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A latinidade aberta ao Islão

A Universidade Candido Mendes realiza, nesses dias, o II Encontro Internacional, dedicado ao estudo da Herança Islâmica, nesta faixa do mundo ocidental, a Latinidade diretamente ligada à influência do Mediterrâneo. Na França, Espanha, Itália, România, até todo este conjunto da nossa América, onde, dentro de mais dez anos, seremos cerca de meio bilhão de herdeiros, no Ocidente, da cultura que hoje se vê como o lado humano da globalização.


Não se trata apenas de atentar ao quanto, exatamente há um ano da queda do W.T.C., vai depender cada vez mais das nações meridionais européias, associadas às do lado de cá do Atlântico, o escaparmos desta síndrome das "Guerra de 100 Anos", em que pode se enquistar a luta contra o terrorismo. O que é, ainda diálogo, hoje em dia, quando o eixo de Washington se fecha sobe o mito das star wars, e define uma nova e inquietante "terra de ninguém" entre o que pensa o país hegemônico e o cotidiano do medo, após o inconcebível atentado de 11 de setembro?


É significativo, inclusive, que o único país que se associe, corpo e alma, com o intento de Washington no iminente ataque ao Iraque, seja a Inglaterra. Ao mesmo tempo, amplia -se a enorme população americana, que manifesta o desejo de que o Presidente defina a prova da iminência de uma guerra bacteriológica contra o Ocidente, de parte de Saddam Hussein. O que é hoje a linha do diálogo, onde a convocação da Academia e das Universidades, ou destes ainda crítico centro nervoso dos intelectuais em todo o mundo, que tenta "revirar a tartaruga"? Ou seja, pôr outra vez em marcha, passo após passo, o caminho do entendimento da cabeça dos homens acompanhando, objetivamente, este mundo só, transformado em ideologia dos mercados globais. Valha-nos o que disse, dentro da inevitável arrogância de quem se permite falar, urbi et orbe, como uma letrada self made, Susan Santag, no seu desabrido estudo. Reconhece o quanto os Estados Unidos, no melhor da sua preocupação com o mundo lá fora, querem voltar às amarras de um entendimento universal, saindo da carapaça defensiva do sistema. Cabe às grandes universidades americanas retomar as melhores tradições libertárias, que fizeram a nação à frente das outras, como espaço continental das emigrações de todas as etnias e, sobretudo, durante o nazismo, bastião do pensamento mais criativo europeu no último século.


O Presidente Khatami foi, sem dúvida, o primeiro dos líderes do dito "outro lado", que lançou, diante das Nações Unidas e da UNESCO, a proposta do diálogo entre as civilizações. Antecedeu o 11 de setembro o risco percebido pelo reformista e democrata de Teerã, frente aos controles cegos do mercado global. O importante não é só o timbre estratégico, que tem a idéia, partindo de uma liderança que traz o movimento revolucionário ao repetido plebiscito democrático, reeleito Presidente, com 80% do voto popular no qual, a parte do leão vai à juventude e ao peso que têm as universidade iranianas emergentes.


A Academia da Latinidade já respondeu ao convite, como primeira expressão relevante de uma cultura ocidental, que vai à busca do contato com o Islã, um a priori da confiança no mundo dos homens, frente às ideologias e aparelho de poder. Seu Presidente é, exatamente, o ex Diretor Geral da UNESCO, Federico Mayor, hoje entregue à tarefa prioritária para o mundo pós 11 de setembro, não de procurar uma mera trégua internacional, mas de levantar genuína cultura da paz. Quer-se emprestar-lhe determinação genuína, distante de movimento como o do velho desarme ou o da ecologia, ameaçado após Johanesburgo, de se transformar numa dessas retóricas piedosas de um mundo capturado por poder hegemônico.


Ao lado de Mayor estão aí, como nossos Vice-Presidentes, Mario Soares e Gianni Vattimo, o pai da redemocratização portuguesa e, sem dúvida o maior filósofo pós-moderno da Itália, ambos, significativamente, hoje eleitos para o Parlamento Europeu. Alain Touraine, Remi Brague, Edgar Morin, Carlos Fuentes são outras vozes maiores desta latinidade, que acorre com a força do seu pensamento à quebra do espírito das cruzadas. E, significativamente, o desejo dos iranianos é que se possa definir verdadeiro vis-à-vis com o Ocidente, pluralista, mas laicizado, atingido hoje pela dispersão das religiões em seitas e pelos evangelismos do aventureirismo de massa. Mas, por outro lado, impelido pela tomada de consciência dos Direitos Humanos, de par com a efetiva e unânime implantação em Haia, de um Tribunal Penal Internacional.


O atual debate do Rio discute o exemplo iraniano na trazida da religião ao eixo de um Estado Islâmico, o que seja a shariah muçulmana, como abrangência radical de um sistema de vida pela lei, e não apenas no quadro mínimo da disciplina jurídica sobre o indivíduo, típica do Ocidente. Não se poderia, neste contexto, também, deixar de debater-se o pós 11 de setembro, no que respeita a atitude de espera da cultura islâmica diante da resposta ocidental, seja árabe ou do Irã shiita, do Oriente Médio, do Paquistão, da Indonésia ou dos países sub-saarianos.


A constelação destes regimes abriga a recepção tecnológica do Ocidente, de par com a reiteração de suas crenças profundas, tal como a Arábia Saudita ou o Iran, ou vai a resistências, no clima de confronto total, por onde os fundamentalismos podem exacerbar-se, nos movimentos multi nacionais e difusos, quais o do Al-Qaeda. A delegação iraniana, chefiada pelo Embaixador Masjed Jamei, conta com alguns dos principais especialistas da problemática contemporânea dentro do Islã, como o Prof. Sariolghalam e Saideh Lotfian, editores da revista "Discourse" em Teerã; de cientistas sociais de há muito radicados na França ou no Canadá, como os Professores Tabatabai e Ramin Jahanbegloo, e grandes especialistas franceses do Islam, como Yann Richard e André Roussilon. A Conferência do Rio quer deixar a sua marca, neste desbloqueio do mundo das esperas e do terrorismo sem volta, que paralise a reflexão sobre o nosso tempo, frente ao mito também sem volta das star wars e dos exterminadores do mal.


 


Jornal do Commercio (RJ) 13/9/2002