiplicavam-se as escolas literárias: por toda parte eram grêmios e discussões. Chamavam-se pelos nomes mais ridículos, viviam o tempo em que os seus programas atroavam pelas páginas de revistas efêmeras e desapareciam, diluídos, para reaparecerem conglomerados em outros conluios, sob outros rótulos e as mesmas ameaças. Resultou porção de livros de versos sem sentimento nem sentido, de contos e novelas difusos e caóticos, impressos em todos os formatos, com as mais exóticas tipografias, maiúsculas disseminadas às tontas, apígrafes e ex-libris sibilinos... tudo cheirando a cera, incenso, almíscar, mofo, decomposição, porque os mitos, as lendas, os sortilégios, as catedrais, as flores místicas, os romances medievos se repetiam numa estafada lengalenga.

Junto a essas provas de decadência, acrimônias naturais da impotência impolida, vaidades irritantes dos clans e dos cenáculos, que fulminavam doestos e decretavam as próprias beatificações, sem apelo nem conformidade... Em suma, estagnação de marema: as vozes eram de rãs inchadas e de fogos-fátuos os clarões de incêndio... Poucos bois ruminavam. Esses tempos de literatura - simbólica, fantástica, mitológica, evocativa, medieval, exótica, amoral e decadente... - quase não deram que ficasse: alguns livros subsistiram e raros nomes passaram a outra geração. Ficou principalmente o cansaço mútuo e o tédio maior do público que os aturava a se elogiarem ou a se descomporem... sem produzir nada.

Nesse momento, apareceu Euclides da Cunha. Escrevia de coisas do Brasil: mérito hoje pouco freqüente em escritores... A nossa curiosidade espantou-se desinteressada um momento das intrigas políticas e das modas francesas, reconhecendo que havia alguma coisa a mais na vasta curiosidade humana, que essa de seu pábulo habitual, e, sobretudo, vingou-se dos outros todos que a enfastiavam, glorificando o novo escritor. O sucesso só foi comparável ao d’O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e ao Canaã, de Graça Aranha. Em alguns meses, era nome célebre por todo o Brasil.

Mas como nada fazemos sem exagero, substituindo a veemência pela convicção, se não lhe penetramos a obra profunda e difícil, colhemos pela rama impressões de outiva bastante para o glorificarmos. Aclamaram-no, sem mais, simultaneamente, geógrafo, geólogo, etnógrafo, sociólogo, filósofo, historiador, estrategista, engenheiro, estilista principalmente... mas não perceberam do conteúdo das idéias e nem tocaram no valor do seu quilate... De longe, porém, um sábio anglo-saxônico, do recuo de uma Universidade da Califórnia, o Dr. John Branner, que sabe a nossa língua e mais ainda a nossa terra, mandou-lhe, como louvor, palavras do próprio Euclides: “O poeta é soberano no pequeno reino onde o entroniza a sua fantasia”. Era enigmático e profundo: Euclides não teve melhor crítico, pelo menos mais justo ou mais lúcido. Todas aquelas qualidades dissimulavam de fato apenas o poeta...

Se o não era no dom da expressão metrificada e disposta em forma definida, como aliás o pretendia, enaltecendo uns primeiros ensaios que mais tinha em conta que às suas notáveis construções em prosa, de fato em Euclides da Cunha dominava o poeta. O geólogo que lera na terra as suas vicissitudes milenárias, o sociólogo que avaliara as componentes novas para traçar as ambições possíveis, o diplomata que discutia textos perplexos de tratados para acordar as vantagens de sua demonstração... O geógrafo, o historiador, o político... por amor de palavra sonora ou pela sedução de imagem brilhante... do estiramento de período em marcha desabalada e vitoriosa... do icto ou inibição de frase curta, estacando fulminada... ele os sacrificava todos, intimamente ao outro o poeta, sempre presente, promovendo o espanto e o entusiasmo, no ritmo sacudido e atropelado das frases que se desenvolviam em crescendo de explosões, ou se arrepelavam, de súbito, refreadas, num clamor de epopéia.

Por isso se há de repetir o que Taine disse de outro; que não escrevia para os leitores. Euclides esqueceu sempre a finalidade da palavra escrita e o destino exato dos livros... Pode-se mesmo dizer que os escreveu para si... Retratou-se para neles se rever... Não cuidou de nós.

Não querem descrever Os Sertões essas terras desertas do Brasil, dignas de senhorio mais ambicioso, nem o depoimento das gentes esquecidas pela nossa incúria ou incompetência em educar e aproveitar; nem ainda, como pretende o seu subtítulo – Campanha de Canudos –, denunciar grande crime coletivo que nos aviltou numa sangueira inútil... Não; é principalmente o cenário, desmedido e grandioso, rude e magnífico, em que viveu, sofreu e pensou a personagem silenciosa que não se descreve e está, entretanto, sempre presente naquelas páginas... Não é livro de história, estratégia ou geografia, é apenas o livro que conta o efeito dos sertões sobre a alma de Euclides da Cunha.

Não são razões de um pleito a se decidir em juízo, trazendo ao debate o esclarecimento final para a justiça devida ao constituinte defendido... Peru versus Bolívia é apenas ensaio de crítica sobre tratados e crônicas, mapas, levantamentos, que permite ao autor sentenciar sobre assuntos literários, políticos e sociais relativos aos contendores... O advogado tem menos em conta a causa que os autos, pensa mais em si que no réu ou na vítima e prefere seduzir o juiz a decidir a justiça.

Nos Contrastes e Confrontos e em À Margem da História, a sua geologia, a sua etnografia, a sua sociologia, a sua política têm, por isso mesmo, o rigorismo absoluto de fórmulas que não condizem com a relatividade tateante e cética de nosso conhecimento... que não existe talvez nas realidades observadas, mas somente nas concepções várias e móveis que delas fazem os nossos entendimentos crédulos e expandidos... É que, propriamente, ele não observava para descrever; comentava-se na natureza, nas gentes, nas idéias, retratando-se nelas. Ilustrava na realidade o seu pensamento... E como ele todo fervia tumultuoso e transbordante, sente-se menos o que descreve, profliga ou ensina, que todo o seu espírito agitar-se em sua obra, assanhado e rebelde, soberbo e vitorioso.

Semelham-se os seus cenários a essas caricaturas de Forain, violentas e grossas, arcabouço trágico de um desenho que se imagina, mas que o autor desdourou de traçar; é impressionismo espantoso em que os riscos interrompidos e as cores cruas sugerem antes que definem. Têm as suas gentes o grotesco sinistro, ou a fantasia heróica que lhe inspirou o mais querido de seus mestres, Paul de Saint-Victor: desfeiçoou as realidades sensíveis que o viram e projetou nelas sua imaginação. O jagunço, que ele admira, ou o caucheiro, que ele deplora, ficaram assim, para nosso pasmo, comparsas gigantescos de epopéia ou de geenas... Entrechocam-se as suas idéias sem o seguimento lógico e desdobrado das deduções: irrompem tumultuárias, desconexas, divergentes, paradoxais, como as daquele outro de quem foi aluno, o bárbaro Carlyle, extravagante e insolente, e por isso mais admirado, pela fria e comedida Inglaterra.

E sempre, não descreve, não discute, não convence... falta-lhe a miudeza pertinaz da expressão, a continuidade articulada dos argumentos que se coordenam, a certeza fria de demonstração, que apenas espera ser feita. Não, num arremesso de traços rápidos e incisivos, ele impressiona, grava, aprofunda... Risca sumariamente a síntese linear de uma figura e de uma paisagem, deforma-a como caricaturista invertido que em vez de deprimir quisesse sublimar e dispara em outra arremetida, num ímpeto de imagens e de idéias, não raro lugares-comuns projetados como escárnio a relutâncias obsoletas, paradoxos retorcidos ou humorismos macabros... vertiginoso, possesso, divino... às vezes fatigante.

“Falar Difícil”

Cultivou por isso esse mau gosto nacional, espécie de gongorismo retardado, que o povo chama, avisadamente, falar difícil. Não é vezo  literário remanescente daquele romantismo atroante e inflamado que veio de Hugo a Castro Alves. Não, o romantismo foi moda passageira. Antes dele já éramos assim; assim ficamos. Está na índole mesma de nossa gente. Já ouvi em dia de exaltação popular um orador ser impedido de prosseguir, pelo clamor dos aplausos, só porque, ao começar o discurso, a voz plangente se detivera em duas letras enfáticas... “De vitória... em vitória...” Esse tropeço e aquele entono fizeram, sem mais, delirar a praça pública repleta... Parlamento vi em êxtase porque, em oração vibrante, um dos nossos tribunos escandia as sílabas, revelando vogal muda a propósito de “conqüistas liberais”. Se não se compreendem as palavras, ou se delas se arrevesam em esgares ou convulsões, o triunfo é então definitivo... e explicável...

Os brasileiros continuam assim pomposos, sonoros, vazios, enfatuados, exprimindo idéias raras em termos impróprios e difíceis... Não renegava Euclides o seu povo. Tomava nota, nos punhos da camisa, de palavras estranhas que ouvia, ornava com elas frases refulgentes, e talvez buscasse assuntos heróicos ou sinistros para as encartar. Os seus cadernos íntimos denunciavam esse hábito. Um dia, em S. Paulo, na porta da Livraria Garraux, conversava com amigos. Achegou-se um homem humilde, que se pôs a contar façanhas sertanejas. Era por uma trovoada passageira de verão... “de repente, o céu escampou...” O matuto ainda não acabara, e já Euclides não estava... o verbo se fora gravar numa página imortal, feita talvez para ele... Bem pouco importam, haveis de convir, doutrinas e idéias, imagens e frases... quando há um céu escampo e admiração para se extasiar nele.

Se lhe faltava o gosto às vezes, tinha sempre o seu gosto: a palavra havia de ser sonora e rara; a imagem era enjeitada, se não crepitasse em deflagração ou lampejasse em deslumbramento; o próprio pensamento, dom sereno dos que meditam, sem fadiga nem pressa, parecia-lhe espúrio, se não lhe empinasse o dorso atitude arrogante de ênfase.

Nele assim tudo eram explosões e arestas. Não tinha matizes nem reflexões. Desconhecia os meios-tons e as transições insensíveis. Era, por isso, incapaz da ternura e da piedade; não há uma só de suas páginas em que a gente sinta os olhos se molharem de suave quentura comovida. Não escreveu de um regato, de um crepúsculo, canto de pássaro ou capricho de mulher. Jactou-se mesmo, certa vez, de não haver em todos os seus livros uma só destas criaturas. Talvez venha daí a admirável coerência de sua obra: certamente, por isso, lhe falta aquele encanto frívolo e frágil, aquele melancólico e doloroso desencantamento, que só elas conseguem dar a todas as aspirações e esforços humanos.

Ao invés, porém, os chapadões bravios, os rios grossos, as florestas despenteadas, as torrentes em fúria, as soalheiras sem tréguas... a fome, a guerra, o medo, o ódio, o sarcasmo, o espanto, o mistério, o delírio, a morte.. em frase curta e emperrada, ou no arranco distendido dos períodos, se apoderam de nós, com arrepios de horror, comoções de pasmo, frêmitos de entusiasmo, para nos louvarem, não raro... ao cansaço...

Essa crítica que lhe fizeram doeu-lhe porque era justa. Vinha de um espírito destemido e sincero,[5] que o aplaudira na primeira hora e se afligia por vê-lo sem progresso e sempre sem medida. Poder-se-ia, para escusá-lo, dizer que possuía os defeitos naturais de suas qualidades. Os clarões vivos são deslumbrantes... o ruído contínuo é insuportável... seja a luz mais pura e a música mais harmoniosa... A descontinuidade é o único meio psicológico de prover à fadiga da monotonia. Por isso, a perfeição é simples e deve ser vazia a beatitude.

Mais por diante, porque lhe descobriu talvez vestígio de sentimento, pungiu-se de outra crítica. Não a escreveram, mas foi atribuída a autoria ilustre. Contava-se que Joaquim Nabuco dissera de Euclides que ele escrevia com um cipó..  Ainda aí podia achar fácil conformação. Mas não o quis, para não se convencer. É que só queremos ser o que não somos: e saímos, assim, caricatura do próprio ideal. Aquele bárbaro, espantado e espantoso quando escrevia, supunha-se policiado, civil e mesureiro. Pretendia talvez o aticismo de Aristófanes ou a ironia de Renan. Traçaria linha reta que o prendesse à graça parisiense ou à sutileza helênica... E podia tanto se ter consolado em ficar brasileiro... e por isso em escrever com cipó!

A Obra de Euclides, Retrato do Brasil

De fato, Euclides da Cunha, cuja vida se superpõe como esquema reduzido ao destino da terra originária, retrata nos caracteres de sua obra a impressão conjunta das paisagens e das gentes do Brasil. Nenhum dos nossos artistas é como ele representativo deste meio e deste momento que atravessamos. Influência de viagens e de cultura, talvez originariamente ascendência de raças peregrinas, importadas e dissolvidas aqui, ainda sem adaptação, façam dos nossos artistas, na maior parte, amostras divagantes e imperfeitas de outros climas, outras civilizações, que reagem mediocremente, não ainda conformados à situação em que apareceram. Euclides, não; filho de antigos sertanejos da Bahia, a terra dos mais velhos brasileiros, aqui vivendo, aqui sofrendo, aqui pelejando, não só se plasmou produto genuíno desta ocasião étnica e civil da única definida de nossas raças como, por isso mesmo, refletiu poderosa e integralmente a sua terra e a sua gente. E, olhando em torno, que havia de observar e escrever? O Brasil, como é ainda hoje... terra bárbara e prodigiosa, cheia de encantamentos e decepções, onde se dispõem e se misturam todos os climas, vários povos, muitas aspirações e, apenas, ainda bem poucas realidades práticas, definidas... Reproduziu-os, pois, terra grossa e gentes grosseiras... Como deixaria de escrever com cipó... senão nos traindo ou traindo a si próprio?

Daqui mesmo ele vos fez uma confidência e uma confissão, com aquela valentia de seu caráter, maior e só capaz de vencer o seu grande orgulho. Foi quando, ao narrar a chegada ao estuário do Amazonas, referiu que nem a expectativa da imaginação e da descritiva, nem a sugestão tão fácil do já visto e já sentido por outrem, lhe comunicaram a expressão justa daquelas terras, ainda encharcadas de um dilúvio, daquelas águas barrentas, sempre em decantação, como infirmes e tateantes, umas e outras, diluídas em vasa ou emersas do pélago, na sedimentação construtora da profundeza ou aflorando à luz batismal do sol para contemplação muda dos céus e para maravilha ruidosa dos homens... Não soubera soletrar essa página contemporânea do cosmos... Não vira mais do que um oceano desatado e um céu monótono. E a arqueadura imutável de um se fundia, nos horizontes rasos, com o baço espelhamento do outro, na mesma decepção fatigada. Algumas horas no Museu de Belém, a leitura de textos semibárbaros de um sábio que prefigurara e lhe sugeria uma visão do Gênese naquelas paragens, e após nova contemplação de mangues, de águas e de céus, diz ele:

O que eu, filho da terra e perdidamente namorado dela, não conseguira, demasiando-me no escolher vocábulos, fizera ele usando de um idioma estranho, gravado no áspero dos dizeres técnicos. Avaliei, então, quanto é difícil uma coisa trivialíssima nestes tempos em que os livros estão atulhando a terra: escrever.

É que não basta, para falar e escrever, possuir a riqueza inesgotável do verbo que serve a quantas dificuldades e vai ao encontro de tantas expectativas, que arma a sentimentos desejados e chega além até das admirações mais insofreadas... Não basta ter a arte incomparável de mandar nas palavras e nas vozes obrigando-as a todos os caprichos e ousadias, para efeitos prodigiosos de colorido, de graça, de força ou de paixão... Essas são as que encantam e seduzem olhos e ouvidos, em frêmitos, êxtase ou comoção, em um momento, como paisagem efêmera ou música passageira...

Mas não atingem a alma... não se lhe estranham na intimidade, não comunicam com sua essência secreta, como as outras, mais raras, mais pensadas ou sentidas, mais sinceras com certeza, e por isso mesmo mais simples, que lhe acertam o caminho do coração. Porque valem pelo que comunicam e mais pelo que deixam a adivinhar. Volvendo no tempo, quando outros sucessos distraem a atenção dispersa e erradia, fica na memória a imprimidura forte que lhe conserva o vestígio, como o metal mordido pelo ácido guarda, indelével, a marca de uma posse definitiva.

Cícero ou Vieira, talvez os maiores talentos verbais de nossa linhagem intelectual, encantaram e surpreenderam a admiração e o entusiasmo de ouvintes e de leitores, através de séculos, com o patético, com a ironia, com a dialética ou com a graça que prestigiava a retórica ou o instinto de uma arte incomparável... Mas passariam nas almas se não vivessem sempre gravados nelas pelos acentos poderosos ou pelas dolorosas exprobrações com que um recuou além das portas de Roma os inimigos da pátria e o outro puniu os inimigos da humanidade, que atentavam contra a vida e a liberdade dos primeiros brasileiros.

Surpresa e Maravilha da Obra de Euclides

Surpreendeu e maravilhou Euclides da Cunha a muitos, se não a quase todos, pelos dons de um estilo túrgido e veemente a que uma contração contínua, tal como uma contratura ou um espasmo de frase, dava o aspecto falso e artificial, por isso mesmo mais acessível ao vulgo, de rebuscamento e de acrobacia... É que não teve tempo de ser simples... de somente atingir as almas, sem satisfazer de caminho entusiasmos fáceis e comparsarias equívocas de uma turba quase iletrada, pelo menos impolida, que se paga com sonoridades ocas ou cenografias coloridas. Rufou tambores... acendeu fogos de vista. Escreveu com cipó, como lhe apodaram...

Esse mérito menor de sua obra, que ainda assim foi um, sabendo do público a que se dirigia, reclamou talvez decisivamente a atenção entorpecida e dispersa da multidão para as idéias que propagava... Escreveu por isso mais facilmente nas almas recuadas e tímidas, indolentes ou atônitas, que vivem nos milhões de gentes desconsoladas deste País...

Se não depois dele exatamente em tempo, ao menos por causa dele em intensidade e prestígio, começamos a nos interessar, a pensar e até a escrever, dessas terras largadas do Brasil, das gentes abandonadas do Brasil, que ainda trezentos anos depois de reveladas ao mundo estão por se descobrirem e serem civilizadas... Será esse o seu mérito... de ter sido perdidamente enamorado delas para lhes querer presente melhor e, desesperado de o conseguir, sonhar com futuro digno delas...

Por isso ele viverá ainda, quando outras vozes mais cultas, mais polidas, mais harmoniosas, se não mais presumidas, se tiverem calado. É que escreveu dos sertões, o nosso coração, portanto para a alma do Brasil! 

Foi o guieiro de uma bandeira gloriosa de intelectuais que o hão de seguir na mesma faina civilizadora... a de integrar a pátria pela conquista política social e moral dos sertões brasileiros acrescidos a este litoral em que há três séculos vivemos contentando a ambição vazia apenas com a vaidosa contemplação das cartas geográficas que mostram a distensão de nossos domínios como se não nos devêssemos correr de vergonha por nós crescerem as terras, à medida que nos vais minguando o mérito de possuí-las...

Euclides da Cunha foi o primeiro bandeirante dessa entrada nova pela alma da nacionalidade brasileira. Seu nome ficará até lá onde foi ter o seu arrojo e a sua ambição.

Porque o compreendo assim, e muito o invejo por isso, mal me sofre o ânimo a humilhação de o substituir entre vós. Apraz-me pensar ser em situação semelhante que se diz de muita gente que ocupa os lugares sem os preencher. E porque há aqui tantos, todos, capazes de trabalhar e fazer pela glória das letras, das artes e da civilização do Brasil, sinto-me, por isso mesmo, estranho e demais. Com ser invejada, não me desvaira, como vedes, a imortalidade usufrutuária que vossa incompreensível bondade me conferiu.

Mas já tentei explicá-la, e aqui fico, com aquele carinhoso simbolismo que vos dará irrefletida preferência e a mim dedicação para vos servir.

 

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[1] Em artigos publicados no Jornal do Commercio, contestou o Sr. Dr. Alberto de Faria a fidelidade da versão que aceitei. Teria sido do Ministro da Guerra, Conselheiro Tomás Coelho, a iniciativa da bondade com que foi tratado o autor da indisciplina. Com efeito, na sessão da Câmara de 5 de novembro de 1888, leu o Ministro do Império carta do seu colega, em que dizia: “Atacado visivelmente de um acesso nervoso, foi (Euclides) recolhido por minha ordem à enfermaria militar, onde deveria ficar em observação; sendo certo que, logo depois do incidente, foi ele socorrido pelo médico que estava presente.” Narrei o que ouvira ao próprio Euclides. Convenho que não teria, no caso e no momento, isenção, para imparcialidade, ou calma, para boa memória.

[2] Tentativa malograda de explosão  à dinamite contra a redação do jornal O Tempo. Ao redator, Dr. F. Borges, escreveu o senador J. Cordeiro a carta aludida, publicada no número de 17 de fevereiro de 1894. O artigo de Euclides da Cunha saiu na Gazeta de Notícias de 18. A 20, novo artigo de réplica, no qual se declara tão republicano quanto o velho político, “havendo, entretanto, no culto que ambos tributamos à República, uma diferença enorme. S. Exa tem por ela um amor tempestuoso e cheio de delírios de amante; eu tenho por ela os cuidados e afeição serena de um filho.”  Saiu-lhe madrasta.

[3] “Bahia, 20 de março de 1896. Sr. Euclides. Proposital e refletidamente retardei a resposta de sua carta de 10 de janeiro do corrente ano para fazê-lo no momento mais oportuno. Em sua carta pediu-me um conselho com relação à sua volta ao serviço militar; pois bem, como está a terminar o tempo pelo qual ficou agregado, sem a intenção de dar conselhos, dir-lhe-ei, com a mais rude franqueza, o que penso a respeito. Em minha família tenho exemplos frisantes para oferecer à vossa inteligente observação.  Dois de meus irmãos, muitos primos e outros parentes que abandonaram a carreira militar, uns para utilizarem heranças que receberam, outros para ocuparem lugares na carreira civil, ficaram paupérrimos e alguns até na miséria, ao passo que os poucos que com perseverança continuaram e fizeram profissão da carreira militar estão independentes e têm servido de proteção e amparo aos outros. Aí está no Rio de Janeiro a família Lima e Silva, na qual todos os que abandonaram a carreira das armas para usufruírem grandes fortunas que lhes foram legadas por seus progenitores, outros para exercerem elevadas colocações no período em que o prestígio daquela família predominava, estão hoje mendigando, com humilhação, pequenos empregos e pesando aos que, com perseverança, não abandonaram aquela profissão. Se voltarmos as vistas para o Rio Grande do Sul, além de minha família já referida, encontraremos nos descendentes das três mais poderosas famílias, Menas Barretos, Azambujas e Sarmento-Minas, um resto de militares para amparar da pobreza, e até da miséria, centenas de seus membros que por falta de perseverança não estão hoje figurando na carreira das armas; além de muitos outros exemplos que seria fastidioso enumerá-los. À vista, pois, do que venho de expor, aliado à opinião de alguns amigos que consultei, penso que será um desastre abandonar a melhor profissão que existe no País, e que com tanto lustre soube iniciá-la e nela se tem mantido. Todos desta casa, etc. – Frederico Solon S. Ribeiro.”

[4] João Ribeiro.

[5] José Veríssimo.