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Discurso de posse

O IMPRESSIONISMO EM LITERATURA

Ao historiador literário, o século XIX aparece como uma das épocas mais fascinantes, máxime levando-se em conta a variedade de correntes estéticas que a atravessam, cruzando-se e entrecruzando-se, atuando umas sobre outras, opondo-se, prolongando-se, superando-se ou interpenetrando-se de modo a torná-lo um dos maiores laboratórios de idéias estéticas e uma encruzilhada de alta relevância espiritual e artística. Graças à ebulição produzida pelo entrechoque das doutrinas, é de intensa fecundidade o período.

Suas correntes e escolas literárias não oferecem, em conseqüência, contornos nítidos e apresentam, ao contrário, entre si, zonas fronteiriças quando não misturam os respectivos coloridos estéticos a ponto de os próprios representantes vestirem roupagens diferentes no curso de sua evolução ou participarem das qualidades e características de diversas. A famosa antologia Le Parnasse Contemporain, lançada entre 1866 e 1876, é o ponto de partida tanto do Parnasianismo quanto do Simbolismo, algumas das principais figuras tendo pertencido aos dois movimentos. Eis aí um dos mais curiosos fatos da História literária.

Aliás, esse e outros exemplos dão razão à historiografia moderna, que se recusa a admitir a noção da delimitação exata entre as épocas literárias, abandonando a idéia de começo e fim em datas fixas. Ao invés, estão mais acordes com a realidade as noções das áreas intermediárias, das gamas estilísticas, das interpenetrações de estéticas, da impureza de estilos ou escolas. A nova historiografia de cunho estilístico arma-nos, assim, de doutrina muito mais flexível e realista.

A década de 1880 assiste à liquidação do Naturalismo como movimento literário, a qual acompanha a crise do Materialismo e Positivismo. Em verdade a concepção materialista da vida e da Arte já cansava os espíritos. Uma onda de religiosidade e reespiritualização, subjetivismo e idealismo, procurava afastar a Arte e o pensamento do mundo da realidade estrita, da crua pintura da Natureza, repelindo a teoria de que Arte e Natureza se confundem. A reação exprimia um sentimento de desgosto, tédio e revolta, contra a hipertrofia da matéria, em nome do subjetivismo e misticismo. O Materialismo era identificado com a concepção burguesa da vida, daí a reação concretizar-se na atitude de rebeldia da boêmia, decadentismo ou exotismo, mundos diferentes para os quais se pudesse escapar.

Do âmago dessa tendência desenvolveram-se novos estilos e escolas artísticas – o Simbolismo e Impressionismo. O primeiro tem sido devidamente valorizado, mas o Impressionismo, em sua expressão literária, só recentemente encontrou compreensão e estudo crítico adequado, especialmente graças aos métodos e doutrinas da nova crítica. Utilizando a periodologia estilística, pela aplicação dos conceitos e da análise dos estilos individual e de época, a nova crítica e historiografia literárias vêm descobrindo ou redefinindo épocas anteriores inclassificadas ou figuras retardadas ou perdidas.

Está entre essas o Impressionismo literário. Tanto quanto o conceito de barroco aplicado à definição da Literatura seiscentista, o Impressionismo literário do final do século XIX foi batizado por um conceito oriundo das belas-artes. Proveio da Pintura, como extensão da denominação dada por Claude Monet a um seu quadro, Impression, exposto no salão de 1874. Mais tarde com o livro de Louis Durants, Les Peintres Impressionistes, de 1878, oficializou-se a designação para toda a escola de pintura nova. Mas a estética revolucionária não se resumiu à Pintura, contaminando as demais formas, inclusive a Literatura, constituindo uma verdadeira época artística, entre 1860 e 1810 com unidade de princípios estéticos, concepção de vida e artifícios técnicos próprios.

No Impressionismo, como estilo artístico, dominam os princípios da Pintura, repetindo o velho conceito horaciano do Ut pictura poesis. A Literatura e a Música deixam-se impressionar de tal modo com as seduções da Pintura, que esquecem muitos dos seus próprios requisitos.

Desde 1850, a Arte buscava novas direções. Em 1863, no Salon des Réfusés, no qual se reuniram os trabalhos rejeitados pelo júri tradicionalista do salão oficial, um quadro marcou as atenções: Le Dejeuner sur l’herbe, de Manet, e a ele se deve o impulso inicial da escola impressionista em Pintura, a fórmula pictórica estendendo-se em poucos lustros à Música e à Literatura, num desenvolvimento paralelo ao Simbolismo.

Em Pintura, o Impressionismo distinguiu-se por nítidas características. Em primeiro lugar, os problemas da forma tornam-se preocupações dominantes, aliás não somente na Pintura, senão também na Literatura. Demais dela outras qualidades estéticas se impuseram: a luz solar é a única fonte criadora das cores; a forma e a cor são noções inseparáveis; a Pintura não é imitação da Natureza, mas sua interpretação artificial; as cores é que são responsáveis pela profundidade; nas superfícies planas a sombra não é coerência de luz, mas uma luz de outra classe; o assunto é detalhe acessório, a mesma paisagem podendo oferecer aspectos diversos conforme as mudanças de luz. Em Literatura, o Impressionismo afirmou o triunfo da descrição sobre a narração; o domínio da atmosfera das grandes cidades; o entusiasmo pelo movimento, pela vida, água, sol, cor, ritmo; a superioridade da Poesia pura; a obsessão com o elemento psicológico e sua expressão; a redução de todo valor poético à sensação pura e sua descrição, negando a forma externa das realidades; o uso da linguagem em combinações de palavras tais que sejam o instrumento de registro das impressões, abolindo em conseqüência no escritor a reflexão sobre as coisas, e exigindo dele que se anule para assimilar as qualidades do objeto na sua inteireza.

Em verdade, o Impressionismo, em Literatura, é resultante da fusão de elementos simbolistas e realistas. A realidade, cuja reprodução exata era a norma do Realismo, deixou de existir como foco de interesse, pois o impressioniosta procura registrar a impressão que a realidade provoca no espírito do artista, no mesmo instante em que se dá a impessão. Daí que o mais importante seja o instantâneo, o momento exato em que as emoções e sensações surgem no espírito do observador. Não se trata de apresentar o real tal como é visto, mas como é visto e sentido num dado momento. A subjetividade colabora, e foi graças a este elemento que o Impressionismo se aliou ao Simbolismo no movimento finissecular de reespiritualização da Arte. O real passou a ser encarado através de um temperamento, pelas sensações e impressões que desperta, num singular momento que passa transferindo o negistro das relações externas para o das relações internas e o das impressões produzidas no espírito pelo contato com as coisas, cenas, paisagens ou pessoas, sem falar nas obras de Arte e Literatura. Conforme acentua Arnold Hauser, a filosofia da vida implícita no Impressionismo é aquela idéia de Heráclito de que o homem não mergulha duas vezes no rio da vida em eterno movimento, os fenômenos não sendo os mesmos nesse fluxo constante. Daí o domínio do momento sobre a continuidade e a permanência, pois a realidade não existe estável e coerente, mas em vir-a-ser, em curso, em metamorfose, em crescimento e decadência. O método impressionista, assim, é a captação do momento, do fragmentário, instável, móvel, subjetivo. A própria noção de tempo modifica-se acompanhando a transformação da experiência da realidade, pois é através do fluir do tempo e da soma dos diversos momentos de nossa mutável realidade existencial que se logra a integração da vida espiritual. O presente é o resultado do passado, ressuscitemos pois o passado, recordando-o, revivendo-o. A filosofia de Bergson e o romance de Proust constituem os marcos dessas teorias.

A técnica literária impressionista, arte de cunho pictórico, consiste no “pontilhismo” e “divisionismo”, é uma pintura com palavras, acumulando sensações isoladas e detalhes de aparências efêmeras, uma gota de chuva, uma linha melódica de som ou de cor, uma nesga de memória apreendendo a realidade não em estado de repouso, mas nas impressões e na captação afetiva de aspectos do real. O estilo impressionista é dotado, assim, de uma qualidade fugitiva. A narrativa, o enredo, a seqüência de causa e efeito entre os eventos e os indivíduos são substituídas pelo registro dos estados de alma, emoções e sentimentos, de acordo com a lógica subjetiva, pessoal, vaga. O que se procura surpreender é a essência do momento, incidente ou paisagem, graças a uma captação instantânea do estado de alma do artista ou do espírito do observador, das intermitências do coração ou da memória, que ou são capturadas instantaneamente ou desaparecem. Além disso, o instante é percebido visualmente, valorizando-se os efeitos da cor e das tonalidades. A própria estrutura da narrativa é reformada, pois não são os acontecimentos que importam acima de tudo, porém o deleite das sensações e emoções criadas, subordinando-se a coerência, a unidade e o suspense à atmosfera, às sensações, às cores e qualidades tonais. As convenções tradicionais da narrativa, o efeito total, os elementos literários cedem lugar aos aspectos pictóricos. As massas quebram-se em detalhes, daí certa impressão de vago, difuso, obscuro, sem começo e fim. A Natureza é inventada ou interpretada, antes que vista e descrita objetivamente. A onipotência da Natureza cede à liberdade artística.

Além dos traços gerais, a arte impressionista criou um estilo, uma concepção lingüística adequada à reprodução do instantâneo e único. A linguagem usada pelos escritores impressionistas compreende a impassibilidade e a impersonalidade, uma sintaxe esquemática oposta à sintaxe estruturada tradicional, abandonando a estrutura regular da frase, a ordem lógica, as ligações conjuntivas subordinantes e coordenantes, as conjunções; usa a ordem inversa e o anacoluto, o modo imperfeito, a metáfora e o símile, o colorido e a sonoridade. É uma linguagem expressiva da fantasia e da imaginação, que recebeu a denominação de écriture artiste.

Foi a estética formulada pelos Irmãos Goncourt, na França, que fixou o impressionismo, libertando a Literatura do Naturalismo pela ênfase na forma artística. Consideram-se eles, destarte, os fundadores e representantes máximos do novo estilo. E se Manet, Degas, Monet, Renoir são alguns dos mais notáveis pintores impressionistas e Debussy, Ravel, os músicos mais importantes da escola, em Literatura destacam-se Pierre Loti, Henry James, Joseph Conrad, Anton Tchecov, Stephen Crane, Marcel Proust, Katherine Mansfield, sem falar nos elementos precursores encontrados na técnica estilística de Flaubert, Baudelaire, Verlaine, Daudet.

O IMPRESSIONISMO NO BRASIL: POMPÉIA

No Brasil, o Impressionismo triunfou na obra de uma das mais nobres expressões da Arte literária entre nós: Raul Pompéia. Por colocá-lo em posição do mais alto relevo em nosso panteão de glórias é que me sinto feliz, senhores acadêmicos, pela coincidência que me reservou a fortuna ao fazer-me ocupar nesta Casa ilustre a Cadeira que o tem como patrono, ele que foi, para Capistrano de Abreu, o único dos seus contemporâneos que lhe dera a impressão de gênio.

E ainda mais feliz me sinto, e mais que isso, orgulhoso, por ter sabido compreender a sua posição, na História literária que tive a satisfação de planejar e dirigir, quando foi pela primeira vez devidamente valorado. Até antes, a crítica tradicional, desarmada de métodos e instrumentais adequados à análise do fenômeno literário em si mesmo, na sua qualidade estética intrínseca e no estilo, demonstrava-se incapaz de penetrar casos singulares como o de Raul Pompéia. Por isso viveu a repetir-se, definindo o autor de O Ateneu como um naturalista ou um realista, e ainda em trabalhos recentes se insistiu nessa gratuita interpretação. Afortunadamente, a nova crítica soube trazer a revisão segura da classificação de Pompéia, naquela obra, pela pena de Eugênio Gomes e Xavier Placer.

Se, para a identificação estilística de um autor devemos levar em conta não apenas uma característica, mas uma constelação de elementos ou signos predominantes, Raul Pompéia enquadrou-se perfeitamente no esquema impressionista, sobretudo realizado pelos Goncourt, cuja obra e estética lhe serviram de modelo. A sua “crônica de saudades” obedece à técnica da recuperação do passado, que seria usada pelo impressionista Proust em busca do tempo perdido e como um recurso para encontrar a essência da personalidade. A análise interior e a introspecção condizem nele com a preocupação da escola quanto ao aspecto psicológico. A “escrita artista” veicula a sua obsessão da cor, a que subordina até a solução das metáforas e da sintaxe. Era um visual, atraído pelos gestos, ritmo, movimento, e pelas diferenças de matizes corados, e inclusive na caracterização dos personagens, graças à técnica da caricatura, em que se mostrou exímio. Mas também um auditivo, sensível à “emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteando-se ou baixando, conforme o timbre vogal”. Dominava-o a caça às sensações que registrava com volúpia, como bom discípulo dos Goncourt, o que o sensibilizaria para certas impressões fugazes, que ele próprio referiu na sua obraprima, aquelas “reminiscências sonoras que ficam perpétuas”, falando uma linguagem que faria inveja a Marcel Proust.

Não se restringe a O Ateneu a técnica impressionista em Pompéia. A sua abundante produção de crônicas, contos, poemas em prosa ou canções sem metro, que estou em vias de recolher para publicação em volume da Biblioteca Luso-Brasileira, juntamente com seus artigos políticos, documentam-lhe as preferências estéticas.

De qualquer modo, a técnica impressionista espalhou-se, penetrando aqui e ali na Prosa e Poesia, invadindo o século XX, com obras significativas, como estoutra inclassificada, Canaã, de Graça Aranha, sem falar da impregnação impressionista no próprio Machado de Assis e em Coelho Neto e Afrânio Peixoto, para afinal vir a dar no grande desaguadouro de Adelino Magalhães. Assim, de 1890 a 1915, o Impressionismo cria um período estilístico, sem limites precisos e rigorosos, mas de fisionomia bem caracterizada, com expressões na Arte literária, na Crítica, e paralelamente nas demais artes, sobretudo na Pintura de Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo, Helios Seelinger e outros.

DOMÍCIO DA GAMA

Ao clima impressionista deve ainda a Literatura Brasileira a obra de Domício da Gama, o primeiro ocupante da Cadeira para que fui eleito, o qual certamente cedeu aos imperativos de secretas e inconscientes afinidades espirituais e estéticas com Pompéia, quando se bateu para tomá-lo como patrono, logrando que Rodrigo Octavio lhe cedesse, depois de o ter escolhido. Curiosa figura a desse brasileiro, escritor e diplomata, cuja personalidade avulta distância num quadro junto a amigos que se chamaram Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Eça de Queirós, Eduardo Prado, Magalhães de Azeredo, Barão do Rio Branco. Os testemunhos falam alto das excelências de suas qualidades bafejadas, ainda pelo calor da deusa fortuna, que o colocou, desde o início, na senda de uma próspera carreira. Menino ainda, já os seus dotes intelectuais despontaram, ao liderar um grupo de companheiros em um grêmio literário. Logo após, integrou a Gazeta de Notícias, aquela verdadeira academia que Ferreira de Araújo organizara sob a égide do escol intelectual do tempo. Aí, Domício afia as armas, apura a inteligência, aprimora o instrumental. Outra grande oportunidade o coloca em Paris, na roda de Eduardo Prado e Eça de Queirós. Eram as duas últimas décadas do século XIX, e a batalha estética travava-se com estrépito. Domício não era de temperamento inclinado à controvérsia, nem às lutas de proscênio. Tampouco o seduziriam as tintas fortes e as pinceladas grossas com que o Naturalismo se impunha. Sua armadura artística e sensibilidade requeriam outros processos de realização, mais de acordo com sua natureza retraída e tímida. Não lhe deve ter sido difícil encontrar a família impressionista, a cuja estética se filiou. Falam por si as suas crônicas, e, sobretudo, os contos dos volumes de Contos a Meia Tinta e Histórias Curtas. Os próprios títulos denunciam a estética do entretom, da meia tinta, concisão, sugestão, contenção de linguagem, expressão branda levemente sussurrada, dita baixinho, captando impressões sutis e requintadas de paisagens sombrias e silenciosas. Os seus contos são expressões de Arte velada criada à sombra da memória, saudade, melancolia, filtrada através de uma sensibilidade esquiva, Arte de nuances e meia-luz, de atmosfera e transfiguração, Arte sem contornos, vaga, imprecisa e indecisa, Arte do fragmento e instantâneo.
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A linha impressionista que constituiu, assim, a tradição da Cadeira 33, pelo patrono e fundador, teve que ser interrompida para dar lugar ao segundo ocupante, Fernando Magalhães, mas quis o destino que o fio fosse retomado, pouco adiante, com Luís Edmundo.

Unindo Letras e Ciências, o que é uma tradição desta Casa, elevando a Arte da eloqüência ao ápice de uma perfeição em que singulares qualidades vocais e dotes oratórios se ajustavam a um estilo adequadamente tratado, Fernando Magalhães honrou o gênero como os que melhor o fizeram.

A REBELIÃO SIMBOLISTA

Já em 1899, fazia Luís Edmundo parte do grupo de jovens que constituíam a brigada de choque simbolista no assalto às casamatas parnasianas. Desde o começo da década de 1890 rolava a onda simbolista, como uma revanche da subjetividade, interiorização, espiritualização, individualismo. Eram decadentistas que se reuniram em torno do jornal Folha Popular, em 1891, no Rio de Janeiro, do mesmo modo que na Padaria Espiritual, em 1892, no Ceará, em nome de novos ideais estéticos, e que tiveram em 1893, com a publicação de Missal e Broquéis, de Cruz e Sousa, o seu grande momento. Eram excêntricos, atraídos pelo hieratismo gramatical, pelo gosto da Mitologia, Ocultismo, Misticismo, Metafísica, forças invisíveis, magia, satanismo, expressão indireta e simbólica.

É o próprio Luís Edmundo, em O Rio de Janeiro do meu Tempo, quem evoca a fase em traços pitorescos:

Quando o século começa, as hostes novas da nossa Literatura vivem assanhadas pelo Simbolismo. É a moderna escola. É a dourada esperança de um grande renascimento literário. Vão ruir por terra – diz-se – as tendências ronceiras que dominam as elites intelectuais. O que não pode continuar – acrescenta-se – é essa Arte de representação direta, prosaica e vil que se chama Realismo na prosa e Parnasianismo na Poesia. Novas maneiras para criar a emoção! Processos novos para apresentação de uma forma simples, natural e de todo contrária à habilidade dos malabaristas das Letras. Guerra aos ignaros copiadores das Odes funambulesques e dos Trophées, de um lado, e, de outro lado, violenta oposição à prosa dos que vivem de ancinho de ouro a remexer o lixo vil das sensações terrenas... Entre dez moços que fazem Literatura oito pensam assim.

Os processos de que se utilizam os paladinos da nova idéia são os mesmos de sempre a caracterizar a antropofagia das gerações novas: a irreverência, o desrespeito pelos consagrados do tempo, a ânsia de alarmar o burguês. Múmias, deuses de pés de barro, e outros epítetos muito mais contundentes eram atirados a Machado de Assis, Coelho Neto, Veríssimo, Bilac, arrolados como a “bilacada”. Os franceses também se incluíram na degola, Victor Hugo, Leconte de Lisle, Banville, Coppée, Zola, cedendo ao culto de Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Paul Fort, Samain, Verharen...

LUÍS EDMUNDO

Nascido em 1878, tinha Luís Edmundo 21 anos quando, em 1899, foi encarregado por Cardoso Júnior da direção da Revista Contemporânea, uma dentre as muitas publicações de vanguarda em que foi fértil o Simbolismo brasileiro. Durou a revista de 1899 a 1901, e esses periódicos efêmeros, depõe Edmundo, são em geral, caóticos, confusos, não raro contendo manifestos literários, que são ridículas e fofas declarações de guerra a líricos, a parnasianos e a realistas, formando uma trincheira onde se encastelam soldados vindos de toda a parte, amigos e inimigos, mas que vivem, somente, a dar tiros para o ar... E comenta o saudoso memorialista: “Anhelo de todo novo, anseio natural de demolir, contrário à ânsia de conservar, de todo velha. Rinha de frangão com galo feito, brigando por um galinheiro onde as galinhas são poucas. Luta, porém, até certo ponto, simpática, denunciadora de mocidade e de vida.”

A BOÊMIA E O “NAVIO DA LAPA”

A preocupação de espantar o burguês e violentar os hábitos literários dominantes traduzia-se não apenas nas idéias estéticas e técnicas artísticas intrínsecas, nem tão-somente na pura demolição dos ídolos da hora, mas também nos processos gráficos de apresentação de livros e revistas, sob forma bizarra e original, em várias cores e formatos extravagantes.

Os novos decadentistas ofereciam ainda outro feitio na sua atitude de rebeldia contra os cânones estilísticos e sociais estabelecidos. Sua maneira de reagir incluía a boêmia e o socialismo. Ledores de Bakunin, Kropotikin, Marx, seus ídolos eram quem quer que tivesse programa de violência, para dinamitar a sociedade moderna, e admitiam o punhal e a bomba contra as injustiças e preconceitos de um mundo antinatural e estúpido. Conta Luís Edmundo que um certo caricaturista francês, fugido da pátria para não fazer o serviço militar, tinha escondidas no quarto de Santos Maia duas bombas, cujo destino circulava aos cochichos nas rodas boêmias. Uma, dizia-se com ares sinistros de conspirador, era para o chefe de polícia; quanto à outra, envolvia-se em mistério, e só mais tarde se veio a saber se destinava a certo Alberto Pereira da Silva, alfaiate com loja num sobradinho na Rua da Constituição, a quem os boêmios revolucionários deviam os cabelos da cabeça. É que os moços podiam muito bem ter por divisa os versos do colega Rafael Pinheiro: “Como tu andas agitando as massas sem nem ter as massas na algibeira.”

A época do começo do século pertence à boêmia intelectual e é da Literatura feita e vivida nos cafés, à imitação da intelectualiade francesa da rive gauche e de Montmartre. O Café Paris, a Paschoal, a Colombo, o Papagaio, o Lamas reuniam elegantes, boêmios e intelectuais, cada grupo com as suas preferências e pontos prediletos, sem falar na porta das livrarias, sebos e jornais. Era a belle époque, época frívola, descuidada, de alegria de viver, da confiança no presente e no futuro. A República se consolidara com a estabilização financeira e o esmagamento da reação monárquica e militar e da revolta sertaneja. O Rio tornava-se uma cidade moderna, graças a Pereira Passos, Osvaldo Cruz, Paulo de Frontin, urbanizando-se e assumindo-se pose de metrópole internacionalizada. Os escritores gozavam de largo prestígio, atraindo para si e a Literatura as atenções de uma sociedade que se requintava nas viagens à Europa e numa vida de luxo, prazeres e cultivo do espírito nos salões, à custa das liberalidades cafeeiras. Vivia-se a Literatura, não somente os escritores, mas também um público ávido de conferências, polêmicas ou saraus literários com declamação e exibição dos maiorais das Letras. Muitos dos participantes das rodas literárias faziam-se respeitar ou temer menos por alguma obra de valor do que pela agitação que produziam, capacidade de compor epigrama e inventar piadas ou de destruir reputações. A maioria distinguia-se pelas vestimentas ou ademanes de elegância, ditados pela moda de então, o fraque e o chapéu-coco, bigodeiras, o monóculo, as polainas, o colarinho alto, a gravata de plastrão. O que, porém, mais emprestava caráter à vida literária era a boêmia à imitação do montmartrismo. Vindo de todo o país, pobres, os intelectuais levavam existência excêntrica, de costumes bizarros e chocantes, passando a maior parte do tempo em cafés, inclusive aí escrevendo seus versos queridos ou tolerados pelos proprietários, em vista da notoriedade que assim adquiriam os estabelecimentos.

Exemplo típico da vida boêmia da primeira década do século é o Navio da Lapa. Velho casarão na Lapa estava abandonado pois ameaçava desabar a qualquer momento. Imaginaram, então, vários intelectuais boêmios, tendo à frente Martins Fontes, tomá-lo de assalto, arrombando-lhe a porta e fazendo dele a sede do grupo. Como navio em mar alto, o assoalho balançava, o que lhe valeu o nome. Estabeleceu-se verdadeira organização naval com oficiais de dia, ordens de comando, livro de bordo. O oficial a quem se aproximava, perguntava sempre “Quem vem lá?”, a que o visitante devia responder com a senha, em geral o nome de um dos grandes poetas da devoção do grupo. Não sendo conhecido, a entrada era barrada ao intruso, nem que fosse necessário o recurso à força. Segundo o testemunho de Edmundo, durou mais de um ano o Navio da Lapa, com Martins Fontes no comando.

Uma vez, no carnaval, saiu o grupo com o comandante, e em pleno mar, isto é, na rua cheia de foliões, encontrou outro navio apinhado de crioulos, e, à ordem de abordagem lançada pelo chefe, o sururu se formou.

Luís Edmundo era figura habitual das rodas intelectuais boêmias. Bonitão, elegantíssimo, no seu porte de quase um metro e noventa, de pernas tão compridas que antes pareciam andas, sempre trajado no rigor da moda, com um indefectível monóculo, era um dândi, exímio dançarino, enamorado das mulheres, disputado por elas, com a alma e a Poesia aos seus pés, pondoas em polvorosa nas festas ou no footing das cinco horas na Avenida ou na porta da Colombo. Era um furor. E, de fato, foi derradeiro representante da geração literária do Dandismo.

Na Secretaria da Academia, figura atualmente a tela de Marques Júnior, que pertenceu a Edmundo, e que representa uma sessão da Sociedade Brasileira de Homens de Letras, por volta de 1914, na qual aparece ele em meio à fina flor da intelectualidade da época.

A POESIA IMPRESSIONISTA DE EDMUNDO

Desde os dezenove anos penetra Edmundo na vida literária. Sua vocação para as Letras vinha dos dez ou onze anos, quando, de colaboração com um garoto da vizinhança, planejou a representação de uma peça de teatro. Brigando com o companheiro, e como era dono do teatro, um canto de porta, resolveu montar a peça sozinho, um dramalhão com muito choro e fugas de moças, e, como não havia pano de boca a descer, depois de morto ressuscitava para encerrar o espetáculo. Comentava mais tarde, “era a graça única da peça”.

Em 1899, publicou em O País, com honras de primeira página, um soneto que compusera para um concurso mas que não enviara. Teve três padrinhos literários, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e Artur Azevedo, e, com tais credenciais, foi incorporado ao grupo chefiado por Olavo Bilac. Lança, então, seguidamente, os seus livros de versos, Nimbus, em 1899, Turíbulos, em 1900, Turris Eburnea, em 1902, para mais tarde, em 1907, reunir a produção poética no volume das Poesias (1896-1907).

Torna-se extremamente popular e o seu soneto “Olhos Tristes” todo o mundo sabia de cor, declamando-o nos salões.

Nascido intelectualmente sob o signo do Simbolismo, em cuja revolução tomou parte, Edmundo não fugiu contudo à pressão parnasiana, exercida onipotentemente pelo seu ídolo e chefe de grupo, Bilac. Poesia amorosa a sua, viu nela José Veríssimo “muito mais eloqüência, ênfase, pompa, que sentimento no sentido poético desta palavra”, embora reconhecendo-lhe “uma bela pompa” e “concepções de uma beleza mais alta e de uma Arte mais nobre que as nossas vulgares cantigas de amor”.

Mas a verdadeira compreensão da posição que a poesia de Luís Edmundo ocupa em nossas Letras só mais tarde seria possível. Era uma poesia que oscilava e hesitava entre os dois sóis do Parnasianismo e do Simbolismo, como a querer fugir de ambos à procura de uma zona de sombra e eclipse. Era uma poesia intermediária, que ocupou toda uma época imprecisa de transição e sincretismo, a dos anos anteriores ao Modernismo, e que se traduziu pelo Impressionismo e pelo Penumbrismo, misturando elementos simbolistas e parnasianos, idéias de um e forma de outro, mas, ao mesmo tempo, reagindo contra ambos e prenunciando uma nova era estética. Hermes Fontes, Goulart de Andrade, Pereira da Silva, Olegário Mariano, Augusto dos Anjos, Gilka Machado, Marcelo Gama, Luís Edmundo e vários outros marcaram essa fase de indecisão indeterminada, sincretismo, uns pendendo mais para o Parnasianismo, outros para o Simbolismo, abrindo o caminho para os pioneiros do Modernismo, como Manuel Bandeira e Mário de Andrade, ou como Ribeiro Couto e Ronald de Carvalho, que superaram em si mesmos aquela fase, em demanda da nova estética.

Luís Edmundo foi um poeta de cunho impressionista, e a primeira definição coube a Alceu Amoroso Lima, em artigo de 1919. Nesse ponto, posso dar mais esse testemunho em homenagem à sagaz visão crítica do grande mestre revelada em tantos problemas de nossa Literatura. Estava já delineado este trabalho, Luís Edmundo enquadrado, conforme a minha perspectiva no esquema impressionista, quando se me deparou um ensaio seu sobre o poeta, no qual registrava esse feito. Distingue ele a poética de Luís Edmundo como tecida de impressões pessoais mais que de sensações, tudo à flor da terra, esfumando-se em meias tintas, sob uma atmosfera enevoada, com manchas impressionistas em que o próprio sol se vela, esbatendo-se. É uma Poesia elegante, suave, agradável, traindo sensações vagas, fugazes, incertas, superficiais, visões rápidas, sem análise, instintivas. Seu painel é leve, seu colorido esbatido, a tonalide suave e os sentimentos delicados.

Fiz deste nosso amor um sonho perfumado
Tão tranqüilo, tão bom, tão casto e tão profundo,
Que cheguei a esquecer a maldade do mundo
Sem ver que eras mulher e que eu estava ao teu lado!

Assim, dos sentimentos, como das paisagens, essa poesia elegante fala sempre em tom leve, em impressões superficiais, revelando um temperamento artístico, inclinado menos para as glórias do oceano do que para a humildade do regato, como ele mesmo o disse num poema. É um impressionista que fez Impressionismo sem o saber, e que teve de esperar pela evolução das teorias críticas para ser devidamente compreendido e valorado.

Nessa poesia de sensações fugazes e superficiais do Impressionismo predominam o elemento de subjetividade e a experiência humana e sensorial, reproduzidos objetivamente e com toda a fidelidade, daí a mistura de Parnasianismo e Simbolismo que há nela, diversamente da poesia puramente realista. O Impressionismo possui um elemento de subjetividade, que é a própria sensação, e outro de objetividade, a reprodução fiel desta sensação, através de um temperamento. A impressão viaja do objeto para o espírito do artista, e é aí instantaneamente captada e gravada. O estilo, no Impressionismo, como ensinaram os Irmãos Goncourt, mestres também de Luís Edmundo, como ele mesmo confessou, é a maneira de exprimir a própria sensação em todos os detalhes. As palavras assumem valor pictórico, são palavras ricas de colorido, cromatismo e pitoresco. As frases pintam, pela própria cadência e estrutura, e pela abundância de adjetivos, escassez de verbos e conjunções, repetições e insistências a marcar os pontos salientes do quadro. Vejamos seu famoso poema dos “Olhos Tristes”:

Olhos tristes, vós sois como dois sóis num poente,
Cansados de luzir, cansados de girar,
Olhos de quem andou na vida alegremente
Para depois sofrer, para depois chorar.

Andam neles agora a vagar lentamente,
Com as velas das naus sobre as águas do mar,
Todas as ilusões do nosso sonho ardente.
Olhos tristes, vós sois dois monges a rezar.

Ouço ao vos ver assim, tão cheios de humildade,
Marinheiros cantando a canção da saudade
Num coro de tristeza e de infinitos ais.

Olhos tristes eu sei vossa história sombria
E sei quanto chorais cheios de nostalgia,
O sonho que passou e que não torna mais!

O teor dessa poesia é uma tristeza sem amargor, expressão de um estado de alma, traduzido graças a um ritmo lento e ondulante, que desliza de mansinho, com um conteúdo estranhamente evocativo e através de uma linguagem de suave musicalidade, mais de cochilo que de declamações, feita de murmúrio e matizes, própria a pintar a sensação e a captar a fluidez e o movimento.

O CRONISTA DO RIO DE JANEIRO

Luís de Melo Pimenta da Costa, Luís Edmundo nas Letras, nasceu na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, en 1878, e, sem embargo das diversas viagens que fez à Europa como resultado de sua atividade de corretor de companhia francesas de navegação, profissão que exercia ao lado do Jornalismo, no Correio da Manhã, no qual o acolheu desde o princípio Edmundo Bittencourt, permaneceu um carioca apaixonado de sua cidade. Sentindo que o estro poético se lhe esgotara, transferiu o lirismo e o amor ao ritmo para um prosador que se transformaria no grande cronista da cidade. O boêmio e o poeta foram substituídos pelo homem de gabinete, numa evolução através de quinze anos, que poderá parecer contraditória, pois quem o visse na sua biblioteca da Tijuca, nos últimos anos, jamais representaria naquele homem, quieto e pacífico bibliófilo e pesquisador do passado, o poeta boêmio de outrora, que se pintara a si mesmo, num poema, a correr atrás da Manolita apressada que “indiferente e veloz nem vê minha alma, abrasada que a segue pela calçada”.

O gosto da Poesia-pintura deu-lhe a graça de contar. Alberto Rangel despertou-lhe a vocação da História, e, depois a leitura do seu livro sobre a famosa Domitila, escreveu as duas peças D. João VI e Marquesa de Santos. Tomou-se de paixão pelo século XVIII e imaginou um vasto painel do Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis, ao que foi desaconselhado, em vista da dificuldade de documentação, escassa em relação àquela época. Foi a Portugal, remexeu os arquivos, bibliotecas e conventos de províncias, depois à Espanha, logrando, no entanto, reunir um material farto, inclusive iconográfico, e atirou-se ao trabalho.

Vindo a lume, o livro obteve êxito absoluto, de crítica, de público, de venda. Descobrira um filão fecundo, e não teve dúvida em explorá-lo. De 1932, data do primeiro, salta para 1942, quando lança a segunda obra da série, A Corte de D. João no Rio de Janeiro. Da evocação social dos últimos anos da era colonial, passa para a pintura da vida pitoresca e íntima da corte portuguesa no Brasil, soberanos e nobres, ministros e fâmulos, crianças, adultos e velhos do tempo e da roda do rei fugitivo, retratados nos aspectos físicos e morais e nos costumes, por um miniaturista exímio, a que não faltavam, outrossim, a verve e a ironia.

Ainda aqui o Impressionismo de Luís Edmundo presta-se como uma luva aos seus objetivos e cria a sua maneira. Sua obra não é de historiador estrito, mas de um cronista. Os dons de poeta mantêm-se-lhe presentes na evocação do passado, e a imaginação não o abandona, antes lhe serve de instrumento na fixação e interpretação da realidade, esteja ela nos indivíduos, cidades, ruas, sentimentos ou hábitos. Não são obras graves e sisudas de História. São antes livros de memória, baseados no documento, mas libertando-se deles, como o pintor impressionista, pela imaginação e impressões pessoais. São livros de homem de letras, evocando um tempo antigo ou a época contemporânea sem o rigor do método propriamente histórico. A História não é Ciência, em sua pena, mas antes um meio para escrever uma obra artística, de restauração do passado. Há muito episódio divertido, uns quantos tipos caricaturados, comentários espirituosos às pencas, que fazem dos livros de Luís Edmundo nesse terreno obras de grande atrativo, maior do que de muito historiador no sentido rigoroso do termo. A liberdade que se dava no tratamento dos assuntos proporcionou-lhe um à vontade, uma despreocupação de que lucrou a movimentação do livro, aproveitando-se disso, também, o seu espírito sarcástico e até irreverente. Dizia ele que costumava trabalhar com alegria, tal a paixão que adquiria pelo tema. E essa alegria sabia comunicar ao que escrevia, resultando livros divertidos, em que o passado como que se agita aos nossos olhos, com a franqueza e independência de um espírito que, como todos os de sua geração – uma época que proclamara a morte de Deus e se educara sob os ecos da apóstrofe de Renan, “ó abismo és o único Deus” –, era forrado de um fino cepticismo, além de isento de sectarismo na apreciação dos homens, costumes e acontecimentos. Porventura não é com esse estofo que se têm escrito alguns grandes livros? E não terá sido essa a razão que levou João Ribeiro a considerar grande livro de verdadeira História nacional a sua crônica do tempo dos Vice-Reis?

O êxito dos primeiros estimulou-o a explorar ainda mais o gênero. No modelo de seus mestres, os Goncourt, do mestre dos seus mestres, Saint-Simon, lançou-se à crônica de seu próprio passado e da vida de sua cidade no tempo em que a viveu. O Rio de Janeiro de Meu Tempo, continuado pelas Memórias, é o registro despretensioso de episódios e costumes da cidade tal como ele a testemunhou, a que se vieram juntar outros volumes sobre o Rio de outrora, casos e impressões descritos à sua maneira, em Recordações do Rio Antigo e Olhando para Atrás.

NACIONALISTA MANSO E CAMARADA

Adquiriu Luís Edmundo reputação de extremado chauvinista, o que ele mesmo admitia, apenas acrescentando a qualificação de “manso e camarada”, que não se interessava por “lisonjear as vaidades patrióticas”.

Na última década do século passado, quando se processava sua fase mais aquisitiva de formação intelectual, assistiu a uma das mais fortes ondas de Nacionalismo antiluso em que tem sido fértil a nossa História. Por culpa de nossos antigos colonizadores, inconformados com a perda da presa fértil, houve sempre movimento desse tipo, desde a Independência, em reação às tentativas de subjugar-nos o espírito de autonomia. Depois da República, sofremos uma dessas fases de exacerbação da intromissão portuguesa em nossa vida interna. No terreno intelectual, houve uma revanche da mentalidade colonialista, procurando orientar-nos pensamentos, interesses e conduta e dirigir-nos os passos, no falso pressuposto que não tínhamos capacidade para agir por conta própria e que ainda constituíamos uma unidade cultural, falácia que leva muitos publicistas de além-mar a acreditar que o que serve para um se deve estender ao outro e a falar na primeira pessoa do plural quando se referem a problemas que julgam comuns.

Assim ocorreu no decênio final do século XIX, como está testemunhado por Araripe Júnior, e como se pode julgar pelos trabalhos de Raul Pompéia, Rodrigo Octavio e do próprio Araripe, entre muitos. Os principais órgãos da imprensa eram ocupados maciçamente por porta-vozes do antigo imperialismo, insuflando no público o veneno do pessimismo e derrotismo contra o Brasil. Nosso País era considerado incapaz de construir uma civilização, porque habitado por uma raça inferior, anêmica, raquítica, sem vontade e com nervos à flor da pele, deprimida, arruinada pela doença, mestiçagem e ignorância.

Ainda naquele tempo, a fisionomia mental brasileira escapava aos portugueses, que não tomavam a sério o Brasil. Para a inteligência lusa o Brasil não contava, nem no aspecto material, nem no seu desenvolvimento intelectual, a ponto de um escritor de além-mar, Bruno, um dos primeiros a se voltar com simpatia para nossa cultura, declarar: “A mais completa ignorância das coisas do Brasil, das suas aptidões, dos seus homens políticos, de sua Literatura, dava cabimento a extravagâncias de tal ordem que só podiam ser respondidas com apodos e represálias truculentas.”

Com os maiores espíritos de então, Luís Edmundo formou o seu nacionalismo, que cultivou a vida toda. Ao contrário dos pessimistas estrangeiros, recebeu ele de seus compatriotas uma mensagem de fé no País, o qual demonstraria, em meio século, extraordinária capacidade de realização e desenvolvimento, e no seu povo, que provaria a aptidão para todos os progressos, com qualidades diferenciais mui dignas de cultivo e atenção, graças às quais daríamos e estamos fornecendo ao mundo uma contribuição original.

Nossa Literatura é um exemplo dessa capacidade criadora. E Edmundo sentiu-lhe bem precocemente o caráter autônomo, verificação idêntica à que levou Domício da Gama, aos dezoito anos, a fundar um grêmio de jovens para afirmar a existência de uma Literatura nacional independente. O conhecimento do nosso folclore mostrava-lhes a novidade ou as qualidades novas da Literatura nacional desde o início nos séculos XVII, e quanto ao pensamento, à temática, aos sentimentos, “uma Literatura nossa, extremada, independente da portuguesa”, no dizer de Clóvis Beviláqua.

Mas foi a diferenciação lingüística a que mais impressionou Edmundo, de modo a apaixoná-lo em todas as oportunidades em que veio à ribalta a discussão do problema, sempre o encontrando na trincheira de defesa da maneira brasileira de escrever, embora, como assinalou Viriato Correia, sua pena mergulhasse com mais freqüência nas tintas lusitanas. Ele mesmo confessou ao seu amigo as preferências pela forma nacional:

“Ah! como eu quisera escrever brasileiro como vocês escrevem!
Quisera, mas não posso. Culpa de meu pai, que assim me educou. Meu filho, como os de sua geração, não será assim. Minha infância e minha adolescência foram invadidas, encravilhadas pelos clássicos lusos. Saí da forma como sou. Além dissoé preciso contar com o ambiente português em que sempre vivi, parentes e amigos portugueses. Viagens a Portugal. Muitas viagens! Às vezes,é confissão sincera, tento escrever como vocês, brasileiramente, mas nada sai. Não mudo. É como se quisesse mudar a cor dos meus olhos!”

Era o reconhecimento do fenômeno da diferenciação linguística, paralelo ao da autonomia literária e ao da formação histórica especificamente nossa, que fez dele um historiador brasileiro do Brasil, no dizer de Viriato Correia.

UM BRASIL BRASILEIRO

Esse Brasil brasileiro coube à República dar-lhe a última demão, para fazer com que em nosso tempo o País atinja a sua fase de maturidade e maioridade de civilização. As forças de seu gênio manifestam-se por toda a sorte de maneiras originais, provando eloqüentemente a grandeza do povo, desmentindo os conceitos pessimistas, e se a Nação se contorce, ainda, em dificuldades, estas refletem apenas as dores masculinas do desenvolvimento de sua forte personalidade.

Só há que lamentar no atual estágio, a muitos olhos parecendo como crítico, certa defasagem entre o progresso material e intelectual e o das instituições políticas e administrativas. Enquanto o povo oferece ao mundo demonstrações da mais alta afirmação e eficiência em vários setores, mostrando-se cada vez mais politizado e consciente de seus interesses e dos métodos democráticos de resolvê-los, levantando quase todos os campeonatos mundiais no esporte e conquistando as maiores láureas artísticas; e enquanto a cultura e as Letras dão prova de extrema vitalidade, a cúpula política e administrativa, com raras exceções, revela-se completamente fracassada, inteiramente fora do tempo e necessidades do País, incompetente e desaparelhada para dirigi-lo, dando a impressão de que representa o fim de uma classe dirigente que não sente a terra fugir-lhe aos pés. O Brasil vive um momento revolucionário, e só não o vê essa elite, insensível, inatenta, indiferente a que o processo se concretize à sua revelia. Não há qualquer sombra de xenofobia em reconhecer a necessidade de sermos brasileiros, como o fez Luís Edmundo.

Defronta-nos atualmente apenas um dilema: ser brasileiros ou antibrasileiros. A própria oposição direita-esquerda, que tanto devastou as atuais gerações, está superada. É-nos de todo indiferente a ambição das duas nações, que se digladiam pelo domínio do mundo, conflito idêntico a tantos outros do passado na política das grandes potências mundiais.

O que nos interessa é o Brasil, é dar solução brasileira aos nossos problemas, eqüidistantes de Cuba e da Argentina, é pensar o Brasil, afirmá-lo, consolidar-lhe as forças vitais, harmonizar-lhe a vida interior, favorecer uma existência feliz e confortável, livre de sofrimentos e angústias, para o povo. Só um fanatismo deve mover-nos, aquele fanatismo da esperança de que falou Mirabeau.

O AMOR DAS DUAS CIDADES

O artista Luís Edmundo, o poeta da adolescência, transferiu a sensibilidade estética para o amor da cidade natal, e tornou-se o seu cronista, na obra da idade madura, estudando- lhe a engrenagem peça por peça, seus órgãos, funções, vida passada.

O adorador do Rio de Janeiro sabia a razão de seu bem-querer. Ninguém mais carioca do que ele, e nenhum conhecia melhor os segredos desta metrópole admirável, única no Brasil isenta de espírito provinciano, sempre pronta a reagir pelo humorismo e pela sátira contra os ridículos humanos e as trapaçarias de certos políticos, rica de entusiasmo generoso e prodigalidade justiceira, alegre e cordial, democratizante na sua tendência a favorecer a igualdade dos benefícios, excitante pela sua vida nervosa, mas tranqüila e fácil no modo de sua gente flanar pelos bosques e praias, cidade feminina, de graça sedutora e temível, desinteressada e ardente, capitosa e aconchegada, que se faz amar como uma mulher. Centro nervoso e cultural do país, jardim de aclimatação, pela sua vocação assimiladora ela atua como órgão de unificação intelectual, verdadeira bomba de sucção atraindo de todos os escaninhos da Nação as forças vivas e as seivas regionais com as quais plasma essa consciência e essa fisionomia intelectual una que o nosso passado oferece. Não são as histórias literárias particulares que representam o Brasil, mas o amálgama de todas realizado nesse extraordinário laboratório humano e social que é o Rio de Janeiro no Brasil. E por não terem passado pela etapa carioca, muitos políticos provincianos jamais lograram mentalidade federal ou nacional, alguns se revelando afinal prejudiciais ao País, pela ausência desse caráter universalizante da educação política que se adquire nas praças públicas e nas redações de jornais da velha capital. Jamais ela perderá essa função brasileira de capital de fato, em que pese a ter deixado de ser capital de direito.

E é lamentável que um país com tantos problemas de maior premência viesse a esbulhar de seu antigo papel uma cidade que tem todas as qualidades materiais e espirituais para ser a capital, e que ainda acabou de dar prova dessa superioridade entregando o seu posto, entre folgazã e chocarreira, sem reagir, como a ter certeza de que o futuro lhe daria razão com o fracasso da aventura nababesca no planalto, responsável pelo maior entrave na tão complicada administração nacional.

Tinha, pois, sobrados motivos Edmundo, esse carioca flâneur, de amar a sua cidade. Seus livros trescalam esse aroma de amor. E ele ainda tinha a seu favor poder venerar somente uma diva, ao contrário de muitos de nós outros que aqui vivemos, oriundos de outras cidades.

De mim, sou um sofredor, com o coração dilacerado entre dois amores, o da cidade que me viu nascer, que me embalou a infância, e a outra que escolhi para a idade madura e consciente. Uma depositou-se na memória e no inconsciente com as emoções infantis, a outra conquistou-me pela inteligência e reflexão.

Venho de longe, senhores acadêmicos, venho da Bahia, a terra dadivosa e boa que tanto bem tem feito ao Brasil. Lá formei o espírito e o caráter, lá reuni a seiva que venho gastando pelos caminhos. Como me faz falta a minha
Bahia! Tenho dela uma saudade indizível. Guardo na retentiva a imagem daquela cidade super-realista, com as suas ladeirinhas grimpando pelos morros, o encanto de seus telhados amontoados, as ruas esconsas de cheiro colonial, as igrejas majestosas, os conventos montados nas encostas, a sua colina sagrada do Senhor do Bonfim, as praias de sargaço e areia branca, as restingas, os mangais e as ilhas, as suas árvores – Oh! mangueiras e cajazeiras de minha terra! –, as suas frutas capitosas, as suas comidas e doces, os seus peixes e mariscos, as tradições populares e festas feéricas de arraial, a sinfonia multicolorida de seus poentes e o infinito prateado de seus luares, a música fantástica de suas noites misteriosas, a alma encantadora e mágica de sua gente, alma aristocrática acalentada ao som misterioso de seu mar a bater caprichoso à beira das verdes praias, o palácio de cristal das mães-d’água!

Como me foi penoso arrancar as raízes! Mas como me falta coragem para regressar! Eis o mal de todos os desterrados. Vivem a sonhar com uma volta que é impossível. You can’t go home-again! é a síntese perfeita desse estado de espírito no título do romance de Thomas Wolfe. Ninguém consegue voltar. Com todos que o tentam repete-se o que ocorreu com a personagem daquele conto de Saroyan. Partido de sua cidadezinha, andou por mil terras e depois de muitos anos cedeu à tentação do retorno. Saltou do trem, dirigiu-se à velha casinha, penetrou o portão e espiou pela janela. Era véspera de Natal, a neve caía, e, dentro, em torno à mesa no aconchego do lar, os pais e irmãos comemoravam a data de acordo com a tradição. O coração se lhe confrangeu e, não suportando a cena, o homem saiu de mansinho e se foi na escuridão.

Então se é assim, por que tantos emigram? A essa pergunta impertinente, respondia o nosso Afrânio Peixoto, o olhar faiscante de malícia: “Saímos para vencer. Lá, não podemos, pois todos somos baianos!”

Se alguma vantagem levamos é a que explica a energia e o êxito de tantos emigrados: afogam a saudade no trabalho. E, posto que jamais voltemos, resta-nos ao menos a felicidade de falar daquilo que amamos.

O MISTÉRIO ACADÊMICO

Senhores acadêmicos

Ao me escolherdes para a vossa ilustre Companhia, elegestes a própria controvérsia. Naturalmente, nos vossos ouvidos repercutiram os seus ecos. Já tivestes disso a evidência aqui mesmo. Mas ficastes indiferentes. O mistério
acadêmico é impenetrável. E é esse mistério que faz as academias agirem segundo seu próprio interesse coletivo e não conforme a vontade e prevenções de qualquer de seus membros. Ninguém é dono de uma instituição. Cada um de nós, ao ser admitido, não perde a liberdade, pois a Academia não coroa as opiniões mas o talento, a capacidade, as realizações. Cada qual entra como é, e assim ela o quer, sem abrir mão dos princípios e traços de caráter e conduta, que o tornaram conhecido. O que ela exige é precisamente a fidelidade a si mesmo, jamais pedindo o despojamento dos atributos específicos. Se me preferistes,senhores acadêmicos, foi porque me quisestes como sou, com a personalidade intelectual que formei e a modesta obra que venho construindo. Nada vos trago de novo, mas somente a reafirmação de tudo o que fiz e disse.

Acedo, portanto, a esta colina de glória como à culminação de uma longa carreira, no curso da qual não foram poucas as lutas, mas cuja unidade, coerência e culto da dignidade jamais sofreram mossa. Premiastes o trabalhador modesto e paciente que não fez outra coisa senão pôr-se a serviço daquela força misteriosa que habita a Literatura, à qual se referiu Cocteau.

Disse alguém que, ao ler os grandes livros de Literatura, tornamo-nos mil homens e, no entanto, permanecemos nós próprios, enxergamos com mil olhos mas quem vê ainda somos nós, transcendemo-nos para ser cada vez mais nós mesmos.

Meu canteiro tem sido lavrado com o carinho que merecem as plantas delicadas, cuidado de sol a sol, na labuta honesta e a duras penas.

Temperamento de luta, habituado a ser considerado direitista pelos esquerdistas, e esquerdista pelos direitistas, não sou de amaciamento e contemporização, mas de tomada de posição, de nítidas opções doutrinárias, por isso despertando sempre divisões, reações e adversários.

Minha paixão é o assalto à praça. Capitulada, há que buscar outro motivo para empenhar a pugnacidade ou para a provocação ao debate intelectual permanente e inconformado, renovador e revisionista. Espírito afirmativo, acredito em minhas idéias, sei batalhar por elas e defender o que faço. Acostumei-me a reunir do outro lado da barricada os adversários, a fim de derrotá-los a todos juntos, recuando sem amargor, nas batalhas perdidas, para no final vencer a guerra.

Atinjo, assim, esse momento com a alegria do soldado que chega ao topo da cumeada com a serena postura de quem tem saldadas as dívidas para com Deus e o próximo.

CASO DE GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Nas Letras, sou um caso de geração espontânea, e minha carreira resultou de um deliberado e tenaz esforço de vontade, abandonando a profissão médica, para forçar caminho com inflexível continuidade. Não sofri as habituais
influências de ambiente ou círculos literários para aderir à Literatura. Nunca fui de rodas, antes sempre um isolado, tendo-me, no início, batido dentro de solidão escura, para abrir janelas sobre a vida intelectual.

Certa feita, há muitos anos, numa classe elementar, o mestre, um bom irmão marista, apontou para um menino, que se escondia sob as asas de sua timidez, e mandou que lesse um trecho da antologia. Ia a leitura sem tropeços, quando o pequeno, muito concho, largou uma dessas silabadas memoráveis. Uma gargalhada estrondosa abalou o prédio do colégio, e ainda hoje eu a sinto fazendo tremer-me a estrutura. Mas a gargalhada redobraria, se o mestre benevolente tentasse bancar a pitonisa e insinuasse que o desastrado ocuparia um dia um lugar ao vosso lado. Naquele instante, em verdade vos digo, nada em mim poderia fazer crer ou prenunciar o homem de letras.

Até onde pode ir a minha memória tão longe que me recorde, o primeiro frêmito que me perpassou a sensibilidade provocada pela emoção literária, é posterior, em classe mais avançada, diante daquele trecho do Quincas Borba a propósito das travessuras do cãozinho. Relembros a página:

Quincas Borba vai atrás dele pelo jardim fora, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, ali pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra coisa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazê-lo andar também, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, ele olha para cima, espera; naturalmente, cuida dele; é algum projeto, saírem juntos, ou coisa assim agradável. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta as memórias das pancadas. Ao contrário, os afagos ficam-lhe impresos e fixos, por mais distraídos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.

É possível que essa impressão remota e primitiva seja responsável pelo humilde mas entusiasta machadiano em que vim a tornar-me.

Outros fatores deverão ter agido em mim como germe do homem de letras que hoje recebeis.

O lar feliz onde nasci tinha por chefe um homem de sensibilidade artística e gosto refinado, arquiteto e construtor, cuja mentalidade técnica não era infensa valorizar os grandes das Letras – e cresci habituado às pressões de admiração pelos nossos Castro Alves, Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Gonçalves Dias. Um antepassado, meu bisavô paterno, Antônio Joaquim Rodrigues da Costa, foi poeta da linhagem dos cástridas, e sempre recebeu a veneração da família, que lhe editou a obra. Meu próprio prenome é um reflexo do clima de sucesso que cercou o aparecimento de A Esfinge, de Afrânio Peixoto. Parece que os fados teciam misteriosamente e escondidos a rede que me laçaria para as Letras, conspiração essa que teve a complacência de meu pai quando no adolescente despontou, em detrimento da formação médica iniciada, o vício impune da leitura literária, nas longas horas de intensa aprendizagem, já então definidos o gosto e o pendor para a Literatura; e a mesma complacência encontrei no coração da amorosa companheira que Deus me deu, embora, estou certo que, no íntimo, secretamente inconformada com a perda do grande médico de seus sonhos. Assim como Rilke desejava que o deixassem morrer a própria morte, faz-se mister muita compreensão para um caminhar a sua própria vida.

RELAÇÕES NA VIDA LITERÁRIA

Nem sempre foram amenas as minhas relações com os grupos literários, desconfiados com o solitário que se recusava a submeter-se ao ritual de admissão nas confrarias e igrejinhas e reagia contra o predomínio, habitual entre nós, da vida literária sobre a Literatura. Desde o primeiro instante de meu regresso ao Brasil, após cinco anos de estudos e trabalhos nos Estados Unidos, carregado como abelha de volta do bosque – uma temporada de estudos no estrangeiro vale-nos para o espírito um grande salto no tempo – não foi animadora a recepção que tive. Tal como um Edmundo Dantès, minha volta assustava certas más consciências e velhas rixas reacenderam-se, o meio literário prevenido por comícios à porta das livrarias e nos serões, onde a cizânia substituía o estudo. A origem era uma só e eu senti na pele o visgo da baba de Caim a envenenar o ambiente, na intenção de barrar-me os passos. Eram perfídias, intrigas, pressões, boicotes, meus trabalhos submetidos a um processo de contabilidade, anotando-se no dever e haver os elogios e referências, até mesmo subestimando-me a capacidade de desforrar e ser inimigo.

Meu mestre Machado de Assis, contudo, ensinara-me a lidar com os rubiões da fauna literária. A paranóia os faz crescerem aos próprios olhos, como o sapo da História, e desafiar a lua. Idólatras de si mesmos, inertes de caráter, põem na cabeça coroas imagináveis, regem impérios só existentes no seu delírio, enxergam fâmulos nas ratazanas que lhes passam aos calcanhares; fazem tudo para chamar a atenção sobre si, como aquele sujeito que acompanha enterros para ver o nome no jornal; multiplicam a própria inópia fazendo-se passar por gênios; incapazes de saber a própria medida e limitações, reduzem por maus tratos a família a escravos da sua falsa grandeza, produto de uma imaginação esquizofrênica; dão-se em espetáculo tanto mais confrangedor quanto mais sabemos que esses megalômanos são menos perigosos do que desgraçados e torturados como um personagem de Ésquilo, infelicitando a si e aos seus pelo veneno que segregam, desastrados e incapazes, estragando tantas oportunidades que a sabujice lhes propicia; cemitérios de amizades, traem amigos e benfeitores no pressuposto de que são credores eternos da humanidade à qual, muito embora, nada oferecem; frustrados, truncadas as suas aspirações por falta de capacidade interior de realização, entregam a alma às devastações da inveja e do despeito. É que o mal só o mal pode gerar.

Também eu não fui peco. Enfrentei tudo. Da seteira das Correntes Cruzadas não poupei flechadas. Combativo, sabendo cultivar as amizades mas também as inimizades, não dei tréguas. Em vez de cortejar os papas da vida literária e os donos das cadeias de felicidade dos suplementos, atirei-me, qual guerreiro audaz, a desmantelá-las, numa campanha de desmoralização das capelinhas e dos vícios em que se cevavam as mediocridades engalanadas, os moedeiros falsos, os mistificadores. A República das Letras é uma comédia representada num beco sujo. Dela tiram partido os inautênticos que não servem às Letras porque baldos de legítima vocação e amor pela Literatura antes fazendo dela um instrumento de autopromoção e carreirismo desenfreado. A prova é que, desmascarados e fracassados, muitos vão buscar compensação na Política, Administração, Diplomacia, passeando nelas a sua falsidade, o seu grosseiro ridículo de arrivistas desgarrados.

Minha coluna no jornal tornou-se a pedra no sapato. Várias vezes foi ameaçada de arrolhamento graças à peçonha da rivalidade mesquinha e aos esbirros a seu préstimo, atirando contra ela polêmicas no próprio suplemento, até por fim conseguirem suprimi-la. O meu nome era proibido nas colunas literárias, ódios e desavenças desfaziam-se no interesse comum de combaterme e escribas mercenários mobilizavam-se em função do sistema de ataque montado contra mim. Embalde, porém, se espezinha alguém contra quem nada se pode alegar além de razões infantis e inconfessáveis.

Não adiantaram os empecilhos contra o trabalho e o estudo. Continuei combatendo a moeda má dos falsários, falando de nomes e coisas que os pseudo-sábios nunca ouviram. Felizmente encontrei sempre a compreensão e apoio de amigos que confiavam em mim, um Otávio Mangabeira, um Clemente Mariani, um Simões Filho, um Levi Carneiro, um Clementino Fraga, um Leonídio Ribeiro, um Péricles Madureira de Pinho, um Fernando Tude, um Abgar Renault, um Rodrigo Octavio Filho, um Ribeiro Couto, um Cassiano Ricardo, um Gustavo Barroso, um Nilo Bruzzi, um Ivan Lins, como já encontrara antes, desde o tempo da Bahia, um Afrânio Peixoto, um Anísio Teixeira, um Eugênio Gomes, um Euvaldo Diniz, um Aristides Novis, alguns grandes homens que são glória desta Casa e do Brasil. Dois desses amigos estão associados mui intimamente a esta solenidade: Levi Carneiro, com a fidalguia de sua palavra; Clementino Fraga, pela segunda vez apadrinhando-me na vida, com a mesma emoção que teria se no meu lugar estivesse um de seus gloriosos filhos. Não mais vejo entre vós, todavia, o meu querido Otávio Mangabeira, o grande estadista, cuja ausência é a nota triste na festa de meu coração.

O que consegui realizar vejo agora aprovado pelo vosso acolhimento, sem que recorresse a aparelhos de pressão, políticos ou jornalísticos, de que não dispunha, mas impondo-me exclusivamente como escritor, depois de conquistar a simpatia dos independentes e dos jovens.

A BANDEIRA DA RENOVAÇÃO CRÍTICA

A bandeira que empunho neste momento solene de regozijo insopitado é a da crítica literária renovada, a nova crítica, com que identifiquei meu trabalho intelectual, e que doravante terá por si o prestígio da Casa de Machado de Assis.

Poderá parecer uma ironia do destino que me haja sido reservada nesta Casa, ao adversário da crítica impressionista, uma Cadeira evoluída sob o signo do impressionismo literário.

Quando viajei da Bahia para os Estados Unidos, levava comigo todas as inquietações e anseios de renovação da metodologia crítica. Vivera até então debatendo-me comigo mesmo em busca de caminho. Sentia estarem esgotados e superados os velhos processos em que me educara pelo exemplo da maioria dos meus maiores. Na minha condenação, incluía-me a mim mesmo, e se há algo a meu favor foi ter tido a coragem de romper com o passado. Depois, muitos conformistas reagiram à reforma que advoguei, mas a culpa lhes coube pela incapacidade de renovarem-se e não surpreende que tenham tido que calar-se em virtude da rarefação produzida ao seu derredor pela sua inatualidade.

Em verdade, represento um esforço de mudança de princípios e métodos, quanto ao processo e à função da crítica em nossos tempos. A História da crítica é rica de meditações a respeito de sua própria função, o que constitui motivo a dignificá-la. Assim, tem sido vista ora como instrumento ético, religioso, político, ora como investigadora das origens da Literatura no complexo geográfico, biológico, social e cultural, ora como expressão das aventuras da alma através das obras-primas.

Evoluindo de sua fase primitiva e empírica, em que atuou como ancilar de outras ciências, encaminha-se ela, em nossos tempos, para a plena maturidade de disciplina autônoma, com métodos e princípios específicos.

Tendo a Literatura uma missão reconhecida na sociedade, – a captação da voz imortal do homem em busca de explicação do próprio mistério – cabe à Crítica exercer o magistério da Literatura, regulando a criação e disciplinando- a à luz das leis do fenômeno artístico.

A crítica não é, em conseqüência, um gênero literário de imaginação, como o Romance, a Poesia, o Drama, a Crônica. É uma disciplina racional próxima à Filosofia, e exercendo-se conforme as regras do raciocínio lógicoformal. Esse aspecto aproxima-a também da Ciência. Não é uma Ciência, no sentido escrito, porque no seu processo colaboram forças intuitivas, impressões sensíveis, elementos de gosto, acumulado no inconsciente, recebidos pela tradição ou pela educação. Tampouco é uma Ciência no sentido em que usaria métodos e conceitos provenientes de outras ciências, como foi o erro dos Hennequin, Brunetière, Taine e tantos deterministas biológicos e sociológicos do século XIX.

Mas não se lhe poderão negar foros de Ciência – e há ciências do espírito ao lado de ciências da Natureza – se quisermos que ela ganhe em rigorismo metodológico e conceitual, característico da atitude científica, além da independência de meios e fins. E só o lograremos, se lhe aplicarmos o espírito científico, se a forrarmos de uma atitude científica. Os que se recusam a admiti-lo não passam de cépticos quanto à sua possibilidade de aprofundamento técnico, e preferem mantê-la e manter-se na epiderme da tarefa, identificando-a com o vago e superficial jornalismo crítico e com a mera função de noticiar e comentar as obras literárias na base do palpite e do espírito opiniático.

A Crítica não é apenas isso. Vejo-a como algo acima do simples diletantismo, do noticiário ou do autobiografismo impressionista.

A POSIÇÃO DO IMPRESSIONISMO CRÍTICO

Não é verdade que advogue a eliminação do Impressionismo e mais de uma feita já procurei esclarecer o equívoco. Não há crítica sem impressão ou resposta intuitiva, imediata, despertada no espírito pela obra de arte. Recuso-me, porém, a aceitar que se reduza o ato crítico a essa operação primária, transformando a impressão em sistema e o seu registro em método. A Crítica é um conjunto de atividades para a aferição do valor estético e sua manobra valorativa parte da impressão, invade a área da reflexão, análise, explicação e afinal emite um juízo – que deve ser, no caso, não ético, mas estético, de valor. É, assim, um ato complexo, em três etapas – a da impressão, a da reflexão, a do julgamento – sem uma das quais não há verdadeira crítica. E, para realizar-se, ela se vale de uma visão armada, como dizia Coleridge, uma visão armada de todo um instrumental próprio de análise do tecido literário específico, além do subsídio fornecido pela Lingüística, Filologia, Estilística, Retórica, técnicas de explicação de textos e análise estrutural, e dos que oferecem ciências correlatas, como a Psicologia, a Etnologia, a Antropologia. É, portanto, uma disciplina integral de explicação do fenômeno literário, na sua natureza estética e no intrínseco de sua estrutura. É atividade egocêntrica e específica, usando nesse objetivo tudo o que tiver à mão.

Minha proposta visa a reduzir o Impressionismo crítico às suas proporções verdadeiras. Ele tem dado lugar, no passado, a elevadas manifestações: um Walter Pater, uma Virginia Woolf, um Anatole France. Mas é erro pretender inculcar como Impressionismo crítico o que não passa de simples comentário jornalístico ou noticiário de livros. Este traduz “impressões sobre” enquanto o primeiro é uma “impressão de”.

Por outro lado, o fato de reagir contra os malefícios do Impressionismo na crítica não implica em condenar o Impressionismo literário. Ainda aqui minha atitude é crítica. O Impressionismo literário é uma alta escola que merece a admiração, pelo que produziu, inclusive entre nós. A crítica genuína sabe reconhecer e apreciar uma expressão artística do passado, deixando-a, entretanto, no seu tempo, pois a misão dos estilos não é perene, desde que eles se identificam com o todo espiritual de uma época. Se não pertenço à família espiritual de meus antecessores, sou capaz de reuni-los sob a minha admiração e compreender e valorizar o estilo estético em que se expressaram, procurando enxergar a beleza da Arte de entretons e nuances que produziram. Ao mesmo tempo, todavia, proclamo a necessidade, para a atualidade, de libertarmo-nos das implicações da crítica impressionista em favor de uma crítica técnica, objetiva, baseada em critérios e padrões estéticos e métodos rigorosos de investigação e valoração, de análise tanto verbal quanto estrutural, e inspirada no pressuposto conceitual do primado do texto como seu ponto de partida. Há que distinguir entre Impressionismo como elaboração estilística e como método crítico de aferição de valores. O que me recuso a aceitar é a transposição, para a análie do fenômeno literário, da palheta impressionista de Toulouse Lautrec. A Nova Crítica, como deve ser entendida, é que afinal será a verdadeira Crítica. E sob a sua égide, eliminar-se-ão automaticamente os espíritos superficiais, os mistificados, os preguiçosos mentais que costumam não ler as obras para criticá-las e escrevem sob ditado ou à base de conversas, críticas portanto de orelha, com teses sopradas por outros acerca de autores que nunca leram, analfabetos e jejunos, que não têm élan interior para estudar, adquirir cultura e preparo especializado.

O IMPORTANTE É FAZER BEM

O estágio presente da cultura universal, nessa era tecnológica, exige que melhoremos a relação entre o científico e o literário, lançando uma ponte entre as culturas científica e humanística.

De conformidade com o espírito científico, não basta fazer, como já foi proclamado, mas fazer bem. Fazer não é, de nenhum modo, o essencial.

Fazer somente é uma operação animal, e a ela se reduzem os homens impotentes de criar, angustiados nos seus ressentimentos, incapacitados de fazer bem porque não sabem o que fazer e como se deve fazer, empíricos movidos apenas pelos instintos e reflexos vegetativos, inaptos a aprender o que se faz nos centros de cultura por preguiça mental e ignorância lingüística, e ficam a falar sozinhos, dialogando monocordicamente com a própria e pequenina sombra e assinando o que outros escrevem, porque são privados da alegria de produzir, talento e capacidade de realizar-se em obras.

O importante não é fazer, mas fazer bem, e, para tanto, é mister pureza de alma, humildade de espírito e propósito, e saúde mental, para, em primeiro lugar, aprender como se deve fazer. Do contrário, é a mistificação, a falta de seriedade, a inveja e o ressentimento por que só a alegria de criar é compatível com a criação alheia.

As gerações que surgem nesse Brasil novo não mais toleram o embuste intelectual. Exigem autencidade de comportamento. O Brasil está aí para que o pensemos brasileiramente. Cabe à Crítica Literária uma função, que, sobre ser literária, isto é, exercer-se no contexto literário, não é menos brasileira, porquanto deve orientar-se para o Brasil, concorrendo para consolidar a sua Cultura. Mesmo com o melhor dos métodos, impõe-se que ela se adapte à circunstância social e nacional.

Há, pois, uma função especial da Crítica em nosso momento histórico. Em primeiro lugar aperfeiçoar-se quanto a método e princípios, o que proporcionará o estudo superior de Letras agora possível com a formação universitária. Em seguida, assumir o seu papel de educadora do público e mediadora entre ele e a criação, no sentido de fazer da Literatura uma real voz da tribo, traduzindolhe os sentimentos coletivos, e, de torna viagem, atuando sobre a alma popular. O crítico não é um artista, mas um pensador, cujo dever é interpretar a obra de arte literária, elucidando-a aos olhos do público, melhorando o gosto coletivo, a fim de torná-lo mais exigente e assim fazer subir o nível da criatividade. Desta maneira, a Crítica é uma atividade válida e seminal, uma disciplina do espírito, detentora de um agudo senso da atualidade e apta a enxergar a Literatura no centro da vida cultural, que a importante posição que usufrui em nosso País.

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Senhores acadêmicos,

Não creio que a Academia seja a instituição reacionária e abstrata que aparece aos olhos de muitos. Tudo depende dos homens que a compõem quererem firmemente participar dos dramas e do bulício da vida nacional, tornando-se caroáveis à mentalidade nova que cresce cada vez mais no combate à alienação cultural. Não mais estamos no tempo em que os intelectuais se exilavam do Brasil e viviam voltados para a Europa.

Não tenhais receio, senhores acadêmicos, a vossa regra da boa convivência saberei acatar. Fortiter in re, suaviter in modo. A educação intelectual é compatível com as tomadas de posição, e não me peja sopitar o vulcão interior para respeitar o direito de opinião.

Antes de integrar-me à ilustre Casa de Machado de Assis, já identificara a alma com outras grandes instituições culturais do País: a Faculdade de Medicina da Bahia, o Colégio Pedro II, a Biblioteca Nacional. Tenho a mística institucional.

Ao me preferirdes, e por isso vos sou agradecido, consagrastes uma vida de fidelidade ao ideal, à dignidade espiritual da pessoa humana e ao culto da beleza, no serviço da Crítica, História literária, organização de edições.

Permiti-me, senhores acadêmicos, que instale aqui, ao vosso lado, em louvor da Literatura Brasileira, a minha lâmpada votiva.

20/7/1962