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Discurso na Última Sessão no Silogeu Brasileiro

DISCURSO DO SR. COELHO NETO

A Consagração da França

A ACADEMIA Brasileira nasceu no escritório da Revista Brasileira, no primeiro andar de um prédio humilde na antiga Rua Nova do Ouvidor, hoje Sachet. Duas salas acanhadíssimas: redação em uma, secretaria em outra.

Dos sócios da casa o menos assíduo era o sol, representado, quase sempre, pelo gás, porque, desde a escada, tinha-se a impressão de que, em tal cacifo, mal os galos começavam a cantar Matinas, a Noite recolhia a sua sombra, pelo menos a parte com que escurecia o quarteirão logo que o sino grande de São Francisco, lentamente em sons graves, dobrava as Ave-Marias.

Na redação reuniam-se, diariamente, chuchurreando um chá chilro, José Veríssimo, diretor da Revista, Paulo Tavares, secretário, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça, Graça Aranha, Paula Ney, Domício da Gama, Alberto de Oliveira, Rodrigo Octavio, Silva Ramos e Filinto de Almeida.
Por vezes apareciam Bilac, Guimarães Passos, Raimundo Correia, Valentim Magalhães, Pedro Rabelo e outros.

Andava eu, então, publicando na Revista um romance – Agareno, – posteriormente crismado em Tormenta, e só me atrevia a afrontar-me com a treva da escada carunchosa e rangente, na qual, mais duma vez, encontrei ratazanas pré-históricas, quando recebia chamado para rever provas.

Com o negrume do recinto contrastava o brilho da palestra que ali se tratava. Se as ideias fulgissem e as imagens relumbrassem, certo não haveria em toda a cidade casa mais iluminada do que aquela. Infelizmente, porém, apesar dos conceitos diamantinos de Machado de Assis, do esplendor dos períodos de Nabuco, da cintilação espírito de Lúcio e dos paradoxos relampejantes de Paula Ney, era necessário manter sempre aceso um bico, ao menos, de gás, para que tantos luzeiros não andassem aos esbarros desmantelando pilhas de brochuras, abalroando nas mesas, que eram duas, uma das quais de pinho reles e tripeta, claudicando sob o peso glorioso de obras-primas à espera de editores.
Foi em tal pobreza obscura, como a do presepe (honni soit qui mal y pense!), que nasceu a Academia e, se anjos não esvoaçaram no beco, anunciando o natal da Instituição, cá em baixo, na terra rasa, teve a recém-nascida vozes que, se não a glorificaram com Hosanas, fartaram-se de a arrastar anunciando-lhe a morte com prognósticos ridículos.

Fraca, entanguida, morre, não morre, a Academia só não sucumbiu porque teve a desvelá-la a dedicação dos seus fundadores, que a aleitavam com esperanças, leite muito dessorado, e envolviam-na, para aquecerem-na, em faixas de entusiasmo.

Lúcio era o mais corajoso e solícito dos aios da pobrezinha. Foi ele que a vacinou com a linfa da perseverança; foi ele que a curou da coqueluche, que lhe pôs ao pescoço o colar de âmbar para evitar as crises da dentição, que a batizou no templo das musas e que lhe incutiu n’alma a grande Fé, tônico que a fortaleceu para vencer os percalços da primeira infância. Um dia – já, então, a Academia andava por seu pé, falava e comia de garfo nos famosos jantares da “Panelinha”, Machado de Assis, que era o seu Presidente, comunicou que o Governo resolvera dar à instituição, reconhecida de utilidade pública –  instalação condigna em uma das alas do Silogeu, dotando-a ainda com uma verba de vinte contos anuais para sua manutenção.

Com tal benefício ficaram os acadêmicos dispensados da mensalidade com que contribuíam e, em vez do que lhes saía do bolso, muito ratinhado, passaram a receber a cédula de presença na importância de vinte mil réis.

E a Academia começou a funcionar com regularidade, e cadeiras, no edifício da Lapa, onde o sol entra a jorros e com o sol o estrondo dos bondes e de mil outros veículos perturbadores do silêncio e da serenidade. Certo dia – a Política não tem entranhas! – o Congresso, por motivos que a História ainda não averiguou, resolveu suspender a cesta dos pastéis e a Academia voltou ao regime da penúria, celebrado por Aristófanes e Licurgo – e as sessões tornaram-se pouco frequentadas e desinteressantes. Foi nesse período de aperturas que a Morte, rebentando uma represa da Fortuna, fez com que rolasse para a Academia um rio de ouro.

O fenômeno causou surpresa, o macaréu chegou a provocar protestos e a Inveja açulou contra a que se deitara em estrame e acordara em leito atálico, toda a matilha do seu ódio.
O que se disse da herdeira, santo Deus! O interessante, porém (sempre a raposa da fábula!), é que muitos dos que mais se acirraram contra a vinha andam-lhe agora em volta, em cúpido farisco, d’olho nos cachos, que já lhes não parecem verdes, procurando meios de guindar-se pela cepa até alcançarem lá em cima os bagos sumarentos.

Eis que agora a França, não só acrescenta as posses da Academia com valores preciosos, como ainda lhe dá o prestígio de um prêmio de honra, fazendo-a legatária do palácio, que edificou para sua residência, na Avenida das Nações, com as riquezas que o exornam e que são exemplares, e dos mais belos, do seu patrimônio artístico, que ela, decerto, não confiaria a quem não fosse digno de os possuir. Que dirão de tal gesto os que tudo nos negam?  Pois a França, a quem se não contesta a hegemonia intelectual, reconhece oficialmente a Academia Brasileira? A França de Montaigne e de Racine, de Rabelais e de Molière, de Ronsard e de Hugo, de Voltaire e de Anatole, acolhe no seu girão o Brasil de Gonçalves Dias e Alencar, de Castro Alves e Machado de Assis, de Álvares de Azevedo e Bilac, de Aluísio e Raimundo Correia!?  Mas então nós somos alguma coisa... Ora esta!
Não há como o estrangeiro para descobrir o que temos, não só na terra, em belezas naturais, como nas criações da inteligência.

É possível que, de hoje em diante, assim como já nos interessamos por certas paisagens, louvadas pelos que nos visitam, leiamos os nossos autores dignificados pela França.  Já não é sem tempo...
E não terminarei sem algumas palavras à nossa Academia. Não as direi eu, mas o grande Bernardes, que mas emprestará de uma das suas mais formosas selvas. Medite-as a Academia dos Felizes, porque há nelas conselho:

Na Igreja Primitiva os Cálices eram de madeira, como consta do Concílio Triburiense, celebrado em tempo do Papa Formoso, ano 895, e destes usaram os Sagrados Apóstolos, como diz Honório Augustudunense, citado por Bernardo Bispo na sua Hierurgia. E essa é a razão daquele tão decantado apotegma de S. Bonifácio Mártir, bispo de Mogúncia, que perguntado se era lícito consagrar em cálice de pau, respondeu: “Antigamente os cálices eram de pau, e os sacerdotes de ouro; agora os cálices são de ouro, e os  sacerdotes de pau.”

Acadêmico relacionado : 
Coelho Neto