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A crise à espera das ruas

Não deparamos nesses dias a esperada repetição, na atual crise, da ida às ruas, das “Diretas já” ou do “Fora, Collor”. O grupo Vem Pra Rua, por exemplo, prudentemente, cancelou, sem novas datas, as suas convocações.

Não se verificou um fluxo continuado em crescente nos espaços públicos. Se a militância ganhou uma dimensão nacional, foi, ao mesmo tempo, dentro de uma grande desproporção desse comparecimento e, especialmente, no contraste entre o Norte, mais arredio, e o Sul do país. Se prosseguem ainda os propósitos, o que se observa é uma profissionalização do protesto, com os sindicatos e as associações culturais, fora de um desbordo de massa.

Reforçam-se, por outro lado, os impasses imediatos da sucessão, frente à fragilidade das atuais chefias do Congresso, ambos, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, na mira da Lava-Jato e do fuzilamento, no comando de Sergio Moro.

A perplexidade parece irreversível, diante da ausência das lideranças para um novo desempenho das esquerdas, como das direitas, e o constatar-se nenhum carisma de lideranças emergentes, em todo o cenário, a qualquer prazo.

Da mesma forma, se consolida uma estratégia de espera nas diferentes apostas sobre o tempo do processo de Temer e a fieira de recursos para o seu desfecho. Os pronunciamentos antecipados dos ministros do Supremo, por outro lado, não indicam a convergência de conteúdo da decisão ou da rapidez das sentenças. O momento cívico não baniu, tampouco, as possíveis transações quanto ao limite do afastamento do presidente e da mantença ou não de seus direitos políticos.

O status quo reafirma que manterá o programa de reformas dentro da agenda prevista. Já a oposição, em termos incisivos, declara que bloqueará qualquer nova iniciativa do situacionismo.

Também se afigura o continuísmo do atual Congresso, tangido pela consciência de sua presente impopularidade, a fugir, por inteiro, de qualquer novo teste das urnas. O persistente carisma de Lula calcinou uma nova geração petista, e o massacre de Aécio conduz à presente tensão entre os dois principais partidos do atual situacionismo. Reconhece-se, também, como o pedido de golpe vai à mais redundante das retóricas. As lideranças políticas perderam a voz, e nenhum epitáfio é mais contundente que o das fotos do pugilato no Congresso, com as vias de fato do senador Randolfe Rodrigues, no salto, aguerrido, no plenário do Senado.

O Globo, 15/06/2017