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Afonso Celso

A ÚLTIMA SESSÃO DA CÂMARA NA MONARQUIA

Efetuou-se a 15 de novembro de 1889, depois de triunfante a sedição militar que destruiu as instituições imperiais. Nenhum jornal fez menção dela; não foi lavrada ou desapareceu a respectiva ata; nada consta dos Anais. Entretanto, não deixa de ser interessante o que ocorreu.

Achava-se a Câmara em trabalhos preparatórios. Eleita a 31 de agosto, para substituir a que o ministério Ouro Preto havia dissolvido, reuniu-se pela primeira vez a 2 de novembro, dia de finados, o que a muitos pareceu mau agouro. Devia instalar-se solenemente a 20 de novembro. As eleições tinham-se realizado sem conflitos nem violências, de sorte que muito plácidas correram as sessões preparatórias.

Haviam sido eleitos vários oposicionistas conservadores e republicanos. Conservadores – Olímpio Valadão, Alfredo Chaves, Domingos Jaguaribe, Gomes de Castro, Francisco Bernardino, Pedro Luiz Soares de Souza, Araújo Pinho. Republicanos – Carlos Justiniano das Chagas e Gabriel de Almeida Magalhães. Silva Jardim não concorrera por poucos votos a segundo escrutínio, e fora disputar o diploma perante a comissão verificadora de poderes. Desses oposicionistas alguns já se achavam reconhecidos. Um deles, Alfredo Chaves, encetara a 12 de novembro veemente protesto sobre matéria eleitoral. Não era, pois, uma Câmara unânime como, por ignorância ou má-fé, vivem a assoalhar os adversários do gabinete Ouro Preto.

Na manhã de 15 de novembro, depois de haver tentado em vão penetrar no Quartel-General e de ter estado na Repartição da Polícia, a me informar dos acontecimentos, parti às 11 horas e meia para onde o dever de deputado me chamava – o edifício da Câmara. Foi meu companheiro de bonde o meu colega conselheiro Alfredo Chaves, ex-ministro da Guerra, que se mostrou reservado na apreciação dos fatos. Afigurou-se-me que, como conservador, ele mais considerava a queda da situação liberal do que a da Monarquia. Havia pouca gente nas ruas que percorremos. Lia-se nas fisionomias surpresa e susto. No bonde, comentavam-se os sucessos, aliás ainda mal conhecidos nos seus pormenores, em voz baixa e com atitudes cautelosas.

Encontramos, Alfredo Chaves e eu, no recinto da assembleia, uns vinte representantes da nação. Lembram-me apenas os nomes de Barbosa de Almeida, Custódio Martins, Zama, Aristides Spínola, Padre Castelo Branco e Francisco Sá. Este último, mineiro, mas representante do Ceará, por onde tem sido eleito igualmente sob a República, esteve constantemente a meu lado.

Notavam-se alguns espectadores nas galerias e junto às bancadas. Era normal o aspecto das cousas.

À hora regimental, assumiu a presidência o conselheiro Barbosa de Almeida, vice-presidente da mesa provisória e decano dos deputados eleitos. O presidente Carlos Afonso, presidente também da província do Rio de Janeiro, achava-se retido por seu dever em Niterói.

Aberta a sessão, lida e aprovada a ata da anterior, lido e encaminhado o expediente, pareceres, reconhecendo alguns deputados, reconhecimento que constituía a ordem do dia, pediu a palavra o deputado César Zama.

Em caloroso discurso, perguntou Zama à Mesa se sabia estarem presos ministros, senadores e deputados, e se era certa a deposição do ministério pela força militar amotinada. Mostrou as tristes consequências que adviriam do atentado, e opinou que à Câmara cumpria tomar enérgica resolução a respeito.

Desenvolveu ponderosas considerações, no meio de respeitosa atenção, cortada de vibrantes apoiados.

Respondeu por parte da Mesa, declarando nada constar a esta, o primeiro secretário Aristides Spínola. Levantou-se a sessão.

Nisto, ouviu-se na rua grande rumor. Cresceu e aproximou-se; os circunstantes abandonaram os seus lugares correndo para as janelas.

Era um batalhão que desfilava em direção ao Arsenal de Guerra, precedido e acompanhado de imensa mó de gente mal trajada. Provinha de tal gente a vozeria indistinta. O batalhão trazia desfraldada a bandeira imperial.

Ao enfrentar a multidão com a Câmara, vendo nas sacadas vários deputados, supôs naturalmente que se iam proferir discursos. Estacou; fez-se silêncio. Então, César Zama debruçou-se na janela, e, com largo gesto, gritou:

- Viva Sua Majestade o Imperador!

Parte da multidão, a maior, correspondeu ao viva. A outra parte permaneceu calada. De repente, ergueu-se dentre ela um brado:

- Ataca a Câmara!

 A esse brado, produziu-se um movimento de pânico entre os deputados e mais pessoas aglomeradas às janelas. Fugiram quase todos em várias direções.

Ficamos cinco ou seis.

Na rua, a multidão hesitava. Mas soaram vozes de comando no batalhão.

A música tocou. Os soldados puseram-se em marcha; o povo seguiu.

No grupo de deputados restantes, ainda se debateu rapidamente a possibilidade de um protesto da Câmara.

- Mas nós estamos apenas em sessões preparatórias, – objetou um deles, – nada poderemos praticar regularmente.

- Somos os eleitos da nação, - retrucou Francisco Sá, - a maioria já foi reconhecida; achamo-nos na plena posse das nossas prerrogativas constitucionais: podemos e devemos agir.

Estas palavras não encontraram eco. A sala se esvaziara. Compreendi que meu lugar não era mais ali. Acompanhado de alguns amigos, dirigi-me para o Quartel-General. Ao passar em face do Café do Globo, avistei, na mesa contígua à porta, um sujeito de São Paulo que, dias antes, se me apresentara munido de numerosas cartas de recomendação em prol de uma pretensão que nutria perante o ministério Ouro Preto. Como fosse um tanto suspeito a este, excedera-se em manifestações de dedicado aplauso à situação e, sobretudo, ao presidente do conselho.

- “Seu ilustre pai, - exclamara ao despedir-se, apertando-me com força ambas as mãos, - pode contar em tudo comigo, especialmente na sua gloriosa campanha contra os inimigos da Pátria!”

Os inimigos da Pátria eram os republicanos.

Na mesa do Café do Globo, o sujeito e dois companheiros empunhavam copos de cerveja, muito excitados. Ao dar comigo, desviou ele os olhos sem me cumprimentar. Soltou depois um estrepitoso - Viva a República! - que os companheiros secundaram timidamente. Foi o primeiro adesista que vi e a primeira saudação ao novo regime que escutei.

Mas o que desejo assinalar é que o derradeiro discurso proferido na tribuna da Câmara monarquista, consistiu num veemente protesto contra o levante militar vitorioso.

Diante da tropa insubordinada, prestou um deputado intrépida homenagem ao magnânimo sr. d. Pedro II.

Quão diversamente passaram-se as coisas no Senado!

A 16 de novembro, indagando o sr. Conselheiro Correia se constava estarem presos senadores, declarou o presidente, Paulino de Sousa, que nenhuma comunicação tinha a Mesa para responder à pergunta, pois as únicas notícias que conhecia eram as publicadas nas folhas do dia, as quais cabia a ele, presidente, repetir da cadeira presidencial. O Visconde de Lima Duarte ponderou então que os jornais relatavam acontecimentos gravíssimos, e inquiriu se não seria conveniente que o Senado tomasse qualquer demonstração sobre os fatos que estavam ocorrendo.

O sr. Paulino de Sousa replicou com estas palavras:

 “O Senado está em sessões preparatórias que se abrem com qualquer número, ainda que insuficiente para deliberar. Mantendo hoje, como sempre, a estrita legalidade constitucional e observando o regimento, como me cumpre, não posso consentir debate que não seja restrito à constituição desta Câmara”. Nada mais havendo a tratar-se, s. ex. convida os srs. senadores para se reunirem no dia seguinte, às horas do costume.

É o que consta da ata. Achavam-se presentes 22 senadores: Paulino, Barão de Mamanguape, Gomes do Amaral, Castro Carreira, Cristiano Ottoni, Visconde de Lima Duarte, Marquês de Paranaguá, Meira de Vasconcelos, Visconde de Taunay, Pereira da Silva, Barão de Mamoré, Correia, Fausto de Aguiar, Leão Veloso, Visconde de Jaguaribe, Saraiva, Luís Felipe, Soares Brandão, Visconde de Assis Martins, Visconde do Serro Frio, Visconde do Cruzeiro e Visconde do Bom Conselho – dos quais dois ex-presidentes do conselho, 13 ex-ministros e 5 conselheiros de Estado. A sessão durou 10 minutos, levantando-se às 11 horas e 40 minutos da manhã.

Vinte e quatro horas antes fora deposta a Monarquia. O Diário Oficial do dia estampara a proclamação e os primeiros decretos do governo provisório constituído pelo Exército e a Armada em nome da nação.

 

 

CAPTAIN SMART

Depois da formosa mulher do dentista americano, era, sem dúvida, o capitão canadense o mais interessante personagem de bordo.

Meses antes, ao que se dizia, naufragara entre as Bermudas o navio que ele comandava.

Perdera-se completamente a carga e sucumbira quase toda a tripulação.

Cabia a Captain Smart não pequena responsabilidade na catástrofe - afirmavam à meia voz passageiros bem informados. E o fitavam rancorosamente de esguelha, quando passava carrancudo e hirto, o eterno cachimbo plantado no matagal dos bigodes ruivos, que lhe interceptavam a boca e se emaranhavam na barba, derramada em catadupa sobre o peito.

O infeliz comandante regressava à pátria, despojado pelo mar dos haveres e da reputação.

Antipatizavam todos com ele no paquete em que viajávamos. Ninguém lhe dirigia a palavra. Chegavam a considerar de mau agouro a sua presença. Se algum acidente desagradável ocorresse durante a derrota, atribuí-lo-iam com certeza à sua nefasta influição.

Penosíssimas deviam ser-lhe as monótonas horas de travessia. Levantado antes do alvorecer; forçado à inação; arredado dos companheiros; sem tomar parte nos jogos e diversões com que estes procuravam matar o tempo; desdenhando livros e jornais - arrastava os intermináveis dias a fumar, enterrado numa cadeira de lona, os pés apoiados à murada, encarando insistentemente as ondas - ou a caminhar pelo convés, de proa a popa, as mãos cruzadas nas costas, carregado o aspecto, no acabrunhamento de quem, ao peso de revoltante injúria, cogita em vão no como se desforçar.

Mas Captain Smart às vezes transfigurava-se.

No alto mar, importa acontecimento de monta o encontrar-se um outro navio.

Sacam-se os binóculos. Cada qual formula as suas observações e conjeturas.

Surdem, de ordinário, vivas discussões.

- É um vapor; um yatch à vela; vai para a Europa; regressa da África; um vaso de guerra; brigue de pesca; alemão; inglês - opina-se com convicção e profusos argumentos.

Vistas privilegiadas dão aqui pormenores. Contestam-nos acolá. E durante largo período concentram-se olhares e atenções na sombra longínqua, que ora cresce e se acentua, apresentando os contornos da embarcação, ora apaga-se e dissolve-se, miragem etérea na linha confinante da água e do céu.

Retina marítima, habituado a perscrutar os meandros da imensidade líquida, Captain Smart parecia adivinhar o barco iminente, ainda invisível para os mais.

 A fisionomia expandia-se-lhe então. Apontava, soltando sons guturais, para um trecho perfeitamente unido e límpido da aquática planície. E mais tarde, não raro após longa demora, emergia efetivamente dali, e se aproximava, um lenho errante qualquer.

Enquanto o navio lobrigado se conservava em distância, ou afogado na bruma, dele não despegava os olhos o comandante náufrago. Acompanhava-lhe com solicitude os movimentos; dir-se-ia que lhe estudava cuidadosamente a manobra, absorto, seriamente empenhando na orientação do seu rumo.

Denunciava-se feliz nesse momento. Nos seus olhos ríspidos perpassavam suavizações. Defrontando um dia comigo, que o observava curioso, quase esboçou um sorriso.

À proporção, porém, que o barco se achegava, ia-se-lhe demudando a feição. Sonho querido parecia evolar-se de sua alma, onde entornara claridade fugaz. Ficava mais taciturno do que dantes. Agressivo e procelo o seu ar.

Então, se o tal barco emparelhava com o nosso, ou cruzava o caminho deste, de modo que entre os dois peregrinos das vagas se trocavam sinais, Captain Smart traía mostras de inexplicável agastamento, virava as costas ao primeiro, calcava nervosamente o chapéu sobre a fronte, cerrava as pálpebras e se envolvia em bastas fumaças do cachimbo, aspiradas e expelidas com frenesi.

Naquele coração agreste, estuava evidentemente uma dor misteriosa e cruel, dessas de que se padece e se morre, sem que jamais o próprio paciente as possa bem compreender e explicar.

Despeito? Inveja? Remorso? Esperança? Quem o lograria dizer?!

Evocaria, como um fantasma, a imagem da nave confiada ao seu governo, de que a sua perícia era a alma e a defesa contra as perfídias do pego, nave galharda, cujos membros, por negligência sua talvez, à semelhança de um cadáver espostejado por uma fera, vogavam agora esparsos e despedaçados, à mercê das correntes e dos ventos?

Recearia divisar no tombadilho entrevisto a figura de algum camarada seu, escapo, como ele, ao desastre, e que, reconhecendo-o, o aniquilasse com um gesto de maldição?

Animá-lo-ia, porventura, a ilusão, cedo dissipada, de que tudo não houvesse sido senão um pesadelo horrível e de que o ponto pressentido na fímbria do horizonte se transformasse na embarcação morta, milagrosamente ressuscitada?

Revoltar-se-ia contra a iniquidade inflexível do oceano, ao aspecto de suas novas vítimas possíveis?

Comprazia-se-me o imaginar nestas presunções. Do fundo de meu ser subia uma corrente de dó para com o rebarbativo comandante.

Quisera conhecer e mitigar a sua mágoa íntima, lenir com a caridade da compaixão as lágrimas de fogo que percebia brotarem-lhe n’alma sem o refrigério de vingarem extravasar-lhe pelos olhos ressequidos.

Captain Smart teve, suponho, a intuição dos meus sentimentos comiseradores.

No dia em que desembarcou, compreendi que hesitava em me falar e agradecer. Não se despediu, entretanto, de mim, como de ninguém. Lançou-me apenas um rápido olhar de humilde reconhecimento, enquanto no seu torvo aspecto relampejava amistosa expressão.

Jamais trocamos palavra. Separamo-nos desconhecidos, indiferentes, tomando veredas opostas, à lei de heterogêneos destinos. Nossas existências coincidiram um segundo, em interseção fortuita, e passaram, no turbilhão infinito da vida. Com quantas tragédias não topamos assim quotidianamente? Nada resultará para nós ou para elas do respectivo atrito? Significarão secretas afinidades os espontâneos e súbitos movimentos de um espírito na direção de outro? Reminiscências de relações anteriores à nossa atual organização corpórea? Pactos para ulteriores existências?!

Nunca mais, provavelmente, verei Captain Smart, neste planeta. Esvaiu-se decerto a minha figura na sua memória, como em mim se extinguiria a dele se não me viesse a fantasia, numa noite triste, de fixar no meu livro de notas alguns traços do seu perfil.

Mas faz-me bem a lembrança do seu agradecido olhar.

Acabo de sentir, na consciência, ao recordá-lo, uma espécie de consoladora satisfação semelhante à de quem houvesse piedosamente acendido em bravio e perigoso rochedo, batido de vagalhões desesperados, a luzinha de um pequenino farol.

(Notas e ficções, 1894)