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Discurso na Sessão Inaugural da nova sede da ABL - Petit Trianon (15/12/1923)

DISCURSO DO PRESIDENTE AFRÂNIO PEIXOTO




A ACADEMIA Brasileira tem na sessão de hoje sua maior ou mais decisiva solenidade depois de sua fundação. Como na dos indivíduos, a vida das instituições é obrigada, nesses momentos impressivos, a parar, na concentração de um juízo, que procura a razão dos sucessos.


Se numa fórmula resumida pudéssemos achar a definição destes quatro séculos de civilização, na jovem e livre América, creio que não seria outra senão esta: buscamos uma tradição... Na vida do homem ou na dos povos, o passado deve existir, para honra do presente, para crença no porvir. A história, ainda falsificada pela lenda, a etnografia, embora fantasiada com a ignorância, são o substrato do patriotismo, que é afirmação necessária da nacionalidade. O nacionalismo, espécie de vaidade coletiva, tem sua visão ambiciosa justificável nas próprias ilusões desse passado.


E onde ele não existe, impõe a vida social que seja criado. Os peregrinos do Mayflower, que fogem à tirania da metrópole, e deixam-lhe CromwelI e a revolução sanguinolenta, vêm a ser, na imaginação de um povo de mais de cem milhões de almas, o núcleo desses puritanos, industriosos e ousados Americanos do Norte. O México e o Peru podem tornar mais além, e invocam Astecas e Incas, esquecidos do recente e dominante que têm, de Ibéricos e Cristãos. Nós outros do Centro e Sul América andamos também à procura da nossa tradição, e como politicamente havíamos de romper com violência contra os nossos ilustres ascendentes, e nos envergonhavam os aborígines e os adventícios, deixamos de parte a etnografia e nos demos à cultura da língua. Tão deliberada e aproveitadamente, que os maiores filólogos hispânicos, Andrés Bello e Rufino Cuervo, são sul-americanos. O maior escritor português contemporâneo, representante oficial da literatura e do povo lusitano, Júlio Dantas, confessou-o há pouco: deste lado do Atlântico é muito mais cuidada a cultura do idioma comum.


Toda nossa copiosa produção gramatical, essa literatura tantas vezes verbal que vai crescendo, essas tendas vernáculas espalhadas pelos jornais, pelas livrarias, pelas esquinas, dentro de cada lar, esses milhões de mestres e discípulos que procuram saber o que se não deve dizer, ou como se deve escrever, que é isso, senão a busca de uma tradição? Inconscientemente, mas imperiosamente. Não remontaremos, em nossa heráldica, aos Cruzados, como nas nobiliarquias, mas pelo espírito e pela língua, com o dicionário e a gramática, chegamos aos Quinhentistas...


A Academia Brasileira, que assumiu o trato e a cultura da língua, é, ou tende a ser, o maior órgão dessa nossa tradição. A instabilidade ambiciosa e esperançada dos povos já impede em nosso tempo a impassibilidade política. A monarquia não chegou a viver aqui três quartos de século; a primeira Constituição teve logo um ato adicional; a outra vai tendo sucessivas ameaças de reforma. Os Códigos, quando se não emendam nas sucessivas redações, como o Civil, são emendados constantemente nas aplicações da prática, como o Penal. Como as dos homens há uma aposentadoria das leis, por invalidez. O Senado já não é vitalício e a compulsória já vai chegando aos civis. Onde, no Brasil, uma instituição restrita e portanto aristocrática, vitalícia e imortal?


Só a Academia Brasileira. Não me julgueis ambicioso nessa declaração. Imito o grande espírito do nosso tempo, aristocrata, religioso, literário, portanto tradicionalista, a Paul Bourget, quando afirma que três pilares têm a ordem na Europa: na moral, o Vaticano, na política, a Câmara dos Lordes, nas letras, a Academia Francesa. Sem eles, seria o caos total, com o repúdio ao passado, a desorganização presente, e mais do que a incerteza futura.


Ainda mais que as velhas terras da Europa, essas da América carecem de amparo à ordem, à autoridade, que é instituição por excelência conservadora, como esta que há vinte e sete anos, tendo em face, e na admiração, o modelo da Academia Francesa, fundaram Machado de Assis, Lúcio de Mendonça, Joaquim Nabuco. Benditos os governos que se vêm sucedendo, e compreenderam que prestigiar tal instituição é aumentar a própria autoridade, porque a ordem social depende do respeito às instituições do passado, consolidando tradição que se vai fazendo, e, séculos depois, quando tanta cousa houver mudado no Brasil, será coluna sempre erguida e forte, pela língua, pela literatura, pelos costumes e pela maneira, a conservar, a perpetuar, a sublimar o nome e a fama brasileiros.

Não se contentou, porém, a França em nos ter dado o modelo de uma imortal Academia, para a esperança ambiciosa da nossa. Heroína do ideal, em todos os tempos, ela tem sido sempre para nós a mestra de inteligência, de gosto, de civilização.


Não a vimos tentando a catequese católica no Maranhão, com os Claude d’Abbeville e os Yves d’Evreux? tentando no sul a tolerância e achando a oposição calvinista, que havia de malograr o sonho de Villegaignon? As idéias de emancipação política de lá nos vieram, de Montpellier, com Vidal Barbosa e Mariano Leal; e foi em Nîmes que José Joaquim da Maia procurou encontrar-se com Thomaz Jefferson, para o transplante de um galho da Revolução... A missão artística de 1817 nos dá a iniciação estética com os Le Breton, Debret, Montigny, Pradiez... Pela Independência o Rio era uma cidade francesa... jornais, – vai fazer um século um deles, o Jornal do Commercio – tipografias e livrarias, – ainda são francesas algumas, – hotéis, casas de modas, que têm nomes e trato francês, – médicos, advogados que estudam e aprendem por cursos franceses, – nos educaram na sociabilidade, no gosto, no conforto, na cultura intelectual.


Os tempos mudaram, mas o espírito latino e francês, que nos deu a França, definitivamente nos fizeram a alma. Pois bem, como se não bastara, essa mesma França que nos vem felicitar pela nossa maioridade política, comprovada por um século de liberdade, ao Brasil traz um mimo de arte, um palácio de bom gosto, para o oferecer, – a quem? à instituição nacional que representa a nossa inteligência, o nosso espírito, como significando à nossa jovem Academia que não quis só influir para a sua criação, mas dar-lhe uma sede, um lar, um templo, onde oficie o espírito latino, francês, brasileiro, para glória comum de nossa civilização, como dizendo a esse adolescente Brasil, ora preocupado dos bens materiais da vida, que nenhuma nação grande e forte jamais subsistiu sem esse culto de ideal que as artes e as letras representam, e é preciso tornar vivedoiro e eficaz desde os anos mais tenros.

No gesto generoso da França há mais que a munificência carinhosa que dá, há a lição implícita de mestre admirável, ao Brasil adolescente, uma noção de respeito, gratidão, apreço à literatura, sem os quais os povos não vivem, nem na felicidade do gosto, nem na perpetuidade da memória. É mais que um prêmio que consagra, é uma animação que impulsiona. Nesse belo “presente”, há um esperançado futuro...


Assim o compreendeu o governo de S. Ex.a o Sr. Presidente da República, nos permitindo, desde a primeira hora, recebê-lo, nos afirmando que a sensibilidade a este gesto era tamanha que desejava tê-lo feito, colaborando nessa doação com todos aqueles passos e decisões, para que o Brasil não ficasse aquém da generosidade da França, numa dádiva que beneficiava a instituição nacional. A Academia Brasileira lhe será grata, por toda a imortalidade de sua divisa, ao Governo que tão bem representa o Brasil, que já nos acata e prestigia; como será reconhecida aos ilustres Poderes Municipais que ao gesto de hoje colaboraram, representando dignamente esta cidade do Rio de Janeiro, a face do Brasil, que nos ama; como a vós, vos será agradecida, Sr. Alexandre Conty, que tão bem representais a França, que nos acolhe e nos anima...


 Os vossos atos amistosos de entendimento político e diplomático com o nosso Governo, Sr. Embaixador, a simpatia do vosso talento literário pelas cousas e letras do Brasil, o vosso carinho pela Academia Brasileira, desde o primeiro dia em que, na companhia do meu confrade Graça Aranha, dela vos falei, até este momento em que consagrais essa predileção num grande ato, nos revelam um amigo, que saberemos bem querer, por vós e pela vossa grande Pátria, que é também a nossa pátria espiritual.


E essa gratidão da Academia, Senhores, é a da tradição brasileira que se constitui, que nos será um dia os pergaminhos de nobreza histórica, que nos traça rumos ao espírito, nos dá ambição à cultura e endereço à civilização, que não esquecerá jamais a França tutelar de ontem e d’agora, e honrará ao Brasil de hoje e de sempre, para glória imortal de nossa sem par civilização latina.

Acadêmico relacionado : 
Afrânio Peixoto